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Uma excelente abordagem a um assunto delicado na sociedade contempornea: um tiroteio no liceu.

Parte Um
Se no mudarmos a direo na qual seguimos, acabaremos chegando ao local para onde estamos indo.
-- PROVRBIO CHINS

Quando voc ler isto, espero que eu j tenha morrido. No se pode desfazer uma coisa que aconteceu; no se pode retirar uma palavra que j foi dita em voz alta. Voc vai pensar em mim e desejar que tivesse me convencido a no fazer isso. Voc vai tentar decidir qual teria sido a coisa certa a dizer, a fazer. Acho que eu deveria dizer: No se culpe, no  culpa sua, mas seria mentira. Sabemos que no cheguei aqui por conta prpria. Voc vai chorar no meu velrio. Vai dizer que no precisava ter sido assim. Vai agir como todo mundo espera que voc aja. Mas vai sentir saudade de mim? E o mais importante: eu vou sentir saudade de voc? Ser que eu ou voc realmente queremos ouvir a resposta a essa pergunta?

6 de marco de 2007
dezenove minutos, voc consegue assar pezinhos ou que um dentista faa uma obturao no seu dente; pode dobrar as roupas lavadas de uma famlia de cinco pessoas. Dezenove minutos foi o tempo que os Tennessee Titans demoraram para vender todos os ingressos das eliminatrias do campeonato de futebol americano.  a durao de uma srie de TV tipo sitcom, sem os comerciais.  a distncia de carro da fronteira de Vermont at a cidade de Sterling, em New Hampshire. Em dezenove minutos, voc pode pedir e receber uma pizza. Pode ler uma histria para uma criana ou trocar o leo do carro. Pode andar um quilmetro e meio. Pode costurar uma bainha. Em dezenove minutos, voc pode parar o mundo ou simplesmente pular dele. Em dezenove minutos, voc pode se vingar. Como sempre, Alex Cormier estava atrasada. Ela levava trinta e dois minutos de carro da casa dela, em Sterling, at a corte superior no condado de Grafton, New Hampshire, e isso se passasse a toda a velocidade por Orford. Desceu a escada correndo de meia-cala, segurando os sapatos de salto e os arquivos que tinha levado para casa no fim de semana. Retorceu os cabelos volumosos cor de cobre em um n e os prendeu acima da nuca com grampos, transformando-se na pessoa que precisava ser antes de sair.

E

m dezenove minutos, voc pode cortar a grama da frente de casa, pintar o cabelo, ver um tero de um jogo de hquei. Em

Alex era juza da corte superior havia trinta e quatro dias. Ela acreditava que, depois de ter provado sua determinao como juza do tribunal regional nos cinco anos anteriores, desta vez a nomeao seria mais fcil. Mas, aos quarenta anos, ela ainda era a juza mais jovem do estado. Ainda tinha de lutar para se estabelecer como profissional justa -- sua histria como defensora pblica a precedia no tribunal, e os promotores presumiam que ela se aliaria com a defesa. Quando Alex se candidatara anos antes  magistratura, tinha sido com o sincero desejo de se certificar de que as pessoas fossem tratadas como inocentes at que fossem provadas culpadas. Mas ela nunca previu que, como juza, talvez no recebesse o mesmo benefcio da dvida. O cheiro de caf fresco levou Alex at a cozinha. Sua filha estava debruada sobre uma caneca fumegante  mesa, lendo um livro escolar. Josie parecia exausta. Os olhos azuis estavam vermelhos; os cabelos castanhos, presos em um rabo de cavalo desajeitado. -- No me diga que ficou acordada a noite toda! -- exclamou Alex. Josie nem ergueu o olhar. -- No vou dizer que fiquei acordada a noite toda -- ecoou. Alex se serviu de uma xcara de caf e se sentou na cadeira  frente dela. -- De verdade? -- Voc me pediu pra no dizer uma coisa -- disse Josie. -- No pediu a verdade. Alex franziu a testa. -- Voc no devia tomar caf. -- E voc no devia fumar. Alex sentiu o rosto esquentar.

-- Eu no ... -- Me -- Josie suspirou. -- Mesmo quando voc abre as janelas do banheiro, ainda consigo sentir o cheiro nas toalhas. -- Ela olhou para frente, desafiando Alex a citar seus outros vcios. A prpria Alex no tinha nenhum outro vcio. No tinha tempo para vcios. Ela teria gostado de dizer que sabia que Josie tambm no tinha vcios, mas s estaria fazendo a mesma inferncia que o resto do mundo fazia quando conhecia Josie: uma menina bonita, popular, aluna nota dez, que sabia melhor do que ningum as consequncias de no andar na linha. Uma garota destinada a grandes coisas. Uma jovem mulher que era exatamente o que Alex esperara que a filha fosse quando crescesse. Josie j sentira muito orgulho de ter me juza. Alex se lembrava da filha anunciando aos quatro ventos seu trabalho para os funcionrios do banco, para os empacotadores do mercado, para os comissrios de voo. Perguntava a Alex sobre os casos e as decises. Mas tudo mudara trs anos antes, quando Josie entrara no ensino mdio e o canal de comunicao entre elas fora lentamente se fechando. Alex no achava necessariamente que Josie estivesse escondendo alguma coisa alm do que qualquer adolescente esconderia, mas era diferente: uma me comum poderia julgar metaforicamente os amigos da filha, mas Alex podia fazer isso legalmente. -- O que est na agenda de hoje? -- perguntou Alex. -- Teste sobre um captulo do livro. E na sua? -- Acusao -- respondeu Alex, dando uma olhada por cima da mesa e tentando ler o livro de Josie de cabea para baixo. -- Qumica? -- Catalisadores -- Josie esfregou as tmporas. -- Substncias que aceleram a reao, mas que no so modificadas por ela. Como quando voc

tem monxido de carbono e hidrognio e coloca zinco e xido de cromo e... o que foi? -- S estou tendo um pequeno flashback de por que tirei C em qumica orgnica. Voc j tomou caf da manh? -- Caf -- disse Josie. -- Caf no conta. -- Conta quando voc est com pressa -- observou Josie. Alex pesou todos os custos de chegar cinco minutos mais atrasada ou ter outra mancha no registro csmico de boa me. Uma garota de dezessete anos no deveria ser capaz de cuidar de si mesma de manh? Alex comeou a tirar ingredientes da geladeira: ovos, leite, bacon. -- Uma vez, avaliei uma admisso emergencial involuntria para o hospital psiquitrico do estado de uma mulher que achava que era o Emeril.1 O marido pediu a internao quando ela colocou meio quilo de bacon no liquidificador e correu atrs dele pela cozinha com uma faca gritando Bam! Josie ergueu os olhos do livro. -- Srio? -- Ah, pode acreditar, no consigo inventar esse tipo de coisa. -- Alex quebrou um ovo na frigideira. -- Quando perguntei por que ela tinha colocado meio quilo de bacon no liquidificador, ela olhou pra mim e disse que provavelmente ns duas cozinhvamos de jeitos diferentes.

1

Emeril Lagasse: chef de cozinha norte-americano que apresenta um

programa de televiso.  conhecido pelo estilo jovial de receber os convidados e pelo uso de bordes, como "Bam!". (N. da T.)

Josie ficou de p e se encostou na bancada, observando a me cozinhar. As tarefas domsticas no eram o forte de Alex. Ela no sabia fazer carne assada, mas tinha orgulho de ter decorado os nmeros de telefone de todos os restaurantes chineses e pizzarias de Sterling que ofereciam entrega grtis. -- Relaxe -- disse Alex secamente. -- Acho que consigo fazer isso sem botar fogo na casa. Mas Josie pegou a frigideira das mos dela e colocou as fatias de bacon, como marinheiros deitados bem juntinhos. -- Por que voc se veste assim? -- perguntou. Alex olhou para a prpria saia, para a blusa e os sapatos de salto e franziu a testa. -- Por qu? Est muito com cara de Margaret Thatcher? -- No, quero dizer... pra que tanto? Ningum sabe o que voc est usando debaixo da toga. Voc poderia usar, tipo, cala de pijama. Ou aquele suter que voc tem desde a poca de faculdade que tem buracos nos cotovelos. -- Mesmo que as pessoas no vejam, ainda devo me vestir... bem, ajuizadamente. Uma sombra percorreu o rosto de Josie e ela se ocupou no fogo, como se a me tivesse dado a resposta errada. Alex ficou olhando para a filha -- para as unhas rodas, para as sardas que ela tinha atrs da orelha, para a repartio do cabelo em zigue-zague -- , mas viu a garotinha pequena que a esperava na janela da casa da bab ao pr do sol, porque sabia que era a hora que ela ia busc-la.

-- Nunca usei pijama pra trabalhar -- admitiu Alex -- , mas s vezes fecho a porta do escritrio e tiro uma soneca no cho. Um sorriso lento e surpreso surgiu no rosto de Josie. Ela encarou a confisso da me como se fosse uma borboleta que esbarrara sem querer em sua mo -- um evento to surpreendente que voc no poderia chamar a ateno para ele sem correr o risco de perd-lo. Mas havia quilmetros para dirigir e rus para acusar e equaes qumicas para interpretar, e, quando Josie colocou o bacon para escorrer sobre folhas de papel-toalha, o momento havia escapado. -- Ainda no entendo por que eu tenho que tomar caf da manh

e voc no -- murmurou Josie. -- Porque voc tem que atingir uma certa idade para ganhar o direito de arruinar a prpria vida -- disse Alex, apontando para os ovos mexidos que Josie estava misturando na frigideira. -- Promete que vai comer tudo? Josie olhou nos olhos dela. -- Prometo. -- Ento j vou indo. Alex pegou a caneca trmica de caf. Quando saiu com o carro de r da garagem, sua cabea j estava concentrada na deciso que teria de escrever naquela tarde; no nmero de acusaes que o funcionrio teria acrescentado  sua pauta; nos requerimentos que teriam cado como sombras na sua mesa entre a tarde de sexta e aquela manh. Ela estava presa em um mundo distante de casa, onde naquele exato momento sua filha raspava os ovos mexidos da frigideira e os jogava no lixo, sem comer nenhum pedao. s vezes, Josie pensava em sua vida como um quarto sem portas e sem janelas. Um quarto suntuoso, claro -- no qual metade dos adolescentes da

Sterling High daria o brao direito para entrar -- , mas tambm um quarto de onde no se podia fugir. Ou ela era algum que no queria ser, ou era algum que ningum queria. Josie ergueu o rosto para o jato do chuveiro, com gua to quente que marcava a pele de vermelho, tirava o flego e embaava as janelas. Contou at dez e saiu da ducha para ficar de p, nua e pingando, em frente ao espelho. O rosto estava inchado e vermelho; o cabelo, grudado nos ombros em mechas grossas. Ento se virou de lado, observou a barriga reta e a encolheu um pouco. Ela sabia o que Matt via quando olhava para ela, o que Courtney e Maddie e Brady e Haley e Drew viam. S desejava conseguir ver tambm. O problema era que, quando Josie se olhava no espelho, reparava no que estava debaixo da pele, em vez de o que tinha sido pintado em cima dela. Ela entendia a aparncia que devia ter e como devia agir. O cabelo era escuro, longo e liso; as roupas eram da Abercrombie & Fitch; o som que ouvia era Dashboard Confessional e Death Cab for Cutie. Gostava de sentir os olhos das outras garotas da escola quando se sentava no refeitrio usando a maquiagem emprestada de Courtney. Gostava do modo como os professores j sabiam seu nome no primeiro dia de aula. Gostava de que os garotos olhassem para ela quando andava pelo corredor com o brao de Matt apoiado sobre seus ombros. Mas havia uma parte dela que se perguntava o que aconteceria se ela contasse a todos seu segredo -- que, s vezes, era difcil sair da cama e exibir o sorriso de outra pessoa; que estava flutuando no ar, uma pessoa falsa que ria das piadas certas, sussurrava a fofoca certa e atraa o cara certo, uma pessoa falsa que quase tinha esquecido como era ser real... e que, quando pensava no assunto, no queria lembrar, porque doa bem mais do que isso. No havia ningum com quem conversar. Se voc duvidasse de seu direito de ser um dos privilegiados, do grupo popular, ento voc j no tinha lugar l.

E Matt... Bem, ele se apaixonara pela Josie superficial, como todo mundo. Nos contos de fadas, quando a mscara caa, o belo prncipe ainda amava a garota, independentemente do que tinha acontecido -- e esse simples fato  a transformaria em princesa. Mas no ensino mdio no era assim. O que a tornava princesa era estar com Matt. E, por uma estranha lgica circular, o que fazia Matt estar com ela era o fato de ela ser uma das princesas da Sterling High. Ela tambm no podia confiar na me. "No se deixa de ser juza quando se sai do tribunal", sua me costumava dizer. Era por isso que Alex Cormier nunca tomava mais de um copo de vinho em pblico; era por isso que nunca gritava ou chorava. Julgamento era uma palavra bem adequada, pois ela se sentia avaliada o tempo todo. Tinha de andar na linha e pronto. Muitas das realizaes das quais a me de Josie tinha mais orgulho -- as notas da filha, a aparncia dela, a aceitao no grupo "certo" -- no tinham sido conquistadas porque Josie as desejava, mas porque ela tinha medo de ser algo menos do que perfeita. Josie enrolou uma toalha no corpo e foi para o quarto. Tirou uma cala jeans do armrio e colocou duas camisetas de manga comprida e decotadas, uma por cima da outra. Olhou para o relgio; se no quisesse se atrasar, era melhor ir andando. Mas, antes de sair do quarto, hesitou. Sentou-se na cama e remexeu debaixo do criado-mudo em busca do saco Ziploc que prendera  madeira. Dentro havia um estoque de Ambien, comprimidos retirados um a um do vidrinho que o mdico receitara  me para insnia, de modo que ela nunca reparou. Josie demorara quase seis meses para discretamente reunir apenas quinze comprimidos, mas concluiu que, se tomasse tudo com meio copo de vodca, daria certo. Ela no tinha um plano de verdade de se matar na prxima tera, nem quando a neve derretesse, nem nada concreto assim. Era mais um plano reserva: quando a verdade surgisse e ningum quisesse mais se

aproximar dela, era lgico que Josie tambm no iria querer ficar perto de si mesma. Ela colocou os comprimidos debaixo do criado-mudo e desceu a escada. Quando entrou na cozinha para colocar as coisas na mochila, encontrou o livro de qumica ainda aberto e uma rosa vermelha na cadeira que usara. Matt estava encostado no canto, na geladeira; devia ter entrado pela porta aberta da garagem. Como sempre, ele fez a cabea dela flutuar pelas estaes: o cabelo dele era de todas as cores do outono; os olhos, do azul intenso do cu de inverno; o sorriso, to largo quanto o sol de qualquer vero. Estava usando um bon virado para trs e a camiseta de hquei do time de Sterling por cima de uma camiseta trmica que certa vez Josie subtrara por um ms inteiro e escondera na gaveta de calcinhas, para poder sentir o cheiro dele quando precisasse. -- Voc ainda est brava? -- ele perguntou. Josie hesitou. -- No era eu quem estava furiosa. Matt se afastou da geladeira e passou os braos por sua cintura. -- Voc sabe que no consigo evitar. Uma covinha surgiu na bochecha direita dele, e Josie j se sentiu amolecendo. -- No  que eu no quisesse ver voc.  que eu realmente tinha que estudar. Matt tirou o cabelo do rosto dela e a beijou. Era exatamente esse o motivo pelo qual ela pedira que ele no fosse l na noite anterior. Quando

estava com ele, ela se sentia flutuando. s vezes, quando ele a tocava, ela se imaginava desaparecendo em uma nuvem de vapor. Ele tinha gosto de xarope de bordo e de desculpas. -- Sabe de uma coisa?  tudo culpa sua -- ele disse. -- Eu no agiria como um louco se no te amasse tanto. Naquele momento, Josie no se lembrou dos comprimidos que estava juntando no quarto; no se lembrou de chorar no chuveiro; no se lembrou de nada alm da sensao de ser amada. Tenho sorte, disse a si mesma, com a palavra ecoando na mente como um lao prateado. Sorte, sorte, sorte. Patrick Ducharme, o nico detetive da fora policial de Sterling, estava sentado em um banco no canto do vestirio, ouvindo os policiais do turno da manh implicarem com um novato com excesso de gordura na rea da cintura. -- Ei, Fisher -- disse Eddie Odenkirk -- ,  voc quem vai ter o beb ou  sua esposa? Quando o resto do pessoal riu, Patrick ficou com pena do garoto. -- Est cedo, Eddie -- disse ele. -- Voc no pode ao menos esperar at tomarmos uma xcara de caf? -- Eu esperaria, capito -- Eddie riu -- , mas parece que o Fisher j comeu todos os donuts e... que diabos  isso? Patrick seguiu o olhar de Eddie para baixo, para os prprios ps. No costumava trocar de roupa no vestirio com os policiais, mas fora correndo para a delegacia naquela manh, em vez de ir de carro, a fim de gastar as delcias consumidas em excesso no fim de semana. Tinha passado o sbado e o domingo no Maine com a garota que era a atual dona do seu corao: sua afilhada, uma menina de cinco anos e meio chamada Tara Frost. A me dela,

Nina, era a amiga mais antiga de Patrick e o nico amor que ele provavelmente nunca superaria, embora estivesse muito bem sem ele. Durante o fim de semana, Patrick tinha perdido deliberadamente umas dez mil partidas de Candy Land, bancado o cavalinho inmeras vezes, se deixado pentear e -- e esse foi seu principal erro -- deixado Tara pintar de rosa suas unhas do p, o que Patrick tinha se esquecido de tirar. Ele olhou para os ps e encolheu os dedos. -- As garotas acham sexy -- disse, mal-humorado, enquanto os sete homens no vestirio lutavam para no rir de uma pessoa hierarquicamente superior a eles. Patrick colocou as meias, os sapatos e saiu andando, ainda segurando a gravata. Um, contou ele. Dois, trs. Na hora certa, as gargalhadas explodiram no vestirio e o seguiram pelo corredor. Patrick entrou em sua sala, fechou a porta e se olhou no pequeno espelho que havia nos fundos. O cabelo preto ainda estava mido do banho; o rosto, vermelho por causa da corrida. Ento passou a gravata ao redor do pescoo, fez o n e se sentou  mesa. Setenta e dois e-mails haviam chegado no fim de semana, e normalmente qualquer nmero acima de cinquenta significava que ele no chegaria em casa antes das oito da noite durante toda a semana. Deu uma olhada neles, acrescentando notas a uma lista de coisas para fazer -- lista essa que nunca diminua, no importando quanto ele trabalhasse. Hoje, Patrick tinha de levar drogas para o laboratrio do estado. No era nada de mais, exceto por serem quatro horas do seu dia que simplesmente desapareciam. Tinha um caso de estupro perto de fechar, tendo o meliante sido identificado em um lbum de fotos de faculdade, e o depoimento dele transcrito e pronto para ser encaminhado ao promotor-geral. Tinha um celular que havia sido furtado de um carro por um morador de rua. Tinha resultados de exames de sangue que chegariam do laboratrio depois de uma

invaso a uma joalheria e uma audincia de acusao na corte superior. E em cima da mesa j estava a primeira nova queixa do dia -- um roubo de carteira em que os cartes de crdito tinham sido usados, deixando uma trilha para Patrick rastrear. Ser o detetive de uma cidade pequena exigia que Patrick atirasse para todos os lados, o tempo todo. Ao contrrio de policiais que ele conhecia e que trabalhavam para departamentos da cidade, em que tinham vinte e quatro horas para solucionar um caso antes de ele ser arquivado, era obrigao de Patrick pegar tudo que passava por sua mesa, sem exceo. Era difcil ficar empolgado com um caso de cheque sem fundos ou com um furto que geraria ao criminoso uma multa de duzentos dlares, quando custava aos contribuintes cinco vezes mais para que Patrick se dedicasse a ele por uma semana. Contudo, todas as vezes que ele comeava a pensar que seus casos no eram particularmente importantes, via-se cara a cara com uma vtima: a me histrica cuja carteira tinha sido furtada; os proprietrios idosos da joalheria, cuja aposentadoria tinha sido roubada; o professor perturbado que sofrera roubo de identidade. Patrick sabia que a esperana era a medida exata da distncia entre ele e a pessoa que ia pedir ajuda. Se ele no se envolvesse, se no desse cem por cento de si, aquela vtima seria vtima para sempre. E era por isso que, desde que entrara para a polcia de Sterling, ele tinha conseguido resolver cada um de seus casos. Mesmo assim, quando se deitava na cama sozinho,  noite, e refletia sobre sua vida, no se lembrava dos sucessos comprovados, s dos fracassos potenciais. Quando andava nas imediaes de um celeiro vandalizado, ou encontrava um carro roubado, j depenado e abandonado na mata, ou entregava um leno de papel para a garota aos prantos que tinha sido estuprada em um encontro, Patrick no conseguia deixar de sentir que era tarde demais. Ele era detetive, mas no detectava nada. As coisas sempre lhe caam no colo j quebradas.

Era o primeiro dia quente de maro, um daqueles em que voc comeava a acreditar que a neve derreteria logo e que junho estava mesmo quase chegando. Josie se sentou no cap do Saab de Matt, no estacionamento dos alunos, pensando que estava mais perto do vero que do comeo do ano letivo, que em breves trs meses ela seria membro oficial da turma de formandos. Ao lado dela, Matt se apoiou no para-brisa e virou o rosto para o sol. -- Vamos matar aula -- disse ele. -- O tempo est bom demais pra ficarmos presos a o dia todo. -- Se voc matar, vai pro banco. O campeonato estadual de hquei comeava naquela tarde, e Matt jogava na direita. Sterling tinha vencido no ano anterior e tinha todas as expectativas de repetir o feito. -- Voc vai ao jogo -- disse Matt, e aquela no era uma pergunta, mas uma afirmao. -- Voc vai golear? Matt sorriu com malcia e a puxou para cima dele. -- No fao isso sempre? -- disse ele, mas no estava mais falando de hquei, e ela sentiu um rubor subir pelo pescoo acima da echarpe. De repente, Josie sentiu uma chuva slida nas costas. Os dois se ergueram e viram Brady Pryce, jogador de futebol americano, andando de mos dadas com Haley Weaver, a rainha do baile. Haley lanou uma segunda chuva de moedas, o jeito da Sterling High de desejar boa sorte a um atleta. -- Arrebenta hoje, Royston -- disse Brady.

O com caf.

professor

de

matemtica

tambm

estava

atravessando

o

estacionamento, com uma pasta surrada de couro preto e uma garrafa trmica

-- Oi, sr. McCabe -- gritou Matt. -- Como fui no teste de sexta? -- Por sorte, voc tem outros talentos com que contar, sr. Royston -- disse o professor, enfiando a mo no bolso. Ento piscou para Josie quando jogou as moedas de um centavo, que caram do cu nos ombros dela como confetes, como estrelas despencando. Faz sentido, pensou Alex, ao colocar suas coisas na bolsa novamente. Ela tinha trocado de bolsa e deixado a chave em casa. Ento, no conseguiu passar pela entrada de funcionrios, nos fundos da corte superior. Apesar de ter tocado o interfone um milho de vezes, ningum parecia estar por perto para abrir a porta. -- Droga -- murmurou baixinho, andando ao redor de poas e tomando cuidado para no estragar os sapatos de salto de couro de crocodilo. Uma das vantagens de estacionar nos fundos era no ter que fazer isso. Ela podia cortar pelo escritrio dos funcionrios at sua sala, e, se os planetas estivessem alinhados, talvez at o tribunal, sem provocar um atraso na agenda. Apesar de a entrada pblica da corte ter uma fila de vinte pessoas, os seguranas reconheceram Alex porque, ao contrrio do circuito de cortes do distrito, em que voc pulava de uma corte a outra, ela ficaria fixa ali por seis meses. Os seguranas sinalizaram para que ela fosse para a frente da fila, mas, como ela estava carregando chaves, uma caneca trmica de ao inoxidvel e s Deus sabia mais o que na bolsa, os detectores de metal dispararam. O alarme era um chamariz; todos os olhos no saguo se viraram para ver quem tinha sido pego. Alex abaixou a cabea, se apressou pelo piso polido e

quase perdeu o equilbrio. Ao tombar para frente, um homem atarracado esticou a mo para ajud-la. -- Ei, linda -- disse ele maliciosamente. -- Gostei dos seus sapatos. Sem responder, Alex se soltou da mo dele e seguiu em direo  rea dos funcionrios. Nenhum dos outros juzes da corte superior precisava lidar com isso. O juiz Wagner era um cara legal, mas com um rosto que parecia uma abbora apodrecida depois do Halloween. A juza Gerhardt tinha blusas mais velhas que Alex. Quando Alex foi para o tribunal pela primeira vez, achou que ser uma mulher relativamente jovem e moderadamente atraente era uma coisa boa, um voto contra os clichs, mas, em dias como aquele, no tinha tanta certeza. Ela largou a bolsa no escritrio, vestiu a toga e levou cinco minutos para tomar o caf e rever a agenda. Cada caso tinha sua prpria pasta, mas casos de criminosos reincidentes ficavam juntos, presos por um elstico, e s vezes os juzes escreviam bilhetes em post-its uns para os outros e deixavam dentro de cada pasta. Alex abriu um e viu o desenho de um boneco com barras na frente do rosto -- um sinal da juza Gerhardt de que era a ltima chance do infrator e que, na prxima vez, ele deveria ser preso. Ela tocou a campainha para anunciar ao segurana do tribunal que estava pronta para comear e esperou para ouvir a fala: -- Todos de p, a meritssima senhora juza Alexandra Cormier iniciar a audincia. Para Alex, entrar em um tribunal sempre dava a sensao de que ela estava pisando no palco pela primeira vez em uma estreia na Broadway. Voc sabia que haveria pblico, sabia que os olhares estariam centrados em voc, mas isso no impedia que sua respirao ficasse suspensa por um instante, sem conseguir acreditar que era voc que elas tinham ido ver.

Alex se dirigiu rapidamente para detrs da bancada e se sentou. Havia setenta acusaes agendadas para aquela manh e o tribunal estava lotado. O primeiro ru foi chamado e entrou cabisbaixo. -- Sr. O'Reilly -- disse Alex, e, quando o homem a olhou nos olhos, ela o identificou como o sujeito do saguo. Ele estava evidentemente desconfortvel agora que tinha se dado conta de com quem tinha flertado. -- O senhor  o cavalheiro que me ajudou h pouco, no ? Ele engoliu em seco. -- Sim, Meritssima. -- Se o senhor soubesse que eu era a juza, sr. O'Reilly, teria dito "Ei, linda, gostei dos seus sapatos"? O ru olhou para baixo e pesou a impropriedade contra a honestidade. -- Acho que sim, Meritssima -- disse ele aps um instante. -- So sapatos lindos mesmo. O tribunal todo ficou em silncio, na expectativa da reao dela. Alex sorriu largamente. -- Sr. O'Reilly -- disse ela -- , tenho que concordar. Lacy Houghton se inclinou sobre a lateral da cama e parou bem na frente do rosto da paciente em lgrimas. -- Voc consegue fazer isso -- disse ela com firmeza. --

Voc consegue fazer isso e vai fazer. Depois de dezesseis horas de trabalho de parto, estavam todos exaustos: Lacy, a paciente e o futuro pai, que estava encarando a hora da verdade com a

percepo cada vez maior de que era suprfluo, de que naquele momento sua esposa preferia a parteira a ele. -- Quero que fique atrs da Janine -- Lacy disse a ele -- e que apoie as costas dela. Janine, quero que olhe pra mim e d outro empurro caprichado... A mulher trincou os dentes e fez fora, perdendo todo o senso de si no esforo de criar outra pessoa. Lacy esticou a mo para sentir a cabea do beb, gui-lo pela barreira de pele e rapidamente passar o cordo acima da cabea dele sem perder o contato visual com a paciente. -- Nos prximos vinte segundos, seu beb vai ser a pessoa mais nova deste planeta -- disse Lacy. -- Quer conhec-la? A resposta foi um forte empurro. Uma onda de inteno, um rugido cheio de propsito, um fluxo de um corpo escorregadio e roxo que Lacy rapidamente levou aos braos da me, para que, quando o beb chorasse pela primeira vez, j estivesse posicionado para ser acalentado. A paciente comeou a chorar de novo. Dessa vez as lgrimas tinham uma melodia completamente diferente daquela quando a dor se misturava a elas. Os novos pais se inclinaram sobre o beb e formaram um crculo fechado. Lacy deu um passo para trs e observou. Havia muito trabalho para uma parteira fazer mesmo depois do momento do nascimento, mas, por enquanto, queria fazer contato visual com esse pequeno ser. Os pais veriam um queixo parecido com o da tia Marge ou um nariz que lembrava o do vov, mas Lacy veria um olhar tomado de sabedoria e paz, com quatro quilos de pura possibilidade. Recm-nascidos lhe lembravam pequenos Budas, com rostos cheios de divindade. Mas no durava muito. Quando Lacy via os mesmos bebs uma semana depois, nos exames regulares, eles tinham virado pessoas normais, porm pequenas. Aquela santidade desapareceria de alguma forma, e Lacy sempre ficava se perguntando onde nesse mundo ela ia parar.

Enquanto a me estava do outro lado da cidade ajudando no parto do mais novo residente de Sterling, Peter Houghton estava despertando. O pai bateu na porta do quarto dele, j saindo para o trabalho, como se fosse seu despertador. No andar de baixo, uma tigela e uma caixa de cereal estariam esperando por ele. Sua me se lembrava de fazer isso mesmo quando era chamada s duas da madrugada. Haveria tambm um bilhete dela desejando um bom-dia na escola, como se fosse simples assim. Peter afastou as cobertas. Foi at a escrivaninha, ainda usando a cala do pijama, se sentou e entrou na internet. As palavras no quadro de mensagens estavam borradas. Ele pegou os culos, que deixava ao lado do computador. Depois de coloc-los, deixou cair o estojo dos culos sobre o teclado -- e, de repente, estava vendo uma coisa que esperava nunca mais ver de novo. Ento esticou a mo e apertou CONTROL ALT DELETE, mas ainda conseguia ver, mesmo depois que a tela ficou vazia, mesmo depois de fechar os olhos, mesmo depois de comear a chorar. Em uma cidade do tamanho de Sterling, todo mundo conhecia todo mundo, desde sempre. De algumas formas, isso era reconfortante, como uma grande famlia estendida que voc s vezes ama e s vezes odeia. Em outras ocasies, isso assombrava Josie: como agora, com ela de p na fila do refeitrio atrs de Natalie Zlenko, uma lsbica de primeira que muito tempo antes, no segundo ano, convidara Josie para brincar e a convencera a fazer xixi no gramado da frente como um garoto. "No que voc estava pensando?", disse a me dela quando foi busc-la e a encontrou de traseiro nu e agachada em cima dos narcisos. Mesmo agora, uma dcada depois, Josie no conseguia olhar para Natalie Zlenko, com os cabelos curtos e a cmera que sempre carregava, sem se perguntar se ela tambm ainda pensava naquilo.

Do outro lado de Josie estava Courtney Ignatio, a fmea alfa da Sterling High. Com os cabelos louro-mel caindo sobre os ombros como um vu de seda e a cala jeans de cintura baixa da Fred Segal comprada por catlogo e entregue pelo correio, ela criara um grupo de clones. Na bandeja de Courtney havia uma garrafa de gua e uma banana. Na de Josie, um prato de batatas fritas. J tinha passado da segunda aula e, como a me dela previra, Josie estava faminta. -- Ei -- disse Courtney, alto o bastante para Natalie ouvir -- , d pra dizer pra vagitariana deixar a gente passar? As bochechas de Natalie ficaram vermelhas e ela se encostou na barra do buf de saladas para que Courtney e Josie pudessem passar. Elas pagaram pela comida e atravessaram o refeitrio. Sempre que entrava l, Josie se sentia uma naturalista observando diferentes espcies em seu habitat natural e nada acadmico. Havia os geeks, reclinados sobre seus livros escolares e rindo de piadas de matemtica que ningum mais queria entender. Atrs deles ficavam os manacos por arte, que fumavam cigarro de cravo no circuito de arvorismo atrs da escola e desenhavam mangs nos cantos dos cadernos. Perto do balco de temperos ficavam os imundos, que tomavam caf preto e esperavam o nibus que os levaria para a escola tcnica trs cidades depois para aulas  tarde, e os drogados, j doides s nove da manh. Tambm havia os desajustados -- jovens como Natalie e Angela Phlug, amigas por afinidade, porque ningum mais queria ser amigo delas. E havia a turma de Josie. Eles ocupavam duas mesas, no por serem muitos, mas por se acharem muito importantes: Emma, Maddie, Haley, John, Brady, Trey, Drew. Josie lembrava que, quando comeou a andar com essa turma, confundia o nome de todo mundo. Eles eram fceis de confundir a esse ponto.

E eram todos meio parecidos tambm -- os garotos de camiseta marrom de hquei e bon virado para trs, com mechas de cabelo passando no vo sobre a testa como o incio de um incndio; as garotas, cpias idnticas de Courtney aps cuidadosa observao. Josie entrou despretensiosamente para o centro do grupo porque tambm era parecida com Courtney. O cabelo era escovado para ficar liso como cristal; os saltos tinham quase oito centmetros, mesmo ainda havendo neve no cho. Se ela parecesse igual por fora, tornava-se bem mais fcil ignorar o fato de que no sabia realmente como se sentia por dentro. -- Oi -- disse Maddie, quando Courtney se sentou ao lado dela. -- Oi. -- Voc soube da Fiona Kierland? Os olhos de Courtney se iluminaram; fofoca era um catalisador to bom quanto qualquer outro de origem qumica. -- A que tem cada peito de um tamanho? -- No, essa  a Fiona do segundo ano. Estou falando da Fiona caloura. -- A que sempre carrega uma caixa de lenos por causa da alergia? -- disse Josie, sentando-se em uma cadeira. -- Ou no -- disse Haley. -- Adivinhem quem foi internada em uma clnica por cheirar coca. -- No acredito. -- E esse nem  o escndalo todo -- acrescentou Emma. -- O

traficante era o lder do grupo de estudos bblicos que se rene depois da aula. -- Ai, meu Deus! -- disse Courtney.

-- Exatamente. -- Oi -- disse Matt, sentando-se na cadeira ao lado de Josie. -- Por que demorou tanto? Ela se virou para ele. Nesse lado da mesa, os rapazes estavam enrolando bolinhas de papel com as embalagens dos canudos e conversando sobre o final do esqui de primavera. -- Quanto tempo voc acha que o halfpipe vai ficar aberto em Sunapee? -- perguntou John, soprando uma bolinha pelo canudo em um garoto que estava dormindo na mesa ao lado. O garoto era da turma eletiva de linguagem de sinais de Josie do ano anterior. Como ela, ele estava no terceiro e penltimo ano. Seus braos e pernas eram magros e brancos, esticados como os de um bicho-pau; a boca estava escancarada enquanto ele roncava. -- Errou, otrio -- disse Drew. -- Se Sunapee fechar, Killington ainda vai estar aberto. L tem neve at agosto. -- A bolinha de papel com cuspe caiu no cabelo do garoto. Derek. O nome do garoto era Derek. Matt olhou para as batatas fritas de Josie. -- Voc no vai comer isso, vai? -- Estou morrendo de fome. Ele beliscou a lateral da cintura dela, para medir e criticar ao mesmo tempo. Josie olhou para as batatas. Dez segundos antes, elas estavam douradas e tinham cheiro de paraso; agora, ela s conseguia ver a gordura que manchava o prato de papelo.

Matt pegou um punhado e passou o resto para Drew, que jogou uma bolinha com cuspe na boca do garoto que dormia. Com um engasgo, Derek acordou assustado. -- Legal! -- Drew bateu na mo de John. Derek cuspiu em um guardanapo e esfregou a boca com fora. Olhou ao redor para ver quem mais estava olhando. Josie de repente se lembrou de um movimento da linguagem de sinais, apesar de ter esquecido quase todos assim que fez a ltima prova. Um punho fechado movido em crculo queria dizer me desculpe. Matt se inclinou e beijou o pescoo dela. -- Vamos sair daqui -- e puxou Josie at que ela ficasse de p, virandose para os amigos. -- At mais -- disse ele. O ginsio da Sterling High School era no segundo andar, em cima do que teria sido a piscina, se o financiamento tivesse sido aprovado quando a escola estava planejando expandir, e do que acabou se tornando trs salas de aula, que ressoavam com o som de ps calados de tnis no cho e de bolas de basquete quicando. Michael Beach e seu melhor amigo, Justin Friedman, dois calouros, estavam sentados na lateral da quadra de basquete enquanto o professor de educao fsica falava sobre o mecanismo de driblar pela centsima vez. Aquele era um exerccio intil -- os garotos daquela aula eram como Noah James, j excelentes jogadores, ou como Michael e Justin, fluentes em lfico, mas que definiam home run2 como o que voc fazia depois da escola para no ser pendurado pela cueca nos ganchos de casaco do vestirio. Eles estavam sentados de pernas cruzadas, com os joelhos protuberantes, ouvindo

2

Home run  uma etapa de jogos de beisebol, mas em traduo literal

significa "correr para casa". (N. da T.)

os tnis brancos do treinador Spears guincharem como ratos enquanto ele corria de um lado para o outro da quadra. -- Aposto dez dlares que vou ser o ltimo escolhido pro time -- murmurou Justin. -- Eu queria que a gente pudesse sair da aula -- reclamou Michael. -- Talvez tenha um treino de incndio. Justin sorriu. -- Um terremoto. -- Uma ventania. -- Gafanhotos! -- Um ataque terrorista! Dois tnis pararam na frente deles. O treinador Spears olhou para baixo com os braos cruzados. -- Vocs dois querem me contar o que  to engraado no basquete? Michael olhou para Justin e depois para o treinador. -- Na verdade, nada -- disse ele. Depois de tomar banho, Lacy Houghton fez uma caneca de ch-verde e andou calmamente pela casa. Quando as crianas eram pequenas e ela ficava sobrecarregada com o trabalho e com a vida, Lewis lhe perguntava o que podia fazer para tornar as coisas melhores. Aquilo era uma grande ironia para ela, considerando a profisso de Lewis. Como professor na faculdade de Sterling, sua especialidade era a economia da felicidade. Sim, aquele realmente era um campo de estudo, e sim, ele era especialista. Ministrara seminrios, escrevera artigos e fora entrevistado pela CNN sobre medir os efeitos do prazer e da boa

sorte em uma escala monetria -- mas ficava perdido quando se tratava de descobrir do que Lacy gostaria. Ser que ela queria sair para jantar em um bom restaurante? Fazer as unhas dos ps? Tirar uma soneca? Mas, quando ela lhe contou o que desejava, ele no conseguiu entender. Ela queria ficar sozinha em casa, sem nada urgente para fazer. Ento abriu a porta do quarto de Peter e colocou a caneca sobre a cmoda, para poder arrumar a cama dele. "Pra qu?", dizia Peter, quando ela o mandava arrumar. "Vou bagunar tudo de novo mais tarde." Na maior parte do tempo, ela no entrava no quarto do filho quando ele no estava l. Talvez fosse por isso que, a princpio, ela tenha sentido que havia alguma coisa de errado ali, como se uma parte imprescindvel estivesse faltando. No comeo, achou que era a ausncia de Peter que fazia o quarto parecer meio vazio, mas depois reparou que o computador -- um zumbido intenso, com a tela sempre verde -- estava desligado. Ento esticou os lenis e prendeu as beiradas; puxou a colcha sobre eles e afofou os travesseiros. Diante da porta, fez uma pausa e sorriu: o quarto estava perfeito. Zoe Patterson estava se perguntando como era beijar um cara de aparelho. No que fosse uma possibilidade para ela no futuro prximo, mas achou que era uma coisa que tinha que considerar antes que o momento a pegasse desprevenida. Na verdade, ela se perguntava como seria beijar um cara e ponto-final -- mesmo um que no fosse ortodonticamente prejudicado, como ela. E, honestamente, havia lugar melhor do que uma aula idiota de matemtica para deixar a mente vagar? O sr. McCabe, que achava que era o Chris Rock da lgebra, estava fazendo sua rotina diria de comdia stand-up.

-- Dois garotos esto na fila do almoo quando o primeiro se vira pro amigo e diz: "No tenho dinheiro! O que devo fazer?" E o amigo responde: "2x + 5!" Zoe olhou para o relgio. Contou junto com o ponteiro dos segundos at dar 9h50 em ponto e pulou da cadeira para entregar um passe para o sr. McCabe. -- Ah, ortodontista -- leu ele em voz alta. -- Bom, cuide pra que ele no prenda sua boca pra sempre, srta. Patterson. Ento, o amigo diz: "2x + 5". Um binmio. Entenderam? Buy-no-meal?!3

Zoe colocou a mochila no ombro e saiu da sala. Ela tinha que encontrar a me em frente  escola s dez horas -- era difcil estacionar por ali, ento sua me ia parar s o tempo de Zoe entrar. No meio do horrio de aulas, os corredores ficavam vazios e com eco; parecia que se caminhava pela barriga de uma baleia. Zoe parou na secretaria para assinar sua sada na prancheta e quase atropelou um garoto na pressa de partir. Estava quente o bastante para abrir o casaco e pensar no vero, no acampamento de futebol e em como seria quando o expansor de palato fosse finalmente removido. Se voc beijasse um cara sem aparelho e apertasse muito, ser que cortaria as gengivas dele? Alguma coisa dizia a Zoe que, se voc fizesse um cara sangrar, provavelmente no ficaria com ele novamente. E se ele usasse aparelho tambm, como aquele louro de Chicago que tinha acabado de ser transferido e sentava na frente dela na aula de ingls (no que ela gostasse dele nem nada, apesar de ele ter se virado para devolver a lio dela e ter ficado assim um tantinho demais...)? Ser que eles ficariam presos

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Buy no meal: com pronncia similar a binomial, "binmio" em ingls,

significa "no compre comida". (N. da T.)

como engrenagens emperradas e teriam que ser levados ao pronto-socorro? Quo humilhante isso seria? Zoe passou a lngua pelos pedaos de metal que tinha na boca. Talvez pudesse entrar temporariamente em um convento. Suspirou e olhou para o final do quarteiro para ver se o Explorer verde da me estava na fila de carros. E, naquele momento, alguma coisa explodiu. Patrick estava parado no sinal vermelho em seu carro de polcia, esperando para entrar na estrada. Ao lado dele, no banco do passageiro, havia um saco de papel com uma cpsula de cocana dentro. O traficante que pegaram na escola tinha admitido que era cocana, mas Patrick tinha que desperdiar metade do dia levando-a para o laboratrio estadual para que algum de jaleco branco pudesse dizer o que ele j sabia. Mexeu no boto de volume do rdio da polcia bem a tempo de ouvir o corpo de bombeiros ser mandado para a escola por causa de uma exploso. Devia ser o boiler; a escola era velha o bastante para a estrutura interna estar desmoronando. Ele tentou lembrar onde ficava o boiler na Sterling High e se perguntou se teriam sorte para sair da situao sem nenhum ferido. Tiroteio... O sinal ficou verde, mas Patrick no se mexeu. O disparo de uma arma em Sterling era uma coisa muito rara para fazer com que ele focasse a ateno na voz no rdio, esperando uma explicao. Na escola de ensino mdio... Sterling High... Aos poucos, a voz no rdio ficava mais rpida e mais intensa. Patrick fez a volta com o carro e seguiu em direo  escola com as luzes piscando. Outras vozes comearam a transmitir em exploses estticas: policiais comunicando suas posies na cidade; o supervisor de planto tentando coordenar a fora

de trabalho e pedindo ajuda de Hanover e Lebanon. As vozes se sobrepunham e se misturavam, at que no fosse possvel entender uma s palavra. Sinal mil, disse a voz do rdio. Sinal mil. Em toda sua carreira de detetive, Patrick s ouvira esse chamado duas vezes. Uma vez no Maine, quando um pai endividado pegou um policial como refm, e outra em Sterling, durante um potencial roubo de banco que acabou sendo alarme falso. Sinal mil significava que todo mundo tinha de sair do rdio imediatamente e deix-lo livre para os comunicados. Significava que aquilo com que estavam lidando no era um acontecimento de rotina para a polcia. Significava vida ou morte. O caos era uma constelao de alunos correndo para fora da escola e pisoteando os feridos. Um garoto segurando um cartaz em uma janela do andar de cima com a palavra SOCORRO. Duas garotas se abraando e soluando. O caos era o sangue derretendo cor-de-rosa na neve; era o gotejar de pais que se transformou em fluxo e depois em rio furioso, gritando o nome dos filhos desaparecidos. O caos era uma cmera de TV na sua cara, ambulncias em nmero insuficiente, policiais em nmero insuficiente e nenhum plano de como reagir quando o mundo que voc conhecia se partia em pedaos. Patrick parou em cima da calada e pegou o colete  prova de balas na parte de trs do carro. A adrenalina j pulsava em seu corpo, fazendo a viso perifrica se embaar e seus sentidos ficarem mais apurados. Encontrou o chefe O'Rourke de p com um megafone no meio da confuso. -- Ainda no sabemos com o que estamos lidando -- disse o chefe de polcia. -- A UOE est a caminho.

Patrick no estava nem a para a Unidade de Operaes Especiais. At que a equipe da SWAT chegasse l, mais cem tiros poderiam ser disparados; uma criana poderia ser morta. Ele pegou a arma. -- Vou entrar. -- De jeito nenhum. No  o protocolo. -- No tem porra de protocolo pra isso -- respondeu Patrick. -- Voc pode me demitir depois. Ao sair correndo pelos degraus da escola, percebeu vagamente dois outros policiais de patrulha desobedecendo s ordens do chefe de polcia e se juntando a ele. Patrick mandou cada um seguir por um corredor diferente e entrou pelas portas duplas, passando por alunos que estavam se empurrando para tentar sair. Alarmes de incndio soavam to alto que Patrick teve de se esforar para ouvir os tiros. Ento segurou o casaco de um garoto que passava por ele. -- Quem ? -- ele gritou. -- Quem est atirando? O garoto balanou a cabea, mudo, e se soltou. Patrick o viu correr como louco pelo corredor, abrir a porta e sair em um retngulo de luz do sol. Os estudantes corriam ao redor dele como se ele fosse uma pedra em um rio. A fumaa se espalhava e queimava os olhos. Patrick ouviu outra sequncia de tiros e precisou se controlar para no sair correndo cegamente na direo deles. -- Quantos so? -- ele gritou, quando uma garota passou. -- Eu... eu no sei... O garoto ao lado dela se virou e olhou para Patrick, dividido entre lhe dar informaes e sair correndo dali.

--  um garoto... est atirando em todo mundo... Isso bastava. Patrick se jogou contra a corrente, como um salmo nadando rio acima. Folhas de papel se espalhavam pelo cho; cartuchos de bala rolavam sob seus ps. Painis do teto tinham sido atingidos, e uma fina camada de poeira cobria os corpos feridos, contorcidos no cho. Patrick ignorou tudo isso e agiu de forma contrria a quase todo seu treinamento -- passando correndo por portas que podiam esconder um meliante, ignorando salas que deveriam ser revistadas -- , seguindo em frente com a arma na mo e o corao batendo em cada centmetro da pele. Mais tarde, ele se lembraria de outras coisas que viu e no teve tempo de registrar imediatamente: as grades dos dutos de aquecimento que tinham sido soltas para que os alunos pudessem se esconder ali dentro; os sapatos deixados para trs por garotos que correram para a rua descalos; a previso sombria representada pelos contornos de cenas de crime no cho do lado de fora da sala de biologia, onde alguns alunos estiveram contornando o prprio corpo em papel pardo para um trabalho. O detetive correu por corredores que pareciam seguir em crculos. -- Onde? -- gritava cada vez que passava por um aluno em disparada, sua nica ferramenta de navegao. Viu gotas de sangue e alunos cados, mas no se permitiu voltar o olhar novamente. Subiu pela escadaria principal e, assim que chegou ao topo, uma porta se abriu. Patrick se virou e apontou a arma quando uma jovem professora caiu de joelhos com as mos erguidas. Por trs do rosto branco e oval havia outros doze, sem expresso e assustados. Patrick sentiu cheiro de urina. Baixou a arma e fez sinal para ela em direo  escada. -- Vo -- ele mandou, mas no ficou tempo o bastante para ver se eles realmente foram.

Ao virar numa parede, Patrick escorregou em sangue e ouviu outro tiro, alto o bastante para doer nos ouvidos. Ento entrou pelas portas duplas abertas do ginsio e olhou rapidamente os corpos espalhados, o suporte de bolas virado e as bolas encostadas na parede mais distante, mas nem sinal do atirador. Ele sabia, dos tempos em que monitorou jogos escolares, que tinha chegado  extremidade da Sterling High, o que significava que ou o atirador estava escondido ali, ou tinha passado por ele e Patrick no o tinha identificado... Ou ainda que, naquele momento, o tinha encurralado no ginsio. Patrick se virou para a entrada novamente para ver se era esse o caso, mas ouviu outro tiro. Correu para uma porta que levava para fora do ginsio, uma em que no tinha reparado em sua rpida avaliao do local. Era um vestirio, com azulejos brancos nas paredes e no cho. Olhou para baixo, viu sangue perto dos ps e levantou a arma pelo canto da parede. Dois corpos estavam cados na extremidade do vestirio. Na outra, mais perto de Patrick, um garoto baixo e magro estava agachado ao lado de um conjunto de armrios. Ele usava culos de aro de metal, que estavam tortos no rosto fino. Estava tremendo muito. -- Voc est bem? -- sussurrou Patrick, evitando falar alto e entregar sua posio para o atirador. O garoto apenas piscou. -- Onde ele est? -- disse Patrick apenas com um movimento de boca. O garoto tirou uma arma de debaixo da coxa e a apontou para a prpria cabea. Uma nova onda de calor percorreu o corpo de Patrick.

-- No se mexa! -- gritou ele, mirando no garoto. -- Solte a arma, seno eu atiro. -- Ele comeou a suar nas costas e na testa, sentindo as mos unidas escorregando na arma enquanto mirava, determinado a perfurar o garoto de balas se fosse necessrio. Patrick deixou o dedo indicador passar de leve sobre o gatilho na hora em que o garoto abriu os dedos como uma estrela-do-mar. A arma caiu no cho e deslizou pelo piso. Ento ele atacou imediatamente. Um outro policial, que Patrick nem tinha notado que o estava seguindo, pegou a arma do cho. Patrick colocou o garoto de barriga para baixo e o algemou, apertando a coluna dele com o joelho. -- Voc est sozinho? Quem est com voc? -- S eu -- gemeu o garoto. A cabea de Patrick girava e sua pulsao parecia um tambor militar, mas ele ouviu vagamente o policial passando a informao pelo rdio. -- Sterling, temos um elemento preso; no temos conhecimento de mais ningum. To discretamente como tinha comeado, tudo terminou -- pelo menos tanto quanto uma coisa assim podia ser considerada terminada. Patrick no sabia se havia armadilhas ou bombas na escola; no sabia quantos mortos havia; no sabia quantos feridos o Centro Mdico Dartmouth-Hitchcock e o Ambulatrio Alice Peck poderiam receber; no sabia como processar uma cena de crime to grande. O alvo tinha sido derrubado, mas a que custo implacvel? O corpo todo de Patrick comeou a tremer por saber que, para tantos alunos, pais e cidados naquele dia, ele mais uma vez tinha chegado tarde demais.

Ele deu alguns passos e ficou de joelhos, mais porque suas pernas simplesmente falharam, mas fingiu ser intencional, fingiu que queria verificar os dois corpos na extremidade do local. Percebeu vagamente o atirador sendo empurrado para fora do vestirio pelo outro policial, para uma viatura que aguardava l fora. No se virou para ver o garoto ir embora; em vez disso, se concentrou no corpo diretamente  sua frente. Um garoto, usando uma camisa de uniforme de hquei. Havia uma poa de sangue sob a lateral do corpo dele e um ferimento de bala na testa. Patrick esticou a mo para pegar um bon que tinha cado a cerca de um metro de distncia, com as palavras STERLING mos, em um crculo imperfeito. A garota deitada ao lado dele tinha o rosto virado para baixo, com sangue saindo da tmpora. Estava descala, e as unhas dos ps estavam pintadas de rosa intenso, do mesmo tom que Tara tinha usado em Patrick. Isso fez o corao dele parar. Essa garota, assim como sua afilhada, o irmo dela e um milho de outras crianas neste pas, tinha acordado e ido para a escola sem jamais imaginar que estaria em perigo. Ela confiava em todos os adultos, professores e diretores para que a mantivessem em segurana. Era por isso que essas escolas, depois do 11 de Setembro, tinham professores com crachs na roupa o tempo todo e trancavam as portas durante o dia. O inimigo sempre era considerado algum de fora, no o garoto sentado ao seu lado. De repente, a garota se mexeu. -- Me... ajuda... Patrick se ajoelhou ao lado dela. -- Estou aqui -- disse ele, com um toque delicado ao avaliar a condio da jovem. -- Est tudo bem. -- Ele a virou o bastante para ver que o sangue vinha de um corte no couro cabeludo, e no de um ferimento  bala, como
HOCKEY

bordadas. Girou a beirada nas

tinha suposto. Ento passou as mos pelos membros dela e ficou murmurando palavras que nem sempre faziam sentido, mas que a fariam sentir que no estava mais sozinha. -- Qual  o seu nome, querida? -- Josie... -- A garota comeou a se debater, tentando ficar de p. Patrick se colocou estrategicamente entre ela e o garoto. Ela j estava em choque; ele no precisava que ela surtasse. Ela colocou a mo na testa e, quando sentiu que estava suja de sangue, entrou em pnico. -- O que... aconteceu? Ele deveria ter ficado l e esperado que os paramdicos chegassem para peg-la. Deveria ter pedido ajuda pelo rdio. Mas deveria no parecia mais se aplicar, e ento Patrick ergueu Josie nos braos e a levou para fora do vestirio, onde ela quase tinha sido morta. Desceu rapidamente as escadas e passou pelas portas da frente da escola, como se pudesse salvar a ela e a si mesmo.

Dezessete anos antes

equipadas com cadernos e canetas e tinham passado a ltima hora e meia anotando dosagens recomendadas de cido flico, os nomes dos teratognicos e as dietas sugeridas para uma futura me. Duas tinham ficado verdes no meio da discusso sobre parto normal e correram para o banheiro com enjoo matinal -- que,  claro, podia durar o dia inteiro e era como dizer vero quando voc estava falando das quatro estaes do ano. Ela estava cansada. Tinha voltado da licena-maternidade havia s uma semana, e parecia extremamente injusto que, se no estivesse acordada a noite toda com seu prprio beb, tivesse de se ocupar com o parto de outra pessoa. Seus seios doam, como um lembrete desconfortvel de que precisava usar a bomba de novo, para que pudesse deixar leite com a bab para Peter no dia seguinte. Ainda assim, ela amava demais o trabalho para abrir mo dele completamente. Tivera notas para entrar na faculdade de medicina e tinha pensado em ser ginecologista e obstetra, at se dar conta de que tinha uma profunda incapacidade de ficar sentada ao lado de uma paciente sem sentir a dor dela. Os mdicos erguem um muro entre eles e seus pacientes; enfermeiras os derrubam. Ela entrou em um programa que a formaria como enfermeira-parteira, o que a encorajava a se concentrar na sade emocional da futura me em vez de apenas nos sintomas. Talvez isso tenha feito

H

avia catorze pessoas sentadas  frente de Lacy, se voc contasse o fato de que cada uma das sete pessoas na aula pr-natal estava grvida. Algumas delas estavam

alguns mdicos do hospital a considerarem estranha, mas Lacy realmente acreditava que, quando voc perguntava a uma paciente : "Como voc est se sentindo?", o que havia de errado no era nem de longe to importante quanto o que estava certo. Ela esticou a mo para alm do modelo de plstico do feto em crescimento e ergueu um guia campeo de vendas sobre gravidez. -- Quantas de vocs j viram este livro antes? Sete mos se ergueram. -- Certo. No comprem este livro. No leiam este livro. Se j houver um exemplar na sua casa, joguem fora. Este livro vai te convencer de que voc vai ter hemorragias, convulses, cair morta ou qualquer uma das centenas de coisas que no acontecem em uma gravidez normal. Acreditem, o nmero de gestaes normais  bem maior que qualquer coisa que esses autores digam. Ela olhou para o fundo, onde uma mulher estava com a mo na lateral do corpo. Com cimbras?, pensou Lacy. Gravidez ectpica? A mulher estava com um terninho preto e os cabelos presos em um rabo de cavalo arrumado e baixo. Lacy a viu beliscar a cintura de novo, dessa vez puxando um pequeno pager preso  saia, e ento ficar de p. -- Eu... Humm, me desculpe. Preciso ir. -- No d pra esperar uns minutinhos? -- perguntou Lacy. -- Vamos comear a visita  ala da maternidade. A mulher entregou a papelada que tinham pedido que preenchesse durante a visita.

-- Tenho uma coisa mais urgente pra resolver -- disse ela, e saiu apressada. -- Bem -- disse Lacy -- , talvez seja uma boa hora pra uma pausa pra ir ao banheiro. Quando as seis mulheres restantes saram da sala, ela olhou para o formulrio que tinha em mos. Alexandra Cormier, leu. E pensou: Vou ter de ficar de olho nessa. Na ltima vez que Alex defendeu Loomis Bronchetti, ele tinha invadido trs casas e roubado equipamentos eletrnicos, que depois tentou vender nas ruas de Enfield, em New Hampshire. Apesar de Loomis ser diligente o bastante para arquitetar todo o esquema, ele no se deu conta de que, em uma cidade pequena como Enfield, um equipamento de som bacana poderia chamar a ateno. 'Aparentemente, Loomis tinha aumentado seu currculo criminal na noite anterior quando, com dois amigos, decidiu ir atrs de um traficante de drogas que no levou maconha o suficiente para todos. Drogados, eles amarraram o cara pelos ps e mos e o jogaram no porta-malas. Loomis bateu na cabea do cara com um taco de beisebol, rachando o crnio dele e o fazendo ter convulses. Quando ele comeou a se engasgar com o prprio sangue, Loomis o virou para que conseguisse respirar. -- No consigo acreditar que esto me acusando de agresso -- disse Loomis para Alex por entre as barras da cela. -- Eu salvei a vida do cara! -- Bom -- disse Alex -- , talvez pudssemos usar isso, se no tivesse sido voc quem provocou o ferimento.

-- Voc tem que conseguir menos de um ano pra mim. No quero ser mandado pra priso em Concord... -- Voc podia ter sido acusado de tentativa de assassinato, sabia? Loomis fez cara feia. -- Eu estava fazendo um favor pra polcia tirando um verme daqueles das ruas. Alex sabia que o mesmo poderia ser dito sobre Loomis Bronchetti, se ele fosse condenado e enviado para a priso estadual. Mas o trabalho dela no era julg-lo. Era dar duro, apesar de suas opinies pessoais sobre um cliente. Era mostrar uma face para Loomis sabendo que tinha outra escondida. Era no deixar seus sentimentos interferirem na capacidade de fazer Loomis Bronchetti ser absolvido. -- Vamos ver o que posso fazer -- disse ela. Lacy entendia que todos os bebs eram diferentes, criaturas pequeninas com suas prprias peculiaridades, hbitos, irritaes e desejos. Mas, de alguma maneira, ela tinha esperado que a segunda incurso na maternidade fosse produzir um filho como o primeiro: Joey, um garoto de ouro que fazia os transeuntes virarem a cabea e pararem-na enquanto ela empurrava o carrinho para dizer como o filho dela era lindo. Peter era to lindo quanto Joey, mas definitivamente era um beb mais difcil. Ele chorava de clica e tinha de ser tranquilizado na cadeirinha do carro sobre a secadora de roupas em funcionamento. Mamava e de repente afastava a cabea do seio dela. Eram duas horas da manh e Lacy estava tentando fazer Peter voltar a dormir. Ao contrrio de Joey, que caa no sono como se estivesse dando um grande passo para o precipcio, Peter lutava a cada passo do caminho. Ela

batia nas costas dele e esfregava em crculos entre as clavculas enquanto ele soluava e chorava. Na verdade, ela tambm tinha vontade de chorar. Nas ltimas duas horas, tinha assistido inmeras vezes ao mesmo comercial das facas Ginsu. Tinha contado as listras no brao do sof at ficarem embaadas. Estava to exausta que tudo doa. -- Qual  o problema, rapazinho? -- ela suspirou. -- O que posso fazer pra te deixar feliz? A felicidade era relativa, segundo o marido dela. Apesar de a maior parte das pessoas rirem quando Lacy contava que o emprego do marido envolvia colocar um preo na alegria, isso era simplesmente o que os economistas faziam: encontrar valores para as coisas intangveis da vida. Os colegas de Lewis na Faculdade de Sterling tinham apresentado trabalhos sobre o empurro relativo que a educao podia dar, ou a assistncia de sade universal, ou a satisfao no emprego. A disciplina de Lewis no era menos importante, apesar de no ortodoxa. Ela o tornara um convidado popular na NPR (National Popular Radio), no programa de Larry King, em seminrios corporativos. Por algum motivo, o processamento de grandes quantidades de dados parecia mais sexy quando voc comeava a falar do valor em dlares de uma gargalhada ou de uma piada boba sobre louras. Fazer sexo regularmente, por exemplo, era equivalente -- em termos de felicidade -- a receber um aumento de cinquenta mil dlares no salrio anual. No entanto, receber um aumento de cinquenta mil dlares no seria to empolgante se todo mundo tivesse o mesmo aumento. Seguindo pelo mesmo caminho, o que fez voc feliz uma vez talvez no o fizesse feliz agora. Cinco anos atrs, Lacy teria dado qualquer coisa por uma dzia de rosas trazidas para casa pelo marido; agora, se ele oferecesse a ela a oportunidade de um cochilo de dez minutos, ela cairia no cho em um ataque de satisfao.

Deixando as estatsticas de lado, Lewis ficaria registrado na histria como o economista que concebeu a frmula matemtica para a felicidade: R/E, ou Realidade dividida por Expectativas. Havia duas maneiras de ser feliz: melhorando sua realidade ou diminuindo suas expectativas. Uma vez, em um jantar na casa de vizinhos, Lacy perguntou a ele o que acontecia se voc no tivesse expectativas. No se podia dividir por zero. Isso significava que, se voc se deixasse levar pela vida, nunca conseguiria ser feliz? No carro, na mesma noite, Lewis a acusou de tentar faz-lo passar vergonha. Lacy no gostava de se permitir pensar se Lewis e a famlia eram realmente felizes. Era de se imaginar que o homem que desenvolveu a frmula teria descoberto tudo sobre a felicidade, mas no funcionava assim. s vezes, ela se lembrava daquele velho adgio, "Os filhos do sapateiro andam descalos", e se perguntava: E os filhos do homem que sabe o valor da felicidade? Atualmente, quando Lewis ficava at tarde no escritrio, trabalhando em mais um prazo de publicao, e Lacy estava to exausta que podia adormecer de p no elevador do hospital, ela tentava se convencer de que aquela era apenas uma fase que eles estavam passando: um campo de treinamento de bebs que certamente se transformaria um dia em alegria, satisfao, unio e todos os outros parmetros que Lewis colocava nos programas de computador. Afinal, ela tinha um marido que a amava, dois garotos saudveis e uma carreira satisfatria. Ter o que se quer no  a prpria definio de ser feliz? Em determinado momento, ela percebeu que -- milagre dos milagres -- Peter tinha adormecido em seu ombro, com a bochecha macia como um pssego pressionada contra a sua pele. Subiu a escada na ponta dos ps, colocou-o delicadamente no bero e olhou para o outro lado do quarto, para a cama onde Joey estava. A lua o iluminava como um discpulo. Ento

ela imaginou como Peter seria quando chegasse  idade de Joey. E se perguntou se era possvel ter tanta sorte duas vezes. Alex Cormier era mais nova do que Lacy pensava. Tinha vinte e quatro anos, mas se portava com confiana suficiente para fazer as pessoas pensarem que era uma dcada mais velha. -- E ento -- disse Lacy, se apresentando -- , como acabou aquele assunto urgente? Alex olhou para ela sem entender, mas depois lembrou: o tour pela ala da maternidade do qual tinha escapado uma semana antes. -- Ele se declarou culpado pra diminuir a pena. -- Ento voc  advogada? -- Lacy perguntou, erguendo os olhos das anotaes. -- Defensora pblica -- e o queixo de Alex se ergueu um pouco, como se estivesse pronta para ouvir um comentrio depreciativo de Lacy sobre o fato de ela se unir aos bandidos. -- Deve ser um trabalho muito desgastante -- disse Lacy. -- Seus chefes sabem que voc est grvida? Alex balanou a cabea. -- Isso no  problema -- ela respondeu secamente. -- No vou tirar licena-maternidade. -- Talvez voc mude de ideia quando... -- No vou ficar com o beb -- anunciou Alex. Lacy se recostou na cadeira.

-- Tudo bem -- respondeu. Afinal, no era seu papel julgar uma me pela deciso de abrir mo do filho. -- Podemos ento falar sobre outras opes -- continuou. Com onze semanas, Alex ainda podia interromper a gravidez, se desejasse. -- Eu ia fazer um aborto -- disse Alex, como se tivesse lido a mente de Lacy. -- Mas no fui  consulta. -- Ela olhou para frente. -- Duas vezes. Lacy sabia que era possvel algum ser terminantemente a favor do aborto, mas no estar disposta a tomar essa deciso ou no ser capaz de tom-la, e era exatamente a que a questo da escolha interferia. -- Muito bem, ento -- disse ela. -- Posso lhe dar informaes sobre adoo, se voc ainda no fez contato com agncias. -- Ela enfiou a mo em uma gaveta e pegou alguns panfletos que iam desde agncias de adoo afiliadas a uma variedade de religies a advogados especializados em adoes particulares. Alex pegou os panfletos e os segurou como cartas de baralho. -- Mas, por enquanto, podemos apenas nos concentrar em como voc est. -- Estou tima -- Alex respondeu tranquilamente. -- No fico enjoada, no me sinto cansada -- e olhou para o relgio. -- Mas vou chegar atrasada em um compromisso. Lacy percebeu que Alex era o tipo de pessoa acostumada a estar no comando de tudo em sua vida. -- No tem nada de errado em diminuir o ritmo quando se est grvida. Seu corpo pode precisar. -- Eu sei cuidar de mim.

-- Que tal deixar algum ajudar de vez em quando? Uma sombra de irritao cruzou o rosto de Lacy. -- Olha, eu no preciso de terapia. Honestamente. Agradeo sua preocupao, mas... -- Seu parceiro apoia sua deciso de abrir mo do beb? -- Lacy perguntou. Alex virou o rosto por um momento. Mas, antes que Lacy pudesse encontrar as palavras certas para atrair a ateno dela, Alex fez isso sozinha. -- No tem parceiro -- disse ela friamente. A ltima vez em que o corpo de Alex tomou o controle, em que fez o que a mente dela mandou no fazer, ela concebeu esse beb. Tinha comeado de maneira bem inocente: Logan Rourke, o professor de simulao de julgamentos, a chamou para a sala dele para dizer que ela tinha comandado o tribunal com competncia; Logan disse que nenhum jurado conseguiria tirar os olhos dela, e que nem ele tinha conseguido. Alex achava que Logan era Clarence Darrow, F. Lee Bailey e Deus em uma s pessoa. O prestgio e o poder podiam tornar um homem to atraente a ponto de tirar o flego. Esses atributos o transformaram naquilo que ela tinha procurado a vida toda. Ela acreditou quando ele disse que no tinha visto uma aluna to perspicaz quanto ela em seus dez anos como professor. Acreditou quando ele disse que seu casamento estava acabado, exceto pelas aparncias. E acreditou quando ele a levou para casa depois da aula, prendeu o rosto dela entre as mos e disse que ela era o motivo de ele conseguir sair da cama de manh.

O direito era um estudo de detalhes e fatos, no de emoes. O erro fundamental de Alex foi se esquecer disso quando se envolveu com Logan. Ela se viu adiando planos, esperando as ligaes dele, que s vezes aconteciam e s vezes no. Fingia que no o via flertando com as alunas de direito do primeiro ano que olhavam para ele como ela costumava olhar. E, quando ficou grvida, se convenceu de que eles foram feitos para passarem o resto da vida juntos. Logan falou para ela se livrar do beb. Ela marcou o aborto, mas se esqueceu de anotar a data e a hora na agenda. Depois remarcou, mas percebeu tarde demais que era na mesma hora de uma prova final. Depois disso, procurou Logan. --  um sinal -- disse ela. -- Talvez -- ele respondeu -- , mas no significa o que voc est pensando. Seja racional -- disse Logan. -- Uma me solteira nunca vai conseguir ser advogada. Ela teria que escolher entre a carreira e o beb. O que ele realmente queria dizer era que ela teria que escolher entre ter o beb e ficar com ele. A mulher parecia familiar de costas, daquela maneira que as pessoas parecem quando voc as v fora de contexto: o funcionrio do mercado na fila do banco, o carteiro sentado em uma das fileiras do cinema. Alex olhou por mais um segundo, depois se deu conta de que era o beb que a estava distraindo. Andou pelo corredor do tribunal at o balco do funcionrio, onde Lacy Houghton estava pagando uma multa de estacionamento. -- Precisa de advogada? -- perguntou Alex.

Lacy olhou para frente e o beb conforto balanou em seu brao. Ela levou um momento para localizar o rosto, pois no via Alex desde a visita inicial, um ms antes. -- Ah, oi! -- disse ela sorrindo. -- O que traz voc pro meu lado da floresta? -- Ah, estou pagando a fiana do meu ex... -- Lacy esperou que Alex arregalasse os olhos e riu. -- estacionamento. Alex ficou olhando para o rosto do filho de Lacy. Ele estava com um gorro azul amarrado no queixo, e as bochechas pareciam se espalhar sobre as extremidades do tecido de l. Ele estava com o nariz escorrendo e, quando reparou que Alex estava olhando para ele, deu um sorriso largo. -- Quer tomar um caf? -- perguntou Lacy. Ela colocou dez dlares em cima da multa e os enfiou pelo buraco da janelinha de pagamento, depois puxou o beb conforto um pouco mais para cima do brao e saiu do prdio at um Dunkin' Donuts do outro lado da rua, parando para dar uma nota de dez dlares a um mendigo que estava do lado de fora do frum. Alex revirou os olhos, pois tinha visto aquele sujeito em um bar perto dali no dia anterior, quando saa do trabalho. Na lanchonete, Alex observou Lacy tirar com facilidade camadas de roupas do beb e coloc-lo no colo. Enquanto falava, ps um cobertor no ombro e comeou a amamentar Peter. --  difcil? -- perguntou Alex de repente. -- Amamentar? Estou brincando.  uma multa de

-- No s isso -- disse Alex. -- Tudo. -- Definitivamente,  uma habilidade adquirida -- Lacy respondeu, elevando o beb at o ombro. Os ps calados com botas chutaram o peito dela, como se ele estivesse tentando se afastar. -- ao seu trabalho, a maternidade deve ser moleza. Isso fez Alex pensar imediatamente em Logan Rourke, que tinha rido dela quando ela disse que aceitaria um emprego na defensoria pblica. "Voc no vai durar uma semana", dissera ele. " mole demais pra isso." Ela s vezes se perguntava se era boa defensora pblica por causa de sua capacidade ou por estar to determinada a mostrar para Logan que ele estava errado. De qualquer modo, Alex tinha uma personalidade cultivada no trabalho, uma que estava l para dar aos criminosos voz igual no sistema legal, sem deixar que os clientes a afetassem. J tinha cometido esse erro com Logan. -- Voc teve oportunidade de fazer contato com alguma das agncias de adoo? -- perguntou Lacy. Alex no tinha nem levado os panfletos que recebera. Ainda deviam estar na bancada da sala de exames. -- Fiz algumas ligaes -- ela mentiu. Isso de fato estava na lista de coisas a fazer no trabalho, mas sempre aparecia algo mais importante. -- Posso fazer uma pergunta pessoal? -- disse Lacy, e Alex assentiu devagar, pois no gostava de perguntas pessoais. -- O que fez voc decidir abrir mo do beb? Ela tinha mesmo tomado essa deciso? Ou a deciso tinha sido tomada por ela? Em comparao

-- No  uma boa hora -- disse Alex. Lacy riu. -- No sei se existe uma boa hora para ter um beb. Sua vida fica de cabea pra baixo. Alex olhou para ela. -- Gosto da minha vida com o lado certo pra cima. Lacy mexeu na camiseta do beb por um momento. -- De certa forma, o que voc e eu fazemos no  to diferente. -- A taxa de reincidncia deve ser mais ou menos a mesma -- disse Alex. -- No... Quero dizer que ns duas vemos as pessoas quando elas esto mais cruas.  isso que eu amo em ser parteira. Voc v como a pessoa  forte quando encara uma situao verdadeiramente dolorosa. -- Ela olhou para Alex. -- No  incrvel o modo como, quando voc tira tudo, as pessoas so to parecidas? Alex pensou nos rus que passaram por sua vida profissional. Todos se misturavam em sua mente. Mas isso era porque, como Lacy havia falado, ramos todos parecidos? Ou porque Alex tinha se tornado especialista em no olhar muito de perto? Ela observou Lacy colocar o beb sobre o joelho. As mos dele bateram na mesa e ele fez barulhinhos midos. De repente, Lacy ficou de p e empurrou o beb na direo de Alex, de forma que ela teve de segur-lo para que ele no casse no cho. -- Tome, segure o Peter. Preciso ir ao banheiro.

Alex entrou em pnico. Espere, pensou ela. No sei fazer isso. As pernas do beb chutaram, como um personagem de desenho caindo de um penhasco. Alex o colocou no colo meio sem jeito. Ele era mais pesado do que ela imaginava, e sua pele parecia veludo mido. -- Peter -- disse ela formalmente. -- Sou a Alex. O beb esticou a mo em direo ao copo de caf, e ela se inclinou para frente para empurr-lo para longe. O rosto de Peter se contraiu todo e ele comeou a chorar. Os gritos eram agudos, ricos em decibis, cataclsmicos. -- Pare -- Alex implorou, quando as pessoas ao redor comearam a olhar. Ela ficou de p e bateu nas costas de Peter como Lacy tinha feito, desejando que ele se cansasse, contrasse laringite ou apenas tivesse pena da total inexperincia dela. Alex, que sempre tinha a resposta inteligente perfeita, que podia ser jogada em qualquer situao legal difcil e cair de p sem nem uma gota de suor, se viu completamente perdida. Ela se sentou e segurou Peter pelas axilas. quela altura, ele estava vermelho como um tomate e sua pele estava to furiosa e escura que os poucos cabelos louros brilhavam como platina. -- Escute -- disse ela -- , posso no ser o que voc quer agora, mas sou tudo o que tem. Com um derradeiro soluo, o beb ficou quieto. Ele olhou nos olhos de Alex como se estivesse tentando reconhec-la.

Aliviada, ela o colocou no canto do brao e se empertigou. Olhou para a parte de cima da cabea dele, para a pulsao que transparecia pela moleira. Quando relaxou o modo como o segurava, ele tambm relaxou. Ser que era fcil assim? Alex passou o dedo pela parte macia na cabea de Peter. Ela conhecia a biologia por trs disso: as placas do crnio se deslocavam o bastante para facilitar a passagem pelo canal de parto e acabavam se fundindo depois do primeiro ano do beb. Era uma vulnerabilidade com a qual todos ns nascamos e que acabava virando a cabea dura dos adultos. -- Me desculpe -- disse Lacy ao voltar para a mesa. -- Muito obrigada. Alex lhe devolveu o beb como se estivesse sendo queimada. A paciente tinha sido transferida de um parto em casa de trinta e seis horas. Como seguidora fiel da medicina natural, tinha feito pouco acompanhamento pr-natal, no tinha feito amniocentese nem ultrassons, mas os recm-nascidos tinham a capacidade de conseguir o que queriam e precisavam quando se tratava de chegarem ao mundo. Lacy colocou as mos na barriga trmula da mulher, como uma curandeira. Trs quilos, pensou, com o bumbum aqui em cima e a cabea embaixo . Um mdico colocou a cabea na porta. -- Como estamos indo? -- Diga pra UTI neonatal que estamos em trinta e cinco semanas -- ela disse -- , mas parece que est tudo bem.

Quando o mdico se afastou, ela se posicionou entre as pernas da mulher. -- Sei que isso est acontecendo pelo que parece uma eternidade, mas, se voc conseguir trabalhar comigo s mais uma hora, voc vai ter esse beb. Ao instruir o marido para ficar atrs da esposa, segurando-a ereta quando ela comeou a fazer fora, Lacy sentiu o pager vibrar na cintura do uniforme azul. Quem poderia ser? Ela j estava de planto; a secretria sabia que estava auxiliando um parto. -- Vocs podem me dar licena? -- disse ela, deixando uma

enfermeira em seu lugar enquanto saa para usar o telefone. -- O que est acontecendo? -- perguntou Lacy quando a secretria atendeu. -- Uma das duas pacientes est insistindo em ver voc. -- Estou um pouco ocupada -- disse Lacy com firmeza. -- Ela disse que espera. Pelo tempo que precisar. -- Quem ? -- Alex Cormier -- respondeu a secretria. Normalmente, Lacy teria dito para a secretria mandar a paciente falar com outra parteira, mas havia alguma coisa de elusivo em Alex Cormier, algo que ela no conseguia identificar -- e que no estava certo. -- Tudo bem -- disse Lacy -- , mas avise que pode demorar. Ento desligou e correu de volta para a sala de parto, onde colocou as mos entre as pernas da paciente para verificar a dilatao.

-- Pelo visto, voc s precisava que eu sasse -- brincou. -- Voc chegou a dez centmetros. Na prxima vez em que sentir vontade de fazer fora... v com tudo. Dez minutos depois, Lacy segurava uma garotinha de um quilo e meio. Enquanto os pais se maravilhavam com ela, Lacy se virou para a enfermeira e se comunicou com o olhar. Alguma coisa tinha dado terrivelmente errado. -- Ela  to pequena -- exclamou o pai. -- Tem algum... Ela est bem? Lacy hesitou, porque no sabia a resposta. Um cisto fibroide?, pensou. A nica certeza que tinha era de que havia bem mais coisa dentro da mulher do que um beb de um quilo e meio. E que a qualquer momento a paciente comearia a sangrar. Em seguida Lacy esticou a mo em direo  barriga da paciente e, ao apertar o tero, parou. -- Algum falou que vocs iam ter gmeos? O pai ficou plido. -- Tem dois a? Lacy sorriu. Ela conseguia lidar com gmeos. Gmeos. Isso era um bnus, no um terrvel desastre mdico. -- Bom, agora s tem um. O homem se agachou ao lado da esposa e beijou a testa dela, em deleite. -- Voc ouviu isso, Terri? Gmeos.

A esposa no tirou os olhos da pequena recm-nascida. -- Que bom -- disse ela calmamente. -- Mas no vou empurrar outro beb pra fora. Lacy riu. -- Ah, acho que posso fazer com que voc mude de ideia. Quarenta minutos depois, Lacy deixou a famlia feliz, com as filhas gmeas, e seguiu pelo corredor at o banheiro dos funcionrios, onde jogou gua no rosto e vestiu outro uniforme. Subiu as escadas at o escritrio das parteiras e olhou para o grupo de mulheres sentadas com os braos apoiados em barrigas de todos os tamanhos, como luas em fases diferentes. Uma ficou de p, indecisa e com os olhos vermelhos, como se tivesse sido puxada magneticamente pela chegada de Lacy. -- Alex -- disse ela, lembrando s naquele instante que tinha outra paciente esperando. -- Poderia me acompanhar? E ento a levou para uma sala de exames vazia e se sentou em uma cadeira diante dela. Naquele momento, Lacy reparou que o suter de Alex estava ao contrrio. Era azul-claro com gola canoa. Mal dava para perceber, se no fosse a etiqueta aparecendo no pescoo. Isso era algo que poderia acontecer com qualquer pessoa na correria, com algum chateado... mas provavelmente no com Alex Cormier. -- Eu tive um sangramento -- disse Alex com a voz firme. -- No muito, mas... humm, um pouco. Seguindo o comportamento de Alex, Lacy respondeu calmamente. -- Por que no damos uma olhada, por via das dvidas?

Lacy levou Alex pelo corredor at a sala de ultrassom. Convenceu um tcnico a deix-las furarem a fila de pacientes e, quando estava com Alex deitada na mesa, ligou a mquina e mexeu o transdutor pela barriga dela. Com dezesseis semanas, o feto parecia um beb, pequeno, magrelo, mas incrivelmente perfeito. -- Est vendo isso? -- perguntou Lacy, apontando para o cursor que piscava, um pequeno batimento branco e preto. --  o corao do beb. Alex virou o rosto, mas no antes de Lacy ver uma lgrima descer pela bochecha dela. -- O beb est bem -- ela disse. -- E  perfeitamente normal ter um pouco de escape ou manchas na calcinha. No foi nada que voc fez que provocou isso e no tem nada que possa fazer pra que pare. -- Achei que estava tendo um aborto. -- Quando voc v um beb normal, como acabamos de ver, a chance de aborto  de menos de um por cento. Vou dizer de outro modo: sua chance de ter um beb normal  de noventa e nove por cento. Alex assentiu e limpou os olhos na manga. -- Que bom. Lacy hesitou. -- No  meu papel dizer isso, de verdade. Mas para algum que no quer o beb, Alex, voc parece bastante aliviada em saber que ele est bem. -- Eu no... No posso... Lacy olhou para a tela do ultrassom, onde a imagem do beb de Alex estava congelada por um momento.

-- Apenas pense nisso -- disse ela. -- J tenho famlia -- disse Logan Rourke mais tarde no mesmo dia, quando Alex contou para ele que pretendia ficar com o beb. -- No preciso de outra. Naquela noite, Alex fez uma espcie de exorcismo. Encheu a churrasqueira de carvo, acendeu o fogo e queimou todos os trabalhos que fizera na faculdade para Logan Rourke. Ela no tinha fotos dos dois nem bilhetes romnticos. Em retrospecto, percebeu quanto ele tinha sido cuidadoso, quo facilmente podia ser apagado da vida dela. A partir daquele momento, decidiu que o beb seria s dela. Ficou sentada olhando as chamas e pensou no espao que ele ocuparia dentro dela. Imaginou seus rgos se deslocando, a pele se esticando. Imaginou seu corao encolhendo, at ficar pequeno como uma pedrinha, para abrir espao. Ela no pensou se estava tendo aquele beb para provar que no tinha imaginado o seu relacionamento com Logan Rourke ou para aborrec-lo tanto quanto ele a tinha aborrecido. Como qualquer advogado competente sabe, voc nunca faz  testemunha a pergunta cuja resposta no quer saber. Cinco semanas depois, Lacy no era mais apenas a parteira de Alex. Era tambm sua confidente, sua melhor amiga e seu suporte. Embora Lacy no costumasse socializar com as pacientes, por Alex ela tinha quebrado as regras. Disse para si mesma que foi porque Alex, que tinha decidido ficar com o beb, realmente precisava de apoio, e no havia mais ningum com quem ela se sentisse  vontade. Lacy admitiu que esse foi o nico motivo pelo qual decidiu sair com as colegas de Alex naquela noite. A simples ideia de uma noite s de mulheres, sem bebs, perdia a graa com aquelas companhias. Lacy devia ter se dado

conta de que dois tratamentos de canal teriam sido melhores que jantar com um bando de advogadas. Todas gostavam de se ouvir falar, isso ficou claro. Ela deixou a conversa fluir  sua volta, como se fosse uma pedra em um rio, e enchia constantemente a taa de vinho com Coca de uma jarra. O restaurante era italiano, com molho de tomate ruim e um chef que carregava no alho. Ela se perguntou se havia restaurantes americanos na Itlia. Alex estava no meio de uma discusso acalorada sobre um julgamento que tinha ido para a deciso do jri. Lacy ouviu termos desconhecidos serem mencionados na mesa: FLSA, Singh versus Jutla, incentivos. Uma mulher vermelha sentada  direita de Lacy balanou a cabea. --  mandar um recado -- disse ela. -- Se voc indeniza por perdas por um trabalho ilegal, est sancionando uma empresa como acima da lei. Alex riu. -- Sita, vou aproveitar o momento pra te lembrar de que  a nica acusadora na mesa e que no tem como voc vencer essa. -- Somos todas suspeitas para falar. Precisamos de um observador objetivo -- disse Sita, sorrindo para Lacy. -- Qual  a sua opinio sobre aliengenas? Talvez ela devesse ter prestado mais ateno na conversa. Aparentemente, o papo tinha dado uma virada e ficado interessante quando Lacy se distraiu. -- Bom, no sou especialista, mas acabei de ler um livro sobre a rea 51 e o acobertamento por parte do governo. Falava em detalhes sobre mutilao de gado. Acho muito estranho o fato de uma vaca em Nevada

ficar sem rins e a inciso no demonstrar nenhum trauma ao tecido nem perda de sangue. Tive uma gata que acho que foi abduzida por aliengenas. Ela desapareceu por exatas quatro semanas e, quando voltou, tinha marcas de queimaduras triangulares nos pelos das costas, como aqueles crculos nas plantaes. -- Lacy hesitou. -- Mas sem o trigo. Todo mundo na mesa ficou olhando para ela em silncio. Uma mulher com a boca muito pequena e o cabelo curto e louro piscou para Lacy. -- Estvamos falando sobre imigrantes ilegais. Lacy sentiu uma onda de calor subir pelo pescoo. -- Ah -- disse ela. -- Claro. -- Bom, se vocs quiserem saber a minha opinio -- disse Alex, chamando a ateno para si -- , acho que a Lacy devia ir pro Departamento de Trabalho em vez da Elaine Chao. Ela com certeza tem mais experincia... Todo mundo caiu na gargalhada e Lacy ficou observando. Ela se deu conta de que Alex podia se encaixar em qualquer lugar. Ali, com a famlia de Lacy no jantar, em um tribunal ou provavelmente tomando ch com a rainha. Ela era um camaleo. Lacy concluiu que no sabia de que cor um camaleo era antes de comear a mudar. Havia um momento em cada exame pr-natal em que Lacy canalizava sua curandeira interior: ela colocava as mos na barriga da paciente e adivinhava, s pelo toque, em que posio o beb estava. Isso sempre a fazia lembrar das casas mal-assombradas aonde ela levava Joey no Halloween -- voc enfiava a mo atrs de uma cortina e tateava em uma tigela de espaguete frio como se fossem intestinos, ou um crebro feito de gelatina.

No era uma cincia exata, mas basicamente havia duas partes duras em um feto: a cabea e o bumbum. Se voc balanasse a cabea do beb, ela giraria no eixo da coluna vertebral. Se voc balanasse o bumbum, ele sacudia. Mexer a cabea s fazia a cabea se mexer; mexer o bumbum fazia o beb todo se mexer. Ela passou as mos por cima da barriga de Alex e a ajudou a se sentar. -- A boa notcia  que o beb est timo -- disse Lacy. -- A m notcia  que, nesse momento, ele est na posio errada. De bumbum pra baixo. Alex ficou imvel. -- Vou precisar de cesrea? -- Temos oito semanas at decidirmos isso. Tem muita coisa que podemos fazer pra tentar virar a cabea do beb antes. -- Como o qu? -- Moxibusto. -- Ela se sentou na frente de Lacy. -- Vou te dar o nome de uma acupunturista. Ela vai acender um pequeno basto de artemsia e segurar perto do seu dedinho do p. Vai fazer a mesma coisa do outro lado. No vai doer, mas vai ficar quente e um pouco desconfortvel. Quando voc aprender a fazer isso em casa, se comear agora, tem uma boa chance de o beb virar em at duas semanas. -- Me cutucar com um basto vai fazer o beb virar? -- Bom, no necessariamente.  por isso que tambm quero que voc coloque uma tbua de passar encostada no sof, pra fazer um plano inclinado. Voc deve se deitar nela, com a cabea para baixo, trs vezes por dia durante quinze minutos.

-- Nossa, Lacy. Tem certeza que no quer que eu use um cristal tambm? -- Pode acreditar, qualquer uma dessas coisas  bem melhor do que a verso mdica de virar o beb... e do que a recuperao de uma cesrea. Alex cruzou as mos em cima da barriga. -- Eu no acredito muito nesses papos de antigamente. Lacy deu de ombros. -- Por sorte, no  voc quem est na posio errada. No  recomendvel que se d carona para os clientes at o tribunal, mas, no caso de Nadya Saranoff, Alex abriu uma exceo. O marido de Nadya era violento e a largara por outra mulher. No pagava penso para os dois filhos, embora ganhasse bem e o emprego de Nadya no Subway pagasse 5,25 dlares por hora. Ela tinha reclamado com o Estado, mas a justia era lenta demais, ento foi at o Walmart e roubou uma cala e uma camiseta branca para o filho de cinco anos, que ia comear na escola na semana seguinte e estava precisando de roupa. Nadya tinha se declarado culpada. Por no ter dinheiro para pagar uma multa, recebeu uma sentena deferida de trinta dias na cadeia -- o que, como Alex estava lhe explicando agora, queria dizer que ela s cumpriria a pena depois de um ano. -- Se voc for presa -- disse ela enquanto estavam de p do lado de fora do banheiro feminino do tribunal -- , seus filhos vo sofrer muito. Sei que voc estava desesperada, mas sempre tem outra opo. Uma igreja, o Exrcito da Salvao... Nadya enxugou os olhos.

-- Eu no podia ir at a igreja nem at o Exrcito da Salvao. No tenho carro. Certo. Foi por isso que Alex lhe deu carona. Alex se armou contra a solidariedade quando Nadya entrou no banheiro. Seu trabalho era conseguir um bom acordo para sua cliente, o que ela tinha conseguido, considerando que era o segundo furto dessa mulher. O primeiro tinha sido em uma farmcia: ela roubara Tylenol infantil. Ento pensou em seu beb, que a fazia deitar de cabea para baixo apoiada em uma tbua de passar e segurar tortuosas e pequenas adagas perto dos dedos mindinhos dos ps todas as noites, na esperana de que ele mudasse de posio. Que tipo de desvantagem poderia ser chegar ao mundo de costas? Depois de dez minutos, Alex bateu na porta do banheiro. -- Nadya? Ela encontrou a cliente em frente  pia, chorando. -- Nadya, o que foi? A mulher baixou a cabea, envergonhada. -- Acabei de ficar menstruada e no tenho dinheiro para comprar absorventes. Alex procurou uma moeda na bolsa para colocar na mquina da parede, mas, quando o tubo de papelo saiu da mquina, algo estalou dentro de sua cabea e ela entendeu que, apesar de aquele caso ter sido resolvido, ainda no estava encerrado. -- Me encontre l fora -- ela ordenou. -- Vou pegar o carro.

E ento ela levou Nadya at o Walmart -- a cena do crime -- e colocou trs caixas grandes de Tampax no carrinho. -- Do que mais voc precisa? -- De calcinhas -- sussurrou Nadya. -- Esta era minha ltima. Alex andou pelos corredores comprando camisetas, meias, calcinhas e pijamas para Nadya; calas, casacos, gorros e luvas para os filhos dela; caixas de biscoitos, sopa em lata, macarro e bolinhos. Desesperada, ela fez o que tinha de fazer naquele momento, apesar de ser exatamente o que a defensoria pblica aconselhava os advogados a no fazerem; mas ela estava completamente ciente de que nunca havia feito isso por um cliente e jamais o faria de novo. Gastou oitocentos dlares na mesma loja que havia dado queixa contra Nadya, porque era mais fcil consertar o que estava errado do que visualizar sua filha chegando a um mundo que a prpria Alex nem sempre conseguia suportar. A catarse terminou no momento em que ela entregou o carto ao caixa e ouviu a voz de Logan Rourke na mente. "Corao mole", era as sim que ele certa vez a chamara. Bem. Ele devia saber. Tinha sido o primeiro a parti-lo em pedaos. Muito bem, pensou Alex calmamente. Ento morrer  assim. Outra contrao percorreu seu corpo como balas arrebentando metal. Duas semanas antes, na consulta de trinta e sete semanas, Alex e Lacy tinham conversado sobre medicao para dor.

-- O que voc pensa sobre isso? -- perguntara Lacy, e Alex fizera uma piada: -- Acho que devia ser importada do Canad. Ela disse a Lacy que no pretendia usar medicao para dor, que queria um parto natural, que no era possvel que doesse tanto. Mas doa. Ela pensou em todas as aulas de parto que Lacy a obrigara a fazer -- em que ficava com a prpria Lacy, porque todas as outras mulheres tinham marido ou namorado para ajudar. Elas viram fotos de mulheres em trabalho de parto, mulheres com rostos vermelhos e dentes trincados, mulheres fazendo barulhos pr-histricos. Alex tinha zombado disso. Esto mostrando os piores casos, disse para si mesma.As pessoas tm nveis diferentes de tolerncia  dor. A contrao seguinte se contorceu pela coluna dela como uma cobra, enrolou-se na barriga e fez os dentes se cerrarem. Alex caiu de joelhos no cho da cozinha. Nas aulas, ela aprendera que o trabalho de parto podia durar doze horas ou mais. quela altura, se no estivesse morta, daria um tiro na cabea. Quando Lacy estava em treinamento para ser parteira, passou meses andando com uma rgua e medindo tudo. Agora, depois de anos de trabalho, conseguia bater o olho em um copo de caf e saber que tinha nove centmetros de dimetro, que a laranja ao lado do telefone na rea de enfermagem tinha oito. Ela tirou os dedos do meio das pernas de Alex e retirou as luvas de ltex.

-- Voc est com dois centmetros -- disse, e Alex caiu no choro. -- S dois? No vou conseguir fazer isso -- ofegou Alex, retorcendo a coluna para fugir da dor. Ela tinha tentado esconder o desconforto atrs da mscara da competncia que costumava usar, mas acabou percebendo que, na pressa, devia t-la esquecido em algum lugar. -- Sei que voc est decepcionada -- disse Lacy -- , mas o negcio  o seguinte: voc est tima. Sabemos que, quando a mulher est bem aos dois centmetros, tambm estar aos oito. Vamos encarar uma contrao de cada vez. O trabalho de parto era difcil para todo mundo, Lacy sabia, mas especialmente para as mulheres que tinham expectativas, listas e planos, porque nunca era do jeito que elas achavam que ia ser. Para ter um bom trabalho de parto, era preciso deixar o corpo assumir, em lugar da mente. Revelar-se at as partes mais esquecidas. Para algum como Alex, que estava to acostumada a estar no controle de tudo, isso podia ser arrasador. O sucesso s vinha  custa de perder a aparncia de tranquilidade, com o risco de se transformar em algum que ela no queria ser. Lacy a ajudou a sair da cama e a guiou para a sala de hidromassagem. Baixou a luz, colocou msica instrumental e desamarrou a camisola da paciente. Alex j tinha passado do ponto da vergonha; quela altura, Lacy concluiu que ela tiraria a roupa na frente de uma populao prisional masculina inteira se isso garantisse que as contraes parariam. -- Pode entrar -- disse Lacy, deixando que Alex se apoiasse nela enquanto afundava na hidromassagem. Havia uma reao pavloviana  gua quente; s vezes, o simples fato de entrar na banheira diminua os batimentos cardacos.

-- Lacy -- ofegou Alex -- , voc tem que me prometer... -- Prometer o qu? -- Que no vai contar pra ela. Pro beb. Lacy segurou a mo de Alex. -- Contar o qu? Alex fechou os olhos e encostou a bochecha na beirada da banheira. -- Que no comeo eu no a queria. Antes de ela poder responder, Lacy viu a tenso tomar conta da amiga. -- Vamos respirar fundo agora -- disse ela. Sopre a dor pra longe de voc, sopre-a entre as mos, imagine-a como a cor vermelha. Fique de quatro. Puxe-se para dentro, como areia em uma ampulheta. V para a praia, Alex. Deite na areia e sinta como o sol est quente. Minta para si mesma at que seja verdade. Quando est com muita dor, voc se recolhe. Lacy tinha visto isso mil vezes. A endorfina faz efeito -- a morfina natural do corpo -- e leva voc para bem longe, aonde a dor no consegue chegar. Uma vez, uma paciente que tinha sofrido abuso se afastou to intensamente que Lacy teve medo de no conseguir fazer contato de novo e traz-la a tempo de fazer fora. Ela acabou cantando uma cantiga de ninar em espanhol para a mulher. Havia trs horas que Alex tinha se recomposto, graas ao anestesista, que lhe aplicou uma peridural. Ela dormiu por um tempo e jogou cartas com Lacy. Mas agora o beb tinha baixado e ela estava comeando a ter fortes contraes.

-- Por que est doendo de novo? -- perguntou, com o tom de voz aumentando. --  assim que a peridural funciona. Se aumentarmos a dose, voc no consegue fazer fora. -- No posso ter um beb -- disse Alex. -- No estou pronta. -- Bom -- disse Lacy -- , talvez devssemos falar sobre isso. -- Onde eu estava com a cabea? O Logan estava certo, eu no sei que diabos estou fazendo. No sou me, sou advogada. No tenho namorado, no tenho cachorro... no tenho nem uma planta que eu no tenha matado. Nem sei como colocar uma fralda. -- O desenho fica na frente -- disse Lacy, segurando a mo de Alex e colocando-a entre as pernas, onde o beb estava coroando. Alex afastou a mo rapidamente. -- Isso ...? -- . -- Ele est saindo? -- Quer voc esteja pronta ou no. E veio outra contrao. -- Ah, Alex, estou vendo as sobrancelhas... -- disse Lacy, puxando o beb delicadamente pelo canal de parto, mantendo a cabea flexionada. -- Sei como queima... aqui est o queixo dela... que linda... -- Ela limpou o rosto do beb e fez suco na boca. Ento passou o cordo acima do

pescoo do beb e olhou para a amiga. -- Alex -- disse ela -- , vamos fazer isso juntas. Lacy guiou as mos trmulas de Alex para aninharem a cabea do beb. -- Fique assim; vou empurrar pra baixo pra pegar os ombros... Quando o beb deslizou para as mos de Alex, Lacy o soltou. Aliviada e soluando, Alex aninhou contra o peito o pequeno corpo que se contorcia. Como sempre, Lacy ficou tocada ao ver quanto um recmnascido  disponvel, quanto ele  presente. Ela esfregou a base das costas do beb e observou os olhos azuis enevoados observarem primeiro a me. -- Alex -- disse Lacy -- , ela  toda sua.

Ningum quer admitir isso, mas coisas ruins vo continuar acontecendo. Talvez seja porque tudo  uma cadeia de eventos, e muito tempo atrs algum fez a primeira coisa ruim, e isso fez com que outra pessoa fizesse outra coisa ruim, e assim por diante. Como aquele jogo em que voc sussurra uma frase no ouvido de algum, e essa pessoa sussurra para outra, e no final sai tudo errado. Mas, por outro lado, talvez coisas ruins aconteam porque  o nico jeito de conseguirmos lembrar como so as coisas boas.

Horas depois
respondeu a verdade: quando estava no Maine, um cara tinha cometido suicdio se amarrando com arame ao trilho do trem; ele foi literalmente partido em dois. Havia sangue e partes do corpo para todos os lados; policiais experientes chegaram  cena do crime e comearam a vomitar nos arbustos. Patrick tinha se afastado para se recompor e se viu olhando para a cabea do homem, com a boca ainda arredondada em um grito silencioso. Aquela no era mais a pior coisa que Patrick tinha visto. Ainda havia alunos saindo da Sterling High enquanto equipes de emergncia comeavam a fazer buscas no prdio para cuidar dos feridos. Dezenas de crianas tinham cortes e hematomas por causa do tumulto, alguns estavam ofegantes ou histricos, e outros tantos estavam em choque. Mas a prioridade de Patrick era cuidar das vtimas dos tiros, que estavam deitadas no cho entre o refeitrio e o ginsio, com uma trilha de sangue que registrava os movimentos do atirador. O alarme de incndio ainda estava tocando, e os sprinklers criaram um rio no corredor. Embaixo da gua que caa do teto, dois paramdicos estavam inclinados sobre uma garota que tinha levado um tiro no ombro direito. -- Vamos coloc-la em uma maca -- disse o paramdico.

U

ma vez, em um bar, a melhor amiga de Patrick, Nina, perguntou qual era a pior coisa que ele j tinha visto. Ele

Patrick percebeu que a conhecia, e um tremor percorreu-lhe o corpo. Ela trabalhava na locadora da cidade. Na semana anterior, quando ele alugou Perseguidor implacvel , ela disse que ele tinha um dbito de 3,40 dlares. Ele a via todas as noites de sexta, quando alugava um DVD, mas nunca tinha perguntado o nome dela. Por que nunca perguntou? Enquanto a garota choramingava, o paramdico pegou uma caneta e escreveu "9" na testa dela. -- No temos identificao de todos os feridos -- ele disse a Patrick. -- Ento comeamos a numer-los. Quando a aluna foi colocada em uma maca, Patrick esticou a mo por cima dela para pegar uma manta plstica amarela antichoque, que todos os policiais tinham na parte de trs do carro. Ele a rasgou em pedaos, olhou para o nmero na testa da garota e escreveu um "9" correspondente em um dos quadrados. -- Deixe isso no lugar onde ela estava -- instruiu. -- Assim, mais tarde, podemos descobrir quem ela  e onde foi encontrada. Um paramdico esticou o pescoo numa quina do corredor. -- O Hitchcock disse que todos os leitos esto ocupados. Temos alunos em fila no gramado esperando, mas as ambulncias no tm pra onde ir. -- E o Alice Peck? -- Tambm est lotado. -- Ento ligue pra Concord e diga que as ambulncias esto indo pra l -- ordenou Patrick. Com o canto do olho, ele viu um paramdico que conhecia, um veterano que planejava se aposentar em trs meses, se desviar

de um corpo e afundar em um sof, chorando. Patrick agarrou a manga de um policial que estava passando. -- Jarvis, preciso da sua ajuda... -- Mas voc acabou de me mandar ir pro ginsio, capito. Patrick tinha dividido os policiais e as unidades criminais da polcia estadual, para que cada parte da escola tivesse uma equipe. Mas agora ele dava a Jarvis os outros pedaos da manta plstica e uma caneta preta. -- Esquea o ginsio. Quero que voc percorra toda a escola e fale com os paramdicos. Pra cada vtima que tenha sido numerada, voc coloca um pedao de manta numerado no lugar quando ela for transportada. -- Tem uma menina sangrando no banheiro feminino -- gritou uma voz. -- Estou indo -- disse um paramdico, pegando uma bolsa e correndo at l. Certifique-se de no ter esquecido nada, disse Patrick a si mesmo. Voc s tem a chance de fazer isso uma vez . A cabea dele parecia de vidro, pesada e fina demais para lidar com o peso de tanta informao. No dava para estar em todos os lugares ao mesmo tempo; ele no conseguia falar nem pensar rpido o bastante para mandar os homens para onde eles precisavam estar. No fazia a menor ideia de como processar um pesadelo to grande, mas tinha de fingir que sabia, porque todo mundo o via como a pessoa no comando. As portas duplas do refeitrio se fecharam atrs dele. quela altura, a equipe que trabalhava l j tinha avaliado e transportado os feridos; s os corpos ficaram para trs. As paredes de concreto estavam marcadas nos locais em que as balas as tinham perfurado ou raspado. Uma mquina de

bebidas, com o vidro quebrado e as garrafas furadas, derramava Sprite, Coca e gua no cho de linleo. Um dos tcnicos criminais fotografava as provas: mochilas largadas, bolsas e livros. Ele fotografava cada livro de perto, depois de longe, com uma pequena placa amarela para registrar sua localizao em relao ao resto da cena. Outro policial examinava padres de marcas de sangue. Um terceiro e um quarto apontavam para um ponto no canto superior direito do teto. -- Capito -- disse um deles -- , parece que temos uma cmera de vdeo. -- Onde est o gravador? O policial deu de ombros. -- Na sala do diretor, provavelmente? -- V descobrir -- disse Patrick. E foi andando pelo corredor principal do refeitrio.  primeira vista, parecia um filme de fico cientfica: todo mundo estava comendo, conversando e brincando com os amigos, e, num piscar de olhos, todos os humanos foram abduzidos por aliengenas, deixando apenas os artefatos para trs. O que um antroplogo no diria sobre o corpo estudantil da Sterling High, baseado nos sanduches com apenas uma mordida; nos tubos de gloss labial com uma marca de dedo ainda na superfcie; nos cadernos repletos de folhas sobre a civilizao asteca e notas sobre a situao do momento: "Eu amo Zach S!!!" "O sr. Keifer  um nazista!!!" Patrick bateu com o joelho em uma das mesas e um punhado de uvas se espalhou. Uma quicou no ombro de um garoto cado por cima do fichrio, com o sangue encharcando o papel pautado. A mo do garoto ainda segurava os culos com fora. Ser que ele os limpava quando Peter

Houghton chegou e comeou o ataque? Ser que os tirou porque no queria ver? Patrick passou por cima do corpo de duas garotas que estavam cadas no cho como gmeas idnticas, com as minissaias puxadas para o alto das coxas e os olhos ainda abertos. Ao andar at a rea da cozinha, olhou as bandejas de ervilhas cinzentas e cenouras e o amontoado mido do empado de frango; a exploso de pacotes de sal e pimenta que manchava o cho como confete. As tampas metlicas e brilhantes dos iogurtes Yoplait -- morango, frutas vermelhas, limo e pssego -- , que ainda estavam milagrosamente enfileirados perto da caixa registradora, como um pequeno exrcito impassvel. Uma bandeja velha de plstico, com um prato de gelatina e um guardanapo em cima, esperando para receber o resto da refeio. De repente, Patrick ouviu um barulho. Ser que ele poderia ter cometido um erro, ser que eles todos poderiam ter deixado passar um segundo atirador? Ser que sua equipe estava procurando sobreviventes na escola... e correndo risco de vida? Ele puxou a arma e entrou na cozinha, passando por prateleiras com imensas latas de molho de tomate, vagem e queijo nacho processado, enormes rolos de plstico PVC e alumnio, at chegar  sala refrigerada onde as carnes e os laticnios ficavam guardados. Patrick chutou a porta e o ar frio atingiu suas pernas. -- Parado! -- gritou e, por um breve momento, antes de se lembrar do resto, ele quase sorriu. Uma servente latina de meia-idade, usando uma rede de cabelo que lhe descia pela testa como uma teia de aranha, saiu de detrs de uma pilha de sacos de salada. Com as mos erguidas, ela tremia.

-- No me tire -- disse, soluando. Patrick baixou a arma, tirou a jaqueta e a colocou nos ombros da mulher. -- Acabou -- disse ele para acalm-la, embora soubesse que no era completamente verdade. Para ele, para Peter Houghton, para toda Sterling... era apenas o comeo. -- Deixe-me ver se eu entendi, sra. Calloway -- disse Alex. -- A senhora est sendo acusada de dirigir com negligncia e causar srios danos corporais enquanto se inclinava para ajudar um peixe? A r, uma mulher de cinquenta e quatro anos com permanente ruim e um terninho pior ainda, assentiu. -- Correto, Meritssima. Alex se inclinou sobre os cotovelos na mesa. -- Preciso ouvir isso. A mulher olhou para o advogado. -- A sra. Calloway estava indo para casa depois de sair da loja de animais com um aruan prateado -- disse o advogado. --  um peixe tropical de cinquenta e cinco dlares, Meritssima -- disse a r. -- O saco plstico rolou do banco do passageiro e estourou. A sra. Calloway esticou a mo para pegar o peixe e foi quando... o infeliz incidente aconteceu.

-- Por infeliz incidente -- esclareceu Alex, olhando para o arquivo -- , o senhor quer dizer atropelar um pedestre. -- Sim, Meritssima. Alex se virou para a r. -- Como est o peixe? A sra. Calloway sorriu. -- Est timo -- disse. -- Dei a ele o nome de Crash. Com o canto do olho, Alex viu um meirinho entrar no tribunal e sussurrar para o auxiliar, que olhou para Alex e assentiu. Ele escreveu alguma coisa em um pedao de papel e o meirinho andou at ela. "Tiroteio na Sterling High", ela leu. Alex ficou imvel como uma pedra. Josie. -- A corte est em recesso -- sussurrou e saiu correndo. John Eberhard trincou os dentes e se concentrou em se mover mais dois centmetros para frente. No conseguia ver com todo o sangue que descia pelo rosto, e seu lado esquerdo estava completamente inutilizado. Tambm no conseguia escutar -- os ouvidos ainda zuniam com o estouro do disparo. Mesmo assim, conseguiu rastejar do corredor de cima, onde Peter Houghton atirara nele, at uma sala de materiais de arte. Pensou nos treinos em que o tcnico os fazia patinar de uma linha do gol  outra, cada vez mais rpido, at ficarem ofegantes e cuspindo no gelo. Pensou no modo como, quando voc achava que no tinha mais nada para dar, encontrava um tantinho mais. Arrastou-se mais um pouco, enfiando os cotovelos no cho.

Quando chegou s prateleiras de metal com argila, tinta, miangas e arame, tentou se levantar, mas uma dor cegante atravessou-lhe a cabea. Minutos depois -- ou seriam horas? -- , ele voltou  conscincia. No sabia se j era seguro olhar para fora. Estava deitado de costas, e uma coisa fria tocava-lhe o rosto. Vento. Vindo de uma rachadura na janela. Uma janela. John pensou em Courtney Ignatio: em como ela estava sentada  frente dele na mesa do refeitrio quando a parede de vidro atrs dela estourou; de repente, havia uma flor se abrindo no meio do peito dela, brilhante como uma papoula. Pensou em como cem gritos, todos de uma vez, viraram uma corrente de sons. Lembrou-se de professores colocando a cabea para fora da sala de aula como esquilos, e do olhar no rosto deles quando ouviram os tiros. John se apoiou nas prateleiras com uma das mos, lutando contra o zumbido sombrio que dizia que ele ia desmaiar novamente. Quando conseguiu ficar de p e se apoiar na estante de metal, estava tremendo. A viso estava to embaada que, quando ele pegou uma lata de tinta e a jogou, teve de escolher entre duas janelas. O vidro quebrou. Dobrado sobre a beirada, ele conseguiu ver carros de bombeiro e ambulncias. Reprteres e pais empurrando a fita protetora da polcia. Amontoados de alunos chorando. Corpos feridos, espalhados como os trilhos de um trem sobre a neve. Paramdicos levando mais pessoas para fora. Socorro, John Eberhard tentou gritar, mas no conseguiu formar a palavra. No conseguia formar nenhuma palavra, nem olhe, nem pare, nem mesmo seu prprio nome.

-- Ei -- algum gritou. -- Tem um garoto l em cima! Chorando, John tentou acenar, mas o brao no obedeceu. As pessoas comearam a apontar. -- Fique a -- gritou um bombeiro, e John tentou assentir. Mas seu corpo no lhe pertencia mais, e, antes de se dar conta do que tinha acontecido, aquele pequeno movimento o impulsionou pela janela e ele caiu no concreto dois andares abaixo. Diana Leven, que tinha deixado o emprego de subprocuradora-geral em Boston dois anos antes para entrar para um departamento mais tranquilo e harmonioso, entrou no ginsio da Sterling High e parou ao lado do corpo de um garoto que tinha cado diretamente na linha de trs pontos depois de levar um tiro no pescoo. Os sapatos dos tcnicos que estavam processando a cena do crime assobiaram no piso envernizado ao tirarem fotos e pegarem cartuchos de bala, colocando-as em sacos plsticos de provas. Quem os estava orientando era Patrick Ducharme. Diana olhou ao redor para a enorme quantidade de provas -- roupas, armas, manchas de sangue, balas atiradas, livros, tnis perdidos -- e se deu conta de que no era a nica com um enorme trabalho pela frente. -- O que voc sabe at agora? -- Achamos que  um atirador s. J est preso -- disse Patrick. -- No sabemos se tinha mais algum envolvido. O prdio est seguro. -- Quantos mortos? -- Dez confirmados. Diana assentiu.

-- Feridos? -- Ainda no sabemos. Todas as ambulncias de New Hampshire esto aqui. -- O que posso fazer? Patrick se virou para ela. -- Armar o circo e se livrar das cmeras. Ela saiu andando, mas Patrick segurou o brao dela. -- Quer que eu fale com ele? -- Com o atirador? Patrick assentiu. -- Pode ser a nica chance que temos antes de ele estar com um advogado. Se voc achar que consegue escapar daqui, v em frente. Diana saiu rapidamente do ginsio e desceu a escada, tomando cuidado para se desviar do trabalho dos policiais e dos paramdicos. Assim que saiu do prdio, a mdia grudou nela, com perguntas atormentando como picadas de abelha. "Quantas vtimas?" "Quais os nomes dos mortos?" "Quem  o atirador?" "Por qu?" Diana respirou fundo e tirou o cabelo escuro do rosto. Era a parte de que menos gostava no trabalho, ser a porta-voz diante das cmeras. Embora mais vans fossem chegar ao longo do dia, naquele momento s

havia a mdia local de New Hampshire: afiliadas da CBS, da ABC e da FOX. Era melhor aproveitar a vantagem do pessoal da cidade enquanto podia. -- Meu nome  Diana Leven e trabalho na procuradoria-geral. No podemos liberar nenhuma informao no momento, porque h uma investigao ainda em andamento, mas prometemos dar detalhes assim que possvel. O que posso dizer agora  que houve um tiroteio na escola Sterling High nesta manh. No est claro quem foi o criminoso, ou criminosos. Uma pessoa foi presa. Ainda no h acusaes formais. Uma reprter forou caminho at a frente do grupo. -- Quantos alunos morreram? -- Ainda no temos essa informao. -- Quantos foram atingidos? -- Ainda no temos essa informao -- repetiu Diana. -- Vamos mant-los informados. -- Quando sero feitas as acusaes? -- gritou outro jornalista. -- O que voc pode dizer para os pais que querem saber se seus filhos esto bem? Diana apertou os lbios, formando uma linha fina, e se preparou para passar pelo grupo. -- Muito obrigada -- disse ela, o que no era uma resposta. Lacy teve de estacionar a seis quadras da escola, de to cheia que estava a rea. Saiu correndo, segurando os cobertores que os locutores da rdio local pediram que as pessoas levassem para as vtimas em choque. J perdi um filho, pensou ela. No posso perder outro.

A ltima conversa que ela teve com Peter foi uma discusso. Foi antes de ele ir dormir na noite anterior, antes de ela ser chamada para um parto. -- Eu pedi que voc tirasse o lixo -- dissera ela. -- Ontem. Voc no me escuta quando falo com voc, Peter? Peter tinha erguido o olhar da tela do computador. -- O qu? E se aquela acabasse sendo a ltima coisa que disseram um para o outro? Nada que Lacy tinha visto na faculdade de enfermagem ou no trabalho no hospital a tinha preparado para o que viu quando dobrou a esquina. Avaliou o cenrio em partes: vidro quebrado, carros de bombeiro, fumaa. Sangue, choro, sirenes. Colocou os cobertores perto de uma ambulncia e entrou em um mar de confuso, juntando-se aos outros pais na esperana de encontrar o filho perdido antes de ser tomado pela mar. Havia crianas correndo pelo ptio lamacento. Nenhuma estava de casaco. Lacy viu uma me sortuda encontrar a filha e observou a multido loucamente,  procura de Peter, ciente de que nem sabia o que ele estava vestindo no dia. Trechos de conversas chegaram at ela: "... no o vi..." "... o sr. McCabe levou um tiro..." "... ainda no a encontrei..." "... achei que nunca mais..."

"... perdi meu celular quando..." "... Peter Houghton estava..." Lacy se virou, concentrando-se na garota que estava falando, a que tinha reencontrado a me. -- Com licena -- disse Lacy. -- Meu filho... estou tentando encontr-lo. Ouvi voc falar o nome dele. Peter Houghton? Os olhos da garota se arregalaram e ela chegou mais perto da me. -- Era ele quem estava atirando. Tudo ao redor de Lacy ficou lento: as luzes das ambulncias, o ritmo dos alunos que corriam, os sons que saam dos lbios da garota. Talvez no tivesse escutado direito. Ela olhou para a garota de novo e imediatamente desejou no ter olhado. A garota estava chorando. Por cima do ombro dela, a me olhava para Lacy horrorizada, virando-se com cuidado para proteger a filha da viso, como se Lacy fosse um basilisco -- como se o olhar dela pudesse transformar algum em pedra. Deve ser um engano, por favor, s pode ser um engano , pensou ela na mesma hora em que olhou para a carnificina ao redor e sentiu o nome de Peter inchar como um soluo na garganta. Desajeitadamente, aproximou-se do policial mais prximo. -- Estou procurando meu filho -- disse Lacy. -- Minha senhora, a senhora no  a nica. Estamos fazendo o melhor que podemos para...

Ela respirou fundo, ciente de que, daquele momento em diante, tudo seria diferente. -- O nome dele -- disse ela --  Peter Houghton. O salto de Alex ficou preso em um vo na calada e ela caiu de joelhos. Lutando para se reerguer, agarrou o brao de uma me que estava correndo perto dela. -- Os nomes dos feridos... onde esto? -- No rinque de hquei. Alex correu para o outro lado da rua, que tinha sido bloqueada para carros e agora era uma rea de triagem para a equipe mdica colocar os alunos em ambulncias. Quando os sapatos comearam a atrapalhar -- eles eram feitos para um tribunal fechado, no para correr na rua -- , ela se abaixou e os tirou, correndo de meias pela calada molhada. O rinque de hquei, que era compartilhado pelo time da Sterling High School e pelos jogadores da faculdade, ficava a uma caminhada de cinco minutos da escola. Alex chegou l em dois minutos e se viu sendo empurrada por uma multido de pais determinados a ver as listas manuscritas que tinham sido coladas nos painis das portas, listas de adolescentes levados para os hospitais locais. No havia indicao da gravidade dos ferimentos... nem de coisa pior. Alex leu os primeiros trs nomes: Whitaker Obermeyer. Kaitlyn Harvey. Matthew Royston. Matt? -- No -- disse uma mulher ao lado dela. Ela era pequena, tinha olhos intensos e escuros como os de um pssaro e cabelo vermelho. -- No -- repetiu, mas dessa vez as lgrimas j tinham comeado a cair.

Alex olhou para ela, incapaz de oferecer consolo, por medo de a dor ser contagiosa. De repente, foi empurrada com fora pela esquerda e se viu de frente para uma lista de feridos que tinham sido levados para o Centro Mdico Dartmouth-Hitchcock. Alexis, Emma. Horuka, Min. Pryce, Brady. Cormier, Josephine. Alex teria cado, se no fosse a presso dos pais ansiosos que a ladeavam. -- Com licena -- murmurou, dando lugar a outra me frentica e se esforando para passar pela crescente multido. -- Com licena -- ela repetiu, palavras que no eram mais um discurso educado, mas um apelo por absolvio. -- Capito -- disse um sargento quando Patrick entrou na delegacia e olhou para a mulher que estava esperando do outro lado da sala, tensa e determinada. --  ela. Patrick se virou. A me de Peter Houghton era pequena e no parecia nada com o filho. Tinha vrios cachos escuros presos no alto da cabea com uma caneta. Usava uniforme hospitalar e um par de tamancos de borracha. Ele se perguntou rapidamente se ela era mdica. Pensou na ironia disso: Antes de tudo, no fazer mal. Ela no parecia uma pessoa que tinha criado um monstro, embora Patrick soubesse que podia ter sido pega de surpresa pelas aes do filho tanto quanto o resto da comunidade.

-- Sra. Houghton? -- Quero ver meu filho. -- Infelizmente,  impossvel -- respondeu Patrick. -- Ele est sob custdia. -- Ele tem advogado. -- Seu filho tem dezessete anos. Legalmente,  um adulto. Isso

significa que ele mesmo ter que exigir o direito de ter um advogado. -- Mas ele pode no saber... -- disse ela, com a voz falhando. -- Ele pode no saber que  isso que precisa fazer. Patrick sabia que, de uma forma diferente, aquela mulher tambm era vtima das aes do filho. Ele j interrogara muitas vezes pais de menores para saber que a ltima coisa que ele deveria fazer era fechar uma porta. -- Senhora, estamos fazendo nosso melhor para entender o que aconteceu hoje. E, honestamente, espero que esteja disposta a conversar comigo mais tarde, para me ajudar a entender o que estava passando pela cabea do Peter. -- Ele hesitou e acrescentou: -- Eu sinto muito. Ele entrou na rea reservada da delegacia usando as chaves e subiu correndo as escadas para a sala de registro, com a cela adjacente. Peter Houghton estava sentado no cho com as costas apoiadas nas barras, balanando-se devagar. -- Peter -- Patrick chamou. -- Voc est bem? O garoto virou a cabea lentamente e olhou para ele. -- Voc se lembra de mim?

Peter assentiu. -- Quer uma xcara de caf ou alguma outra coisa? Uma hesitao, e o garoto assentiu de novo. Patrick chamou o sargento para abrir a cela de Peter e o levou at a cozinha. J tinha mandado montar uma cmera, para, se fosse necessrio, ter a gravao do consentimento verbal de Peter quanto aos seus direitos e, assim, faz-lo falar. L dentro, convidou-o para se sentar  mesa cheia de marcas e serviu duas xcaras de caf. No perguntou como ele gostava -- apenas acrescentou acar e leite e colocou a xcara na frente dele. Patrick tambm se sentou. Ele no tinha dado uma boa olhada no garoto antes -- a adrenalina faz isso com a viso --, mas naquele momento o olhava fixamente. Peter Houghton era pequeno, magro, plido, usava culos com aro de metal e tinha sardas. Um dos dentes da frente era torto, e o pomo de ado era do tamanho de um punho. Os ns dos dedos eram grossos e estavam rachados. Ele estava chorando em silncio, o que poderia ter sido o bastante para despertar solidariedade se ele no estivesse usando uma camiseta manchada com o sangue de outros alunos. -- Est se sentindo bem, Peter? -- perguntou Patrick. -- Est com fome? O garoto balanou a cabea. -- Quer mais alguma coisa? Peter colocou a cabea sobre a mesa. -- Quero minha me -- sussurrou.

Patrick olhou para a diviso no cabelo do garoto. Ser que ele o tinha penteado naquela manh pensando:  hoje que vou matar dez alunos? -- Eu gostaria de falar sobre o que aconteceu hoje. Voc est disposto a fazer isso? Peter no respondeu. -- Se voc explicar pra mim -- encorajou Patrick -- , talvez eu possa explicar pra todo mundo. Peter ergueu o rosto, chorando de verdade agora. Patrick sabia que aquilo no ia dar em nada, ento suspirou e se afastou da mesa. -- Tudo bem -- disse. -- Vamos. Ele levou Peter de volta  cela e o viu se encolher no canto, virado para a parede de cimento. Ajoelhou-se ao lado do garoto em uma ltima tentativa. -- Me ajude a ajudar voc -- disse ele, mas Peter s balanou a cabea e continuou chorando. Somente quando Patrick saiu da cela e girou a chave na fechadura, ouviu Peter falar de novo. -- Foram eles que comearam -- ele sussurrou. O dr. Guenther Frankenstein trabalhava como legista do estado havia seis anos, exatamente o mesmo tempo que deteve o ttulo de Mister Universo, no comeo dos anos 70, antes de trocar os halteres pelo bisturi -- ou, como ele gostava de dizer, mudou de construir corpos para desconstru-los. Seus msculos ainda eram bem definidos e bastante visveis por baixo da jaqueta para impedir qualquer piada de monstro que

inclusse seu sobrenome. Patrick gostava de Guenther. Como no admirar um sujeito que conseguia levantar trs vezes o peso do seu corpo e saber, s de olhar um fgado, quantos gramas ele pesava? De vez em quando, Patrick e Guenther tomavam umas cervejas juntos, e ento o ex-fisiculturista lhe contava histrias de mulheres que se ofereciam para passar leo em seu corpo antes de uma competio ou boas anedotas sobre Arnold antes de se tornar poltico. Mas, naquele dia, Patrick e Guenther no fizeram brincadeiras e no falaram do passado. Estavam sobrecarregados pelo presente enquanto caminhavam silenciosamente pelos corredores, catalogando os mortos. Patrick encontrou Guenther na escola depois da entrevista fracassada com Peter Houghton. A promotora s deu de ombros quando Patrick contou a ela que Peter no queria ou no conseguia falar. -- Temos centenas de testemunhas dizendo que ele matou dez

pessoas -- dissera Diana. -- Prenda-o. Guenther se agachou ao lado do sexto corpo. A garota tinha levado um tiro no banheiro feminino, e seu corpo estava esticado com o rosto para baixo em frente s pias. Patrick se virou para o diretor, Arthur McAllister, que tinha concordado em acompanh-los para fazer as identificaes. -- Kaitlyn Harvey -- disse o diretor com voz trmula. -- Era uma garota com necessidades especiais... menina meiga. Guenther e Patrick trocaram olhares. O diretor no apenas identificava os corpos; ele tambm fazia discursos fnebres de uma ou duas frases a cada um deles. Patrick supunha que o homem no conseguia evitar. Ao contrrio dele e de Guenther, o diretor no estava acostumado a lidar com a tragdia no curso de sua ocupao normal.

Patrick tinha tentado refazer os passos de Peter, desde o corredor da frente at o refeitrio (vtimas 1 e 2: Courtney Ignatio e Maddie Shaw), depois at a escadaria do lado de fora dele (vtima 3: Whit Obermeyer), para o banheiro masculino (vtima 4: Topher McPhee), por outro corredor (vtima 5: Grace Murtaugh), at o banheiro feminino (vtima 6: Kaitlyn Harvey). Agora, enquanto guiava a equipe para o andar de cima, virou  esquerda na primeira sala de aula, seguindo uma linha de sangue at um ponto perto do quadro-negro onde o corpo da nica vtima adulta estava... e, ao lado dele, um jovem com a mo pressionada com fora sobre o ferimento  bala na barriga do homem. -- Ben? -- disse McAllister. -- O que voc ainda est fazendo aqui? Patrick se virou para o garoto. -- Voc no  paramdico? -- Eu... no... -- Voc me disse que era paramdico! -- Eu disse que tinha treinamento mdico! -- O Ben  escoteiro -- disse o diretor. -- Eu no podia deixar o sr. McCabe. Eu... fiz presso, e est

funcionando, est vendo? O sangramento parou. Guenther tirou com delicadeza a mo coberta de sangue do garoto da barriga do professor. --  porque ele morreu, filho. O rosto de Ben desmoronou.

-- Mas eu... eu... -- Voc fez o melhor que podia -- afirmou Guenther. Patrick se virou para o diretor. -- Por que voc no leva o Ben l pra fora... para que um dos mdicos d uma olhada nele? -- Choque, ele disse sem emitir som por cima da cabea do garoto. Quando saam da sala de aula, Ben segurou a manga do diretor, deixando-lhe uma marca de mo vermelho-vivo. -- Meu Deus -- disse Patrick, passando a mo pelo rosto. Guenther ficou de p. -- Venha. Vamos acabar logo com isso. Eles andaram em direo ao ginsio, onde Guenther confirmou a morte de mais dois alunos -- um garoto negro e um branco -- , e depois seguiram para o vestirio onde Patrick encurralara Peter Houghton. Guenther examinou o corpo do garoto que Patrick tinha visto antes, o de camisa de hquei cujo bon fora arrancado da cabea por uma bala. Enquanto isso, Patrick andou at a rea dos chuveiros e olhou pela janela. Os reprteres ainda estavam l, mas a maior parte dos feridos tinha sido removida. S havia uma ambulncia esperando, em vez de sete. Tinha comeado a chover. Na manh seguinte, as manchas de sangue na calada da escola estariam claras; este dia poderia muito bem nunca ter acontecido. -- Interessante -- disse Guenther. Patrick fechou a janela por causa da chuva.

-- Por qu? Ele est mais morto do que os outros? -- Est.  a nica vtima que levou dois tiros. Um na barriga e um na cabea. -- Guenther olhou para ele. -- Quantas armas voc encontrou com o atirador? -- Uma na mo dele, uma no cho, aqui, e duas na mochila. -- Nada como ter um plano B. -- Nem me fale -- disse Patrick. -- Voc consegue saber que tiro foi disparado primeiro? -- No. Mas meu palpite profissional  que deve ter sido o da barriga... pois foi a bala no crebro que matou o garoto -- concluiu Guenther, ajoelhando-se ao lado do corpo. -- Talvez ele odiasse esse garoto mais do que todos os outros. A porta do vestirio foi aberta por um policial de rua encharcado pela chuva repentina. -- Capito? -- disse ele. -- Acabamos de encontrar outra bomba caseira no carro de Peter Houghton. Quando Josie era mais nova, Alex tinha um pesadelo recorrente de estar em um avio que caa com o nariz para baixo. Ela conseguia sentir a fora da gravidade, a presso que mantinha suas costas contra o assento; via bolsas, casacos e malas de mo saindo do compartimento superior e caindo no corredor. Tenho que pegar meu celular, ela pensava, com a inteno de deixar para Josie uma mensagem na secretria eletrnica que ela pudesse guardar para sempre, uma prova digital de que Alex a amava e estava pensando nela no momento final. Mas, ainda que ela conseguisse

pegar o celular na bolsa e ligar, o processo demorava demais. Ento ela batia o telefone no cho,  procura de sinal. Depois despertava, trmula e suada, ainda que superasse o sonho: raramente viajava sem a filha e no tomava voos a trabalho. Para afastar o mal-estar do pesadelo, ia ao banheiro jogar gua no rosto, mas isso no a impedia de pensar: Demorei demais . Agora, sentada na escurido silenciosa do quarto de hospital em que a filha dormia sob o efeito do sedativo, Alex se sentiu do mesmo jeito. O que ela conseguiu descobrir foi que Josie desmaiara durante o tiroteio. Teve um corte na testa, que estava com um curativo, e uma leve concusso. Os mdicos queriam que ela passasse a noite l em observao, por medida de segurana. Segurana tinha uma nova definio agora. Alex tambm descobriu, pela enorme cobertura da mdia, os nomes dos mortos. Um deles era Matthew Royston. Matt. Ser que Josie estava com o namorado quando ele foi baleado? Josie esteve inconsciente o tempo todo em que Alex ficou l. Estava frgil e imvel sob os lenis desbotados, com o lao do pescoo da camisola de hospital desamarrado. De tempos em tempos, a mo se mexia involuntariamente. Alex se esticou e a segurou. Acorde, pensou ela. Prove para mim que est bem. E se Alex no estivesse atrasada para o trabalho naquela manh? Ser que teria ficado  mesa da cozinha com Josie, conversando sobre as coisas

que imaginava que mes e filhas falavam, mas que ela parecia nunca ter tempo para falar? E se tivesse olhado melhor para Josie quando correu escada abaixo e falasse para ela voltar para a cama e descansar um pouco? E se tivesse levado Josie para uma viagem de ltima hora para Punta Cana, San Diego, Fiji, todos os lugares que Alex via no computador do trabalho e que pensava em visitar, mas nunca ia? E se tivesse sido uma me presciente naquele dia e no mandasse a filha para a escola?  claro que havia centenas de outros pais que tinham cometido o mesmo erro honesto que ela. Mas aquele era um conforto superficial para Alex: nenhum dos filhos deles era Josie. Nenhum deles tinha tanto a perder quanto ela. Quando isso acabar, prometeu Alex silenciosamente, vamos para uma floresta tropical, ou para as pirmides, ou para uma praia branca como um osso. Vamos comer uvas direto das parreiras, nadar com tartarugas marinhas, andar quilmetros em ruas de paraleleppedo. Vamos rir, conversar e confessar. Vamos . Ao mesmo tempo, uma pequena voz na cabea dela estava marcando a data desse paraso. Depois, disse a voz. Porque primeiro esse julgamento vai parar no seu tribunal. Era verdade: um caso desses seria encaminhado rapidamente. Alex era a juza da corte superior no condado de Grafton e continuaria a ser pelos meses seguintes. Apesar de Josie estar na cena do crime, no era tecnicamente vtima do atirador. Se Josie tivesse sido ferida, Alex seria removida automaticamente do caso. Mas, do jeito que as coisas tinham acontecido, no havia conflito legal em Alex ser a juza, desde que conseguisse separar seus sentimentos pessoais de me de uma aluna de

ensino mdio dos sentimentos profissionais como executora da justia. Seria seu primeiro grande julgamento como juza da corte superior, o que daria o tom para o restante de seu perodo no posto. No que ela estivesse realmente pensando nisso naquele momento. De repente, Josie se mexeu. Alex observou enquanto ela recuperava a conscincia at voltar completamente a si. -- Onde estou? Alex passou os dedos pelos cabelos da filha. -- No hospital. -- Por qu? A mo dela parou. -- Voc se lembra de alguma coisa sobre o dia de hoje? -- O Matt passou l em casa antes da aula -- disse Josie, e se sentou de repente. -- Aconteceu um acidente de carro? Alex hesitou, sem saber o que deveria dizer. No era melhor Josie saber a verdade? E se esse fosse o jeito de a mente dela se proteger do que tinha testemunhado? -- Voc est bem -- disse Alex cuidadosamente. -- No se feriu. Josie se virou para ela, aliviada. -- E o Matt? Lewis estava chamando um advogado. Lacy agarrou essa preciosa informao contra o peito como uma pedra quente enquanto se balanava

para frente e para trs e esperava que ele voltasse para casa. "Vai ficar tudo bem", prometera Lewis, embora ela no entendesse como ele podia fazer uma declarao to ilusria. "S pode ser um engano", ele dissera, mas no tinha ido  escola. No tinha visto o rosto dos alunos, crianas que jamais voltariam a ser crianas. Tinha uma parte de Lacy que queria tanto acreditar em Lewis -- queria pensar que, de alguma forma, aquela situao deplorvel podia ser consertada. Mas havia outra parte dela que se lembrava dele acordando Peter s quatro horas da manh para caar patos. Lewis tinha ensinado o filho a caar, sem esperar que Peter fosse encontrar um tipo de presa diferente. Lacy via a caa como um esporte e uma exigncia evolutiva; ela at sabia fazer um timo ensopado de carne de cervo e teriyaki de ganso, e apreciava qualquer refeio que o hobby de Lewis colocasse na mesa. Mas, naquele momento, pensou:  culpa dele, porque assim no podia ser culpa dela. Como voc podia trocar a roupa de cama de um garoto toda semana, preparar-lhe o caf da manh, lev-lo ao ortodontista e no o conhecer? Ela tinha suposto que, se as respostas de Peter eram monossilbicas, era por causa da idade. Qualquer me teria feito a mesma suposio. Lacy fez uma busca em suas lembranas para ver se encontrava algum sinal, alguma conversa que pudesse ter entendido errado, alguma coisa em que no tivesse prestado ateno, mas s conseguia se lembrar de mil momentos comuns. Mil momentos comuns que algumas mes jamais voltariam a ter com seus filhos.

Lgrimas surgiram em seus olhos; ela as limpou com o dorso da mo. No pense nelas, repreendeu-se silenciosamente. Neste momento, voc precisa se preocupar consigo mesma . Ser que Peter tambm estava pensando isso? Lacy engoliu em seco e entrou no quarto do filho. Estava escuro, com a cama feita, do jeito que Lacy tinha deixado de manh, mas agora ela viu o pster de uma banda chamada Death Wish na parede e se perguntou por que um garoto o penduraria ali. Abriu o armrio e viu garrafas vazias, fita adesiva isolante, retalhos rasgados e tudo que passara despercebido. De repente, Lacy parou. Podia consertar aquilo tudo. Podia consertar para os dois. Correu para a cozinha e arrancou trs sacos de lixo de cento e vinte e cinco litros do rolo antes de voltar correndo para o quarto de Peter. Comeou no armrio, enfiando pacotes de cadaros, acar, fertilizante de nitrato de potssio e -- meu Deus, canos? -- no primeiro saco. No tinha planejado o que faria com todas aquelas coisas, mas tiraria tudo de casa. Quando a campainha tocou, Lacy suspirou aliviada, esperando que fosse Lewis -- embora, se estivesse pensando claramente, teria se dado conta de que ele teria simplesmente entrado. Abandonou a baguna, desceu a escada e encontrou um policial segurando uma pasta azul e fina. -- Sra. Houghton? -- ele perguntou. O que eles podiam querer? J estavam com o filho dela. -- Temos um mandado de busca. -- Ele lhe entregou a papelada e passou por ela, seguido de outros cinco policiais. -- Jackson e Walhorne, sigam para o quarto do garoto. Rodriguez, para o poro. Tewes e Gilchrist,

comecem no trreo. Precisamos checar tambm as secretrias eletrnicas e os computadores... Em seguida, ele reparou que Lacy ainda estava ali de p, chocada. -- Sra. Houghton, a senhora ter que sair da casa. O policial a acompanhou at o corredor da frente. Entorpecida, Lacy se deixou levar. O que pensariam quando chegassem ao quarto de Peter e encontrassem aquele saco de lixo? Ser que culpariam o garoto? Ou ela, por permitir que ele fizesse o que fez? Ser que j a culpavam? Uma corrente de ar frio bateu no rosto de Lacy quando a porta da frente se abriu. -- Por quanto tempo? O policial deu de ombros. -- At terminarmos -- ele respondeu, deixando-a no frio, do lado de fora. Jordan McAfee era advogado havia quase vinte anos e realmente acreditava ter visto de tudo at aquele momento, quando ele e a esposa, Selena, assistiam pela televiso  cobertura da CNN do tiroteio na Sterling High. --  como Columbine -- disse Selena. -- No nosso quintal. -- S que agora -- murmurou Jordan -- ainda h uma pessoa viva pra levar a culpa.

Ele olhou para o beb nos braos da esposa, uma mistura de olhos azuis e pele cor de caf de seus genes brancos de origem norte-europeia e dos membros enormes e pele de bano de Selena. Ento pegou o controle remoto para baixar o volume, caso o filho estivesse absorvendo alguma coisa subconscientemente. Jordan conhecia a Sterling High. Ficava na mesma rua do barbeiro que ele frequentava e a duas quadras da sala que alugava como escritrio, no andar de cima do banco. Ele fora o advogado de alguns alunos flagrados com maconha no porta-luvas e de menores surpreendidos com bebidas alcolicas na faculdade da cidade. Selena, que no era apenas sua esposa, mas tambm sua investigadora, costumava ir  escola de tempos em tempos para conversar com os adolescentes sobre algum caso. Eles no moravam ali havia muito tempo. O filho dele, Thomas -- a nica coisa boa que resultara do malfadado primeiro casamento -- , tinha terminado o ensino mdio em Salem Falls e agora estava no segundo ano em Yale, onde Jordan gastava quarenta mil dlares por ano para ouvir que ele tinha reduzido seus planos de carreira para se tornar artista, historiador da arte ou palhao profissional. Jordan tinha finalmente pedido Selena em casamento, e, depois que ela engravidou, eles se mudaram para Sterling -- porque as escolas de l tinham uma reputao muito boa. Vai entender. Quando o telefone tocou, e Jordan -- que no queria ver a cobertura, mas no conseguia afastar os olhos da televiso -- no se mexeu para atender, Selena colocou o beb nos braos dele e pegou o fone. -- Al -- disse ela. -- Como vai? Jordan ergueu o olhar e levantou as sobrancelhas.

Thomas, ela disse, apenas com o movimento dos lbios. -- Ah, um momento, ele est aqui. Ele pegou o telefone da mo de Selena. -- Que diabos est acontecendo? -- perguntou Thomas. -- A Sterling High est no MSNBC.com. -- No sei nada mais do que voc -- disse Jordan. --  um pandemnio. -- Conheo alguns alunos de l. Competimos contra eles no

atletismo.  que... no parece real. Jordan ainda conseguia ouvir as sirenes das ambulncias ao longe. -- Mas  real -- disse ele. Houve um clique na linha, uma chamada em espera. -- Um minuto, tenho que atender outra ligao. --  o sr. McAfee? -- Sim... -- Eu, humm... soube que voc  advogado. Peguei seu nome com Stuart McBride, da Faculdade Sterling... Na televiso, uma lista de nomes dos mortos confirmados comeou a aparecer, ao lado de fotos do anurio. --  que estou na linha com outra pessoa -- disse Jordan. -- Voc pode me dar seu nome e nmero pra eu ligar depois?

-- Eu queria saber se voc pode ser o advogado do meu filho -- disse o homem. --  o garoto que... o da escola que... -- A voz gaguejou e falhou. -- Esto dizendo que foi o meu filho quem fez aquilo. Jordan pensou na ltima vez em que representou um adolescente. Como esse, Chris Harte tinha sido encontrado com uma arma quente nas mos. -- Voc... voc aceita o caso dele? Jordan esqueceu que Thomas estava esperando. Esqueceu Chris Harte e como o caso quase o virou do avesso. Em vez disso, olhou para Selena e para o beb nos braos dela. Sam se mexeu e segurou o brinco da me. Esse garoto, o que entrou na Sterling High aquela manh e cometeu um massacre, era filho de algum. E, apesar de uma cidade que sofreria durante anos, e da cobertura da mdia, que j tinha chegado ao ponto de saturao, ele merecia um julgamento justo. -- Aceito -- disse Jordan. -- Aceito sim. Finalmente, depois que o esquadro antibombas desarmou a bomba caseira no carro de Peter Houghton; depois que cento e dezesseis cartuchos de bala foram encontrados espalhados pela escola; depois que o pessoal da reconstituio comeou a medir as provas e a localizao dos corpos para poder produzir um diagrama da cena; depois de os tcnicos criminais tirarem as primeiras centenas de fotos que colocariam em lbuns indexados, Patrick reuniu todo mundo no auditrio da escola e ficou em p no palco,  meia-luz. -- O que temos  uma quantidade gigantesca de informao -- disse ele para a multido reunida  sua frente. -- Haver muita presso sobre

ns para que tudo seja feito rpido e sem erros. Quero todo mundo aqui de novo em vinte e quatro horas, para que possamos ver onde estamos. As pessoas comearam a ir embora. Na reunio seguinte, Patrick receberia os lbuns de fotos completos, todas as provas que no fossem enviadas para o laboratrio e uma lista do que havia sido levado. Em vinte e quatro horas, estaria to enterrado na avalanche que no saberia qual lado era o de cima. Enquanto outros voltavam para vrias partes do prdio para completar o trabalho que ocuparia a noite inteira e o dia seguinte, Patrick andou at o carro. Tinha parado de chover, e ele planejava voltar para a delegacia e verificar as evidncias que tinham sido coletadas na casa dos Houghton, e tambm queria conversar com os pais, se ainda estivessem dispostos. Mas se viu seguindo com o carro em direo ao centro mdico e estacionando. Andou at a entrada de emergncia e mostrou o distintivo. -- Olha -- disse para a enfermeira -- , sei que voc recebeu muitos adolescentes hoje. Mas um dos primeiros foi uma garota chamada Josie. Estou tentando encontr-la. A enfermeira colocou as mos sobre o teclado do computador. -- Josie de qu? -- Esse  o problema -- ele admitiu. -- No sei. A tela se encheu de informaes e a enfermeira bateu com o dedo na tela. -- Cormier. Est no quarto andar, quarto 422. Patrick agradeceu e pegou o elevador para subir. Cormier. O nome era familiar, mas ele no conseguiu identificar de incio. Afinal, era bem

comum, concluiu. Talvez tivesse lido no jornal ou visto em um programa de TV. Ele passou pela estao das enfermeiras e seguiu os nmeros pelo corredor. A porta do quarto de Josie estava entreaberta. A garota estava sentada na cama, envolvida pelas sombras, falando com algum de p ao lado dela. Patrick bateu de leve e entrou no quarto. Josie olhou para ele sem entender; a mulher ao lado dela se virou. Cormier, percebeu Patrick. De juza Cormier. Ele tinha sido chamado para testemunhar no tribunal dela algumas vezes antes que ela se tornasse juza da corte superior; tinha ido procur-la pedindo mandados como ltimo recurso. Afinal, ela tinha a defensoria pblica em seu passado, o que, na mente de Patrick, significava que, mesmo que agora fosse escrupulosamente justa, ainda tinha jogado do outro lado anteriormente. -- Meritssima -- disse ele. -- Eu no sabia que a Josie era sua filha. -- Ele se aproximou da cama e se dirigiu  garota. -- Como voc est? Josie olhou para ele. -- Eu conheo voc? -- Fui eu que carreguei voc para... -- Ele parou quando a juza colocou a mo no brao dele e o puxou para longe de Josie. -- Ela no lembra de nada do que aconteceu -- sussurrou a juza. -- Por algum motivo, ela acha que sofreu um acidente de carro... e eu... -- a voz dela falhou. -- No tive coragem de contar a verdade. Patrick entendia; quando voc ama algum, no quer ser a pessoa a fazer o mundo dela desmoronar.

-- Quer que eu conte? A juza hesitou e assentiu com gratido. Patrick encarou Josie de novo. -- Voc est bem? -- Minha cabea est doendo. Os mdicos dizem que tive uma

concusso e tenho que passar a noite aqui. -- Ela olhou para ele. -- Acho que tenho que te agradecer por ter me salvado. -- De repente, um brilho cruzou o rosto dela. -- Voc sabe o que aconteceu com o Matt? O cara que estava no carro comigo? Patrick se sentou na beirada da cama. -- Josie -- disse com delicadeza. -- Voc no sofreu um acidente de carro. Houve um incidente na sua escola. Um garoto entrou e saiu atirando nas pessoas. Josie balanou a cabea, tentando afastar aquelas palavras. -- O Matt foi uma das vtimas. Os olhos dela se encheram de lgrimas. -- Ele est bem? Patrick olhou para uma dobra no cobertor entre eles. -- Sinto muito. -- No -- disse Josie. -- No. Voc est mentindo! Ela bateu em Patrick, no rosto e no peito. A juza se adiantou e tentou segurar a filha, mas Josie estava fora de si, gritando, chorando, arranhando, e com isso chamou a ateno das enfermeiras no corredor. Duas delas

entraram correndo no quarto e mandaram Patrick e a juza Cormier sarem enquanto lhe administravam um sedativo. No corredor, Patrick encostou na parede e fechou os olhos. Meu Deus. Teria que fazer isso com todas as testemunhas? Ele estava prestes a pedir desculpas para a juza por ter perturbado Josie quando ela se virou contra ele do mesmo jeito que a filha. -- Que diabos voc achou que estava fazendo ao contar a ela sobre o Matt?! -- Mas foi voc quem me pediu -- respondeu Patrick. -- Pra contar a ela sobre a escola -- disse a juza. -- No que o namorado morreu! -- Voc sabe muito bem que a Josie teria descoberto mais cedo ou... -- Mais tarde -- interrompeu a juza. -- Bem mais tarde. As enfermeiras apareceram no corredor. -- Ela est dormindo agora -- sussurrou uma delas. -- Mais tarde voltamos para dar uma olhada nela. Os dois esperaram as enfermeiras estarem fora do alcance. -- Olha -- disse Patrick com severidade -- , hoje eu vi adolescentes que levaram tiros na cabea, que nunca vo voltar a andar, que morreram por estarem no lugar errado, na hora errada. Sua filha... est em estado de choque... mas  uma das que tiveram sorte. As palavras dele a atingiram como um tapa. Por apenas um momento, quando Patrick olhou para a juza, ela no pareceu mais furiosa. Os olhos

cinzentos estavam pesados com todos os cenrios que, felizmente, no aconteceram, e a boca relaxou de alvio. E ento, repentinamente, ela se recomps e ficou impassvel. -- Me desculpe. No costumo ser assim. Mas  que... foi um dia terrvel. Patrick tentou, mas no conseguiu ver nenhum trao da emoo que a dominara por um instante. Sem brechas. Era assim que ela era. -- Sei que voc s estava tentando fazer o seu trabalho -- disse a juza. -- Eu gostaria de falar com a Josie ... mas no foi por isso que vim. Estou aqui porque ela foi a primeira... bom, eu precisava saber se ela estava bem. -- Ele deu um pequeno sorriso para a juza Cormier, do tipo que pode fazer um corao comear a se partir. -- Cuide dela -- disse Patrick, virando-se e descendo o corredor, ciente do calor do olhar dela em suas costas e de como ele parecia um toque.

Doze anos antes
se j estava na hora de pegar o nibus da escola. Desde que conseguia se lembrar, ele via o irmo Joey pegar o nibus, e aquilo era um mistrio de propores dinmicas: o modo como o sol refletia na frente amarela, a porta que gemia como a mandbula de um drago, o suspiro dramtico quando ele parava. Peter tinha um carrinho de brinquedo igualzinho ao nibus que Joey pegava duas vezes por dia, o mesmo nibus que ele tambm ia pegar. A me o mandou voltar a dormir at amanhecer, mas ele no conseguiu. O que fez ento foi vestir as roupas especiais que a me comprara para o primeiro dia de aula e se deitou na cama para esperar. Foi o primeiro a descer para o caf da manh, e a me fez panqueca com pedaos de chocolate, a favorita dele. Ela lhe deu um beijo na bochecha e tirou uma foto dele  mesa do caf, e depois outra quando ele estava de casaco com a mochila vazia nas costas, como o casco de uma tartaruga. -- No consigo acreditar que o meu beb vai pra escola -- disse a me dele. Joey, que estava indo para o primeiro ano, mandou que ele parasse de bancar o bobo. -- Voc s vai pra escola -- disse. -- Grande coisa. A me de Peter terminou de abotoar o casaco dele. -- Foi uma grande coisa pra voc tambm -- ela emendou.

E

m seu primeiro dia no jardim de infncia, Peter Houghton acordou s 4h32. Andou at o quarto dos pais e perguntou

Em seguida, disse a Peter que tinha uma surpresa para ele. Entrou na cozinha e voltou com uma lancheira do Super-Homem. O super-heri estava com o brao esticado, como se estivesse tentando sair do metal. O corpo dele estava um pouco destacado, como as letras nos livros das pessoas cegas. Peter gostou de pensar que, mesmo que no conseguisse enxergar, poderia identificar que era sua lancheira. Ele a pegou da mo da me e a abraou. Ouviu o barulho de um pedao de fruta rolando, o som de papel-manteiga amassando e imaginou o que teria l dentro de almoo, como rgos misteriosos. Eles esperaram perto da calada, e, como Peter sempre tinha sonhado, o nibus amarelo apareceu no alto da colina. -- Mais uma! -- disse a me, e tirou uma foto de Peter quando o nibus estava parando atrs dele. -- Joey -- ela instruiu -- , cuide do seu irmo. -- Em seguida, deu um beijo na testa de Peter. -- Meu rapazinho -- disse ela, e sua boca se apertou, do jeito que ela fazia quando estava tentando no chorar. De repente, Peter sentiu o estmago virar gelo. E se o jardim de infncia no fosse to legal quanto tinha imaginado? E se a professora parecesse a bruxa daquele programa de TV que o fazia ter pesadelos? E se esquecesse para que lado era a letra E, e todo mundo risse dele? Hesitante, subiu os degraus do nibus. O motorista estava com um casaco camuflado e no tinha os dois dentes da frente. -- Tem lugar l atrs -- disse ele, e Peter seguiu pelo corredor, procurando Joey. O irmo estava sentado ao lado de um garoto que Peter no conhecia. Joey olhou para ele ao passar, mas no disse nada.

-- Peter! Ele se virou e viu Josie batendo no assento vazio ao seu lado. Ela estava com o cabelo preso em um rabo de cavalo e usava saia, apesar de odiar. -- Guardei lugar pra voc -- disse Josie. Ele se sentou ao lado dela, j se sentindo melhor. Estava dentro de um nibus. E estava sentado ao lado de sua melhor amiga no mundo todo. -- Que lancheira legal -- disse Josie. Ele a ergueu para mostrar como dava para fazer parecer que o SuperHomem estava se mexendo se ele a balanasse. Naquele momento, a mo de algum surgiu no corredor. Um garoto com braos de macaco e bon virado para trs pegou a lancheira da mo de Peter. -- Ei, esquisito -- disse ele -- , quer ver o Super-Homem voar? Antes que Peter entendesse o que estava acontecendo, o garoto mais velho abriu a janela e jogou a lancheira na rua. Peter ficou de p e virou o pescoo para ver pela porta de emergncia que havia no fundo do nibus. A lancheira se abriu no asfalto, e ele viu sua ma rolando pela linha amarela pontilhada da rua e desaparecendo sob o pneu de um carro. -- Senta! -- gritou o motorista. Peter afundou no assento. Seu rosto estava frio, mas suas orelhas estavam queimando. Ele ouviu o garoto e os amigos rindo, to alto como se fosse dentro da cabea dele. Em seguida, sentiu as mos de Josie segurarem as dele.

-- Tenho um sanduche de pasta de amendoim -- sussurrou ela. -- Podemos dividir. Alex estava na sala de reunies da priso, em frente ao mais novo cliente, Linus Froom. Naquela manh, s quatro horas, ele tinha se vestido de preto, colocado uma mscara de esqui sobre a cabea e roubado uma loja de convenincia de um posto de gasolina Irving com uma arma. Quando a polcia foi chamada depois que Linus fugiu, encontrou um celular no cho. Ele tocou enquanto o detetive estava sentado em sua escrivaninha. -- Cara -- disse a pessoa que ligou -- , esse celular  meu. Ele est com voc? -- O detetive disse que sim e perguntou onde ele o havia perdido. -- No posto de gasolina Irving, cara. Fui l, tipo, meia hora atrs. O detetive sugeriu que eles se encontrassem na esquina da Route 10 com a Route 25A, que ele lhe entregaria o celular. Desnecessrio dizer que, quando Linus Froom apareceu, foi preso por roubo. Alex olhou para o cliente do outro lado da mesa arranhada. Naquele momento sua filha estava tomando suco e comendo biscoitos, ou no horrio de histrias, ou na aula de desenho com giz de cera, ou qualquer outra coisa em que consistisse o primeiro dia de aula no jardim de infncia, e ela estava presa em uma sala de reunies da cadeia do condado com um criminoso burro demais para ser bom no que fazia. -- Est escrito aqui -- disse Alex, examinando o relatrio policial -- que houve uma certa desavena quando o detetive Chisholm leu os seus direitos? Linus ergueu o olhar. Ele era um garoto, tinha s dezenove anos, com acne e as sobrancelhas unidas, formando uma s.

-- Ele achou que eu era burro pra cacete. -- Ele disse isso pra voc? -- Ele me perguntou se eu sabia ler. Todos os policiais perguntavam; eles tinham que fazer o criminoso acompanhar quando liam os direitos. -- E a sua resposta, pelo que eu entendi, foi: "Ei, seu merda, eu tenho cara de retardado?" Linus deu de ombros. -- O que eu devia dizer? Alex apertou o alto do nariz. Seus dias na defensoria pblica eram uma confuso exaustiva de momentos assim: uma grande quantidade de energia e tempo gastos com uma pessoa que uma semana, um ms, um ano depois acabaria sentada na frente dela de novo. Mas o que mais ela era qualificada para fazer? Esse era o mundo onde tinha escolhido viver. O pager dela tocou. Ela olhou para o nmero e silenciou o bipe. -- Linus, acho que voc vai ter que se declarar culpado dessa vez. E o deixou nas mos do policial de deteno, entrando na sala de uma secretria para pedir para usar o telefone. -- Graas a Deus -- disse Alex quando a pessoa atendeu. -- Voc me salvou de pular de uma janela do segundo andar na cadeia. -- Voc esqueceu que ela tem barras -- disse Whit Hobart, rindo. -- Eu sempre achei que elas foram colocadas no para manter os prisioneiros

dentro, mas para impedir que os defensores pblicos fugissem quando se dessem conta de como seus casos so ruins. Whit era o chefe de Alex quando ela entrou para a defensoria pblica do estado, mas tinha se aposentado nove meses atrs. Uma lenda por mrito do seu trabalho, ele tinha se tornado o pai que ela nunca teve. Um pai que, ao contrrio do dela, a elogiava em vez de criticar. Ela queria que Whit estivesse ali agora, em vez de em alguma comunidade de golfistas na costa. Ele a levaria para almoar e contaria histrias que a fariam se dar conta de que todo defensor pblico tinha clientes e casos como o de Linus. E ento daria um jeito de deixar a conta para ela, junto com uma motivao renovada para se levantar e recomear a luta. -- O que voc est fazendo acordado? -- disse Alex. -- Madrugou pra jogar golfe? -- No, o maldito jardineiro me acordou com a mquina de soprar folhas. O que estou perdendo? -- Na verdade, nada. S que a defensoria no  a mesma sem voc. Est faltando uma certa... energia. -- Energia? Voc no est virando uma maluca new age fissurada em cristais, est, Al? Alex sorriu. -- No... -- Que bom. Porque estou telefonando por isso: tenho um emprego pra voc.

--

J tenho um emprego. Na verdade, tenho trabalho suficiente

para dois empregos. -- Trs cortes da regio esto divulgando vagas no Bar News. Voc devia se candidatar, Alex. -- Pra ser juza? -- Ela comeou a rir. -- Whit, o que voc anda fumando ultimamente? -- Voc seria boa nisso, Alex.  uma tima tomadora de decises,  controlada, no deixa as emoes atrapalharem seu trabalho. Voc tem a perspectiva da defesa, ento entende os litigantes. E sempre foi uma excelente advogada em julgamentos. -- Ele hesitou. -- Alm do mais, no  comum que New Hampshire tenha uma governadora mulher democrata que v escolher o juiz. -- Obrigada pelo voto de confiana -- disse Alex -- , mas no sou a pessoa certa pro emprego. Ela sabia disso porque seu pai tinha sido juiz da corte superior. Alex conseguia se lembrar de girar na cadeira do escritrio dele, contando clipes de papel, passando a unha na superfcie de feltro verde do mata-borro para fazer uma marca sombreada. Ela pegava o telefone e falava com o sinal. Fingia. E ento, inevitavelmente, seu pai entrava e chamava a ateno dela por mexer em um lpis, em um arquivo ou, que Deus no permitisse, por perturb-lo. No cinto, o pager voltou a vibrar. -- Olha, tenho que ir pro tribunal. Talvez a gente possa almoar na semana que vem.

-- O expediente dos juzes  regular -- acrescentou Whit. -- Que horas a Josie chega da escola? -- Whit... -- Pense no assunto -- ele disse e desligou. -- Peter -- suspirou a me -- , como voc pde perder a lancheira de novo? Ela contornou o pai dele, que estava se servindo de caf, e procurou no fundo da despensa um saco de papel pardo para colocar a merenda do filho. Peter odiava aqueles sacos. A banana nunca cabia l dentro, e o sanduche sempre ficava esmagado. Mas o que mais ele podia fazer? -- O que ele perdeu? -- perguntou o pai. -- A lancheira. Pela terceira vez este ms -- a me respondeu, comeando a encher o saco de papel: fruta e caixa de suco no fundo, um sanduche por cima. Ela olhou para Peter, que no estava tomando o caf da manh, mas partindo o guardanapo com uma faca. At aquela hora, ele tinha feito as letras H e T. -- Se voc ficar enrolando, vai perder o nibus. -- Voc tem que comear a ser responsvel -- disse o pai. Quando o pai falava, Peter visualizava as palavras como fumaa. Elas se acumulavam no aposento por um momento, mas, antes que desse para perceber, sumiam. -- Pelo amor de Deus, Lewis, ele s tem cinco anos. -- No me lembro de Joey ter perdido a lancheira trs vezes durante o primeiro ms de escola.

Peter s vezes observava o pai jogando futebol no quintal com Joey. Os ps deles batiam no cho como pistes e mecanismos loucos -- para frente, para trs, para frente -- , como se estivessem danando juntos com a bola entre eles. Quando Peter tentava participar, ficava emaranhado na prpria frustrao. Na ltima vez, fizera um gol contra sem querer. Ele olhou por cima do ombro para os pais. -- Eu no sou o Joey -- disse e, apesar de ningum ter respondido, conseguiu ouvir a resposta: Ns sabemos. -- Advogada Cormier? -- Alex olhou para cima e viu um ex-cliente de p em frente  mesa dela, sorrindo de orelha a orelha. Ela levou um momento para se lembrar dele. Teddy MacDougal ou MacDonald, alguma coisa assim. Ela se lembrava da acusao: agresso simples de violncia domstica. Ele e a esposa tinham ficado bbados e agrediram um ao outro. Alex tinha conseguido que ele fosse inocentado. -- Tenho uma coisa pra voc -- disse Teddy. -- Espero que no tenha comprado nada -- respondeu ela, e estava falando srio. Ele era um homem de North Country, to pobre que o piso da casa dele era de terra e a carne que ele guardava no freezer era de caa. Alex no era f de caa, mas sabia que, para alguns de seus clientes, como Teddy, aquilo no era um esporte, mas uma questo de sobrevivncia. E era exatamente por isso que uma condenao para ele teria sido to arrasadora: teria lhe custado as armas. -- No comprei. Juro -- disse Teddy, sorrindo. -- Est na minha picape. Vem. -- No d pra trazer pra c?

-- Ah, no. No d pra fazer isso. Ah, que timo , pensou Alex. O que ele poderia ter colocado na picape que no pode trazer pra c? Ento seguiu Teddy at o estacionamento e, na caamba da picape, viu um enorme urso morto. --  pro seu freezer -- disse ele. -- inverno. --  verdade. Mas pensei em voc. -- Muito obrigada. Agradeo de verdade, mas eu no, humm... como carne. E no quero que seja desperdiada. -- Ela tocou no brao dele. -- Quero muito que voc fique com ele. Teddy apertou os olhos em direo ao sol. -- Tudo bem. Ele assentiu para Alex, entrou na picape e saiu do estacionamento com o urso batendo nas laterais da caamba. -- Alex! Ela se virou e viu a secretria de p na porta. -- Acabei de receber uma ligao da escola da sua filha -- disse a secretria. -- A Josie foi mandada pra sala do diretor. Josie? Arrumando confuso na escola? -- Por qu? -- Alex perguntou. -- Ela deu uma surra em um garoto no parquinho. Teddy,  enorme. Voc poderia se alimentar durante todo o

Alex foi andando em direo ao carro. -- Diga que estou a caminho. No caminho para casa, Alex lanou olhares para a filha pelo retrovisor. Josie tinha ido para a escola naquela manh com um cardig branco e uma cala cqui; agora, o cardig estava manchado de terra. Havia ramos nos cabelos dela, que tinham se soltado do rabo de cavalo. O cotovelo do casaco estava rasgado, e o lbio ainda estava sangrando. E, o que era mais incrvel, aparentemente ela estava bem melhor que o garoto com quem havia brigado. -- Venha -- disse Alex, levando Josie para o banheiro no andar de cima. L, ela tirou a blusa da filha, lavou os cortes e os cobriu com antissptico e band-aids. Sentou-se diante de Josie, no tapete que parecia feito de pele do Come-Come. -- Quer conversar sobre o que aconteceu? O lbio inferior de Josie tremeu e ela comeou a chorar. --  o Peter -- disse ela. -- O Drew implica com ele o tempo todo e o Peter fica magoado, ento hoje eu queria que fosse diferente. -- No tem professores no parquinho? -- Auxiliares. -- Bom, voc devia ter contado pra eles que estavam provocando o Peter. Bater no Drew s torna voc to ruim quanto ele. -- Ns fomos falar com os auxiliares -- reclamou Josie. -- Eles mandaram o Drew e os outros garotos deixarem o Peter em paz, mas eles nunca ouvem.

-- Ento -- disse Alex --, voc fez o que achou que era o melhor no momento? -- Fiz. Pelo Peter. -- Imagine se voc sempre fizesse isso. Vamos supor que voc

decidisse que gostava do casaco da outra pessoa mais do que do seu e fosse l e o pegasse. -- Isso seria roubar -- disse Josie. -- Exatamente.  por isso que existem regras. Voc no pode violar as regras, nem mesmo quando parece que todo mundo est fazendo isso. Porque, se voc fizer, se todos ns fizermos, o mundo inteiro vira um lugar assustador. Um mundo em que casacos so roubados e pessoas levam uma surra no parquinho. Em vez de fazer a melhor coisa, s vezes temos que escolher fazer a coisa mais certa. -- Qual  a diferena? -- A melhor coisa  o que voc acha que deveria ser feito. A coisa mais certa  o que precisa ser feito, quando voc pensa no s em voc e em como voc se sente, mas tambm nas outras coisas: em quem mais est envolvido, no que aconteceu antes e no que dizem as regras. -- Ela olhou para Josie. -- Por que o Peter no revidou? -- Ele achou que ia se meter em encrenca. -- Ento, caso encerrado -- disse Alex. Os clios de Josie estavam molhados de lgrimas. -- Voc est brava comigo?

Alex hesitou. -- Estou brava com os auxiliares por no prestarem ateno quando os outros alunos estavam implicando com o Peter. E no estou feliz por voc ter dado um soco no nariz do garoto. Mas estou orgulhosa de voc querer defender seu amigo. -- Ela deu um beijo na testa de Josie. -- V pegar umas roupas sem buracos, Mulher-Maravilha. Quando Josie foi para o quarto, Alex permaneceu sentada no cho do banheiro. Ocorreu-lhe que agir com justia era mais uma questo de estar presente e envolvida que qualquer outra coisa, ao contrrio dos auxiliares do parquinho, por exemplo. Voc podia ser firme sem ser autoritria; podia fazer questo de conhecer as regras; podia levar todas as evidncias em considerao antes de chegar a uma concluso. Ser uma boa juza, Alex percebeu, no era to diferente de ser uma boa me. Ento se levantou, desceu a escada e pegou o telefone. Whit atendeu no terceiro toque. -- Tudo bem -- disse ela. -- Me diga o que tenho que fazer. A cadeira era pequena demais para o traseiro de Lacy; os joelhos dela no cabiam debaixo da mesa; as cores nas paredes eram intensas demais. A professora sentada  frente dela era to jovem que Lacy se perguntou se ela podia ir pra casa e tomar um copo de vinho sem violar a lei. -- Sra. Houghton -- disse a professora -- , eu queria poder dar uma explicao melhor, mas o fato  que algumas crianas so como um m para atrair implicncia. Outras crianas veem uma fraqueza e a exploram. -- Qual  a fraqueza do Peter? -- ela perguntou.

A professora sorriu. -- No vejo isso como uma fraqueza. Ele  um menino sensvel e meigo, mas isso significa que tem menos chances de correr por a com os outros garotos, brincando de polcia e ladro, do que de ficar colorindo figuras em um canto com a Josie. As outras crianas da turma reparam. Lacy se lembrou do ensino fundamental, quando no era muito mais velha que Peter, e eles chocaram ovos em uma incubadora. Os seis ovos foram a termo, mas um dos pintinhos nasceu com uma perna retorcida. Ele era sempre o ltimo a chegar ao pote de comida e de gua, e era mais fraco e hesitante que os irmos. Um dia, enquanto a turma observava horrorizada, o pintinho deficiente foi bicado at a morte pelos outros. -- O comportamento dos outros meninos no est sendo tolerado -- disse a professora, tranquilizando Lacy. -- Quando vemos atitudes como essas acontecerem, imediatamente mandamos a criana para a direo. -- Ela abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas a fechou de volta. -- O qu? A professora olhou para a mesa. -- Infelizmente, essa atitude pode surtir o efeito contrrio. Os garotos identificam o Peter como a razo de estarem encrencados, e isso perpetua o ciclo de violncia. Lacy sentiu o rosto esquentar. -- O que voc est fazendo para se certificar de que isso no

acontecer mais?

Ela esperava que a professora falasse sobre uma cadeira do castigo ou alguma punio caso Peter fosse mais uma vez provocado pelo grupo. Mas, em vez disso, a jovem lhe disse: -- Estou mostrando ao Peter como se defender. Se algum entra na frente dele na fila do almoo ou implica com ele, estou ensinando como ele deve reagir em vez de simplesmente aceitar. Lacy olhou para ela fixamente. -- Eu... eu no acredito que estou ouvindo isso. Ento, se ele  empurrado, tem que empurrar de volta? Se a comida dele for derrubada no cho, ele deve fazer o mesmo? --  claro que no... -- Voc est me dizendo que, para o Peter se sentir seguro na escola, tem que comear a agir como os garotos que fazem isso com ele? -- No, estou apenas lhe contando a realidade da escola -- corrigiu a professora. -- Olha, sra. Houghton, posso dizer aquilo que quer ouvir. Posso dizer que o Peter  uma criana maravilhosa, o que ele  mesmo. Posso dizer que a escola vai ensinar tolerncia e vai disciplinar os garotos que esto tornando a vida do seu filho um inferno, e que isso ser suficiente para acabar com a situao. Mas infelizmente o fato  que, se o Peter quiser que isso acabe, ele vai ter que fazer parte da soluo. Lacy olhou para as prprias mos. Elas pareciam gigantescas na superfcie da pequena carteira. -- Obrigada. Por sua honestidade. Ela se levantou com cuidado, porque essa  a melhor maneira de se mover em um mundo onde voc no se encaixa mais.

Saiu da sala de aula do jardim de infncia. Peter estava esperando em um banquinho de madeira debaixo de nichos na parede do corredor. Era tarefa dela como me de Peter tornar a estrada  frente dele menos acidentada, para que ele no vacilasse. Mas e se ela no conseguisse fazer isso por ele o tempo todo? Era isso que a professora estava tentando dizer? Ento se agachou diante de Peter e segurou as mos dele. -- Voc sabe que eu te amo, n? -- disse Lacy. Peter assentiu. -- Voc sabe que eu s quero o que  melhor pra voc. -- Sei -- o menino respondeu. -- Eu j sei sobre as lancheiras. Sei o que anda acontecendo com o Drew. Ouvi falar que a Josie bateu nele. Sei o tipo de coisas que ele diz pra voc. -- Lacy sentiu os olhos se encherem de lgrimas. -- Na prxima vez que isso acontecer, voc tem que se defender. Voc precisa, Peter, ou eu... vou ter que te dar um castigo. A vida no era justa. Lacy tinha sido preterida em promoes, independentemente de quanto trabalhasse. Tinha visto mes que se cuidavam meticulosamente terem bebs natimortos, enquanto viciadas em crack tinham bebs saudveis. Tinha visto garotas de catorze anos morrendo de cncer de ovrio antes de terem a chance de viver de verdade. No se podia lutar contra a injustia do destino; voc s podia encar-la e torcer para que um dia tudo fosse diferente. Mas, de alguma forma, era ainda mais difcil sofrer pelo filho. Foi arrasador para Lacy ser a pessoa a abrir a cortina da inocncia, para que Peter visse que, no importando o quanto ela o amasse, no importando o quanto quisesse que o mundo fosse perfeito para ele, ele sempre estaria aqum das expectativas.

Ela engoliu em seco e olhou para Peter, tentando pensar no que poderia fazer para despertar nele o instinto de defesa, que punio o faria mudar de comportamento, mesmo partindo seu corao ter de obrig-lo a fazer isso. -- Se isso acontecer de novo... voc no vai brincar com a Josie durante um ms. Ela fechou os olhos depois de dar o ultimato. No era a forma como gostava de agir, mas, ao que tudo indicava, seus conselhos costumeiros -- de ser gentil, educado, ser como voc quer que os outros sejam -- no o tinham ajudado. Se uma ameaa fizesse o filho rugir, to alto que Drew e todas aquelas crianas horrveis acabassem se afastando com o rabo entre as pernas, ento Lacy faria isso. Ela tirou o cabelo de Peter do rosto e observou a dvida nas feies dele. E por que no? A me dele nunca tinha falado nada do tipo antes. -- Ele  um valento. Um idiota em miniatura. Mas vai crescer e virar um idiota grande, e voc... voc vai c rescer e virar uma pessoa incrvel. -- Lacy sorriu largamente para o filho. -- Um dia, Peter, todo mundo vai saber o seu nome. Havia dois balanos no parquinho, e s vezes voc tinha que esperar sua vez para se balanar. Quando isso acontecia, Peter cruzava os dedos e torcia para que pegasse o que no tinha sido enrolado na barra de cima por um garoto do quinto ano, o que fazia com que o assento ficasse alto e difcil de subir. Ele tinha medo de cair ao tentar subir no balano, ou, o que seria ainda mais constrangedor, de nem conseguir subir.

Quando esperava com Josie, ela sempre escolhia aquele balano. Ela fingia gostar, mas Peter sabia que ela s estava fingindo no saber quanto ele no gostava. Hoje, no recreio, eles no estavam se balanando. Em vez disso, giravam o assento de forma que as correntes ficassem completamente emaranhadas, depois levantavam os ps e rodopiavam. Peter s vezes olhava para o cu e imaginava que estava voando. Quando pararam, o balano dele e o de Josie esbarraram um no outro e seus ps se embolaram. Ela riu, e eles prenderam os tornozelos at que ficassem ligados como uma corrente humana. Peter se virou para ela. -- Quero que as pessoas gostem de mim -- disse de repente. Josie inclinou a cabea. -- Mas as pessoas gostam de voc. Peter soltou seus ps dos dela. -- Estou falando das outras pessoas, no de voc. Alex demorou dois dias inteiros para preencher o formulrio de candidatura a juza, e, enquanto o preenchia, uma coisa incrvel aconteceu: ela se deu conta de que realmente queria ser juza. Apesar do que tinha dito a Whit, apesar de suas reservas iniciais, estava tomando as decises certas pelos motivos certos. Quando a Comisso de Seleo Judicial a convocou para uma entrevista, deixou claro que no fazia isso com qualquer pessoa. Que, se

Alex estava sendo entrevistada, ela estava sendo seriamente considerada para o cargo. O trabalho da comisso era dar  governadora uma lista curta de candidatos. As entrevistas da comisso judicial foram conduzidas na velha manso do governador, Bridges House, em East Concord. Elas foram agendadas em horrios diferentes, e os candidatos entravam por uma porta e saam por outra, presumivelmente para que ningum soubesse quem mais estava concorrendo ao emprego. Os doze membros da comisso eram advogados, policiais, diretores executivos de organizaes pr-vtimas. Eles olharam com tanta intensidade para Alex que ela achou que seu rosto fosse explodir em chamas. Tambm no ajudou o fato de ela ter ficado acordada durante metade da noite com Josie, que tinha tido um pesadelo com uma jiboia e no queria voltar a dormir. Alex no sabia quem eram os outros candidatos, mas apostaria que no eram mes solteiras que tinham que cutucar aquecedores com um galho s trs da manh para provar que no havia cobras escondidas ali dentro. -- Gosto do ritmo -- disse ela com cuidado, respondendo a uma pergunta. Ela sabia que havia respostas que eles esperavam ouvir. O truque era mesclar as frases feitas e as respostas esperadas com parte de sua personalidade. -- Gosto da presso de tomar decises rpidas. Sou rigorosa com as leis da evidncia. J estive em tribunais com juzes que no estudam o caso antecipadamente, e sabemos que assim as coisas no funcionam direito. Ento hesitou, olhou para os homens e mulheres e se perguntou se deveria assumir um papel, como a maior parte das pessoas que se candidatavam a cargos no judicirio -- e que tinham percorrido o

glorificado caminho da promotoria pblica --, ou se deveria ser ela mesma e permitir que sua formao na defensoria aparecesse discretamente. Ah, que diabos. -- Acho que o motivo pelo qual eu quero muito ser juza  por amar a maneira como um tribunal  um ambiente de oportunidades iguais. Quando voc entra num tribunal, por aquele curto perodo, seu caso  a coisa mais importante do mundo para todas as pessoas naquela sala. O sistema funciona para voc. No importa quem voc  nem de onde vem; seu tratamento vai depender da lei escrita, no de variveis socioeconmicas. Um dos membros do comit olhou para suas anotaes. -- O que voc acha que faz de algum um bom juiz, sra. Cormier? Alex sentiu uma gota de suor escorrer pelas costas. -- Ser paciente, porm firme. Estar no controle, mas no ser

arrogante. Conhecer as leis da evidncia e as regras de um tribunal. -- Ela fez uma pausa. -- No deve ser o que vocs esto acostumados a ouvir, mas acho que um bom juiz deve ser fera em tangrama. Uma mulher mais velha de uma organizao pr-vtima piscou sem entender. -- Como? -- Tangrama. Eu sou me. Minha filha tem cinco anos, e existe um jogo que  o contorno geomtrico de uma figura, pode ser um barco, um trem, um pssaro, e voc tem que construir essa figura partindo das peas de um quebra-cabea: tringulos e paralelogramos, alguns maiores que os outros.  fcil para uma pessoa com boa viso espacial, porque voc tem que pensar fora dos parmetros convencionais. E ser juiz  assim. Voc tem

todos os fatores concorrentes: as partes envolvidas, as vtimas, a aplicao da lei, a sociedade, at os precedentes. E precisa usar isso para solucionar o problema dentro de certos parmetros. No silncio desconfortvel que veio em seguida, Alex virou a cabea e conseguiu ver por uma janela o prximo entrevistado entrando no vestbulo. Ela piscou, certa de ter visto errado, mas no podia esquecer os cachos grisalhos pelos quais j tinha passado os dedos; no dava para tirar da mente a geografia das mas do rosto e do maxilar que tinha contornado com os prprios lbios. Logan Rourke, seu ex-professor, seu antigo amante, o pai de sua filha, entrou no prdio e fechou a porta. Aparentemente, ele tambm era candidato. Alex respirou fundo, ainda mais determinada a conquistar o cargo do que no minuto anterior. -- Sra. Cormier? -- disse novamente a mulher mais velha, e Alex se deu conta de que no ouvira a pergunta na primeira vez. -- Sim. Me desculpe. -- Perguntei quanto voc se sai bem quando joga tangrama. Alex olhou nos olhos dela. -- Senhora -- ela respondeu, dando um largo sorriso --, sou a campe estadual de New Hampshire. A princpio, os nmeros s pareceram mais gordos. Mas comearam a se embaralhar um pouco, e Peter teve de chegar mais perto para identificar se era um 3 ou um 8. A professora o mandou para a enfermeira, que tinha cheiro de saquinhos de ch e chul e o fez olhar um cartaz na parede.

Os culos novos eram leves como uma pena e tinham lentes especiais que no arranhariam nem se cassem e voassem pela caixa de areia. A armao era de metal, fina demais, na opinio dele, para sustentar os pedaos de vidro curvos que faziam seus olhos parecerem os de uma coruja: enormes, brilhantes e muito azuis. Quando Peter colocou os culos, ficou impressionado. De repente, as manchas ao longe se coagularam e viraram uma fazenda com silos, campos e manchas nas vacas. As letras na placa vermelha formavam a palavra PARE. Havia linhas finas, como as dobras de seus dedos, nos cantos dos olhos da me. Todos os super-heris tinham acessrios -- o cinto do Batman, a capa do Super-Homem --, e esse era o dele, que lhe dava viso de raio-X. Ele ficou to empolgado com os culos novos que dormiu com eles. Somente quando foi para a escola, no dia seguinte, ele entendeu que, com a viso mais aguada, vinha uma audio perfeita: quatro olhos, cego como um morcego. Os culos no eram mais uma marca de distino, mas apenas uma cicatriz, mais uma coisa que o tornava diferente de todo mundo. E isso nem era o pior. Quando o mundo entrou em foco, Peter percebeu como as pessoas olhavam para ele. Como se ele fosse a frase final de uma piada. E Peter, agora com a viso perfeita, baixou os olhos para no precisar ver. -- Somos mes subversivas -- sussurrou Alex para Lacy ao se sentarem com os joelhos dobrados e altos como os de um gafanhoto em uma das mesas pequenas durante o Dia de Escola Aberta. Ela pegou o material dourado usado para ensinar matemtica -- palitos coloridos representando unidades com duas, trs, quatro e cinco partes -- e o organizou, formando um palavro.

--

Tudo  divertido at algum virar juza --

disse Lacy, e

desmanchou a palavra com a mo. -- Est com medo que eu expulse voc do jardim? -- Alex riu. -- E sobre essa histria de virar juza, vai ser to difcil quanto eu ganhar na loteria. -- Vamos ver -- disse Lacy. A professora se inclinou entre elas e entregou para cada uma um pequeno pedao de papel. -- Hoje estou convidando todos os pais a escreverem uma palavra que melhor descreva seu filho. Mais tarde, vamos fazer uma colagem de amor com elas. Alex olhou para Lacy. -- Uma colagem de amor? -- Pare de ser antijardim de infncia. -- No sou. Na verdade, acho que tudo que voc precisa saber sobre a lei, voc aprende no jardim. Voc sabe: no bata nos outros, no pegue o que no  seu, no mate ningum, no estupre. -- Ah, sim, eu me lembro dessa aula. Foi bem depois do recreio -- disse Lacy. -- Voc sabe o que quero dizer.  um contrato social. -- E se voc presidisse uma audincia e tivesse de aplicar uma lei em que no acreditasse?

-- Primeiro de tudo, esse  um grande se. Segundo, eu aplicaria a lei. Mesmo me sentindo pssima, eu aplicaria -- disse Alex. -- As pessoas no precisam de um juiz com interesses pessoais, pode acreditar. Lacy recortou a beirada do papel, formando uma franja. -- Se voc se torna o trabalho, ento quando voc vai ser voc? Alex sorriu e empurrou o material dourado para formar outra palavra de baixo calo. -- Em reunies do jardim de infncia, eu acho. De repente, Josie apareceu, de bochechas rosadas e agitada. -- Mame -- disse ela, puxando a mo de Alex enquanto Peter subia no colo de Lacy -- , acabamos. Eles estavam no canto dos blocos de montar, criando uma surpresa. Lacy e Alex ficaram de p, passaram pela estante de livros, pela pilha de pequenos tapetes e pela mesa de cincias com o experimento do apodrecimento da abbora, cuja casca marcada e corpo afundado fizeram Alex se lembrar do rosto de um promotor que ela conhecia. -- Essa  a nossa casa -- anunciou Josie, empurrando um bloco que servia de porta da frente. -- Ns somos casados. Lacy cutucou Alex. -- Eu sempre quis me dar bem com os pais da noiva. Peter estava em frente a um fogo de madeira, misturando comida imaginria em uma panela de plstico. Josie colocou um jaleco enorme. -- Hora de ir trabalhar. Volto na hora do jantar.

-- Tudo bem -- disse Peter. -- Vamos ter almndegas para o jantar. -- Qual  o seu trabalho? -- Alex perguntou a Josie. -- Sou juza. Mando as pessoas pra cadeia o dia todo e depois volto pra casa pra comer espaguete. -- Ela andou em volta da casa de blocos e entrou pela porta da frente. -- Senta -- disse Peter. -- Voc est atrasada de novo. Lacy fechou os olhos. --  s impresso minha ou isso est parecendo um espelho nada agradvel? Eles observaram Josie e Peter colocarem os pratos de lado e irem para outra parte da casa de blocos, um quadrado menor dentro do maior. Ali eles se deitaram. -- Aqui  a nossa cama -- explicou Josie. A professora chegou atrs de Alex e Lacy. -- Eles brincam de casinha o tempo todo -- disse ela. -- No  fofo? Alex viu Peter se encolher de lado. Josie deitou de conchinha atrs dele, passando o brao por sua cintura. Ela se perguntou como a filha tinha formado a imagem de um casal assim na mente, considerando que nunca viu a me ter um encontro. Ento viu Lacy se apoiar em um bloco e escrever no pequeno pedao de papel: DELICADO. Isso descrevia Peter. Ele era delicado, quase exposto. Era preciso algum como Josie, aconchegada nele como uma concha, para proteg-lo.

Alex pegou um lpis e esticou seu pedao de papel. Muitos adjetivos lhe passaram pela cabea -- havia tantos para sua filha: "dinmica", "leal", "inteligente", "sensacional" -- , mas ela se viu formando letras diferentes. Por fim, escreveu: MINHA. Dessa vez, quando a lancheira bateu no asfalto, ela se abriu, e o carro que vinha atrs do nibus passou por cima do sanduche de atum e do saco de Doritos. O motorista, como sempre, no reparou. Os garotos do quinto ano eram to bons nisso a essa altura que a janela se abriu e fechou antes mesmo de dar tempo de gritar para que parassem. Peter sentiu os olhos se enchendo de lgrimas enquanto os garotos se parabenizavam. Ele ouviu a voz da me na cabea, pois esse era o momento em que tinha de se defender! Mas sua me no percebia que isso s pioraria as coisas. -- Ah, Peter -- disse Josie, suspirando, quando ele se sentou de novo ao lado dela. Ele olhou para as luvas. -- Acho que no vou poder ir na sua casa na sexta. -- Por qu? -- Porque minha me disse que ia me deixar de castigo se eu perdesse a lancheira de novo. -- No  justo -- disse Josie. Peter deu de ombros. -- Nada . Ningum ficou mais surpreso que Alex quando a governadora de New Hampshire a escolheu oficialmente de uma lista de apenas trs candidatos

para um cargo judicial em uma corte distrital. Embora fizesse sentido que Jeanne Shaheen, uma governadora jovem e democrata, quisesse escolher uma juza democrata, Alex ainda estava um pouco tonta com a notcia quando foi fazer a entrevista. A governadora era mais jovem do que Alex esperava, e mais bonita. Que  exatamente o que a maior parte das pessoas vai pensar de mim se eu for para o tribunal, pensou. Ela se sentou e colocou as mos debaixo das coxas para que no tremessem. -- Se eu nomear voc -- disse a governadora --, tem alguma coisa que eu precise saber? -- Voc est falando dos esqueletos no meu armrio? Shaheen assentiu. Em se tratando de uma pessoa indicada pela governadora, a questo era se essa pessoa transmitiria uma imagem boa ou ruim para ela. Shaheen queria colocar os pingos nos is antes de tomar a deciso oficial, e, por isso, Alex s podia admir-la. -- Algum vai aparecer na reunio do Comit Executivo da sua indicao e se opor a isso? -- perguntou a governadora. -- Depende. Voc vai conceder indultos para quem est na priso estadual? Shaheen riu. -- Suponho que  onde seus clientes insatisfeitos foram parar. --  exatamente por isso que esto insatisfeitos. A governadora se levantou e apertou a mo de Alex.

-- Acho que vamos nos dar bem -- disse ela. Maine e New Hampshire eram os nicos dois estados do pas que ainda tinham um Conselho Executivo, um grupo que agia como controle direto sobre o poder do governador. Para Alex, isso significava que no ms entre a nomeao e a audincia de confirmao, ela tinha de fazer o que pudesse para tranquilizar cinco homens republicanos antes que eles acabassem com ela. Ela ligava para eles semanalmente, perguntando se tinham alguma pergunta a fazer. Tinha tambm de providenciar testemunhas para falar a favor dela na audincia de confirmao. Depois de anos na defensoria pblica, isso deveria ser simples, mas o Conselho Executivo no queria advogados. Queria ouvir a comunidade onde Alex trabalhava e morava, desde sua professora do primeiro ano ao policial que a admirava, apesar de seu trabalho para o Lado Negro. A parte delicada era que Alex tinha de cobrar favores para fazer com que essas pessoas se preparassem e testemunhassem, mas tambm tinha de deixar claro que, se fosse confirmada como juza, no podia dar nada em troca. E ento, finalmente, chegou a vez de Alex estar na berlinda. Ela se sentou na sala do Conselho Executivo no palcio do governo e respondeu a perguntas que iam de "Qual foi o ltimo livro que voc leu?" a "Quem tem a obrigao de fornecer provas em casos de abuso e negligncia?". Quase todas as perguntas eram slidas e acadmicas, at que lhe fizeram uma pergunta capciosa. "Sra. Cormier, quem tem o direito de julgar outra pessoa?" -- Bom -- ela respondeu --, depende se voc est julgando moral ou legalmente. Moralmente, ningum tem o direito de julgar ningum. Mas legalmente, isso no  um direito,  uma responsabilidade.

"Qual  a sua posio quanto a armas de fogo?" Alex hesitou. Ela no era f de armas. No deixava Josie ver nada na televiso que mostrasse violncia e sabia o que acontecia quando se colocava uma arma na mo de um garoto perturbado, um marido zangado ou uma esposa que havia sido espancada. J tinha defendido clientes assim muitas vezes para ignorar esse tipo de reao cataltica. E mesmo assim. Ela estava em New Hampshire, um estado conservador, diante de um grupo de republicanos apavorados com a ideia de que ela fosse um canho desgovernado de esquerda. Ela seria responsvel por comunidades para as quais caar no era apenas algo reverenciado, mas necessrio. Alex tomou um gole de gua. -- Legalmente -- disse --, sou a favor de armas de fogo. --  uma loucura -- disse Alex na cozinha de Lacy. -- Voc olha os sites de toga e todas as modelos so fortes como jogadores de futebol americano, mas com seios. A percepo pblica de uma juza  que ela parece a Bea Arthur. -- Ela se inclinou em direo ao corredor e gritou escada acima. -- Josie! Vou contar at dez e vamos embora! -- Tem opes? -- Tem, preto... ou preto. -- Alex cruzou os braos. -- Pode ser de algodo com polister ou s de polister. As mangas podem se abrir nos punhos ou no. So todas horrveis. O que eu queria mesmo era alguma roupa que marcasse a cintura. -- Acho que a Vera Wang no faz moda judiciria -- disse Lacy.

-- No mesmo. -- Ela colocou a cabea no corredor de novo. -- Josie! J! Lacy colocou sobre a pia o pano de prato que estava usando para secar uma panela e foi atrs de Alex no corredor. -- Peter! A me da Josie tem que ir pra casa! -- Vendo que as crianas no respondiam, Lacy subiu a escada. -- escondendo. Alex a seguiu at o quarto de Peter, onde Lacy abriu as portas do armrio e olhou debaixo da cama. Depois, seguiram at o banheiro, o quarto de Joey e o quarto do casal. S quando desceram de novo  que ouviram vozes no poro. --  pesado -- disse Josie. E Peter: -- Olha. Assim. Alex desceu pela escada de madeira. O poro de Lacy era um celeiro subterrneo de cem anos com piso de terra e teias de aranha penduradas como decoraes de Natal. Ela foi em direo aos sussurros vindos de um canto do poro, e ali, atrs de uma pilha de caixas e de uma prateleira cheia de potes de geleia caseira, estava Josie, segurando um rifle. -- Ah, meu Deus -- sussurrou Alex, e Josie se virou, apontando a arma para ela. Lacy agarrou a arma e a puxou. -- Onde vocs pegaram isso? -- perguntou ela, e s ento Peter e Josie perceberam que alguma coisa estava errada. Devem estar se

-- Foi o Peter -- disse Josie. -- Ele tinha a chave. -- Chave? -- gritou Alex. -- Chave de qu? -- Do cofre -- murmurou Lacy. -- Ele deve ter visto o Lewis pegar o rifle quando foi caar na semana passada. -- Minha filha vem pra sua casa desde sempre e voc tem armas por a? -- Elas no esto por a -- disse Lacy. -- Esto trancadas em um cofre de armas. -- Que o seu filho de cinco anos consegue abrir! -- O Lewis guarda as balas... -- Onde? -- perguntou Alex. -- Ou ser que devo perguntar pro Peter? Lacy se virou para o filho. -- Voc sabe que no devia ter feito isso. Por que voc pegou a arma? -- Eu s queria mostrar pra ela, me. Ela pediu. Josie ergueu um rosto amedrontado. -- No pedi no. Alex se virou. -- Ento agora o seu filho est culpando a Josie... -- Ou a sua filha est mentindo -- respondeu Lacy.

Elas se encararam, duas amigas separadas por causa dos erros dos filhos. O rosto de Alex estava vermelho. E se, ela ficava pensando. E se elas tivessem chegado cinco minutos mais tarde? E se Josie tivesse sido ferida, morta? Na sombra desse pensamento, outro despertou: as respostas que ela tinha dado para o Conselho Executivo semanas antes. Quem tinha o direito de julgar outra pessoa? "Ningum", ela tinha dito. Ainda assim, ela estava fazendo exatamente isso. "Sou a favor de armas de fogo", ela tinha dito. Isso a tornava hipcrita? Ou ela s estava sendo uma boa me? Alex viu Lacy se ajoelhar ao lado do filho, e isso foi tudo que precisou para dar o clique: a lealdade ferrenha de Josie a Peter de repente s parecia ser um peso arrastando-a para baixo. Talvez fosse melhor para Josie se ela comeasse a fazer outros amigos. Amigos que no a fizessem ser chamada at a sala do diretor e que no colocavam rifles nas mos dela. Alex puxou Josie para que ficasse ao seu lado. -- Acho que a gente devia ir embora. -- Sim -- concordou Lacy, com a voz fria. -- Acho que seria melhor. Elas estavam no corredor de comidas congeladas quando Josie comeou a birra. -- No gosto de ervilha -- ela choramingou. -- Voc no tem que comer -- disse Alex, quando abriu a porta do freezer e o ar frio lhe beijou as bochechas ao pegar o saco de legumes.

-- Quero bolacha Oreo. -- Voc no vai ganhar Oreo. J ganhou o biscoito de bichinhos. Josie estava briguenta havia uma semana, desde o fiasco na casa de Lacy. Alex sabia que no podia impedir a filha de ficar com Peter na escola durante o dia, mas isso no significava que tinha de cultivar o relacionamento, permitindo que ela o chamasse para brincar depois. Alex colocou um garrafo de gua mineral no carrinho e depois uma garrafa de vinho. Pensou melhor e pegou mais uma. -- Voc quer frango ou hambrguer no jantar? -- Quero hambrguer de tofu. Alex comeou a rir. -- Onde voc ouviu falar de hambrguer de tofu? -- A Lacy fez de almoo.  tipo uma salsicha, mas  melhor pra sade. Alex deu um passo  frente quando seu nmero foi chamado na bancada de carnes. -- Eu gostaria de duzentos e cinquenta gramas de peito de frango desossado. -- Por que voc consegue o que quer, mas eu nunca consigo o

que eu quero? -- perguntou Josie. -- Acredite, voc no  to coitadinha quanto acha que . -- Quero ma -- anunciou Josie. Alex suspirou.

-- Ser que podemos passar pelo resto do mercado sem voc dizer eu quero de novo? Antes de Alex se dar conta do que a filha estava fazendo, Josie, sentada no carrinho, deu um chute na barriga dela. -- Eu te odeio! -- gritou Josie. -- Voc  a pior me do mundo! Alex percebeu com muito desconforto que as outras pessoas olhavam para ela -- a senhora de idade que escolhia meles, o funcionrio do mercado com as mos cheias de brcolis. Por que as crianas sempre fazem birra em locais onde voc  avaliado por suas aes? -- Josie -- disse ela, sorrindo entre dentes --, se acalme. -- Eu queria que voc fosse como a me do Peter! Queria ir morar com eles. Alex segurou os ombros dela com tanta fora que a fez cair no choro. -- Preste ateno -- disse em um tom irritado, e em seguida ouviu um sussurro distante e a palavra juza. O jornal local publicara um artigo sobre sua recente indicao para o tribunal distrital, com uma foto dela. Alex sentira o estalo do reconhecimento ao passar por pessoas no corredor de pes e no de cereais: Ah,  ela. Mas, naquele momento, tambm sentiu o peso dos olhares enquanto a observavam com Josie, esperando que ela agisse... judicialmente. Ento relaxou as mos. -- Eu sei que voc est cansada -- disse Alex, alto o bastante para que o mercado inteiro ouvisse. -- Sei que quer ir pra casa. Mas voc precisa se comportar enquanto estivermos em pblico.

Josie piscou em meio s lgrimas, ouvindo a voz da razo e se perguntando se uma criatura aliengena tinha feito algo com sua me, que normalmente teria gritado com ela ali e mandado que parasse com aquilo. Uma juza, Alex de repente se deu conta, no  juza apenas no tribunal. Ela ainda  juza quando vai a um restaurante ou dana em uma festa ou quer estrangular a filha no meio do corredor de carnes. Alex tinha recebido um manto para vestir sem se dar conta de que havia um detalhe: jamais poderia tir-lo. Se voc passasse a vida se concentrando no que todo mundo pensava de voc, esqueceria quem realmente ? E se o rosto que voc mostrava para o mundo fosse uma mscara... sem nada embaixo? Alex empurrou o carrinho em direo aos caixas. A essa altura, a criana furiosa tinha voltado a ser uma garotinha comportada novamente. Ela ouviu os soluos cada vez mais baixos de Josie. -- Pronto -- disse ela, para se consolar tanto quanto  filha. -- Assim no  melhor? O primeiro dia de Alex no tribunal se passou em Keene. Ningum alm de seu assessor sabia oficialmente que era o primeiro dia dela -- os advogados ouviram falar que ela era nova, mas no sabiam direito quando tinha comeado -- e, ainda assim, ela estava apavorada. Mudou de roupa trs vezes, embora ningum fosse ver debaixo da toga. Vomitou duas vezes antes de sair de casa. Ela sabia como chegar  sala de audincia, afinal, tinha advogado em casos ali, mas pelo outro lado, centenas de vezes. O assessor era um homem magro chamado Ishmael que se lembrava de Alex de reunies anteriores e

no gostava muito dela, pois ela rira quando ele se apresentou ("Me chame de Ishmael"). Mas hoje ele praticamente caiu aos sapatos de salto dela. -- Bem-vinda, Meritssima -- disse. -- Aqui est sua agenda. Vou levar para sua sala e mandaremos o oficial para busc-la quando estiver pronta. Tem mais alguma coisa que posso fazer pela senhora? -- No -- disse Alex. -- Estou bem. Ele a deixou na sala, que estava gelada. Ela ajustou o termostato, tirou a toga da pasta e a vestiu. Havia um banheiro contguo, e Alex entrou para se olhar. Estava bem. Com ar de controle. E talvez parecendo um pouco uma cantora de coral. Ela se sentou  mesa e imediatamente pensou no pai. Olhe pra mim, papai, pensou, apesar de ele j estar em um lugar onde no podia ouvi-la. Ela conseguia se lembrar de dezenas de casos que ele tinha julgado; ele voltava para casa e os contava para ela durante o jantar. O que ela no conseguia se lembrar era dos momentos em que ele no era juiz e era apenas pai. Alex passou os olhos pelos arquivos de que precisava para os eventos daquela manh. Em seguida, olhou para o relgio. Ainda tinha quarenta e cinco minutos antes de o tribunal comear a funcionar; a culpa era dela por estar to nervosa a ponto de chegar to cedo. Ficou de p e se alongou. Poderia dar uma estrela naquela sala, de to grande que era. Mas ela no daria, porque juzes no fazem isso. Hesitante, ela abriu a porta do corredor, e imediatamente Ishmael se materializou. -- Meritssima? O que posso fazer pela senhora?

-- Caf -- disse Alex. -- Seria muito bom. Ishmael deu um pulo to rpido para atender ao pedido dela que Alex se deu conta de que, se pedisse para ele sair e comprar um presente de aniversrio para Josie, ele o entregaria embrulhado antes do almoo. Ela o seguiu at o saguo, compartilhado pelos advogados e pelos outros juzes, e andou em direo  mquina de caf. Uma jovem advogada imediatamente se afastou. -- Pode passar, Meritssima -- disse ela, cedendo seu lugar na fila. Alex pegou um copo de papel. Teria de se lembrar de levar uma caneca para deixar na sala de audincias. Por outro lado, como seu cargo era rotativo e a faria ir para Laconia, Concord, Keene, Nashua, Rochester, Milford, Jaffrey, Peterborough, Grafton e Coos, dependendo do dia da semana, ela precisaria ter muitas canecas. Apertou o boto para pegar o caf, mas a mquina s apitou e sibilou, vazia. Sem nem pensar, ela pegou um filtro para fazer mais. -- Meritssima, a senhora no precisa fazer isso -- disse a advogada, constrangida por Alex. E tirou o filtro da mo dela para fazer o caf. Alex ficou olhando para a advogada. Perguntou-se se algum voltaria a cham-la de Alex, ou se devia ter o nome mudado oficialmente para Meritssima. Perguntou-se se algum teria coragem de lhe dizer se ela ficasse com papel higinico preso no sapato ao andar pelo corredor, ou se estivesse com espinafre nos dentes. Era uma sensao estranha ser escrutinada to cuidadosamente e saber ao mesmo tempo que ningum ousaria dizer na cara dela que alguma coisa estava errada. A advogada levou para ela um copo de caf fresco.

-- Eu no sei como a senhora gosta, Meritssima -- disse ela, oferecendo copos com acar e creme. -- Assim est timo -- Alex respondeu, mas, ao esticar a mo para pegar o copo, a manga de punhos largos prendeu na beirada do isopor e o caf derramou. Legal, Alex, ela pensou. -- Ai, meu Deus! -- exclamou a advogada. -- Sinto muito! Por que voc sente muito, questionou-se Alex, se foi minha culpa? A garota j estava pegando guardanapos para limpar a sujeira, ento Alex tirou a toga para limp-la. Por um momento, pensou em no parar nisso, em se despir completamente, at o suti e a calcinha, e desfilar pelo tribunal como o imperador dos contos de fadas. "Meu vestido no  lindo?", ela diria, e ouviria todo mundo dizer: " sim, Meritssima". Ela lavou a manga na pia e torceu para que secasse. Em seguida, carregando a toga, foi em direo  sala de audincias. Mas a ideia de ficar ali sentada por meia hora, sozinha, era deprimente demais, ento Alex comeou a andar pelos corredores do frum de Keane. Entrou em lugares onde nunca tinha entrado antes e acabou chegando a uma porta de poro que levava a uma rea de carga e descarga. Do lado de fora, encontrou uma mulher com um macaco verde de jardineira, fumando um cigarro. O ar estava carregado de inverno e a geada cobria o asfalto como vidro quebrado. Alex abraou o corpo -- estava possivelmente mais frio ali que na sala de audincias -- e assentiu para a estranha. -- Oi -- disse ela.

-- Oi -- a mulher respondeu, expirando fumaa. -- Nunca vi voc por aqui. Como se chama? -- Alex. -- Sou a Liz. Sou o departamento todo de manuteno da

propriedade -- ela sorriu. -- Onde voc trabalha no frum? Alex procurou a caixinha de Tic Tac no bolso, no por querer ou precisar de uma bala, mas porque queria ganhar tempo antes que a conversa fosse repentinamente interrompida. -- Humm... -- ela murmurou -- , eu sou a juza. O rosto de Liz mudou imediatamente e ela deu um passo para trs, pouco  vontade. -- Sabe, eu no queria ter dito isso pra voc, porque foi to legal o modo como voc acabou de puxar conversa comigo. Ningum aqui faz isso e... bom,  meio solitrio. -- Alex hesitou. -- Ser que voc consegue esquecer que eu sou a juza? Liz apagou o cigarro com a bota. -- Depende. Alex assentiu e girou a pequena caixa de plstico com as balinhas na palma da mo. Elas fizeram um barulho quase musical. -- Quer um Tic Tac? Depois de um momento, Liz estendeu a mo. -- Claro, Alex -- disse e sorriu.

Peter tinha adquirido o hbito de vagar pela casa como um fantasma. Ele estava de castigo, o que tinha a ver com o fato de Josie no ir mais l, apesar de antes eles se encontrarem depois da escola trs ou quatro vezes por semana. Joey no queria brincar com ele, pois sempre saa para treinar futebol ou ficava no computador, entretido com um jogo em que tinha de dirigir muito rpido em uma pista com curvas como um clipe de papel. Isso significava que Peter, oficialmente, no tinha nada para fazer. Uma noite, depois do jantar, ele ouviu movimentos no poro. No descia l desde que a me o encontrara com Josie e a arma, mas agora foi atrado como uma mariposa para a luz acima da bancada de trabalho do pai, que estava sentado em um banco segurando a mesma arma que causara tantos problemas a Peter. -- Voc no devia estar se aprontando pra dormir? -- perguntou o pai. -- No estou cansado -- ele respondeu, observando as mos do pai percorrerem o longo cano do rifle. -- Lindo, no ?  um Remington 721. Calibre 30-06. -- O pai de Peter se virou para ele. -- Quer me ajudar a limpar? O garoto olhou instintivamente para a escada, para onde a me estava lavando a loua do jantar. -- Eu acho, Peter, que se voc se interessa tanto por armas, precisa aprender a respeit-las.  melhor prevenir do que remediar, no ? Nem a sua me pode discordar disso. -- Ele aninhou a arma no colo. -- Uma arma  uma coisa muito, muito perigosa, mas o que a torna to perigosa  que a maior parte das pessoas no entende como ela funciona. E, quando voc passa a entender, ela  como uma ferramenta, como um martelo ou

uma chave de fenda, e no faz nada a no ser que voc saiba pegar e usar corretamente. Entendeu? Peter no tinha entendido, mas no ia dizer isso para o pai. Estava prestes a aprender como usar um rifle de verdade! Nenhum daqueles meninos idiotas da sala dele, que eram to maus, podia dizer isso. -- A primeira coisa que temos que fazer  abrir o ferrolho, assim, pra ter certeza que no tem balas dentro. Olhe no pente, bem ali. Est vendo alguma bala? Peter balanou a cabea. -- Agora olhe de novo. Nunca  demais. Bom, tem um pequeno boto debaixo do receptor, bem na frente do guarda-mato. Empurre esse boto e voc vai conseguir remover completamente o ferrolho. Peter observou o pai tirar a grande catraca prateada que prendia a parte de trs do rifle ao cano, com simplicidade. Ele esticou a mo at a bancada para pegar um vidro de solvente -- Hoppes #9, Peter leu -- e colocou um pouco do lquido em um pedao de pano. -- No h nada como caar, Peter -- disse o pai. -- Estar na floresta quando o resto do mundo ainda est dormindo... Ver o cervo erguer a cabea e olhar diretamente pra voc... -- Ele afastou o pano, cujo cheiro fez a cabea de Peter girar, e comeou a esfregar o ferrolho com ele. -- Aqui -- o pai disse. -- Por que voc no faz isso? O queixo de Peter caiu. Ele estava sendo instrudo para segurar o rifle depois do que tinha acontecido com Josie? Talvez fosse porque o pai estava ali para supervisionar, ou talvez fosse um truque e ele iria ser punido por querer segur-lo de novo. Hesitante, ele esticou as mos e, como da outra vez, ficou surpreso com o peso. No jogo de computador de Joey, Big

Buck Hunter, os personagens carregavam os rifles como se fossem leves como penas. No era um truque. O pai queria mesmo que ele ajudasse. Peter o viu pegar outra lata, de leo de mquina, e derramar um pouco do produto em um pano limpo. -- Limpamos o ferrolho e colocamos uma gota no co... Quer saber como uma arma funciona, Peter? Venha aqui. -- Ele lhe mostrou o co, um pequeno crculo dentro do crculo do ferrolho. -- Dentro do ferrolho, onde no d pra enxergar, tem uma grande mola. Quando voc puxa o gatilho, ele solta a mola, que bate no co e o empurra s um pouquinho... -- Ele afastou o polegar e o indicador s um centmetro, para ilustrar. -- Esse co bate no centro de uma bala de lato... e amassa um pequeno boto de prata chamado espoleta. Esse amassado provoca o disparo, que  a plvora dentro da cpsula de lato. Voc j viu uma bala, o jeito como ela vai ficando mais fina na ponta? Essa parte mais fina  onde fica a bala de verdade, e, quando a plvora acende, cria uma presso atrs da bala e a empurra. O pai de Peter pegou o ferrolho das mos dele, limpou-o com leo e o colocou de lado. -- Agora, olhe dentro do cano. -- Ele apontou a arma como se fosse atirar em uma lmpada no teto. -- O que voc v? Peter olhou dentro do cano por trs. -- Parece aquele macarro que a mame faz no almoo. -- , acho que parece mesmo. Macarro parafuso?  esse o nome? As voltas dentro do cano so mesmo como um parafuso. Quando a bala  empurrada para fora, essas ranhuras fazem a bala girar.  meio como quando voc joga uma bola de futebol americano e a faz girar.

Peter tinha tentado fazer isso no quintal com o pai e Joey, mas sua mo era pequena demais ou a bola de futebol americano era grande demais, e, quando ele tentava fazer um passe, ela acabava caindo nos ps dele. -- Se a bala sai girando, ela consegue voar em linha reta sem desviar. -- O pai comeou a mexer com uma vara longa que tinha uma argola de arame na ponta. Ele prendeu um pedao de pano no aro e o mergulhou no solvente. -- Mas a plvora deixa uma sujeira grudenta dentro do cano -- continuou. -- E  isso que temos que limpar. Peter viu o pai enfiar a vara dentro do cano e mexer para cima e para baixo, como se estivesse batendo manteiga. Ele colocou um pedao limpo de pano e passou no cano de novo, e depois outro, at no sarem mais sujos de preto. -- Quando eu tinha a sua idade, meu pai tambm me ensinou como fazer isso. -- Ele jogou o pedao de pano no lixo. -- Um dia, voc e eu vamos caar. Peter no conseguiu conter a alegria ao pensar nisso. Ele, que no conseguia jogar uma bola de futebol americano, nem driblar com uma de futebol, nem mesmo nadar muito bem, ia sair para caar com o pai? Ele adorou a mera ideia de deixar Joey em casa. E se perguntou quanto tempo teria que esperar por essa aventura, como seria a sensao de fazer uma coisa com o pai que seria s deles dois. -- Ah -- o pai exclamou. -- Agora olhe o cano de novo. Peter segurou a arma ao contrrio, olhando pela sada do cano, com a extremidade da arma contra o rosto, perto do olho.

-- Meu Deus, Peter! -- disse o pai, tirando-a das mos dele. -- Assim no! Voc pegou ao contrrio! -- Ele virou a arma para que o cano ficasse apontado para o outro lado. -- Apesar de o ferrolho estar l e de ser seguro, nunca se olha pela sada de um rifle. No se aponta a arma pra uma coisa que no se quer matar. Peter apertou os olhos e olhou pelo cano do jeito certo. Estava cegante, prateado, brilhante. Perfeito. O pai esfregou a parte de fora do cano com leo. -- Agora, puxe o gatilho. Peter ficou olhando para ele. At ele sabia que no se fazia isso. -- No tem problema -- respondeu o pai. --  o que precisamos fazer pra engatilhar a arma. Peter colocou o dedo com hesitao na meia-lua de metal e apertou. Isso soltou uma trava, e o ferrolho que o pai estava segurando voltou ao lugar certo. Ele viu o pai levar o rifle de volta para o armrio de armas. -- Quem no gosta de armas  porque no as conhece -- disse o pai. -- Se voc conhece armas, consegue mexer nelas com segurana. Peter viu o pai trancar o armrio de armas. Ele entendeu o que o pai estava tentando dizer: o mistrio do rifle, aquela coisa que tinha feito com que ele roubasse a chave do armrio na gaveta de cuecas do pai para mostrar a Josie, no era mais to atraente. Agora que ele o tinha visto desmontado e montado, viu uma arma de fogo como aquilo que realmente era: pedaos de metal encaixados, a soma de suas partes.

Uma arma no era nada, de verdade, sem uma pessoa por trs.

Se voc acredita ou no em destino,  s questo de uma coisa: quem voc culpa quando algo d errado. Voc acha que  sua culpa -- que, se voc tivesse se dedicado mais, se tivesse se esforado mais, no teria acontecido? Ou voc pe a culpa nas circunstncias? Conheo gente que vai ouvir falar das pessoas que morreram e vai dizer que foi a vontade de Deus. Conheo gente que vai dizer que foi azar. E tem tambm o meu favorito: elas s estavam no lugar errado, na hora errada. Por outro lado, daria para dizer a mesma coisa sobre mim, no ?

O dia seguinte
como um leno de papel, que balanava como a cauda de um vestido de estrela de cinema. Peter o batizou de Wolverine e passava horas olhando as escamas da cor da lua e os olhos brilhosos. Mas, depois de alguns dias, comeou a imaginar como seria ter apenas um aqurio para explorar. Ele se perguntava se o peixe encostava na planta de plstico cada vez que passava porque havia uma coisa nova e incrvel que tinha descoberto no formato e no tamanho dela, ou porque era uma maneira de contar outra volta. Peter comeou a acordar no meio da noite para ver se seu peixe dormia, mas, independentemente da hora, Wolverine estava nadando. Ele pensava no que o peixe via: um olho aumentado, subindo como um sol pelo vidro grosso do aqurio. Ouvia o pastor Ron na igreja falando sobre o fato de Deus ver tudo e se perguntava se ele era assim para Wolverine. Enquanto estava sentado na cela da cadeia do condado de Grafton, Peter tentou lembrar o que tinha acontecido com o peixe. Ele achava que tinha morrido. Devia at t-lo visto morrer. Olhou para a cmera no canto da cela, que piscava impassivelmente. Eles -- no importava quem fossem -- queriam se certificar de que ele no se mataria antes de ser crucificado publicamente. At agora, a cela no tinha colcho, nem travesseiro, nem mesmo um tapete, s um banco duro e aquela cmera idiota.

N

o sexto Natal de Peter, ele ganhou um peixe. Era um daqueles peixes japoneses de briga, um beta de rabo partido to fino

Em contrapartida, talvez fosse uma coisa boa. Pelo que ele podia perceber, estava sozinho naquele pequeno aglomerado de celas individuais. Ele tinha ficado apavorado quando o carro do xerife parou na frente da cadeia. J tinha visto muitos programas de TV e sabia o que acontecia em lugares assim. O tempo todo em que estava sendo fichado, Peter ficou de boca calada, no por ser duro, mas porque tinha medo de comear a chorar se a abrisse e de no lembrar como fazer para parar. Houve o som parecido com o de uma luta de espadas, de metal sendo arrastado sobre metal, e ento passos. Peter ficou onde estava, com as mos apertadas entre os joelhos e os ombros cados. No queria parecer ansioso demais; no queria parecer pattico. A invisibilidade, na verdade, era algo em que era bom. Aperfeioara essa capacidade ao longo dos ltimos doze anos. Um agente penitencirio parou na frente da cela. -- Voc tem visita -- disse ele, e abriu a porta. Peter se levantou lentamente. Olhou para a cmera e seguiu o agente por um corredor cinza. Quo difcil seria fugir daquela cadeia? E se, como em todos os videogames, ele soubesse um golpe legal de kung fu e derrubasse aquele guarda, depois outro, e outro, at conseguir sair correndo pela porta e respirar ar puro, cujo gosto estava comeando a esquecer? E se tivesse de ficar ali para sempre? Foi nessa hora que ele lembrou o que tinha acontecido com o peixe. Em um movimento arrebatador de direitos dos animais e de humanidade, Peter levou Wolverine at o banheiro e o jogou no vaso sanitrio. Concluiu que o encanamento levava a algum grande oceano, como o que a famlia

tinha visitado nas frias de vero anteriores, e que talvez Wolverine conseguisse voltar para o Japo, para seus outros parentes betas. Depois que Peter confidenciou isso ao irmo, Joey contou a ele sobre os esgotos, e que, em vez de dar liberdade ao peixe, Peter o tinha matado. O agente parou diante de uma porta que dizia SALA DE REUNIES. Ele no conseguia imaginar quem o visitaria alm dos pais, e no queria vlos ainda. Eles fariam perguntas que ele no saberia responder, sobre como se podia colocar um filho na cama e no o reconhecer na manh seguinte. Talvez fosse mais fcil voltar para a cmera na cela, que olhava, mas no fazia julgamentos. -- Pronto -- disse o agente, e abriu a porta. Peter respirou fundo e tremeu. Perguntou-se o que o peixe tinha pensado, pois esperava o azul frio do mar, mas acabou nadando para um monte de merda. Jordan entrou na cadeia do condado de Grafton e parou no balco de registro. Ele tinha que assinar sua entrada antes de ir visitar Peter Houghton e deveria pegar um crach de visitante com um agente penitencirio do outro lado da divisria de vidro. Jordan pegou a prancheta e escreveu o nome, depois a passou pela abertura na parte de baixo da parede de plstico, mas no havia ningum para peg-la. Os dois agentes ali dentro estavam olhando para uma pequena TV em preto e branco que estava sintonizada, como todas as outras TVs do planeta, em um noticirio sobre o tiroteio. -- Com licena -- disse Jordan, mas nenhum dos dois se virou.

-- Quando comeou o tiroteio -- disse o reprter -- , Ed McCabe olhou pela porta da sala de matemtica do nono ano e se colocou entre o atirador e os alunos. A tela cortou para uma mulher que chorava, identificada em letras de forma abaixo do rosto como JOAN McCABE, IRM DA VTIMA. -- Ele gostava dos alunos -- disse ela, chorando. -- Cuidou deles durante todos os sete anos em que deu aula em Sterling, e at o seu ltimo minuto de vida. Jordan se mexeu com desconforto. -- Oi? -- S um segundo, amigo -- disse um dos agentes, balanando a mo com desateno na direo dele. O reprter apareceu de novo na tela granulada, com o cabelo voando como a vela de um barco ao vento leve, e os tijolos montonos da parede da escola atrs de si. -- Os colegas se lembram de Ed McCabe como um professor

comprometido, sempre disposto a dar mais de si para ajudar um aluno, e como um vido amante da natureza, que costumava falar na sala dos professores sobre seu sonho de fazer uma caminhada at o Alasca. Um sonho -- disse o reprter com gravidade -- que nunca vai se realizar. Jordan pegou a prancheta e a enfiou pela abertura no vidro, de forma que casse no cho. Os dois agentes se viraram ao mesmo tempo. -- Estou aqui para ver meu cliente -- disse ele.

Lewis Houghton nunca tinha deixado de comparecer a uma aula nos dezenove anos em que fora professor na Faculdade de Sterling, at aquele dia. Quando Lacy ligou, ele saiu com tanta pressa que nem se lembrou de colocar um aviso no corredor da sala. Imaginou os alunos esperando que ele aparecesse, esperando para tomar notas das palavras que sassem de seus lbios, como se as coisas que ele tinha a dizer ainda fossem irrepreensveis. Que palavra, que trivialidade, que comentrio dele tinha levado Peter a isso? Que palavra, que trivialidade, que comentrio poderia t-lo impedido? Ele e Lacy estavam sentados no quintal, esperando que os policiais sassem de casa. Bem, eles tinham ido embora, ou pelo menos um deles, para ampliar o mandado de busca, provavelmente. Lewis e Lacy no podiam entrar na prpria casa durante toda a operao. Por um tempo, ficaram de p em frente  garagem, vendo ocasionalmente os policiais carregarem caixas e sacos cheios de coisas que Lewis esperava -- computadores, livros do quarto de Peter -- e coisas que no esperava -- uma raquete de tnis, uma caixa grande de fsforos  prova d'gua. -- O que vamos fazer? -- murmurou Lacy. Ele balanou a cabea, entorpecido. Para um de seus artigos sobre o valor da felicidade, ele tinha entrevistado pessoas mais velhas com tendncias suicidas. "O que sobrou para ns?", disseram eles, e na poca Lewis no tinha conseguido entender aquela total falta de esperana. Na poca, no conseguia imaginar o mundo ficando to amargo que no fosse possvel ver um jeito de endireit-lo.

-- No tem nada que possamos fazer -- respondeu Lewis, e estava falando srio. Ele viu um policial sair com uma pilha de revistas em quadrinhos de Peter. Quando chegou e encontrou Lacy andando em frente  garagem, ela se lanou nos braos dele. -- Por qu -- soluou ela -- , por qu? Havia mil perguntas dentro daquela, mas Lewis no podia responder a nenhuma delas. Ele abraou a esposa como se ela fosse um tronco no meio de uma inundao e depois reparou que um vizinho os espiava do outro lado da rua, atrs de uma cortina. Ento eles foram para o quintal e se sentaram no balano da varanda, cercados por um emaranhado de galhos e neve derretida. Lewis ficou imvel, com os dedos e os lbios amortecidos pelo frio e pelo choque. -- Voc acha -- sussurrou Lacy -- que  nossa culpa? Ele olhou para ela fixamente, impressionado com sua coragem: ela colocara em palavras o que ele nem tinha se permitido pensar. Mas o que mais poderia ser dito entre eles? Os tiros foram disparados, e o filho deles estava envolvido. No dava para discutir com os fatos, s dava para mudar a lente com a qual se olhava para eles. Lewis baixou a cabea. -- No sei. Por onde comear a analisar essa estatstica? Ser que tinha acontecido porque Lacy pegava Peter muito no colo quando beb? Ou porque Lewis fingia rir quando ele caa, torcendo para que o menininho no chorasse se achasse que no havia motivo para chorar? Ser que eles deviam

ter monitorado de perto o que ele lia, via, ouvia... ou sufoc-lo teria levado ao mesmo resultado? Ou talvez fosse a combinao de Lacy e Lewis juntos. Se os filhos de um casal contavam como currculo, eles haviam falhado terrivelmente. Duas vezes. Lacy olhou para o desenho intrincado do piso entre os sapatos. Lewis se lembrava de quando colocara o piso no ptio; ele nivelara a areia e colocara os tijolos ele mesmo. Peter quis ajudar, mas Lewis no deixou. Os tijolos eram muito pesados. "Voc pode se machucar", dissera. Se Lewis tivesse sido menos protetor, se Peter tivesse sentido dor de verdade, ser que teria menos probabilidade de caus-la? -- Qual era o nome da me do Hitler? -- Lacy perguntou. Lewis olhou para ela sem entender. -- O qu? -- Ela era um monstro? Ele passou um brao ao redor dela. -- No faa isso consigo mesma -- murmurou. Ela afundou o rosto no ombro dele. -- Todo mundo vai fazer. Por apenas um momento, Lewis se permitiu acreditar que todo mundo estava errado, que Peter no podia ser o atirador daquela tragdia. De certa forma, era verdade. Apesar de haver centenas de testemunhas, o garoto que

eles viram no era o mesmo com quem Lewis conversara na noite anterior, antes de ir para a cama. Eles haviam conversado sobre o carro de Peter. -- Voc sabe que tem que levar pra reviso at o fim do ms -- dissera Lewis. -- Sei -- respondera Peter. -- J marquei. Ser que estava mentindo sobre isso tambm? -- O advogado... -- Ele disse que vai ligar pra gente -- respondeu Lewis. -- Voc disse pra ele que o Peter  alrgico a frutos do mar? Se derem algum pra ele... -- Eu falei -- disse Lewis, apesar de no ter falado nada. Imaginou Peter sentado sozinho em uma cela na cadeia pela qual passara durante todo o vero, a caminho de Haverhill Fairgrounds. Pensou em Peter ligando para casa na segunda noite do acampamento, implorando para que fossem busc-lo. Pensou no filho, que ainda era seu filho, apesar de ter feito uma coisa to horrvel que Lewis no conseguia fechar os olhos sem imaginar o pior; e ento seu peito pareceu apertado demais e ele no conseguiu respirar direito. -- Lewis? -- disse Lacy, se afastando enquanto ele ofegava. -- Voc est bem? Ele assentiu e sorriu, mas estava se engasgando com a verdade. -- Sr. Houghton? -- Os dois ergueram o olhar e viram um policial de p na frente deles. -- O senhor poderia vir comigo um segundo?

Lacy ficou de p ao lado dele, mas ele a segurou com uma das mos. No sabia aonde o policial o estava levando nem o que precisaria ver. No queria que Lacy visse se no precisasse. Ele seguiu o policial e entrou na prpria casa, ocupada pelos policiais de luvas brancas que revistavam a cozinha e o armrio. Assim que chegaram  porta do poro, ele comeou a suar. Sabia para onde estavam indo; era uma coisa sobre a qual tinha meticulosamente evitado pensar desde que recebera a ligao de Lacy. Outro policial estava de p no poro, bloqueando a viso de Lewis. Estava uns cinco graus mais frio l embaixo, mas Lewis estava suando, ento limpou a testa com a manga. -- Esses rifles -- disse o policial -- pertencem ao senhor? Lewis engoliu em seco. -- Sim. Eu cao. -- O senhor pode nos dizer, sr. Houghton, se todas as suas armas de fogo esto aqui? -- O policial deu um passo para o lado para deixar  mostra o armrio com porta de vidro. Lewis sentiu os joelhos fraquejarem. Trs de seus cinco rifles de caa estavam dentro do armrio, como moas sem par em um baile. Estavam faltando dois. At aquele momento, ele no tinha se permitido acreditar naquela coisa horrvel sobre Peter. At aquele momento, tinha sido um terrvel acidente. Agora, Lewis comeava a se culpar.

Virou-se para o policial e olhou nos olhos dele sem entregar seus sentimentos. Lewis se deu conta de que aquela era uma expresso que tinha aprendido com o prprio filho. -- No -- disse ele. -- No esto. A primeira regra no escrita da advocacia de defesa era agir como se voc soubesse tudo, quando na verdade no sabia nada. Voc estava de frente para um cliente desconhecido que podia ou no ter uma chance de ser absolvido; o truque, entretanto, era ser simultaneamente impassvel e impressionante. O primeiro passo era determinar imediatamente os parmetros do relacionamento: Sou o chefe; voc me conta s o que preciso ouvir . Jordan j estivera naquela situao uma centena de vezes -- esperando em uma sala de reunies daquela mesma cadeia que sua prxima fonte de renda chegasse -- e realmente acreditava j ter visto de tudo. Esse foi o motivo de ter ficado perplexo ao descobrir que Peter Houghton tinha a capacidade de surpreend-lo. Considerando a magnitude do tiroteio e o dano causado, o terror nos rostos que Jordan tinha visto na tela da TV... Bem, aquele garoto magrelo, com sardas e quatro-olhos no parecia capaz daquele ato. Esse foi seu primeiro pensamento. O segundo foi: Isso vai ser uma vantagem pra mim. -- Peter -- disse ele. -- Meu nome  Jordan McAfee. Sou advogado e fui contratado pelos seus pais pra defender voc. E esperou por uma resposta. -- Sente-se -- ele disse, mas o garoto ficou de p. -- Ou no -- acrescentou. Ele colocou a mscara profissional e olhou para Peter. --

Voc ser acusado amanh. No vai ter direito  fiana. Vamos poder falar sobre as acusaes de manh, antes de voc ir pro tribunal -- e deu um momento para Peter digerir a informao. -- De agora em diante, voc no vai passar por isso sozinho. Voc tem a mim. Ser que era imaginao de Jordan, ou alguma coisa brilhou nos olhos de Peter quando ele disse essas palavras? Foi tudo muito rpido e j no estava mais l; Peter olhou para o cho, sem expresso. -- Bom -- disse Jordan, se levantando. -- Alguma pergunta? Como ele esperava, no houve resposta. Pelo tanto que Peter se envolvera naquela curta conversa, parecia que Jordan estava batendo papo com uma das vtimas menos afortunadas do tiroteio. Talvez voc esteja fazendo isso mesmo , pensou ele, e a voz que ressoou em sua cabea era muito parecida com a de sua esposa. -- Tudo bem ento. Vejo voc amanh. -- Ele bateu na porta para chamar o agente penitencirio que levaria Peter de volta  cela, mas de repente o garoto falou. -- Quantos eu consegui atingir? Jordan hesitou com a mo na maaneta, mas no se virou para olhar para o cliente. -- Vejo voc amanh -- repetiu. O dr. Ervin Peabody morava do outro lado do rio, em Norwich, Vermont, e trabalhava meio perodo no programa de psicologia da Faculdade de Sterling. Seis anos antes, tinha sido um dos sete coautores de um trabalho publicado sobre violncia escolar, um exerccio acadmico do qual mal se lembrava. Ainda assim, recebeu uma ligao da afiliada

da NBC em Burlington, um noticirio matinal a que s vezes assistia enquanto comia uma tigela de cereal pela pura alegria de ver a frequncia com que os jornalistas incompetentes faziam besteira. -- Estamos procurando uma pessoa que possa falar sobre o tiroteio do ponto de vista psicolgico -- dissera o produtor, e Ervin respondera: -- Sou quem voc procura. -- Sinais de aviso -- disse ele em resposta  pergunta do ncora. -- Bom, esses jovens se afastam dos outros. Costumam ser solitrios. Falam sobre ferir a si mesmos ou os outros. No conseguem se adaptar  escola ou so punidos ali. No tm nenhum tipo de ligao com ningum que possa faz-los se sentir importantes. Ervin sabia que a rede de TV no tinha feito contato com ele em busca de conhecimento, e sim de consolo. O resto de Sterling -- do mundo -- o resto queria saber que garotos como Peter Houghton eram

reconhecveis, como se o potencial de virar um assassino de um dia para o outro fosse uma marca de nascena visvel. -- Ento existe um perfil genrico de atirador de escola -- disse o ncora. Ervin Peabody olhou para a cmera. Ele sabia a verdade: se dissesse que esses garotos usavam preto, ouviam msica estranha ou eram raivosos, estaria falando da maior parte da populao adolescente masculina em algum momento da puberdade. Ele sabia que, se um indivduo profundamente perturbado tivesse a inteno de causar mal, provavelmente conseguiria. Mas tambm sabia que todos os olhares do vale de Connecticut estavam sobre ele -- talvez at de todo o nordeste -- , e

que isso podia lhe garantir estabilidade profissional em Sterling. Um pouco de prestgio, um rtulo de especialista, no seria nada mal. -- Pode-se dizer que sim -- ele respondeu. Era Lewis quem preparava a casa dos Houghton  noite. Comeava na cozinha, colocando a loua na mquina de lavar. Trancava a porta da frente e apagava as luzes. Em seguida, ia para o andar de cima, onde Lacy costumava j estar na cama, lendo -- se no estivesse na rua, auxiliando em um parto -- , e parava no quarto do filho. Dizia para ele desligar o computador e ir dormir. Aquela noite, ele se viu de p em frente ao quarto de Peter, olhando para a baguna feita pela polcia durante a busca. Pensou em ajeitar os livros que sobraram na prateleira, em guardar o que havia nas gavetas da escrivaninha e que tinha sido jogado sobre o tapete. Mas pensou melhor e delicadamente fechou a porta. Lacy no estava no quarto nem escovando os dentes. Ele hesitou, com os ouvidos em alerta. Havia um rudo que parecia de uma conversa furtiva vindo do aposento de baixo. Ele refez seus passos, aproximando-se das vozes. Com quem Lacy estaria falando perto da meia-noite? A tela da televiso emitia um brilho verde e sobrenatural no escritrio escuro. Lewis tinha esquecido que havia uma TV naquele aposento, de to pouco que era usada. Viu o logo da CNN e a margem familiar de notcia urgente embaixo. Um pensamento lhe ocorreu: aquela margem no existia antes do 11 de Setembro, at as pessoas estarem to assustadas a ponto de precisarem saber, ao vivo, o que acontece no mundo que habitam.

Lacy estava ajoelhada no tapete e olhava atentamente o ncora. -- Ainda no se sabe como o homem que atirou obteve as armas nem exatamente que armas eram... -- Lacy -- disse ele, engolindo em seco. -- Lacy, venha pra cama. Ela no se mexeu nem deu qualquer indicao de ter ouvido. Lewis passou por ela e encostou a mo em seu ombro ao ir desligar a televiso. -- Os relatrios preliminares esto concentrados em duas pistolas -- disse o ncora, antes de sua imagem desaparecer. Lacy se virou para ele. Os olhos dela lhe lembraram o cu que se v quando se est dentro de um avio: um cinza sem limites, que  ao mesmo tempo qualquer lugar e nenhum lugar, tudo de uma vez. -- Ficam falando homem -- disse ela -- , mas ele  apenas um garoto. -- Lacy -- o marido repetiu, e ela ficou de p e foi para os braos dele, como se fosse um convite para danar. Se voc escutar com ateno em um hospital, consegue ouvir a verdade. Enfermeiras sussurram umas com as outras sobre seu corpo imvel quando voc est fingindo dormir; policiais trocam segredos no corredor; mdicos entram em seu quarto com a situao de outro paciente nos lbios. Josie vinha fazendo uma lista mental dos feridos. Parecia que podia brincar de seis graus de separao com qualquer um deles: quando os tinha visto pela ltima vez; quando tinham cruzado seu caminho; onde estavam em relao a ela quando levaram o tiro. Havia Drew Girard, que agarrara ela e Matt para dizer que Peter Houghton estava atirando pela escola. Emma,

que estava sentada a trs cadeiras dela no refeitrio. E Trey MacKenzie, um jogador de futebol conhecido pelas festas que dava em casa. John Eberhard, que comera as batatas dela naquela manh. Min Horuka, uma estudante de intercmbio de Tquio que no ano passado ficara bbada no circuito de arvorismo atrs das pistas de corrida e urinara pela janela aberta do carro do diretor. Natalie Zlenko, que estava na frente dela na fila do refeitrio. O treinador Spears e a srta. Ritolli, dois ex-professores seus. Brady Pryce e Haley Weaver, o casal vinte entre os formandos. Havia outros que Josie s conhecia de nome: Michael Beach, Steve Babourias, Natalie Phlug, Austin Prokiov, Alyssa Carr, Jared Weiner, Richard Hicks, Jada Knight, Zoe Patterson, estranhos a quem agora estava ligada para sempre. Foi mais difcil descobrir os nomes dos mortos. Eles eram sussurrados ainda mais baixo, como se a condio deles fosse contagiosa para o resto das almas infelizes que ocupavam espao nos leitos de hospital. Josie tinha ouvido boatos: que o sr. McCabe tinha sido morto, assim como Topher McPhee, o traficante de maconha da escola. Para reunir migalhas de informao, ela tentava ver televiso, que fazia a cobertura do tiroteio da Sterling High vinte e quatro horas por dia, mas inevitavelmente sua me entrava no quarto e a desligava. Tudo que coletou em suas investidas proibidas na mdia foi que havia dez vtimas fatais. Matt era uma delas. Todas as vezes que Josie pensava nisso, alguma coisa acontecia com seu corpo e ela parava de respirar. Todas as palavras que sabia ficavam congeladas na garganta, como uma pedra bloqueando a sada de uma caverna.

Graas aos sedativos, muito disso parecia irreal, como se ela estivesse caminhando pelo piso esponjoso de um sonho, mas, assim que pensava em Matt, tudo se tornava verdadeiro e cru. Jamais voltaria a beijar Matt. Jamais o ouviria rir. Jamais sentiria o peso da mo dele em sua cintura, nem leria um bilhete enfiado por ele em seu armrio, nem sentiria o corao bater debaixo da mo dele quando ele desabotoava sua blusa. Ela sabia que s estava se lembrando de metade de tudo, como se o tiroteio no s tivesse partido a vida dela em antes e depois, mas tambm tivesse lhe roubado certas capacidades: a capacidade de passar uma hora sem desabar em lgrimas; de ver a cor vermelha sem ficar enjoada; de formar um esqueleto da verdade usando os ossos da memria. Lembrar-se do resto, considerando o que tinha acontecido, seria quase obsceno. Assim, Josie se viu passando dos momentos desfocados com Matt para os macabros. Ficava pensando em uma frase de Romeu e Julieta que a tinha apavorado quando estudaram a pea no nono ano: "Com vermes que so seus criados". Romeu tinha dito para o corpo de Julieta, que parecia estar morta, na cripta dos Capuleto. Das cinzas s cinzas, do p ao p. Mas havia uma srie de passos no meio disso dos quais ningum falava, e, quando as enfermeiras sumiam no meio da noite, Josie se via pensando em quanto tempo a pele demorava para se soltar de um crnio; no que acontecia com os olhos; se Matt j tinha deixado de ter a aparncia de Matt. E ento, acordava e percebia que estava gritando, com uma dzia de mdicos e enfermeiras em volta para segur-la.

Se voc entregava seu corao para uma pessoa e ela morria, ela levava seu corao junto? E ento voc seria obrigado a passar o resto da vida com um buraco no peito, que no podia mais ser preenchido? A porta do quarto se abriu e sua me entrou. -- E ento? -- perguntou ela, com um sorriso falso to largo que dividia sua cabea como a linha do equador. -- Est pronta? Eram apenas sete horas da manh, mas Josie j tinha recebido alta. Ela assentiu para a me. De certa forma, Josie a odiava agora. Ela estava agindo com muita preocupao, mas era tarde demais, como se tivesse sido necessrio acontecer o tiroteio para que ela acordasse para o fato de que no tinha nenhum tipo de relacionamento com Josie. Ela ficava dizendo para Josie que estava ali caso ela precisasse conversar, o que era ridculo. Mesmo se Josie quisesse -- e ela no queria -- , a me era a ltima pessoa no mundo em quem iria confiar. Ela no entenderia. Ningum entenderia, exceto os outros adolescentes deitados nos outros quartos daquele hospital. No tinha sido apenas um assassinato na rua, em um lugar qualquer, o que j teria sido bem ruim. Era o pior que poderia acontecer, em um lugar para onde Josie teria que voltar, querendo ou no. Josie estava usando roupas diferentes das de quando fora levada para o hospital, as quais tinham misteriosamente desaparecido. Ningum admitia nada, mas ela sups que estavam cobertas com o sangue de Matt. Sendo assim, eles tinham feito certo em jog-las fora: no importava quanta gua sanitria se usasse nem quantas vezes fossem lavadas, ela sempre conseguiria ver as manchas. A cabea ainda doa no local que batera no cho quando desmaiara. Ela tinha cortado a testa e por pouco no precisou de pontos, mas os mdicos disseram que queriam observ-la durante a noite. (Observar o qu?,

Josie se perguntou. Um derrame cerebral? Um cogulo de sangue? Uma tentativa de suicdio?) Quando Josie ficou de p, sua me imediatamente apareceu ao seu lado, com um brao  sua volta para servir-lhe de apoio. Isso lembrou a Josie o jeito como ela e Matt s vezes andavam na rua no vero, com as mos no bolso de trs do jeans do outro. -- Ah, Josie -- disse a me, e aquilo foi o bastante para ela reparar que tinha comeado a chorar de novo. Acontecia com tanta frequncia que Josie tinha perdido a capacidade de perceber quando parava e comeava. Sua me lhe ofereceu um leno de papel. -- Sabe de uma coisa? Voc vai comear a se sentir melhor quando chegar em casa. Prometo. Bem, d. Josie no podia comear a se sentir pior. Mas conseguiu esboar uma careta, que poderia ter sido um sorriso se voc no estivesse prestando muita ateno, porque ela sabia que era o que a me precisava naquele momento. Ela havia dado os quinze passos at a porta do quarto de hospital. -- Cuide-se, querida -- disse uma das enfermeiras quando Josie passou pela bancada. Outra enfermeira, a preferida de Josie, que lhe dava pedaos de gelo, sorriu. -- No volte pra nos visitar, est ouvindo? Josie seguiu lentamente em direo ao elevador, que parecia ficar mais longe a cada vez que ela olhava. Quando passou por um dos quartos, reparou em um nome familiar na prancheta do lado de fora:HALEY WEAVER.

Haley ia se formar e fora a rainha do baile nos dois ltimos anos. Ela e o namorado, Brady, eram o Brangelina da Sterling High -- papel que Josie realmente acreditara que ela e Matt tinham boa chance de herdar depois que Haley e Brady se formassem. Mesmo as sonhadoras que suspiravam pelo sorriso sexy e pelo corpo escultural de Brady admitiam que havia justia potica no fato de ele namorar Haley, a garota mais bonita da escola. Com o cabelo louro-branco, que caa como uma cascata, e os olhos azulclaros, para Josie ela era como uma fada, uma criatura serena e celestial que aparece flutuando para realizar os desejos de algum. Havia todos os tipos de histria circulando sobre eles: que Brady tinha desistido de bolsas de estudo para jogar futebol americano em faculdades que no tinham cursos de arte para Haley; que Haley tinha feito uma tatuagem com as iniciais de Brady em um lugar que ningum conseguia ver; que, no primeiro encontro, ele espalhou ptalas de rosas no banco do passageiro do Honda. Josie, que andava com o mesmo grupo de Haley, sabia que quase tudo era bobagem. Foi a prpria Haley quem admitira, primeiro, que tinha sido uma tatuagem temporria e, segundo, que no tinham sido ptalas de rosas, mas um buqu de lilases que ele roubou do jardim de um vizinho. -- Josie? -- sussurrou Haley de dentro do quarto. --  voc? Josie sentiu a mo da me no brao, segurando-a. Ento os pais de Haley, que estavam bloqueando a vista da cama, se afastaram. O lado direito do rosto de Haley estava coberto de curativos; o cabelo estava raspado acima. Ela tinha quebrado o nariz, e o nico olho visvel estava completamente vermelho. A me de Josie inspirou em silncio. Ela entrou e se forou a sorrir.

-- Josie -- disse Haley. -- Ele matou as duas. A Courtney e a Maddie. Depois apontou a arma pra mim, mas o Brady entrou na frente. -- Uma lgrima desceu pela bochecha que no estava coberta de curativos. -- Sabe quando as pessoas dizem que fariam isso por voc? Josie comeou a tremer. Queria fazer mil perguntas a Haley, mas seus dentes batiam com tanta fora que no conseguiu emitir uma nica palavra. Haley segurou a mo dela, e Josie levou um susto. Queria se afastar. Queria fingir que nunca tinha visto Haley Weaver daquele jeito. -- Se eu te perguntar uma coisa -- disse Haley -- , voc jura que vai me dizer a verdade? Josie assentiu. -- Meu rosto -- sussurrou ela. -- Est destrudo, no est? Josie olhou nos olhos de Haley. -- No -- disse ela. -- Est timo. As duas sabiam que no era verdade. Josie se despediu de Haley e dos pais dela, se segurou na me e andou ainda mais rpido at o elevador, embora cada passo provocasse a sensao de uma tempestade atrs de seus olhos. De repente ela se lembrou de ter estudado o crebro na aula de cincias: que uma haste de ao tinha perfurado o crnio de um homem, e ele abriu a boca e falou portugus, uma lngua que nunca tinha estudado. Talvez agora fosse ser assim para Josie. Talvez sua lngua materna, de agora em diante, fosse ser uma sequncia de mentiras. Quando Patrick voltou  Sterling High na manh seguinte, os detetives que estavam na cena do crime tinham transformado os corredores

da escola em uma enorme teia de aranha. Com base nos locais onde as vtimas haviam sido encontradas, uma corda foi presa com fita adesiva, formando uma srie de linhas irradiando de um lugar onde Peter Houghton tinha feito uma pausa longa o bastante para fazer alguns disparos antes de seguir em frente. As linhas de corda se cruzavam em certos pontos -- uma rede de pnico, um grfico do caos. Ele ficou parado por um momento no centro da confuso, observando os tcnicos esticarem a corda pelos corredores e entre vrios armrios enfileirados, passando pelas portas. Imaginou como teria sido comear a correr ao som dos tiros, sentir as pessoas empurrando voc como uma mar, saber que no era possvel se mover mais rpido do que uma bala. Perceber tarde demais que estava encurralado, tal qual a presa de uma aranha. Patrick escolheu cuidadosamente o caminho pela teia, tomando o cuidado de no perturbar o trabalho dos tcnicos. Usaria o que eles fizeram para corroborar as histrias das testemunhas. Todas as 1.026. A transmisso matinal das trs redes de noticirio locais foi dedicada  acusao daquela manh contra Peter Houghton. Alex estava em p no quarto, em frente  televiso, segurando uma xcara de caf e olhando para o local atrs dos reprteres ansiosos: seu antigo local de trabalho, o tribunal distrital. Ela tinha colocado Josie para dormir o sono escuro e sem sonhos dos sedados. Para ser completamente sincera, Alex tambm precisava desse tempo sozinha. Quem poderia adivinhar que uma mulher que tinha se tornado mestra em exibir uma mscara pblica acharia to emocionalmente exaustivo se manter composta na frente da filha?

Ela queria se sentar e ficar bbada. Queria chorar com a cabea enterrada nas mos por ter tanta sorte: sua filha estava a duas portas de distncia. Mais tarde, tomariam caf da manh juntas. Quantos pais naquela cidade estavam acordando e se dando conta de que aquilo jamais aconteceria de novo? Alex desligou a televiso. No queria comprometer sua objetividade como futura juza do caso ouvindo o que a mdia tinha a dizer. Ela sabia que haveria crticas, pessoas que diriam que, por sua filha estudar na Sterling High, ela deveria ser afastada do caso. Se Josie tivesse levado um tiro, ela teria concordado rapidamente. Se Josie ainda fosse amiga de Peter Houghton, Alex teria se recusado. Mas, no p em que as coisas estavam, a avaliao de Alex estava to comprometida quanto a de qualquer juiz que morasse na rea, ou que conhecesse um aluno que frequentasse a escola, ou que fosse pai ou me de um adolescente. Acontecia o tempo todo com juzes de North Country -- algum que voc conhecia acabaria inevitavelmente em seu tribunal. Quando Alex estava na rotao como juza distrital, tinha encarado rus que conhecia na vida pessoal: seu carteiro pego com maconha no carro; uma briga domstica entre seu mecnico e a esposa. Desde que a confuso no envolvesse Alex pessoalmente, era perfeitamente legal -- na verdade, obrigatrio -- que ela julgasse o caso. Nessas situaes, voc simplesmente se retirava da equao. Voc se tornava a juza e nada mais. O tiroteio, como Alex o via, era uma situao dentro das mesmas circunstncias, s que excepcionalmente intensificada. Na verdade, ela argumentaria que, em um caso com enorme cobertura da mdia como aquele, seria preciso algum com histrico de defensoria, como Alex, para ser verdadeiramente imparcial com o atirador. E, quanto mais pensava sobre isso, mais firmemente convencida ficava de que a justia no poderia ser feita sem o

envolvimento dela, mais absurdo parecia sugerir que ela no era a melhor juza para o caso. Tomou outro gole de caf e andou na ponta dos ps do seu quarto at o de Josie. A porta estava aberta, mas a filha no estava l. -- Josie? -- gritou Alex, entrando em pnico. -- Josie, voc est bem? -- Estou aqui embaixo -- Josie respondeu, e Alex sentiu o n dentro de si se soltar de novo. Desceu a escada e encontrou a filha sentada  mesa da cozinha. Josie estava usando saia, meia-cala e suter preto. O cabelo ainda estava mido do banho, e ela tinha tentado cobrir o curativo na testa com parte da franja. Ela olhou para Alex. -- Pareo bem? -- Pra qu? -- perguntou Alex, estupefata. Ela no podia estar pensando em ir para a escola, podia? Os mdicos tinham dito para Alex que era possvel que Josie nunca se lembrasse do tiroteio, mas ser que ela podia apagar da mente o fato de que tinha acontecido? -- Pra acusao -- disse Josie. -- Querida, no h a menor chance de voc chegar perto daquele tribunal hoje. -- Eu preciso ir. -- Voc no vai -- disse Alex sem inflexo na voz. Josie parecia estar desmoronando.

-- Por que no? Alex abriu a boca para responder, mas no conseguiu. No era lgico, era instintivo. Ela no queria que a filha revivesse a experincia. -- Porque eu falei que no -- respondeu ela por fim. -- Isso no  resposta -- disse Josie em tom acusatrio. -- Eu sei o que a mdia vai fazer se vir voc no tribunal hoje -- disse Alex. -- Alm disso, sei que nada vai acontecer durante a acusao que v ser surpresa pra algum. E sei que no quero deixar voc longe dos meus olhos agora. -- Ento v comigo. Alex balanou a cabea. -- No posso, Josie -- disse baixinho. -- Esse caso vai ser meu. Ento viu Josie empalidecer e percebeu que, at aquele momento, a filha no tinha pensado nisso. O julgamento ergueria um muro ainda mais alto entre elas. Como juza, haveria informaes que ela no poderia compartilhar com a filha, confisses que no poderia mencionar. Enquanto Josie estivesse lutando para seguir em frente depois daquela tragdia, Alex estaria afundada nela at o pescoo. Por que tinha pensado tanto em julgar aquele caso e to pouco em como ele afetaria sua prpria filha? Naquele momento, Josie no ligava se a me era uma juza justa. Ela s queria e precisava de uma me, e a maternidade, ao contrrio da lei, era algo que nunca tinha sido fcil para Alex. Do nada, ela pensou em Lacy Houghton, uma me que estava em um nvel completamente diferente de inferno agora, que teria simplesmente segurado a mo de Josie, sentado com ela e de alguma forma feito aquilo

parecer solidrio, e no artificial. Mas Alex, que nunca fora do tipo June Cleaver,4 precisava voltar muitos anos para encontrar algum momento de ligao, alguma coisa que ela e Josie tivessem feito antes e que poderia funcionar de novo para uni-las. -- Por que voc no sobe, troca de roupa e ns fazemos panquecas? Voc gostava disso. -- , quando eu tinha cinco anos ... -- Cookies com pedaos de chocolate, ento. Josie ficou olhando fixamente para Alex. -- Voc fumou crack? Alex soou ridcula at para si mesma, mas estava desesperada para mostrar para Josie que podia e iria tomar conta dela, e que o trabalho vinha em segundo lugar. Ela se levantou e abriu alguns armrios at encontrar um jogo de Scrabble. -- Que tal isso ento? -- disse Alex, mostrando a caixa. -- Aposto que voc no consegue ganhar de mim. Josie passou por ela. -- Voc j ganhou a aposta -- disse de maneira rude e saiu andando. O aluno que estava sendo entrevistado pela afiliada da CBS de Nashua se lembrava de Peter Houghton da aula de ingls no nono ano.

4

June Cleaver: personagem do programa de TV americano dos anos

1950 Leave It to Beaver, considerada modelo de me ideal. (N. da T.)

-- A gente teve que escrever uma histria com narrador em primeira pessoa, e podia escolher qualquer pessoa -- disse o garoto. -- O Peter escolheu John Hinckley.5 Pelas coisas que ele dizia, voc pensava que ele estava olhando do inferno, mas no final voc descobria que era do cu. Nossa professora surtou. Ela fez o diretor ler o trabalho e tudo. -- O garoto hesitou e passou o polegar pela costura do jeans. -- O Peter disse para eles que era licena potica e que o narrador no era confivel, o que a gente tambm estava estudando. -- Ele olhou para a cmera. -- Acho que ele tirou A. No semforo, Patrick adormeceu. Sonhou que estava correndo pelos corredores da escola, ouvindo tiros, mas todas as vezes que dobrava uma esquina se via flutuando no ar, sem cho para pisar. Quando uma buzina tocou, ele despertou. Fez um sinal pedindo desculpas para o carro que passou ao seu lado e ento dirigiu at o laboratrio criminal do estado, onde os testes de balstica eram prioridade. Como Patrick, os tcnicos vinham trabalhando sem descanso. O profissional favorito e de mais confiana dele era uma mulher chamada Selma Abernathy, av de quatro netos e que sabia mais sobre tecnologia do que qualquer fantico. Ela levantou o olhar e ergueu uma sobrancelha quando Patrick entrou no laboratrio. -- Voc andou cochilando -- disse ela em tom acusatrio. Patrick balanou a cabea negativamente.

John Hinckley: homem que tentou assassinar o ento presidente Ronald Reagan em 1981, numa tentativa de impressionar a atriz Jodie Foster. (N. da T.)
5

-- Palavra de escoteiro. -- Voc est com uma aparncia boa demais pra quem est exausto. Ele sorriu. -- Selma, voc precisa superar essa quedinha por mim. Ela empurrou os culos para cima. -- Querido, sou inteligente o bastante pra me apaixonar por algum que no transforma minha vida em um inferno. Quer seus resultados? Patrick a seguiu at a mesa, sobre a qual havia quatro armas: duas pistolas e duas espingardas serradas. Estavam etiquetadas como Arma A, Arma B (as duas pistolas), Arma C e Arma D (as espingardas). Ele reconheceu as pistolas -- eram as que encontrara no vestirio, uma na mo de Peter Houghton e a outra a uma pequena distncia, no cho. -- Primeiro fiz o teste de digitais latentes -- disse Selma, mostrandolhe os resultados. -- A Arma A tinha uma digital que bate com a do suspeito. As Armas C e D no tinham nada. A Arma B tinha uma digital parcial inconclusiva. Selma indicou com a cabea o fundo do laboratrio, onde enormes barris de gua eram usados para os testes de disparo de armas. Ela testara cada arma na gua, Patrick sabia. Quando uma bala  disparada, ela gira pelo cano da arma, o que deixa marcas no metal. Como resultado, d para saber, ao olhar para uma bala, exatamente de qual arma ela foi disparada. Isso ajudaria Patrick a juntar as peas do ataque de Peter Houghton: onde ele tinha parado para atirar, que arma tinha usado. -- A Arma A foi a mais usada durante o tiroteio. As Armas C e D ficaram na mochila encontrada na cena do crime. E isso  uma coisa boa,

porque elas provavelmente causariam dano maior. Todas as balas retiradas do corpo das vtimas foram disparadas da Arma A, a primeira pistola. Patrick se perguntou onde Peter Houghton conseguira aquele arsenal e, ao mesmo tempo, se deu conta de que no era difcil encontrar algum em Sterling que caava ou treinava disparos em alvos em um velho lixo no bosque. -- Pelo resduo de plvora, sei que a Arma B foi disparada. Mas ainda no houve nenhuma bala recuperada que confirme isso. -- Ainda esto processando... -- Me deixe terminar -- disse Selma. -- A outra coisa interessante sobre a Arma B  que ela emperrou depois desse nico disparo. Quando a examinamos, encontramos dupla alimentao. Patrick cruzou os braos. -- No tem digital na arma? -- perguntou. -- Tem uma digital parcial no gatilho... provavelmente borrada

quando o suspeito a largou, mas no posso garantir. Patrick assentiu e apontou para a Arma A. -- Foi essa que ele largou quando o encurralei no vestirio. Ento, presumivelmente, foi a ltima que disparou. Selma ergueu uma bala com uma pina. -- Arma A. Voc deve estar certo. Esta aqui foi retirada do crebro de

Matthew Royston -- disse ela. -- E as marcas so consistentes com a

O garoto no vestirio, o que foi encontrado com Josie Cormier. A nica vtima que levou dois tiros. -- E a bala na barriga do garoto? -- perguntou Patrick. Selma balanou a cabea. -- No ficou alojada. Pode ter sido disparada da Arma A ou da Arma B, mas s vamos saber depois que voc me trouxer o projtil. Patrick olhou para as armas. -- Ele usou a Arma A em toda a escola. No consigo imaginar o que o fez mudar pra outra pistola. Selma olhou para ele, que reparou pela primeira vez nas olheiras dela, o preo a pagar pela emergncia noturna. -- No consigo imaginar o que o fez usar qualquer uma das duas. Meredith Vieira olhou com seriedade para a cmera depois de ter ajustado a postura para uma tragdia nacional. -- Os detalhes continuam se acumulando no caso do tiroteio de Sterling -- disse ela. -- Para saber mais, passamos para Ann Curry no estdio. Ann? A ncora do noticirio assentiu. -- Durante a noite, os investigadores descobriram que quatro armas foram levadas para a Sterling High School, embora apenas duas tenham sido usadas pelo atirador. Alm disso, h evidncias de que Peter Houghton, o suspeito autor dos disparos, era f ardoroso de uma banda punk chamada Death Wish, pois escrevia em sites de fs e baixava letras de

msica em seu computador. Letras que, em retrospecto, fazem algumas pessoas questionarem o que os adolescentes deveriam ou no ouvir. A tela verde atrs do ombro dela se encheu com o texto: Neve negra caindo Cadver de pedra andando Filhos da me rindo Vou explodir todos no meu Dia do Juzo Final. Filhos da me no veem A besta sangrenta em mim ceifeiro trabalha de graa Vou explodir todos no meu Dia do Juzo Final. -- A msica "Judgement Day", da banda Death Wish,  o prenncio assustador de um evento que se tornou real demais em Sterling, New Hampshire, ontem de manh -- disse Curry. -- Raven Napalm, o vocalista do Death Wish, fez um pronunciamento ontem  noite. A imagem foi cortada para um homem com um moicano preto, sombra dourada e cinco argolas no lbio inferior, de p em frente a um grupo de microfones. -- Moramos em um pas em que jovens americanos esto morrendo porque os mandamos para outro continente para matar por petrleo. Mas, quando um jovem triste e perturbado que no v a beleza da vida age de modo errado guiado pela prpria fria e sai atirando em uma escola, as pessoas comeam a culpar o heavy metal. O problema no est nas letras de rock, est na construo dessa sociedade. O rosto de Ann Curry voltou a preencher a tela.

-- Falaremos mais sobre a cobertura contnua da tragdia de Sterling conforme o desenrolar dos fatos. Quanto s notcias do pas, o Senado defendeu a lei de controle de armas na quarta-feira passada, mas o senador Roman Nelson sugere que esta no ser a ltima vez que falaremos dessa disputa. Ele faz uma participao hoje direto de Dakota do Sul. Senador? Peter achava que no tinha dormido nada  noite, mas no ouviu o agente penitencirio indo em direo a sua cela. Ele levou um susto ao ouvir a porta de metal se abrindo. -- Tome -- disse o homem, e jogou uma coisa para Peter. -- Vista isso. Ele sabia que iria para o tribunal naquele dia; Jordan McAfee o avisara. Sups que fosse um terno ou alguma coisa do tipo. As pessoas no tm sempre que usar terno no tribunal, mesmo que fossem para l direto da cadeia? Era para faz-los parecerem simpticos. Ele achava que tinha visto na TV. Mas aquilo no era um terno. Era um Kevlar, um colete  prova de balas. Na cela que ficava sob o tribunal, Jordan encontrou seu cliente deitado de costas no cho, com um brao sobre os olhos. Peter estava usando um colete  prova de balas, uma aceitao silenciosa do fato de que todo mundo que lotava o tribunal naquela manh queria mat-lo. -- Bom dia -- disse Jordan, e Peter se sentou. -- Ou no -- murmurou ele. Jordan no respondeu e se inclinou mais perto das barras.

-- O plano  o seguinte: voc est sendo acusado de dez homicdios qualificados e de dezenove tentativas de homicdio qualificado. Vou renunciar  leitura das acusaes; vamos falar delas uma a uma em algum outro momento. Agora, s temos que entrar l e alegar inocncia. No quero que voc diga nada. Se tiver alguma pergunta, sussurre para mim. Para todos os fins prticos, voc ficar mudo durante a prxima hora. Entendeu? Peter olhou para ele. -- Perfeitamente -- disse de maneira seca. Mas Jordan estava

olhando para as mos de seu cliente. Elas estavam tremendo. Da lista de itens retirados do quarto de Peter Houghton: 1. 2. 3. 4. 5. Laptop Dell. CDs de jogos: Doom 3, Grand Theft Auto: Vice City. Trs psteres de fabricantes de armas. Canos de tamanhos variados. Livros: O apanhador no campo de centeio, Salinger; Da guerra ,

Clausewitz; quadrinhos de Frank Miller e Neil Gaiman. 6. 7. DVD: Tiros em Columbine. Anurio da Sterling Middle School, com vrios rostos

circulados com caneta preta. Um rosto circulado e marcado com um X, e as palavras DEIXAR VIVA debaixo da foto. A garota  identificada na legenda como Josie Cormier.

A garota falava to baixo que o microfone, pendurado em um suporte acima da cabea dela como uma pinhata, no captava direito o som. -- A sala de aula da sra. Edgar  bem do lado da sala do sr. McCabe, e s vezes a gente conseguia ouvir quando eles arrastavam as cadeiras ou davam respostas -- disse ela. -- Mas dessa vez ouvimos os gritos. A sra. Edgar... ela empurrou a mesa dela contra a porta e mandou a gente ir pro outro canto da sala, perto das janelas, e sentar no cho. Os tiros pareciam pipoca. E ento... -- ela parou e secou os olhos. -- E ento os gritos pararam. Diana Leven no esperava que o atirador fosse to novo. Peter Houghton estava algemado e acorrentado, usando o macaco laranja e o colete  prova de balas, mas ainda tinha as bochechas de um garoto que no havia chegado ao fim da puberdade, e ela poderia apostar que ele no precisava fazer a barba. Os culos tambm a incomodavam. A defesa iria abusar disso, ela tinha certeza, alegando alguma miopia que tornaria impossvel atirar com preciso. As quatro cmeras que o juiz distrital permitira no tribunal para representar as redes de TV -- ABC, CBS, NBC e CNN -- ganharam vida como um quarteto de cantores assim que o ru foi levado para o tribunal. Como tudo estava to silencioso que dava para ouvir o som das suas prprias dvidas, Peter se virou imediatamente para elas. Diana percebeu que os olhos dele no eram to diferentes das lentes daquelas cmeras: escuros, cegos, vazios. Jordan McAfee -- um advogado de quem Diana no gostava muito como pessoa, mas admitia um pouco contra a vontade ser muito bom no que fazia -- se inclinou em direo ao cliente assim que Peter chegou  mesa da defesa. O meirinho se levantou.

-- Todos de p -- gritou ele. -- O meritssimo senhor juiz Charles Albert iniciar a audincia. O juiz Albert entrou no tribunal com a toga fazendo barulho. -- Sentem-se. Peter Houghton -- disse ele, virando-se para o ru. Jordan McAfee ficou de p. -- Meritssimo, renunciamos  leitura das acusaes. Gostaramos de declarar o ru inocente de todas elas, e pedimos que uma audincia preliminar seja marcada para daqui a dez dias. Isso no foi surpresa para Diana. Por que Jordan iria querer que o mundo todo ouvisse seu cliente ser acusado de dez casos de homicdio qualificado? O juiz se virou para ela. -- Sra. Leven, o estatuto requer que um ru acusado de homicdio qualificado, mltiplos, alis, permanea preso sem fiana. Suponho que a senhora no tenha problema com isso. Diana escondeu um sorriso. O juiz Albert, que Deus o abenoe, tinha conseguido mencionar as acusaes mesmo assim. -- Correto, Meritssimo. O juiz assentiu. -- custdia. O procedimento todo levara menos de cinco minutos, e o pblico no ficaria feliz. As pessoas queriam sangue, queriam vingana. Diana observou Peter Houghton cambalear entre dois assistentes do xerife e se virar para o advogado uma ltima vez, com uma pergunta nos lbios que no chegou a Muito bem ento, sr. Houghton. O senhor permanece sob

elaborar. A porta se fechou atrs dele, e Diana pegou sua pasta e saiu do tribunal, direto para as cmeras. Ela parou diante de vrios microfones. -- Peter Houghton acaba de ser acusado de dez homicdios

qualificados e de dezenove tentativas de homicdio qualificado, alm de vrios outros crimes que envolvem posse ilegal de explosivos e armas nessa recente tragdia. As regras de responsabilidade profissional nos impedem de comentar sobre as provas neste momento, mas nossa comunidade pode estar certa de que estamos nos empenhando para levar esse caso adiante, trabalhando exaustivamente em nossas investigaes para nos assegurar de que todas as provas sejam coletadas, preservadas e tratadas com propriedade, para que essa tragdia indescritvel no passe sem punio. Ela abriu a boca para continuar, mas se deu conta de que havia outra voz falando, do outro lado do corredor, e que os reprteres estavam abandonando sua declarao improvisada para ouvir Jordan McAfee. Ele estava muito srio e penitente, com as mos nos bolsos da cala, e olhou diretamente para Diana. -- Eu me compadeo com nossa comunidade pelas perdas que sofreu e vou representar meu cliente at o fim. Peter Houghton  um garoto de dezessete anos, e est com muito medo. Peo que faam a gentileza de ter respeito pela famlia dele e se lembrem de que essa  uma questo a ser resolvida no tribunal. -- Jordan hesitou, sempre um artista, e fez contato visual com o grupo. -- Peo que se lembrem de que o que vocs conseguem ver nem sempre  tudo que parece ser. Diana deu um sorrisinho de deboche. Os reprteres -- e todas as pessoas no mundo inteiro que estavam escutando o discurso cuidadoso de

Jordan -- ouviriam esse comentrio final e acreditariam que ele tinha uma verdade fabulosa escondida na manga, algo que provaria que seu cliente no era um monstro. Mas Diana sabia a verdade. Ela conseguia traduzir juridiqus porque o falava fluentemente. Quando um advogado lanava uma retrica misteriosa assim, era porque no tinha mais nada para usar em defesa do cliente. Ao meio-dia, o governador de New Hampshire fez um

pronunciamento nos degraus do capitlio em Concord. Ele usava um lao marrom e branco na lapela, as cores da Sterling High, que brotavam em caixas registradoras de postos de gasolina e bancadas do Walmart e estavam sendo vendidos por um dlar, com renda revertida para o Fundo de Apoio s Vtimas de Sterling. Um de seus funcionrios havia dirigido quarenta quilmetros para comprar um, porque o governador planejava anunciar sua candidatura para as preliminares do Partido Democrata em 2008 e sabia que aquele era o momento perfeito na mdia para demonstrar compaixo. Sim, ele sentia muito pelos cidados de Sterling, principalmente pelos pobres pais dos mortos, mas tambm havia nele uma parte calculista que sabia que um homem que conseguisse guiar um estado por um dos tiroteios escolares mais trgicos dos Estados Unidos seria visto como um forte lder. -- Hoje, o pas todo est de luto com New Hampshire -- disse ele. -- Hoje, todos ns sentimos a dor que Sterling sente. So todos nossos filhos. -- Ele olhou para cima. -- Fui a Sterling e conversei com os investigadores, que esto trabalhando duro, sem parar, para entender o que aconteceu ontem. Passei algum tempo com as famlias de algumas vtimas, e no hospital, com os corajosos sobreviventes. Parte de nosso passado e parte de nosso futuro desapareceram nessa tragdia -- disse o governador

enquanto olhava solenemente para as cmeras. -- O que precisamos agora  nos concentrar no futuro. Josie levou menos de uma manh para aprender as palavras mgicas: quando queria que a me a deixasse em paz, quando estava de saco cheio da me a observando como um falco, tudo que tinha de dizer era que precisava cochilar. A me ento se afastava, completamente inconsciente de que seu rosto todo relaxava assim que Josie a liberava, e que s ento a filha conseguia reconhec-la. No andar de cima, no quarto, Josie se sentou no escuro com a persiana fechada e as mos no colo. Era dia, mas nunca se sabia. As pessoas tinham descoberto mil maneiras de fazer as coisas parecerem diferentes do que verdadeiramente eram. Um quarto podia ser envolvido por uma noite artificial. O botox transformava o rosto das pessoas em uma coisa que elas no eram. O TiVo permitia que voc pensasse que podia congelar o tempo, ou pelo menos reorganiz-lo de acordo com seu gosto. Uma acusao em um tribunal se encaixava como um band-aid sobre um ferimento que, na verdade, precisava de um torniquete. Josie se mexeu no escuro e pegou o saco plstico que tinha escondido, seu suprimento de comprimidos para dormir. Ela no era melhor do que as pessoas idiotas deste mundo que achavam que, se fingissem com bastante dedicao, podiam tornar as coisas verdadeiras. Ela achara que a morte podia ser uma resposta, porque era imatura demais para se dar conta de que na verdade era a maior pergunta de todas. Ontem, ela no sabia que desenhos o sangue podia fazer quando espirrava em uma parede branca. No entendia que a vida deixava os pulmes de uma pessoa primeiro e os olhos por ltimo. Ela visualizara o suicdio como uma declarao final, um foda-se para todas as pessoas que

no entendiam como era difcil para ela ser a Josie que queriam que ela fosse. Ela achara que, se pusesse fim  sua vida, conseguiria ver a reao de todo mundo; que riria por ltimo. At ontem, no tinha entendido realmente. Morto era morto. Quando voc morria, no podia voltar para ver o que estava perdendo. No tinha a chance de se desculpar. No tinha uma segunda chance. A morte no era uma coisa que voc podia controlar. Na verdade, ela sempre teria a supremacia. Ela abriu o saco plstico sobre a mo e colocou cinco dos comprimidos na boca. Andou at o banheiro, abriu a torneira e colocou a cabea perto at os comprimidos estarem nadando no aqurio formado por suas bochechas. Engula, disse para si mesma. Mas, em vez disso, Josie caiu de joelhos em frente ao vaso e cuspiu os comprimidos. Jogou o resto deles, ainda presos na mo, e deu descarga antes de poder pensar duas vezes. Sua me subiu a escada porque ouviu o choro. O som atravessou o rejunte, o piso e o gesso que formava o teto do andar de baixo. De fato, ele acabaria se tornando to parte daquele lar quanto os tijolos e o cimento, embora nenhuma das duas mulheres ainda soubesse. A me de Josie entrou no quarto e se sentou ao lado da filha no banheiro. -- O que posso fazer por voc, querida? -- sussurrou, passando as mos pelos ombros de Josie, como se a resposta fosse uma tatuagem visvel em vez de uma cicatriz no corao. Yvette Harvey estava sentada no sof segurando a foto de formatura de oitavo ano da filha, tirada dois anos, seis meses e quatro dias antes de ela

morrer. O cabelo de Kaitlyn tinha crescido, mas ainda dava para ver o sorriso torto, o rosto cheio que era um trao da sndrome de Down. O que teria acontecido se ela no tivesse escolhido fazer a incluso de Kaitlyn no segundo ciclo do ensino fundamental? Se a tivesse mandado a uma escola para crianas especiais? Ser que aquelas crianas eram menos agressivas, menos provveis de gerar um assassino? O produtor do The Oprah Winfrey Show devolveu a pilha de fotos que Yvette lhe entregara. Ela no sabia, antes daquele dia, que havia nveis de tragdia, que, mesmo que o programa da Oprah chamasse voc para pedir que contasse sua histria triste, iriam querer ter certeza de que ela era mesmo triste antes de deixar voc falar em frente s cmeras. Yvette no tinha planejado mostrar sua dor na televiso -- na verdade, seu marido era to contrrio que se recusou a estar presente quando o produtor fosse falar com ela --, mas ela estava determinada. Ela tinha ouvido o noticirio. E agora tinha algo a dizer. -- A Kaitlyn tinha um belo sorriso -- disse o produtor. -- Tem sim -- respondeu Yvette, mas depois balanou a cabea. -- Tinha. -- Ela conhecia Peter Houghton? -- No. Eles no eram do mesmo ano, no tinham aulas juntos. As de Kaitlyn eram no centro de aprendizado. -- Ela apertou o polegar na beirada do porta-retratos de prata at doer. -- Todas essas pessoas que esto andando por a dizendo que Peter H oughton no tinha amigos... que Peter Houghton sofria provocaes... Isso no  verdade -- disse ela. -- Minha filha no tinha amigos. Minha filha sofria provocaes todo santo dia. Minha filha era quem se sentia excluda, porque ela era mesmo. Peter

Houghton no era desajustado, como todo mundo quer fazer parecer. Peter Houghton foi simplesmente cruel. Yvette olhou para o vidro que cobria o retrato de Kaitlyn. -- A psicloga da polcia me disse que a Kaitlyn morreu primeiro -- disse ela. -- Ela queria que eu soubesse que a Kaitie no sabia o que estava acontecendo e no sofreu. -- Deve ter sido um consolo -- disse o produtor. -- E foi. At comearmos a conversar e nos darmos conta de que a psicloga disse a mesma coisa para todo mundo que perdeu um filho. -- Yvette olhou para frente com os olhos cheios de lgrimas. -- O problema  que no tem como todos terem sido o primeiro. Nos dias seguintes ao tiroteio, as famlias das vtimas receberam muitas doaes: dinheiro, comida, servios de bab, solidariedade. O pai de Kaitlyn Harvey acordou uma manh depois de nevar um pouco e viu que sua calada j fora limpa por um samaritano. A famlia de Courtney Ignatio se tornou beneficiria da igreja mais prxima, cujos membros se uniram para fornecer comida e servios de limpeza em dias diferentes da semana, com um planejamento rotativo que seguiria at junho. A me de John Eberhard ganhou uma van com acesso para deficientes, cortesia da Ford de Sterling, para ajudar o filho a se adaptar  vida de paraplgico. Todos os feridos da Sterling High receberam uma carta do presidente dos Estados Unidos, em papel de carta impecvel da Casa Branca, parabenizando-os pela coragem. A mdia -- a princpio uma onda to indesejada quanto um tsunami -- se tornou coisa comum nas ruas de Sterling. Depois de dias vendo suas botas pretas de salto alto afundarem na lama macia do ms de maro na

Nova Inglaterra, eles foram at o Farm-Way local e compraram sapatos impermeveis e galochas. Pararam de perguntar na recepo do Sterling Inn por que os celulares no funcionavam e passaram a se reunir no estacionamento do posto de gasolina Mobil, o ponto mais elevado da cidade, onde conseguiam um sinal razovel. Ficavam em frente  delegacia, ao tribunal e ao caf local, esperando por qualquer migalha de informao que pudessem usar. A cada dia em Sterling havia um sepultamento diferente. O velrio de Matthew Royston aconteceu em uma igreja que no era grande o bastante para conter a dor dos presentes. Colegas, pais e amigos da famlia lotaram os bancos, ficaram de p nos corredores e se aglomeraram nas portas. Um grupo de alunos da Sterling High foi usando camiseta verde com o nmero 19 estampado na frente -- o nmero da camisa de hquei de Matt. Josie e a me se sentaram mais ao fundo, mas isso no a impediu de sentir que todos a olhavam. Ela no tinha certeza se era porque sabiam que ela era namorada de Matt ou porque conseguiam ver a verdade nela. -- Bem-aventurados os que sofrem pela morte -- leu o pastor --, pois sero consolados. Josie tremeu. Ela estava sofrendo? Ser que sofrer por uma morte era sentir como se houvesse um buraco no peito, que ficava maior cada vez que voc tentava fech-lo? Ou ser que ela era incapaz de sofrer, porque isso significaria lembrar, coisa que no conseguia fazer? Sua me se inclinou para mais perto. -- Podemos ir embora.  s voc falar.

Era bem difcil no fazer ideia de quem ela mesma era, mas ali, no Depois, ela tambm no parecia reconhecer ningum. Pessoas que a ignoraram a vida toda de repente a conheciam pelo nome. Todo mundo ficava sensibilizado quando olhava para ela. E sua me era a mais estranha de todas, como uma daquelas pessoas viciadas em trabalho que tm uma experincia de quase morte e passam a ser ativistas ambientais. Josie achou que teria de brigar com a me para ir ao enterro de Matt, mas, para sua surpresa, foi a me quem sugeriu. O psiclogo idiota com quem Josie tinha de conversar agora, provavelmente pelo resto da vida, ficava falando em encerramento. Aparentemente, encerramento significava que ela

precisava se dar conta de que perder a normalidade era uma coisa que se superava, como perder um jogo de futebol ou sua camiseta favorita. Encerramento tambm significava que a me tinha virado uma mquina emotiva maluca e exagerada, que ficava perguntando se ela precisava de alguma coisa (quantas xcaras de ch uma pessoa consegue beber sem se liquefazer?) e tentava agir como uma me normal, ou pelo menos do modo como ela imaginava uma me normal. Se voc quer mesmo que eu me sinta melhor, Josie tinha vontade de dizer, volte para o trabalho . Assim, elas poderiam fingir que as coisas tinham voltado ao normal, e, afinal, havia sido a me quem a ensinara a fingir. Havia um caixo na parte da frente da igreja. Josie sabia que no estava aberto; houvera rumores sobre isso. Era difcil imaginar que Matt estava dentro daquela caixa preta envernizada. Que no estava respirando. Que seu sangue tinha sido retirado e que suas veias estavam cheias de produtos qumicos. -- Amigos, ao nos reunirmos aqui para relembrar Matthew Carlton Royston, estamos sob a proteo do amor curativo de Deus -- disse o

pastor. -- Temos liberdade para expressar nosso sofrimento, libertar nossa raiva, encarar nosso vazio e saber que Deus se importa. Ano passado, na aula de histria do mundo antigo, eles tinham aprendido como os egpcios preparavam os mortos. Matt, que s estudava quando Josie o obrigava, tinha ficado fascinado. O modo como o crebro era sugado pelo nariz. As posses que iam para a tumba com o fara. Os animais de estimao que eram enterrados ao lado dele. Josie estava lendo o captulo do livro em voz alta, com a cabea aninhada no colo de Matt. Ele a fez parar ao colocar a mo em sua testa. -- Quando eu morrer -- disse ele -- , vou levar voc comigo. O pastor olhou para a congregao. -- A morte de um ente querido pode abalar as nossas bases. Quando a pessoa  to jovem e to cheia de potencial e de habilidades, os sentimentos de dor e perda podem ser ainda mais intensos. Em pocas assim, buscamos apoio nos amigos e na famlia, procuramos um ombro para chorar e algum para nos acompanhar na trilha de sofrimento e dor. No podemos ter Matt de volta, mas podemos ficar tranquilos sabendo que, na morte, ele encontrou a paz que no teve aqui na terra. Matt no ia  igreja. Os pais iam e tentavam fazer com que ele fosse, mas Josie sabia que ele odiava. Ele achava que era desperdiar o domingo e que, se Deus valesse a companhia, provavelmente estaria andando por a com a capota do Jeep abaixada ou jogando hquei no gelo, em vez de ficar sentado em um templo abafado respondendo ao que o pastor lia. O pastor afastou-se para o lado e o pai de Matt se levantou. Josie o conhecia,  claro. Ele contava as piores piadas, com trocadilhos que nunca eram engraados. Jogara hquei na UVM at estourar o joelho e tinha

muitas esperanas em relao a Matt. Mas, de um dia para o outro, tornouse uma pessoa com ombros cados, melanclica, como uma casca que antes guardava a essncia toda. Ele ficou de p e falou sobre a primeira vez em que levou Matt para patinar, sobre ter comeado a pux-lo pela ponta de um taco de hquei e de como se deu conta, pouco tempo depois, de que o filho no o segurava mais. A me de Matt comeou a chorar. Eram soluos altos, barulhentos, do tipo que se espalhava nas paredes da igreja como tinta. Antes de Josie perceber o que estava fazendo, ficou de p. -- Josie! -- sussurrou a me com firmeza ao seu lado, agindo naquele instante como uma fasca da me que costumava ser, a que nunca faria nada que chamasse ateno. Josie estava tremendo tanto que seus ps pareciam no tocar no cho, nem quando ela pisou no corredor com o vestido preto que pegou emprestado da me, nem quando andou em direo ao caixo de Matt, atrada magneticamente. Ela conseguia sentir os olhos do pai de Matt, conseguia ouvir os sussurros da congregao. Chegou perto do caixo, to polido e brilhante que conseguia ver o prprio rosto refletido, uma impostora. -- Josie -- disse o sr. Royston, descendo do palanque para abra-la. -- Voc est bem? A garganta de Josie se fechou como um boto de rosas. Como aquele homem, cujo filho estava morto, podia estar perguntando isso a ela? Ela se sentiu dissolver e se perguntou se era possvel virar um fantasma sem morrer, se isso era apenas um detalhe.

-- Voc gostaria de dizer alguma coisa? -- perguntou o sr. Royston. -- Sobre o Matt? Antes de ela saber o que estava acontecendo, o pai de Matt a levou at o palanque. Ela percebeu vagamente que a me tinha se levantado do banco e estava indo para a frente da igreja. Para fazer o qu? Afast-la dali? Impedi-la de cometer outro erro? Josie olhou para a paisagem de rostos que reconhecia, mas simplesmente no conhecia. Ela o amava, estavam todos pensando. Estava com ele quando ele morreu . A respirao dela ficou presa nos pulmes como uma mariposa. O que ela diria? A verdade? Josie sentiu os lbios se retorcerem e o rosto se enrugar. Comeou a soluar com tanta fora que o piso de madeira da igreja tremeu e rangeu; com tanta fora que, mesmo no caixo fechado, tinha certeza de que Matt conseguia ouvi-la. -- Sinto muito -- disse meio engasgada, para ele, para o sr. Royston, para quem quisesse ouvir. -- Ah, Deus. Eu sinto muito mesmo. Ela no reparou na me subindo os degraus at o palanque, passando um brao ao redor do seu corpo, levando-a para trs do altar, para um pequeno vestbulo usado pelo organista. No protestou quando a me lhe entregou um leno de papel e massageou suas costas. Nem se importou quando a me prendeu seu cabelo atrs da orelha, como costumava fazer quando ela era to pequena que mal conseguia se lembrar do gesto. -- Todo mundo deve me achar uma idiota -- disse Josie.

-- No, eles acham que voc est com saudade do Matt. -- Sua me hesitou. -- Eu sei que voc acha que foi sua culpa. O corao de Josie estava batendo com tanta fora que fazia o tecido do vestido mexer. -- Querida -- continuou a me -- , voc no poderia ter salvado o Matt. Josie pegou outro leno de papel e fingiu que sua me entendia. Segurana mxima significava que Peter no tinha colega de cela. Tambm no tinha momentos de recreao. A comida era levada at ele trs vezes por dia, na cela. O material de leitura era restrito pelos agentes penitencirios. E, porque todos achavam que ele podia ser suicida, seu quarto se resumia a um vaso sanitrio e um banco, sem lenis, sem colcho, sem nada que pudesse ser transformado em um meio de abandonar este mundo. Havia quatrocentos e quinze blocos de cimento na parede dos fundos da cela; ele contara. Duas vezes. Desde ento, tinha ficado olhando para a cmera que o observava. Peter se perguntou quem estaria do outro lado. Imaginou um grupo de agentes penitencirios amontoados ao redor de uma televiso velha, cutucando uns aos outros e rindo quando Peter tinha que usar o vaso. Ou, em outras palavras, mais um grupo de pessoas que encontraria uma forma de tirar sarro dele. A cmera tinha uma luz vermelha acesa, um indicador de fora e uma lente nica que brilhava como um arco-ris. Havia um aro de borracha ao redor da lente que parecia uma plpebra. Peter pensou que, mesmo se no fosse suicida, algumas semanas disso fariam com que se tornasse.

Nunca ficava escuro na cela, o ambiente s ficava na penumbra. Isso nem importava, porque no havia nada para fazer alm de dormir. Peter se deitou no banco, se perguntando se era possvel perder a audio por falta de uso e se a fala funcionava assim tambm. Ele se lembrou de ter aprendido em uma das aulas de estudos sociais que, no Velho Oeste, quando os nativos americanos eram jogados na cadeia, eles s vezes morriam. A teoria era que algum to acostumado  liberdade espacial no conseguia lidar com o confinamento, mas Peter tinha outra interpretao. Quando a nica companhia que voc tem  si mesmo, e quando voc no quer socializar, s h uma maneira de sair. Um dos agentes penitencirios tinha acabado de chegar para fazer a vistoria de segurana -- uma bota pesada que passava pelas celas -- quando Peter escutou: Eu sei o que voc fez. Puta merda, pensou Peter. J estou comeando a ficar maluco . Todo mundo sabe. Peter colocou os ps no cho de cimento e olhou para a cmera, mas ela no estava revelando nenhum segredo. A voz parecia o vento passando pela neve: lgubre, um sussurro. --  sua direita -- disse a voz, e Peter lentamente ficou de p e andou at o canto da cela. -- Quem... quem est a? -- perguntou. -- J estava na hora, porra. Achei que voc nunca mais ia parar de choramingar.

Peter tentou ver atravs das barras, mas no conseguiu. -- Voc me ouviu chorando? -- Que porra de beb -- disse a voz. -- V se cresce, cacete. -- Quem  voc? -- Pode me chamar de Carnvoro, como todo mundo. Peter engoliu em seco. -- O que voc fez? -- Nada do que dizem que eu fiz -- respondeu Carnvoro. -- Quanto tempo? -- Quanto tempo o qu? -- Quanto tempo at o seu julgamento? Peter no sabia. Era a pergunta que se esquecera de fazer a Jordan McAfee, provavelmente por estar com medo de ouvir a resposta. -- O meu  na semana que vem -- disse Carnvoro antes que Peter pudesse responder. A porta de metal da cela parecia gelo contra sua tmpora. -- H quanto tempo voc est aqui? -- perguntou Peter. -- Dez meses -- respondeu Carnvoro. Peter se imaginou naquela cela por dez meses seguidos. Pensou em todas as vezes que contaria os blocos idiotas de cimento, em todas as mijadas que os guardas veriam no aparelho de TV.

-- Voc matou crianas, no foi? Sabe o que acontece nessa cadeia com caras que matam crianas? Peter no respondeu. Ele era mais ou menos da mesma idade de todo mundo da Sterling High; no tinha entrado em um berrio nem nada do tipo. E no dava para dizer que ele no teve um bom motivo. Ele no queria mais falar sobre o assunto. -- Por que voc no teve fiana? Carnvoro riu com deboche. -- Porque dizem que eu estuprei uma garonete e depois meti uma faca nela. Ser que todos naquela cadeia se achavam inocentes? Durante todo aquele tempo, Peter ficara deitado no banco, se convencendo de que no era como mais ningum na cadeia do condado de Grafton. Mas, ao que parecia, isso era mentira. Ser que, para Jordan, ele soava como Carnvoro? -- Ainda est a? -- Carnvoro perguntou. Peter se deitou no banco sem dizer mais nada. Virou o rosto para a parede e fingiu no ouvir enquanto o homem da cela ao lado tentava fazer com que ele respondesse. A primeira coisa que chamou a ateno de Patrick, mais uma vez, foi como a juza Cormier parecia mais jovem quando no estava no tribunal. Ela atendeu a porta de jeans e rabo de cavalo, secando as mos em um pano de prato. Josie estava de p atrs dela, com o rosto carregando o mesmo olhar vazio que ele j vira uma dezena de vezes nas vtimas que

entrevistara. Josie era uma pea vital no quebra-cabea, a nica que tinha visto Peter matar Matthew Royston. Mas, ao contrrio do restante das vtimas, tinha uma me que conhecia os detalhes do sistema legal. -- Juza Cormier -- disse ele. -- Josie. Obrigado por me receberem. A juza olhou para ele. --  perda de tempo. A Josie no lembra de nada. -- Com todo respeito, juza,  meu dever ouvir isso da prpria Josie. Ele se preparou para uma discusso, mas ela deu um passo para trs para permitir que ele entrasse. Patrick deixou os olhos vagarem pelo vestbulo, a mesa antiga com uma planta se espalhando pela superfcie, as paisagens de bom gosto penduradas na parede. Ento era assim que uma juza vivia. A casa dele era um ponto de parada, um santurio de roupas sujas, jornais velhos e comida h muito vencida, para onde ele ia durante algumas horas entre turnos de trabalho. Ele se virou para Josie. -- Como est a cabea? -- Ainda di -- disse ela, com uma voz to baixa que Patrick teve de se esforar para ouvi-la. Ele se virou novamente para a juza. -- Tem algum lugar onde possamos conversar por alguns minutos? Ela os levou at a cozinha, que parecia o tipo de cozinha em que Patrick pensava s vezes quando imaginava onde deveria estar na vida. Havia armrios de cerejeira, muito sol entrando pela janela saliente e uma fruteira com bananas no balco. Ele se sentou de frente para Josie, achando

que a juza colocaria uma cadeira ao lado da filha, mas, para sua surpresa, ela ficou de p. -- Se precisarem de mim -- disse ela -- , estarei l em cima. Josie olhou para ela em pnico. -- Voc no pode ficar? Por um momento, Patrick viu algo se acender nos olhos da juza -- vontade? arrependimento? -- , mas desapareceu antes que ele conseguisse identificar o que era. -- Voc sabe que eu no posso -- ela respondeu com delicadeza. Patrick no tinha filhos, mas tinha certeza de que, se um deles tivesse chegado to perto de morrer, teria dificuldade em perd-lo de vista. Ele no sabia exatamente o que estava acontecendo entre me e filha, mas sabia que no devia se envolver. -- Tenho certeza que o detetive Ducharme vai fazer com que seja indolor -- disse a juza. Isso era em parte um desejo, em parte um aviso. Patrick assentiu para ela. Um bom policial fazia o que podia para proteger e servir, mas, quando a pessoa roubada, ameaada ou ferida era algum que voc conhecia, tudo ficava diferente. Voc fazia algumas ligaes a mais, mudava suas responsabilidades para que uma delas passasse a ser prioridade. Patrick tinha vivenciado isso anos atrs, numa escala bem maior, com sua amiga Nina e o filho dela. Ele no conhecia Josie Cormier pessoalmente, mas a me dela trabalhava com a lei -- meu Deus, ela era da esfera mais alta da lei -- , e por isso sua filha merecia ser tratada com delicadeza.

Ele observou Alex subir a escada e pegou um bloco e um lpis no bolso do casaco. -- E ento -- disse ele. -- Como voc est? -- Olha s, voc no precisa fingir que se importa. -- No estou fingindo -- disse Patrick. -- Nem sei por que voc est aqui. Nada do que te disserem vai deixar aquelas pessoas menos mortas. --  verdade -- concordou Patrick -- , mas, antes de levarmos Peter Houghton a julgamento, precisamos saber exatamente o que aconteceu. E infelizmente eu no estava l. -- Infelizmente? Ele olhou para a mesa. -- s vezes, acho que  mais fcil ser um dos feridos do que um dos que no conseguiram impedir. -- Eu estava l -- disse Josie, abalada. -- E no consegui impedir. -- Ei -- disse Patrick -- , no  sua culpa. Nessa hora, ela olhou para ele como se desejasse muito acreditar, mas soubesse que ele estava errado. E quem era Patrick para dizer aquilo? Todas as vezes que ele visualizava o ataque enlouquecido na Sterling High, imaginava o que teria acontecido se ele estivesse na escola no momento em que o atirador iniciara os disparos. Se tivesse desarmado o garoto antes de qualquer um ser atingido. -- No me lembro de nada do tiroteio -- disse Josie.

-- Voc se lembra de estar no ginsio? Ela balanou a cabea. -- E de ir correndo pra l com o Matt? -- No. No me lembro nem de acordar e ir pra escola.  como uma rea vazia na minha cabea. Patrick sabia, de conversas com os psiclogos designados para trabalhar com as vtimas, que isso era perfeitamente normal. A amnsia era uma das formas de a mente se proteger de reviver algo que faria voc desmoronar. De certa forma, ele desejava poder ter a sorte de Josie, poder fazer desaparecer o que tinha visto. -- E Peter Houghton? Voc o conhecia? -- Todo mundo sabia quem ele era. -- O que voc quer dizer? Josie deu de ombros. -- Ele era notado. -- Porque era diferente de todo mundo? Josie pensou sobre isso durante um momento. -- Porque ele no tentava se encaixar. -- Voc namorava Matthew Royston? As lgrimas imediatamente surgiram nos olhos de Josie. -- Ele gostava de ser chamado de Matt.

Patrick pegou um guardanapo de papel e o entregou a Josie. -- Lamento pelo que aconteceu com ele, Josie. Ela baixou a cabea. -- Eu tambm. Ele esperou que ela secasse os olhos e assoasse o nariz. -- Voc sabe por que o Peter poderia no gostar do Matt? -- As pessoas tiravam sarro dele -- disse Josie. -- No s o Matt. Voc tambm?, pensou Patrick. Ele tinha olhado o anurio confiscado no quarto de Peter, com crculos ao redor das fotos de certos adolescentes que viraram vtimas e outros que no. Havia muitas razes para isso, desde o fato de que Peter ficara sem tempo at a verdade de que caar trinta pessoas em uma escola com mil era mais difcil do que ele imaginara. Mas, de todos os alvos que Peter tinha marcado no anurio, s a foto de Josie tinha sido riscada, como se ele tivesse mudado de ideia. S o rosto dela tinha embaixo as palavras em letra de forma: DEIXAR VIVA. -- Voc conhecia o Peter pessoalmente? Tinha alguma aula com ele? Ela olhou para frente. -- J trabalhei com ele. -- Onde? -- Na loja de xerox no centro. -- Vocs se davam bem? -- s vezes -- disse Josie. -- Nem sempre.

-- Por qu? -- Ele provocou um incndio l uma vez e eu dedurei. Ele perdeu o emprego depois disso. Patrick anotou no bloco. Por que Peter tinha tomado a deciso de poup-la quando tinha todos os motivos para estar ressentido? -- Antes disso -- ele perguntou -- , voc diria que eram amigos? Josie dobrou no formato de um tringulo o guardanapo que tinha usado para secar os olhos, depois em outro menor, e em outro menor ainda. -- No -- disse ela. -- No ramos. A mulher ao lado de Lacy estava usando uma camisa xadrez de flanela, fedia a cigarros e no tinha a maior parte dos dentes. Ela deu uma olhada na saia e na blusa de Lacy. --  sua primeira vez aqui? -- perguntou. Lacy assentiu. Estavam esperando em um aposento comprido, lado a lado, em uma fileira de cadeiras. Na frente dos ps delas havia uma linha separatria vermelha e uma segunda fileira de cadeiras. Presidirios e visitantes se sentavam como imagens em frente ao espelho, conversando abreviadamente. A mulher ao lado de Lacy sorriu para ela. -- Voc vai se acostumar -- disse ela. O pai ou a me podia visitar Peter a cada duas semanas, durante uma hora. Lacy foi com uma cesta cheia de muffins e bolos feitos em casa, revistas, livros, qualquer coisa que conseguiu pensar que pudesse ajudar Peter. Mas o agente penitencirio que a recebeu confiscou tudo. Nada de

bolos e similares. E nada de material de leitura, no at ser verificado pela equipe da cadeia. Um homem com a cabea raspada e braos cobertos de tatuagens seguiu na direo de Lacy. Ela tremeu. Era uma sustica tatuada na testa dele? -- Oi, me -- ele murmurou, e Lacy viu os olhos da me removerem a tatuagem, a cabea raspada e o macaco laranja e enxergarem um garotinho pegando girinos em uma poa de gua atrs de casa. Todo mundo, pensou Lacy,  filho de algum. Ela afastou o olhar do reencontro deles e viu Peter sendo guiado at a sala de visitas. Por um momento, seu corao parou. Ele parecia magro demais e, por trs dos culos, seus olhos estavam muito vazios. Mas ento ela sufocou o que estava sentindo e lhe deu um largo sorriso. Fingiria que no a incomodava ver seu filho com macaco de cadeia; que no teve que ficar no carro lutando contra um ataque de pnico depois de estacionar l em frente; que era perfeitamente normal estar cercada de traficantes e estupradores enquanto perguntava ao filho se ele estava comendo direito. -- Peter -- disse ela, envolvendo-o nos braos. Demorou um momento, mas ele retribuiu o abrao. Ela apertou o rosto contra o pescoo dele, como costumava fazer quando ele era beb, e pensou que iria devor-lo, mas ele no tinha o cheiro do filho dela. Por um tempo, ela se permitiu alimentar o sonho de que tudo era um engano -- Peter no est na cadeia! Esse  o filho desafortunado de outra pessoa! --, mas ento percebeu o que estava diferente. O xampu e o desodorante que ele tinha de usar ali no eram os que usava em casa; esse Peter tinha um cheiro mais intenso, mais cru.

De repente, deram uma batidinha no ombro dela. -- Senhora -- disse o agente penitencirio --, a senhora precisa soltar agora. Se fosse to fcil assim, pensou Lacy. Eles se sentaram em lados opostos da linha vermelha. -- Voc est bem? -- ela perguntou. -- Ainda estou aqui. O modo como ele falou, como se esperasse que fosse diferente, fez Lacy tremer. Ela teve a sensao de que ele no estava falando sobre sair pagando fiana, e a alternativa -- a ideia de Peter se matar -- era uma coisa em que no conseguia pensar. Sentiu a garganta apertar e se viu fazendo a nica coisa que tinha prometido no fazer: comeou a chorar. -- Peter -- ela sussurrou. -- Por qu? -- A polcia foi l em casa? -- ele perguntou. Lacy assentiu. Aquilo parecia ter acontecido h tanto tempo. -- Foram no meu quarto? -- Eles tinham um mandado... -- Pegaram as minhas coisas? -- Peter exclamou, a primeira emoo que ela via nele. -- Voc deixou eles pegarem as minhas coisas? -- O que voc estava fazendo com aquelas coisas? -- ela sussurrou. -- Aquelas bombas. As armas ...? -- Voc no entenderia.

--

Ento me faa entender, Peter --

ela disse, arrasada. --

Me faa entender. -- No consegui fazer voc entender em dezessete anos, me. Por que seria diferente agora? -- O rosto dele se contorceu. -- Nem sei por que voc se deu ao trabalho de vir. -- Pra ver voc... -- Ento olha pra mim! -- gritou Peter. -- Por que voc no olha pra mim, porra? Ele segurou a cabea com as mos e seus ombros estreitos se encolheram com o som de um soluo. Basicamente, Lacy percebeu que a situao se resumia ao seguinte: voc olhava para o estranho  sua frente e conclua categoricamente que ele no era mais seu filho. Ou tomava a deciso de encontrar qualquer resqucio do seu filho que conseguisse em meio quilo que ele tinha se tornado. Ser que aquela era uma escolha para uma me? As pessoas podiam argumentar que monstros no nasciam assim, eles viravam monstros. As pessoas podiam criticar a capacidade dela como me, apontar momentos em que Lacy tinha fracassado com Peter por ser branda demais ou firme demais, ausente demais ou presente demais. A cidade de Sterling iria analisar at a morte o que ela tinha feito com o filho, mas e o que ela faria por ele? Era fcil ter orgulho do filho que s tirava A e que era popular, um garoto que o mundo amava. Mas o verdadeiro carter aparecia quando voc conseguia encontrar algo para amar em um garoto que todo mundo odiava. E se as coisas que ela fez ou no fez por Peter fossem o

critrio errado de avaliao? No era uma marca tambm evidente da maternidade ver como, desse momento terrvel em diante, ela se comportaria? Ela esticou a mo por cima da linha vermelha at conseguir abraar Peter. No se importava se podia ou no. Os guardas poderiam arranc-la de cima dele, mas, at que isso acontecesse, ela no pretendia solt-lo. No vdeo de segurana do refeitrio, os alunos estavam carregando bandejas, fazendo o dever de casa e conversando quando Peter entrou segurando uma pistola. Houve uma descarga de balas e uma cacofonia de gritos. O alarme de incndio disparou. Quando todos comearam a correr, ele atirou de novo, e dessa vez duas garotas caram. Outros alunos correram por cima delas no desespero de fugir. Quando as nicas pessoas que ficaram no refeitrio foram Peter e as vtimas, ele andou pelas fileiras de mesas observando seu trabalho. Passou pelo garoto em quem havia atirado e que estava em uma poa de sangue em cima de um livro, mas parou para pegar um iPod que tinha sido deixado na mesa e colocar os fones de ouvido, antes de deslig-lo e coloc-lo sobre a mesa novamente. Virou a pgina de um caderno aberto. E ento se sentou em frente a uma bandeja intacta e colocou a arma sobre ela. Abriu uma caixa de cereal Rice Krispies e colocou o contedo em uma tigela de isopor. Acrescentou o leite de uma caixinha e comeu todo o cereal antes de se levantar, pegar a pistola e sair do refeitrio. Foi a coisa mais fria e deliberada que Patrick j vira na vida. Ele olhou para a tigela de macarro que tinha preparado para o jantar e percebeu que perdera o apetite. Colocou-a de lado, sobre uma pilha de jornais, voltou a imagem e se obrigou a assistir de novo.

Quando o telefone tocou, ele atendeu, ainda perturbado pela imagem de Peter na tela da televiso. -- Que foi? -- Bom, ol pra voc tambm -- disse Nina Frost. Ele derreteu quando ouviu a voz dela; velhos hbitos so difceis de perder. -- Desculpa.  que estou no meio de uma coisa aqui. -- Posso imaginar. Est em todos os noticirios. Como voc est? -- Ah, voc sabe -- disse ele, quando o que realmente queria dizer era que no estava dormindo  noite, que via o rosto dos mortos sempre que fechava os olhos, que sua boca estava cheia de perguntas que ele tinha certeza de ter se esquecido de fazer. -- Patrick -- disse ela, porque era sua amiga mais antiga e porque o conhecia melhor do que qualquer pessoa, melhor at do que ele mesmo. -- No se culpe. Ele baixou a cabea. -- Aconteceu na minha cidade. Como posso no me culpar? -- Se voc tivesse um videofone, eu conseguiria saber se est usando seu cilcio ou a capa e as botas -- disse Nina. -- No tem graa. -- No, no tem -- ela concordou. -- Mas voc deve saber que  vitria certa no julgamento. Voc tem o qu? Umas mil testemunhas? -- Mais ou menos isso.

Nina ficou em silncio. Patrick no precisava explicar para ela -- uma mulher que vivera com o arrependimento como companheiro constante -- que condenar Peter Houghton no era o bastante. Para Patrick conseguir descansar, ele precisaria entender por que Peter tinha feito aquilo. Para que pudesse impedir que acontecesse de novo. De um relatrio de investigao do FBI, publicado por agentes especiais encarregados de analisar tiroteios em escolas ao redor do mundo: Entre atiradores de escola, temos visto similaridade na dinmica familiar.  comum que o atirador tenha um relacionamento turbulento com os pais, ou tenha pais que aceitem comportamento patolgico. H falta de intimidade dentro da famlia. No h limites para o uso de televiso e computador pelo atirador, e s vezes o acesso a armas  facilitado. No ambiente escolar, encontramos uma tendncia de afastamento do processo de aprendizado por parte do atirador. A escola tende a tolerar comportamento desrespeitoso, a ter regras de disciplina desiguais e uma cultura inflexvel, com certos alunos sendo privilegiados por professores e funcionrios. Atiradores so mais propensos a ter acesso a filmes, programas de televiso e videogames violentos; a usar drogas e lcool; a ter um grupo similar fora da escola e que apoia o comportamento deles. Alm disso, antes de um ato violento, h evidncia de vazamento -- uma pista de que algo vai acontecer. Essas dicas podem tomar a forma de poemas, escritos, desenhos, postagens na internet ou ameaas feitas pessoalmente ou no.

Apesar dos itens em comum descritos, no recomendamos o uso deste relatrio para criar um checklist que possa prever futuros atiradores escolares. Nas mos da mdia, isso poderia resultar em rotular muitos estudantes no violentos como potencialmente letais. Na verdade, muitos adolescentes que jamais cometero atos violentos exibem alguns dos traos da lista. Lewis Houghton era um ser de hbitos. Todas as manhs, acordava s 5h35 e corria na esteira que ficava no poro. Tomava banho e comia uma tigela de cereal enquanto olhava as manchetes do jornal. Usava o mesmo casaco, independentemente de quanto estivesse frio ou quente, e estacionava na mesma vaga na rea designada para docentes. Ele j tentara entender matematicamente o efeito da rotina na felicidade, mas havia uma virada interessante no clculo: a medida de alegria trazida pelas coisas familiares era ampliada ou reduzida conforme a resistncia do indivduo a mudanas. Ou -- como Lacy teria dito, "Em ingls, Lewis" -- para cada pessoa como ele, que gostava da rotina familiar, havia outra que a achava sufocante. Nesses casos, o quociente de conforto se tornava um nmero negativo, e fazer o que era habitual acabava afastando as pessoas da felicidade. Ele achava que era assim com Lacy, que andava pela casa como se nunca a tivesse visto antes, que no conseguia suportar a ideia de voltar ao trabalho. "Como voc pode esperar que eu pense no filho de outra pessoa agora?", argumentara ela. Ela ficava insistindo que eles precisavam fazer alguma coisa, mas Lewis no sabia o qu. E, como no podia dar alento nem para a esposa nem para o filho, Lewis decidiu que deveria dar alento para si mesmo. Depois de ficar sentado em casa durante cinco dias aps a audincia de acusao de

Peter, ele acordou uma manh e arrumou a pasta, comeu o cereal, leu o jornal e foi trabalhar. Ele ficou pensando na equao da felicidade enquanto seguia para o escritrio. Um dos princpios de sua descoberta -- F = R/E, ou felicidade  igual a realidade dividida por expectativa -- era baseado na verdade universal de que voc sempre tinha alguma expectativa para o que estava por vir. Em outras palavras, E era sempre um nmero real, pois no se pode dividir por zero. Mas, recentemente, ele se questionou quanto  verdade disso. A matemtica s podia levar um homem at certo ponto. No meio da noite, quando estava desperto e olhando para o teto, sabendo que a esposa estava deitada ao seu lado fingindo dormir e fazendo a mesma coisa que ele, Lewis passou a acreditar que voc pode ser condicionado a no ter nenhuma expectativa em relao  vida. Dessa maneira, quando voc perdesse o primeiro filho, no sofreria. Quando seu segundo filho estivesse preso por ser o autor de um massacre, voc no ficaria arrasado. Era possvel dividir por zero; o local onde ficava seu corao parecia um desfiladeiro. Assim que colocou o p no campus, ele se sentiu melhor. Ali, no era o pai do atirador e nunca tinha sido. Era Lewis Houghton, professor de economia. Ali, ainda estava no topo; no tinha de olhar para sua pesquisa e se perguntar em que ponto tinha comeado a degringolar. Lewis acabara de tirar uma pilha de papis da pasta quando o diretor do Departamento de Economia enfiou a cabea pela porta aberta. Hugh Macquarie era um homem grande -- Enorme e Cabeludo era como os alunos o chamavam pelas costas --, que assumira a posio com prazer. -- Houghton? O que est fazendo aqui?

-- Pelo que sei, a faculdade ainda me paga para trabalhar -- disse Lewis, tentando fazer uma brincadeira. Ele no sabia fazer brincadeiras, nunca soube. Perdia o momento certo; entregava o final antes da hora. Hugh entrou na sala. -- Meu Deus, Lewis. Eu no sei o que dizer -- hesitou. Lewis no culpava Hugh. Ele prprio mal sabia o que dizer. Havia cartes da Hallmark para luto, pela perda do animal de estimao querido, por ser demitido do emprego, mas ningum parecia ter as palavras certas de consolo para uma pessoa cujo filho tinha acabado de matar dez pessoas. -- Pensei em ligar pra sua casa. A Lisa queria levar uma panela de ensopado pra vocs. Como a Lacy est? Lewis empurrou os culos no nariz. -- Ah -- disse ele. -- Voc sabe. Estamos tentando manter as coisas da forma mais normal possvel. Quando ele disse isso, visualizou sua vida como um grfico. Normal era uma linha que se esticava, chegando provocantemente perto de um eixo, mas nunca o alcanando realmente. Hugh se sentou na cadeira em frente  mesa de Lewis, a mesma que s vezes era ocupada por um aluno que precisava de ajuda em microeconomia. -- Lewis, tire um tempo de licena. -- Obrigado, Hugh. Eu agradeo. -- Lewis olhou para uma equao no quadro ao longe, sobre a qual andava refletindo. -- Mas agora eu preciso muito estar aqui. Isso me impede de pensar em estar l. -- Ele

procurou giz e comeou a escrever no quadro, uma cadeia longa e adorvel de nmeros que o acalmavam por dentro. Ele sabia que havia diferena entre uma coisa que faz voc feliz e uma coisa que no faz voc infeliz. O truque era se convencer de que eram a mesma coisa. Hugh colocou a mo no brao de Lewis, interrompendo a equao. -- Talvez eu tenha me expressado mal. Precisamos que voc saia de licena. Lewis olhou para ele. -- Ah. Hum. Entendo -- respondeu, apesar de no entender. Se Lewis estava disposto a segregar a vida profissional da vida pessoal, por que a Faculdade de Sterling no podia fazer o mesmo? A menos que... Tinha sido esse seu erro desde o comeo? Se voc no estivesse seguro das decises que tomava como pai, podia compensar as inseguranas com a confiana que tinha como profissional? Ou a compensao sempre seria frgil, como uma parede de papel que no podia suportar o peso? --  s por um tempo -- disse Hugh. --  melhor assim. Para quem?, pensou Lewis, mas ficou em silncio at ouvir Hugh fechar a porta atrs de si ao sair. Quando se viu sozinho na sala, Lewis ergueu o giz novamente. Olhou para as equaes at se combinarem e ento comeou a escrever furiosamente, um compositor com uma sinfonia indo rpido demais para seus dedos. Por que no tinha percebido isso antes? Todos sabiam que, se

voc dividisse a realidade pelas expectativas, teria o quociente de felicidade. Mas, quando se invertia a equao -- expectativas divididas pela realidade --, no se obtinha o oposto da felicidade. O que se obtinha, Lewis percebeu, era a esperana. Pura lgica: supondo que a realidade era constante, a expectativa tinha de ser maior do que ela para criar otimismo. Entretanto, um pessimista era algum com expectativas menores do que a realidade, uma frao de recompensas diminudas. A condio humana significava que esse nmero chegava perto de zero sem alcan-lo, pois nunca se abandonava completamente a esperana -- ela podia voltar com fora total ao mnimo estmulo. Lewis se afastou do quadro e observou seu trabalho. Algum que estava feliz teria pouca necessidade de esperana de mudana. Mas, inversamente, um otimista era assim porque queria acreditar em alguma coisa melhor do que sua realidade. Ento comeou a se perguntar se havia excees  regra, se pessoas felizes podiam ser esperanosas, se os infelizes podiam ter aberto mo de qualquer expectativa de as coisas melhorarem. E isso fez Lewis pensar no filho. Ele ficou parado na frente do quadro e comeou a chorar, com as mos e as mangas cobertas do fino p de giz, como se tivesse se tornado um fantasma. O escritrio do Esquadro Geek, como Patrick carinhosamente chamava o pessoal tcnico que invadia discos rgidos para encontrar provas de pornografia e downloads do Livro de receitas do anarquista, estava cheio de computadores. No apenas aquele retirado do quarto de Peter Houghton,

mas vrios outros que ficavam na Sterling High, incluindo o da secretaria e alguns da biblioteca. -- Ele  bom -- disse Orestes, um tcnico que Patrick juraria no ter idade para ter se formado no ensino mdio. -- No estamos falando s de programao HTML. O cara sabia o que estava fazendo. Ele puxou alguns arquivos das entranhas do computador de Peter, arquivos grficos que no faziam muito sentido para Patrick at o tcnico apertar algumas teclas e de repente um drago tridimensional aparecer na tela cuspindo fogo para eles. -- Uau -- exclamou Patrick. -- . Pelo que consigo ver, ele criou alguns jogos de computador e at os postou para gamers em alguns sites em que d pra fazer isso e receber comentrios. -- Tem frum de mensagens nesses sites? -- Cara, me d um pingo de crdito -- disse Orestes, e clicou em um que j tinha assinalado. -- O Peter usava o nome de usurio DeathWish. ... -- ... uma banda -- concluiu Patrick. -- Eu sei. -- No  apenas uma banda -- disse Orestes com reverncia, com os dedos voando sobre o teclado. --  a voz moderna da conscincia humana coletiva. -- Diga isso para a Tipper Gore.6
Tipper Gore: esposa do ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, que durante anos tentou censurar msicas para que no fossem ouvidas por jovens por serem m influncia. (N da T.)
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-- Quem? Patrick riu. -- No  da sua poca, eu acho. -- O que voc ouvia quando era adolescente? -- Homens das cavernas batendo pedras -- disse Patrick secamente. A tela se encheu de uma srie de postagens de Death Wish. A maior parte eram dicas de como melhorar determinado grfico e resenhas sobre outros jogos postados no site. Duas delas citavam letras da banda Death Wish. -- Esta  a minha favorita -- disse Orestes, e desceu a tela.

De: DeathWish Para: Hades1991 Essa cidade  um saco. Nesse fim de semana tem um festival de artesanato em que as velhas rabugentas exibem as merdas que fizeram. Deviam chamar de festival de MERDA. Vou me esconder nas plantas em frente  igreja. Treinar tiro ao alvo quando atravessarem a rua, cada uma vale dez pontos! Uhuu!

Patrick lista de itens retirados. -- Ah, isso no prova nada.

--  -- disse Orestes. -- Festivais de artesanato so um saco mesmo. Mas olha isso. -- Ele girou na cadeira para alcanar outro terminal sobre uma mesa. -- Ele invadiu o sistema de computadores da escola. -- Pra fazer o qu? Alterar as notas? -- No. O programa que ele criou invadiu o firewall do sistema da escola s 9h58. -- Foi quando a bomba no carro explodiu -- murmurou Patrick. Orestes girou o monitor para que Patrick pudesse ver. -- Isso aqui apareceu em todas as telas de todos os computadores da escola. Patrick ficou olhando fixamente para o fundo roxo e para as letras vermelhas em chamas que se desenrolaram como um toldo: PRONTOS OU NO... A VOU EU. Jordan j estava sentado  mesa da sala de reunies quando Peter Houghton foi levado at l por um agente penitencirio. -- Obrigado -- disse ele para o guarda, com os olhos em Peter, que imediatamente verificou toda a sala, com o olhar pairando na nica janela. Jordan j tinha visto isso repetidamente em prisioneiros que havia representado -- um humano comum podia rapidamente se transformar em um animal enjaulado. No entanto, era como a questo do ovo e da galinha: eram animais porque estavam na cadeia... ou estavam na cadeia porque eram animais? -- Sente-se -- ele disse, e Peter permaneceu em p. Inabalvel, Jordan comeou a falar.

-- Quero deixar as regras claras, Peter -- disse ele. -- Tudo que digo pra voc  confidencial. Tudo que voc diz pra mim  confidencial. No posso contar pra ningum o que voc me fala. Mas posso dizer pra voc no falar com a imprensa, nem com a polcia, nem com mais ningum. Se algum tentar fazer contato, voc me chama imediatamente. Pode ligar a cobrar. Como seu advogado, eu falo por voc. De agora em diante, sou seu melhor amigo, sua me, seu pai e seu padre. Est claro? Peter olhou para ele com raiva. -- Como gua. -- Que bom. -- Jordan tirou um bloco e um lpis da pasta. -- Imagino que voc tenha algumas perguntas; podemos comear com elas. -- Odeio esse lugar -- Peter desabafou. -- No entendo por que tenho que ficar aqui. A maior parte dos clientes de Jordan ficava em silncio e apavorada nos primeiros dias que passava na cadeia, o que acabava dando lugar  raiva e  indignao. Mas, naquele momento, Peter pareceu qualquer outro adolescente, como Thomas na mesma idade, quando o mundo aparentemente girava em torno dele e Jordan apenas vivia ali por acaso. No entanto, o advogado em Jordan afastou o pai que havia nele e comeou a se perguntar se Peter Houghton podia realmente no saber por que estava na cadeia. Jordan seria o primeiro a dizer que defesas baseadas em insanidade raramente funcionavam e eram superestimadas, mas talvez Peter pudesse ser um caso real, e essa era a chave para conseguir um veredito de inocente. -- O que voc quer dizer? -- o advogado perguntou.

-- Foram eles que fizeram isso comigo, e agora sou eu quem est sendo punido. Jordan se reclinou e cruzou os braos. Peter no sentia remorso pelo que tinha feito, isso estava claro. Na verdade, considerava-se vtima. E eis o que  incrvel em ser advogado de defesa: Jordan no se importava. No havia espao para sentimentos pessoais em sua linha de trabalho. Ele tinha trabalhado com a escria da humanidade antes, com assassinos e estupradores que se viam como mrtires. Seu trabalho no era acreditar neles nem julg-los. Era apenas fazer ou dizer o que precisava para libert-los. Apesar do que tinha acabado de dizer para Peter, ele no era clrigo, nem psiclogo, nem amigo do cliente. Apenas trabalhava para ele. -- Bom -- disse Jordan em tom uniforme -- , voc precisa entender a posio da cadeia. Para eles, voc  apenas um assassino. -- Ento so todos hipcritas -- disse Peter. -- Se vissem uma barata, pisariam nela, no ? --  assim que voc descreveria o que aconteceu na escola? Peter desviou o olhar. -- Voc sabia que eu no tenho permisso pra ler revistas? -- ele disse. -- E que no posso ir pro ptio de exerccios como todo mundo? -- No estou aqui pra anotar reclamaes. -- Ento por que voc est aqui? -- Para ajudar voc a sair daqui -- disse Jordan. -- E, para que isso acontea, voc precisa conversar comigo.

Peter cruzou os braos e olhou da camisa de Jordan para a gravata e para os sapatos pretos engraxados. -- Por qu? Voc no liga porra nenhuma pra mim. Jordan ficou de p e colocou o bloco na pasta. -- Quer saber? Voc est certo. No ligo porra nenhuma pra voc. S estou fazendo o meu trabalho, porque, ao contrrio de voc, o Estado no vai pagar minha moradia e minha comida pelo resto da vida. -- Ele foi em direo  porta, mas foi detido pela voz de Peter. -- Por que todo mundo est to chateado com a morte daqueles palhaos? Jordan se virou lentamente, fazendo uma anotao mental de que a gentileza no tinha funcionado bem com Peter, tampouco a voz da autoridade. O que o fez reagir foi a pura e simples raiva. -- As pessoas esto chorando por eles... mas eles eram uns babacas. Todo mundo est dizendo que eu destru a vida deles, mas ningum parecia se importar quando era a minha vida que estava sendo destruda. Jordan se sentou na beirada da mesa. -- Como? -- Por onde voc quer que eu comece? -- respondeu Peter, amargo. -- No maternal, quando a professora trazia lanches e um deles puxava minha cadeira pra que eu casse e todos rissem? Ou no segundo ano, quando seguraram minha cabea na privada e ficaram dando descarga, s porque sabiam que podiam? Ou na vez em que me bateram quando eu estava indo pra casa depois da escola e precisei levar pontos?

Jordan pegou o bloco e escreveu PONTOS. -- Quem so eles? -- Um bando de garotos -- disse Peter. Os que voc queria matar?, pensou Jordan, mas no perguntou. -- Por que voc acha que eles te perseguiam? -- Porque so uns babacas? No sei. Eles so como um bando.

Precisam fazer algum se sentir um merda pra poderem se sentir bem com eles mesmos. -- O que voc tentou fazer pra impedir? Peter riu com deboche. -- Caso voc no tenha reparado, Sterling no  exatamente uma metrpole. Todo mundo conhece todo mundo. Voc acaba indo pro ensino mdio com o mesmo pessoal que frequentava a caixa de areia da pr-escola. -- Voc no podia ficar fora do caminho deles? -- Eu tinha que ir pra escola -- disse Peter. -- Voc ficaria surpreso com quanto ela fica pequena quando voc passa oito horas por dia l. -- Ento eles faziam isso fora da escola tambm? -- Quando conseguiam me pegar -- Peter respondeu. -- Se eu estivesse sozinho. -- E ameaas? Ligaes, cartas, essas coisas? -- perguntou Jordan. -- Online -- disse Peter. -- Eles me mandavam mensagens dizendo que eu era um fracassado, coisas assim. E pegaram um e-mail que escrevi e

espalharam pra escola inteira... transformaram em piada... -- Ele olhou para o outro lado, emudecido. -- Por qu? -- Era... -- Ele balanou a cabea. -- No quero falar sobre isso. Jordan tomou nota no bloco. -- Voc contou pra algum o que estava acontecendo? Pros seus pais? Pra algum professor? -- Ningum liga -- disse Peter. -- Mandam voc ignorar. Dizem que vo ficar de olho pra que no volte a acontecer, mas nunca ficam. -- Ele andou at a janela e encostou a palma das mos no vidro. -- Tinha uma garota na minha turma de primeiro ano que tinha aquela doena em que a coluna cresce fora do corpo... -- Espinha bfida? -- . Ela andava de cadeira de rodas e no conseguia sentar nem nada, e antes de ela ir pra aula a professora disse que tnhamos que trat-la como se ela fosse igual  gente. S que ela no era igual  gente, e todo mundo sabia, e ela tambm sabia. Ento a gente ia ter que mentir na cara dela? -- Peter balanou a cabea. -- Todo mundo fala como se no tivesse problema ser diferente, mas os Estados Unidos so um local de miscigenao, e que diabos isso quer dizer? Se  uma miscigenao, ento voc est tentando fazer todo mundo ficar igual, no ? Jordan se viu pensando na transio do filho Thomas para o segundo ciclo do ensino fundamental. Eles tinham se mudado de Bainbridge para Salem Falls, um sistema escolar pequeno no qual as pessoas j tinham desenvolvido muros altos contra os intrusos. Por um tempo, Thomas foi um

camaleo: chegava da escola, se enfiava no quarto e surgia como jogador de futebol, como ator, como competidor de matemtica. Precisou de vrias trocas de sua pele adolescente para encontrar um grupo de amigos que permitiu que ele fosse como fosse. O restante do ensino mdio de Thomas foi bem tranquilo. Mas e se ele no tivesse encontrado aquele grupo de amigos? E se tivesse continuado a trocar de pele at no haver mais nada? Como se fosse capaz de ler a mente de Jordan, Peter olhou para ele de repente. -- Voc tem filhos? Jordan no falava da vida pessoal com os clientes. O relacionamento deles existia nos confinamentos do tribunal e pronto. As poucas vezes na carreira em que essa regra foi violada quase acabaram com ele pessoal e profissionalmente. Mas ele encarou Peter e disse: -- Dois. Um beb de seis meses e um filho em Yale. -- Ento voc entende -- disse Peter. -- Todo mundo quer que o filho cresa e v pra Harvard ou seja quarterback dos Patriots. Ningum olha pro beb e pensa: Ah, espero que meu filho cresa e se torne uma aberrao. Espero que v pra escola todos os dias e reze pra no chamar a ateno de ningum . Mas sabe de uma coisa? Tem crianas crescendo assim todos os dias. Jordan se viu sem palavras. Havia uma linha tnue entre singular e estranho, entre o que fazia uma criana crescer e ser to bem ajustada como Thomas ou instvel como Peter. Ser que todos os adolescentes tinham a capacidade de cair para um lado ou para o outro dessa linha, e ser que dava para identificar algum momento nico que provocava o desequilbrio?

De repente ele pensou em Sam naquela manh, quando estava trocando sua fralda. O beb tinha segurado os dedos dos ps, fascinado por t-los encontrado, e imediatamente enfiou o p na boca. "Olha isso", disse Selena em tom de brincadeira, por cima do ombro dele, "tal pai, tal filho." Enquanto Jordan terminava de vestir Sam, pensou maravilhado no mistrio que a vida deve ser para algum to novo. Imagine um mundo que parece to maior do que voc. Imagine acordar uma manh e encontrar um pedao seu que voc nem sabia que existia.

Quando voc no se encaixa, se torna super-humano. Consegue sentir os olhos de todo mundo em voc, grudados como velcro. Consegue ouvir um sussurro sobre voc a um quilmetro de distncia. At consegue desaparecer, mesmo quando parece que ainda est no mesmo lugar. Consegue gritar e ningum escuta nada. Voc se torna o mutante que caiu no barril de cido, o Coringa que no consegue tirar a mscara, o homem binico que no tem membros, mas tem o corao intacto. Voc  a coisa que costumava ser normal, mas isso faz tanto tempo que voc no consegue nem lembrar como era.

Seis anos antes
hora do caf da manh. -- Sei como voc queria isso -- disse ela, e esperou que ele desembrulhasse o presente. Dentro havia um fichrio com um desenho do Super-Homem na capa. Ele j tinha desejado um. Trs anos antes, quando estava na moda. E conseguiu dar um sorriso. -- Obrigado, me -- disse, e ela sorriu largamente enquanto ele tentava imaginar todas as formas em que aquele fichrio idiota seria usado contra ele. Josie, como sempre, foi quem o salvou. Ela disse para o zelador da escola que o guido da bicicleta dela estava ruim e que precisava de fita adesiva para ajeit-lo at chegar em casa. Na verdade, ela no ia de bicicleta para a escola. Ia a p com Peter, que morava um pouco mais longe, mas encontrava com ela no caminho. Apesar de eles nunca se encontrarem fora da escola -- havia anos, graas a alguma briga entre as mes que nenhum dos dois conseguia lembrar direito --, Josie ainda andava com Peter. E ele agradecia a Deus, porque mais ningum queria sua companhia. Eles se sentavam juntos no almoo, liam os rascunhos um do outro na aula de ingls, sempre eram parceiros de laboratrio. Os veres eram sempre

P

eter soube que estava condenado no primeiro dia de aula do sexto ano, quando sua me apareceu com um presente na

difceis. Eles podiam trocar e-mails, e de vez em quando se viam no lago da cidade, mas era s. E ento, quando setembro chegava, voltavam ao ritmo como se no tivessem perdido nada. Peter concluiu que aquela era a definio de melhor amiga. Hoje, graas ao fichrio do Super-Homem, eles comearam o ano com uma crise. Com a ajuda de Josie, ele fez uma espcie de capa com a fita e um jornal velho que pegaram no laboratrio de cincias. Ele podia tir-la quando estivesse em casa, argumentou ela, para que a me no se sentisse ofendida. Os alunos do sexto ano almoavam no quarto tempo, s onze horas, mas quela altura parecia que no comiam havia meses. Josie comprava o lanche -- o talento da me na cozinha, dizia ela, era limitado a mandar um cheque para as moas do refeitrio --, e Peter ficava ao lado dela na fila para comprar uma caixinha de leite. Sua me mandava um sanduche de po de forma sem casca, um saco de palitinhos de cenoura e uma fruta orgnica que s vezes vinha amassada. Peter colocou o fichrio na bandeja do refeitrio. Sentiu vergonha, ainda que o material estivesse coberto com o jornal. Colocou um canudo na caixinha de leite. -- Sabe, no devia fazer diferena que fichrio voc usa -- disse Josie. -- Por que voc se importa com o que os outros pensam? Quando iam em direo s mesas, Drew Girard esbarrou com fora em Peter. -- Olha por onde anda, retardado -- disse Drew, mas era tarde demais. Peter j tinha derrubado a bandeja.

O leite derramou por cima do fichrio e transformou o jornal em uma maaroca que deixou em evidncia o desenho do Super-Homem por baixo. Drew comeou a rir. -- Est usando a cueca do Super-Homem tambm, Houghton? -- Cala a boca, Drew. -- Seno o qu? Voc vai me derreter com a sua viso de raio X? A sra. McDonald, professora de arte que estava tomando conta do refeitrio -- e que Josie jurava j ter visto cheirando cola no armrio de materiais -- , deu um passo desanimado para frente. No stimo ano, havia garotos, como Drew e Matt Royston, que eram mais altos que as professoras, tinham voz grave e faziam a barba; mas tambm havia garotos como Peter, que rezavam todas as noites para a puberdade chegar, mas ainda no tinham visto nenhum sinal. -- Peter, por que voc no vai se sentar... -- a sra. McDonald suspirou. -- O Drew vai levar outra caixa de leite pra voc. Provavelmente envenenada, pensou Peter. Ele comeou a secar o fichrio com um monte de guardanapos. Mesmo depois de seco, ficaria fedendo. Talvez pudesse dizer  me que tinha derramado leite nele no almoo. Afinal, era verdade, mesmo com a ajuda que tivera para que isso acontecesse. E podia ser um incentivo para que ela comprasse um caderno novo e normal, como o de todo mundo. Por dentro, Peter estava sorrindo: Drew Girard tinha acabado de lhe fazer um favor.

-- Drew -- disse a professora -- , estou falando pra ir agora. Quando Drew deu um passo em direo  rea do refeitrio com a pirmide de caixas de leite, Josie esticou o p sorrateiramente para que ele tropeasse e casse de cara no cho. Os outros alunos comearam a rir. Era assim que essa sociedade funcionava: voc s ficava por baixo at encontrar algum para tomar o seu lugar. -- Cuidado com a criptonita -- sussurrou Josie, alto o suficiente para Peter ouvir. As duas melhores coisas de ser juza de corte distrital, na cabea de Alex, eram, primeiro, poder lidar com os problemas das pessoas e fazer com que elas se sentissem ouvidas e, segundo, o desafio intelectual. Havia muitos fatores a considerar quando se tomavam decises: a vtima, a polcia, a ordem pblica, a sociedade. E todas tinham de ser levadas em conta no contexto da jurisprudncia. A pior parte do trabalho era que voc no podia dar s pessoas o que elas realmente precisavam quando iam para o tribunal: para o ru, um veredito que fosse realmente oferecer tratamento, em vez de punio. Para a vtima, um pedido de desculpas. Hoje, havia uma garota diante dela que no era muito mais velha que Josie. Usava jaqueta da Nascar, saia preta plissada, tinha cabelo louro e acne. Alex tinha visto garotas como ela no estacionamento, depois que o shopping de New Hampshire fechava  noite, dando cavalo de pau com o carro do namorado. Ela se perguntou se, em algum momento, aquela garota tinha brincado com bichos de pelcia debaixo da mesa da cozinha e se tinha lido livros debaixo do cobertor com uma lanterna quando devia estar dormindo. Alex nunca deixava de se espantar com a maneira como, com um

movimento de mo, a vida de uma pessoa podia seguir em uma direo completamente diferente. A garota tinha sido acusada de receptao de mercadoria roubada -- um colar de ouro de quinhentos dlares que o namorado lhe dera. Alex olhou para ela de cima da bancada. Havia motivo para ela ficar to alta, e no tinha nada a ver com logstica, mas com intimidao. -- Voc est renunciando aos seus direitos consciente, voluntria e inteligentemente? E entende que, ao se declarar culpada, est admitindo que a acusao  verdadeira? A garota piscou. -- Eu no sabia que era roubado. Achei que era um presente do Hap. -- Se voc ler a acusao, ela diz que voc est sendo acusada de receber esse colar sabendo que era roubado. Se voc no sabia que ele era roubado, tem direito de ir a julgamento. Tem direito a defesa. Tem direito que eu indique um advogado para represent-la, porque voc est sendo acusada de uma contraveno de classe A, punvel com at um ano de cadeia e multa de dois mil dlares. Tem direito que um promotor apresente provas do caso at no haver mais dvida. Tem direito de ver, ouvir e questionar todas as testemunhas contra voc. Tem direito que eu intime o comparecimento  corte de qualquer prova e testemunha a seu favor. Tem direito de apelar contra a deciso na corte superior, ou que a corte superior faa um novo julgamento com jurados se eu cometer algum erro legal ou se voc no concordar com a minha deciso. Ao se declarar culpada, voc abre mo de todos esses direitos. A garota engoliu em seco.

-- Bom -- disse ela -- , eu penhorei o colar. -- Voc no est sendo acusada por isso -- explicou Alex. -- Voc est sendo acusada por pegar o colar mesmo sabendo que ele era roubado. -- Mas eu quero me declarar culpada -- disse a garota. -- Voc est me dizendo que no fez o que a acusao diz que fez. Voc no pode se declarar culpada de uma coisa que no fez. No fundo da sala, uma mulher ficou de p. Parecia uma fotocpia envelhecida da r. -- Eu falei pra ela no se declarar culpada -- disse a me da garota. -- Ela veio aqui hoje e ia fazer isso, mas a o promotor disse que ela conseguiria um acordo melhor se se declarasse culpada. O promotor ficou de p de repente, como um boneco de mola saltando de uma caixa. -- Eu nunca falei isso, Meritssima. Falei que o acordo hoje era se ela se declarasse culpada, pura e simplesmente. E que, se ela se declarasse inocente e fosse a julgamento, no haveria acordo e a Meritssima tomaria a deciso que quisesse. Alex tentou imaginar como seria estar na pele dessa garota, completamente sufocada pela enorme estatura do sistema legal, incapaz de falar a mesma lngua que ele. Ela olhava para o promotor e via Monty Hall.7 Quer o dinheiro? Ou quer a porta nmero 1, que pode esconder um carro conversvel ou uma galinha?

7

Monty Hall: apresentador de um programa de TV no qual os participantes

tinham a opo de escolher entre trs portas para serem abertas, sem

A garota tinha escolhido o dinheiro. Alex fez sinal para o promotor se aproximar. -- O senhor tem alguma prova que demonstre que ela sabia que o colar era roubado? -- Sim, Meritssima. E lhe entregou o relatrio policial. Alex passou os olhos em seu contedo. Com base no que a garota dissera aos policiais e como eles registraram os fatos, no havia como ela no saber que o colar era roubado. Alex se virou para a garota. -- Com base nos fatos que constam no relatrio policial e na produo de provas, acho que a sua declarao procede. H provas suficientes aqui para substanciar o fato de que voc sabia que o colar era roubado e o aceitou mesmo assim. -- Eu no... no entendi -- disse a garota. -- Significa que aceito sua declarao de culpada, se voc ainda quiser mant-la. Mas -- Alex acrescentou -- voc primeiro tem que me dizer que  culpada. Alex viu a boca da garota se apertar e comear a tremer. -- Tudo bem -- ela sussurrou. -- Eu fiz isso mesmo.

saber se a escolha levaria a um bom prmio ou a um objeto sem valor. (N. da T.)

Era um daqueles dias de outono incrivelmente lindos, do tipo em que voc arrasta os ps na calada de manh ao andar para a escola porque no consegue acreditar que tem que desperdiar oito horas l. Josie estava sentada na aula de matemtica, olhando para o azul do cu -- celeste, essa era a palavra da semana, e apenas diz-la fazia Josie sentir a boca cheia de cristais de gelo. Ela conseguia ouvir os alunos do stimo ano brincando de pique-bandeira na aula de educao fsica no ptio do recreio, e o som do cortador de grama quando o zelador passou pela janela da turma dela. Um pedao de papel caiu em seu colo, por cima de seu ombro. Josie abriu e leu o bilhete de Peter. Por que sempre temos que resolver por x? Por que x no pode fazer isso sozinho e nos poupar do inferno???!!! Ela se virou e esboou um sorriso. Na verdade, gostava de matemtica. Adorava saber que, com esforo suficiente, no final haveria uma resposta que faria sentido. Ela no se encaixava na turma popular da escola porque era uma aluna que s tirava A. Peter era diferente. Ele tirava B e C, e uma vez tirou D. Tambm no se encaixava, mas no por ser um crnio -- simplesmente por ser Peter. Se houvesse uma escala de falta de popularidade, Josie sabia que, ainda assim, ficaria em posio mais alta que alguns. De vez em quando, ela se perguntava se ficava com Peter por gostar da companhia dele ou porque estar com ele a fazia se sentir melhor em relao a si mesma. Enquanto a turma trabalhava na folha de reviso, a sra. Rasmussin navegava na internet. Era uma piada na escola toda -- quem conseguia peg-la comprando uma cala no site da Gap ou lendo sites de fs de

novelas. Um garoto jurou t-la visto olhando pornografia um dia em que foi at a mesa dela fazer uma pergunta. Josie terminou rpido, como sempre, e levantou o olhar. Viu a sra. Rasmussin no computador... mas havia lgrimas escorrendo pelas bochechas dela, daquele jeito estranho que acontece quando as pessoas nem percebem que esto chorando. Ela ficou de p e saiu da sala sem mandar a turma ficar em silncio em sua ausncia. Assim que ela saiu, Peter bateu no ombro de Josie. -- Qual  o problema dela? Antes que Josie pudesse responder, a sra. Rasmussin voltou. Seu rosto estava branco como papel e seus lbios estavam apertados. -- Turma -- disse ela -- , aconteceu uma coisa horrvel. No centro audiovisual, para onde todos os alunos do ensino fundamental II foram levados, o diretor contou o que sabia: dois avies haviam se chocado contra o World Trade Center. Outro tinha acabado de cair no Pentgono. A torre sul do World Trade Center tinha desmoronado. A bibliotecria ligou uma televiso para que todos pudessem ver a cobertura. Embora tivessem sido tirados da aula, o que costumava ser motivo de comemorao, o ambiente estava to silencioso que Peter conseguia ouvir o prprio corao batendo. Ele olhou para as paredes da sala, para o cu, pelas janelas. Aquela escola no era uma zona segura. Nada era, no importava o que dissessem. Ser que a sensao de estar em guerra era assim?

Peter olhou para a tela. As pessoas estavam chorando e gritando em Nova York, mas mal dava para ver por causa da poeira e da fumaa no ar. Havia fogo por todos os lados, e o som dos carros de bombeiros e alarmes de automveis. No parecia com a Nova York que Peter lembrava, da vez que tinha ido l em frias com os pais. Eles subiram no Empire State Building e estavam planejando um jantar caro no Windows of the World, mas Joey ficou enjoado por comer muita pipoca e eles voltaram para o hotel. A sra. Rasmussin tinha ido embora da escola. Seu irmo era operador de ttulos no World Trade Center. Tinha sido. Josie estava sentada ao lado de Peter. Mesmo com alguns centmetros separando as cadeiras, ele conseguia senti-la tremendo. -- Peter -- sussurrou ela, horrorizada. -- Tem gente pulando. Ele no conseguia enxergar to bem quanto ela, mesmo de culos, mas, quando apertou os olhos, percebeu que Josie estava certa. O peito dele doeu ao ver a cena, como se sua caixa torcica tivesse ficado pequena demais de repente. Que tipo de pessoa faria aquilo? Ele prprio respondeu  pergunta. O tipo que no v outra soluo . -- Voc acha que eles podem atacar a gente aqui? -- sussurrou Josie. Peter olhou para ela. Queria saber o que dizer para faz-la se sentir melhor, mas a verdade era que no se sentia to bem e no sabia se havia palavras na lngua inglesa para afastar aquele terrvel tipo de choque, aquela compreenso de que o mundo no  o lugar que voc achava que era.

Ele se voltou para a tela para no ter de responder a Josie. Mais pessoas pularam das janelas da torre norte; em seguida, houve um rugido gigantesco, e ento o cho abriu suas mandbulas. Quando o prdio desabou, Peter soltou a respirao que estava prendendo -- aliviado, porque agora no conseguia ver mais nada. O telefone da escola estava completamente sobrecarregado, ento os pais caram em dois grupos: os que no queriam assustar os filhos ao aparecer na escola e os levar para um bunker subterrneo, e os que queriam superar aquela tragdia com os filhos por perto. Lacy Houghton e Alex Cormier faziam parte da segunda categoria, e chegaram  escola ao mesmo tempo. Estacionaram lado a lado na rea de embarque do nibus escolar e saram dos carros. S ento se reconheceram, pois no se viam desde o dia em que Alex escoltara a filha para fora do poro de Lacy, onde ficavam as armas. -- O Peter est... -- Alex comeou a dizer. -- No sei. E a Josie? -- Vim busc-la. Elas entraram na diretoria juntas e foram instrudas a seguir pelo corredor at o centro audiovisual. -- No consigo acreditar que esto deixando as crianas verem o noticirio -- disse Lacy, correndo ao lado de Alex. -- Eles tm idade suficiente pra entender o que est acontecendo. Lacy balanou a cabea. -- Eu no tenho idade pra entender o que est acontecendo.

O centro audiovisual estava lotado de alunos, em cadeiras, em mesas, espalhados no cho. Alex levou um tempo para se dar conta do que havia de to estranho com o grupo: ningum estava fazendo barulho. At os professores estavam com as mos na boca, como se tivessem medo de demonstrar qualquer emoo, porque, quando as comportas se abrissem, tudo o que havia no caminho seria inundado. Na frente da sala havia uma televiso, e todos os olhos estavam nela. Alex viu Josie porque ela roubara uma de suas faixas de cabelo, a de oncinha. -- Josie -- ela gritou, e a filha se virou, quase subindo nos outros alunos para poder chegar logo at a me. Josie a alcanou como um furaco, toda emoo e fria, mas Alex sabia que em algum lugar l dentro estava o olho dessa tempestade. E ento, como qualquer fora da natureza, era preciso se preparar para outro golpe antes de as coisas voltarem ao normal. -- Mame -- disse ela, chorando. -- Acabou? Alex no sabia o que dizer. Como me, deveria ter todas as respostas, mas no tinha. Deveria manter a filha em segurana, mas tambm no podia prometer isso. Tinha que fazer cara de coragem e dizer para Josie que tudo ia ficar bem, quando ela mesma no sabia se era verdade. Mesmo ao dirigir do tribunal at ali, ela tomou conscincia da fragilidade das ruas sob seus pneus, da divisria no cu que podia ser to facilmente invadida. Passou por poos e pensou na contaminao da gua; perguntou-se a que distncia ficava a usina nuclear mais prxima. Ainda assim, tinha passado anos sendo a juza que os outros esperavam que ela fosse, uma pessoa fria e controlada, que podia chegar a

concluses sem ficar histrica. Certamente podia assumir essa postura com a filha tambm. -- Estamos bem -- disse Alex calmamente. -- Acabou. Ela no sabia que, enquanto falava, um quarto avio caa em um campo da Pensilvnia. No se deu conta de que a fora com que agarrava Josie contradizia suas palavras. Por cima do ombro de Josie, Alex assentiu para Lacy Houghton, que estava saindo com o filho. Um pouco chocada, ela se deu conta de que Peter estava alto, quase to alto quanto um homem. Quantos anos tinham se passado desde que ela o vira pela ltima vez? Alex percebeu que dava para perder algum de vista num piscar de olhos. E prometeu no deixar que isso acontecesse entre ela e a filha. Porque, na verdade, ser juza no importava tanto quanto ser me. Quando o assistente de Alex contou a ela sobre o World Trade Center, seu primeiro pensamento no foi em seus eleitores... foi em Josie. Durante algumas semanas, Alex manteve a promessa. Reorganizou a agenda para chegar em casa quando Josie chegava; deixava relatrios no escritrio em vez de lev-los para casa para ler nos fins de semana; todas as noites, no jantar, elas conversavam, e no sobre assuntos  toa. Conversavam sobre O sol  para todos e como ele podia ser o livro mais bem escrito do mundo; sobre como perceber quando se estava apaixonada; at mesmo sobre o pai de Josie. Mas chegou uma semana em que um caso particularmente complicado fez com que ela ficasse at mais tarde no trabalho. E Josie comeou a conseguir dormir a noite inteira de novo, em vez de acordar gritando. Parte de voltar ao normal significava apagar as

fronteiras do que era anormal, e, em poucos meses, o que Alex sentira no 11 de Setembro foi lentamente esquecido, como a mar apagando uma mensagem que ela comeara a escrever na areia. Peter odiava futebol, mas estava no time da escola. A poltica do time era de que qualquer um podia jogar, para que at os garotos que normalmente no se transformariam em atletas pudessem participar. Foi isso e a crena da me de que se encaixar significava estar no meio das pessoas que o levaram a uma temporada de treinos  tarde, nos quais ele se via fazendo exerccios de passe e correndo atrs da bola com mais frequncia do que a chutava, e a jogos duas vezes por semana, em que ele esquentava bancos de campos escolares por todo o condado de Grafton. Havia apenas uma coisa que Peter odiava mais do que futebol, e era se vestir para jogar. Depois da aula, ele sempre achava alguma coisa para fazer no armrio, ou tinha uma pergunta a fazer para algum professor, para que acabasse chegando ao vestirio quando a maior parte dos outros jogadores j estivesse l fora se alongando e aquecendo. Assim, em um canto, Peter podia tirar a roupa sem ter que ouvir algum fazendo piada sobre a forma como seu peito era afundado na parte de baixo e sem ter o elstico da cueca puxado at ela ficar presa entre as bandas do traseiro. Eles o chamavam de Peter Homo, em vez de Peter Houghton, e, mesmo quando ele era o nico no vestirio, ainda conseguia ouvir as mos deles se batendo ao se cumprimentarem e a risada que escorria em sua direo como leo viscoso. Depois do treino, ele costumava fazer alguma coisa que garantisse que fosse o ltimo a ir para o vestirio: recolhia as bolas, fazia uma pergunta ao tcnico sobre um jogo futuro ou ficava amarrando as chuteiras. Se tivesse muita sorte, quando chegasse para tomar banho, todos j teriam

ido embora. Mas hoje, assim que o treino terminou, caiu uma tempestade. O tcnico tirou todos os garotos do campo e os levou para o vestirio. Peter andou lentamente at o armrio. Vrios garotos j tinham ido para o chuveiro, com toalhas amarradas na cintura. Drew, por exemplo, e seu amigo Matt Royston. Eles riam ao andar e davam socos nos braos um do outro para ver quem dava o golpe mais forte. Peter virou as costas para o resto dos armrios e tirou o uniforme, depois se cobriu rapidamente com uma toalha. Seu corao estava disparado. Ele j conseguia imaginar o que todos viam quando olhavam para ele, porque tambm se via no espelho: a pele branca como a barriga de um peixe, os ns se destacando na coluna e nas clavculas, os braos sem nem um trao de msculo. A ltima coisa que Peter fez foi tirar os culos e coloc-los na prateleira do armrio aberto. Isso fez tudo ficar alegremente embaado. Ele baixou a cabea e entrou no chuveiro, tirando a toalha no ltimo minuto possvel. Matt e Drew j estavam se ensaboando. Peter deixou que o jato batesse em sua testa. Ele se imaginou um aventureiro em um rio branco selvagem, sendo massageado por uma cachoeira ao ser puxado pelo turbilho. Quando secou os olhos e se virou, conseguiu ver os contornos embaados dos corpos de Matt e Drew. E a rea escura entre as pernas deles: pelos pubianos. Peter ainda no tinha nenhum. Matt de repente se virou de lado. -- Meu Deus, para de olhar pro meu pinto.

-- Veado de merda -- disse Drew. Peter imediatamente se virou. E se eles estivessem certos? E se essa fosse a razo de seu olhar ter ido naquela direo naquele momento? Pior, e se ele ficasse duro agora, o que estava acontecendo cada vez mais ultimamente? Isso significaria que ele era gay, no ? -- Eu no estava olhando pra voc -- disse Peter. -- No consigo enxergar nada. A risada de Drew ecoou nas paredes azulejadas do banheiro. -- Seu pinto deve ser muito pequeno, Mattie. De repente, Matt estava segurando Peter pelo pescoo. -- Eu no estou de culos -- disse Peter, sufocando. -- Esse  o motivo. Matt soltou Peter e o empurrou contra a parede, depois saiu do chuveiro. Esticou a mo e tirou a toalha de Peter do gancho, jogando-a debaixo da gua. Ela caiu encharcada sobre o ralo central. Peter a pegou e a enrolou na cintura. O algodo estava encharcado e ele estava chorando, mas achou que talvez as pessoas no percebessem, porque ele todo estava pingando. Todos estavam olhando. Quando ele estava perto de Josie, no sentia nada. No queria beijla, nem segurar a mo dela, nem nada desse tipo. Ele tambm no achava que sentia essas coisas por garotos, mas  claro que voc tinha que ser gay ou heterossexual. No dava para no ser nenhuma das duas coisas.

Ele se apressou para o canto dos armrios e encontrou Matt de p na frente do seu. Apertou os olhos, tentando ver o que o garoto estava segurando, mas ento ouviu: Matt pegou seus culos, bateu a porta do armrio neles e soltou a armao contorcida no cho. -- Agora voc no consegue me olhar -- disse ele, e saiu andando. Peter se ajoelhou no cho e tentou pegar os pedaos quebrados de vidro. Como no enxergava, cortou a mo. Sentou-se de pernas cruzadas, com a toalha no colo, e levou a palma da mo para perto do rosto, at tudo ficar claro. No sonho, Alex estava andando pela rua principal completamente nua. Ela entrou no banco e depositou um cheque. -- Meritssima -- disse o caixa, sorrindo. -- O dia no est lindo hoje? Cinco minutos depois, entrou no caf e pediu um caf com leite desnatado. A barista era uma garota com um improvvel cabelo roxo e um piercing que cruzava o alto do nariz na altura das sobrancelhas; quando Josie era pequena e elas iam l, Alex dizia para ela no olhar fixamente. -- Quer um biscotti com o caf, juza? Ela entrou na livraria, na farmcia e no posto de gasolina, e em cada lugar sentia que as pessoas a encaravam. Sabia que estava nua. Eles sabiam que ela estava nua, mas ningum disse nada at que ela chegasse aos correios. O funcionrio dos correios de Sterling era um homem idoso que trabalhava l provavelmente desde a poca do transporte de correspondncia por charrete. Ele entregou um rolo de selos a Alex e furtivamente cobriu a mo dela com a sua.

-- Senhora, pode no ser certo o que vou dizer... Alex ergueu o olhar e esperou. As linhas de preocupao na testa do funcionrio sumiram. -- Mas o vestido que est usando  lindo, Meritssima -- disse ele por fim. A paciente estava gritando. Lacy conseguia ouvir a garota chorando no final do corredor. Ela correu o mais rpido que pde, virou no corredor e entrou no quarto de hospital. Kelly Gamboni tinha vinte e um anos, era rf e tinha um QI de 79. Fora estuprada por trs garotos do ensino mdio, que aguardavam julgamento em uma instituio juvenil em Concord. Kelly morava em um abrigo para catlicos, ento o aborto nunca foi uma opo para ela. Mas, agora, um mdico do pronto-socorro tinha considerado medicamente necessrio induzir o parto de Kelly, com trinta e seis semanas. Ela estava deitada na cama de hospital com uma enfermeira tentando consol-la sem conseguir resultados, enquanto abraava um urso de pelcia. -- Papai -- gritou ela para um pai que tinha morrido anos antes. -- Me leva pra casa, papai, isso di! O mdico entrou no quarto e Lacy foi para cima dele. -- Como voc ousa? -- disse ela. -- Essa paciente  minha. -- Bom, ela foi levada pra emergncia e se tornou minha -- respondeu o mdico. Lacy olhou para Kelly e foi para o corredor; no faria nenhum bem a ela ver os dois brigando.

-- Ela chegou reclamando de molhar a calcinha dois dias seguidos. O exame foi consistente com ruptura prematura de membranas -- disse o mdico. -- Est sem febre e o monitoramento fetal est reativo.  completamente razovel induzir. Alm do mais, ela assinou o formulrio de consentimento. -- Pode ser razovel, mas no  aconselhvel. Ela  mentalmente retardada. No sabe o que est acontecendo, est apavorada. E certamente no tem capacidade de consentir. -- Lacy se virou. -- Vou chamar o psiclogo. -- No vai mesmo -- disse o mdico, segurando o brao dela. -- Me solta! Eles ainda estavam gritando um com o outro cinco minutos depois, quando o psiclogo chegou. O garoto que apareceu na frente de Lacy parecia ter a idade de Joey. -- S pode ser brincadeira -- disse o mdico, o primeiro

comentrio dele com o qual ela concordou. Os dois seguiram o psiclogo at o quarto de Kelly. A essa altura, a garota estava encolhida ao redor da barriga, choramingando. -- Ela precisa de uma peridural -- murmurou Lacy. -- No  seguro com dois centmetros de dilatao -- argumentou o mdico. -- No interessa. Ela precisa. -- Kelly? -- disse o psiclogo, agachando-se na frente dela. -- Voc sabe o que  uma cesrea?

-- rr -- gemeu Kelly. O psiclogo se levantou. -- Ela  capaz de consentir, a no ser que haja uma ordem judicial impedindo. O queixo de Lacy caiu. -- S isso? -- Tenho mais seis pacientes esperando -- disse o psiclogo. -- Lamento desapontar voc. Lacy gritou quando ele saiu andando. -- No sou eu que voc est desapontando! -- Ela se abaixou ao lado de Kelly e apertou a mo dela. -- Est tudo bem. Vou cuidar de voc. -- Ento fez uma orao para quem quer que pudesse mover a montanha que era o corao dos homens. Em seguida, ergueu o rosto em direo ao mdico. -- Antes de tudo, no fazer mal -- disse baixinho. O mdico apertou o alto do nariz. -- Vou aplicar a peridural -- ele suspirou, e s ento Lacy se deu conta de que estava prendendo a respirao. O ltimo lugar aonde Josie queria ir era jantar com a me, para passar trs horas vendo matres, chefs e outros clientes puxarem o saco dela. Era a comemorao do aniversrio de Josie, e ela no entendia por que no podia pedir comida chinesa em casa e assistir a um filme. Mas a me insistia que no seria uma comemorao se elas ficassem em casa, ento l estava ela, andando atrs da me como uma dama de companhia.

Ela estava contando. Foram quatro " bom ver a senhora, Meritssima". Trs "Sim, Meritssima". Dois "O prazer  meu, Meritssima". E um "Para a Meritssima, temos a melhor mesa da casa". s vezes Josie lia na revista People sobre celebridades que sempre recebiam brindes de fabricantes de bolsas e lojas de sapatos e ingressos de cortesia para estreias na Broadway e para o estdio dos Yankees. Pensando bem, sua me era uma celebridade na cidade de Sterling. -- No consigo acreditar -- disse a me -- que tenho uma filha de doze anos. -- Essa  a hora de eu dizer alguma coisa do tipo: voc deve ter sido uma criana prodgio? A me riu. -- Bom, isso ia funcionar. -- Vou poder dirigir daqui a trs anos e meio -- observou Josie. O garfo da me fez barulho contra o prato. -- Obrigada por isso. O garom foi at a mesa. -- Meritssima -- disse ele, colocando um prato de caviar diante de Alex --, o chef gostaria que vocs aceitassem essa entrada, com os cumprimentos dele. -- Isso  nojento. Ovas de peixe? -- Josie! -- A me sorriu com tenso para o garom. -- Por favor, agradea ao chef.

Ela conseguia sentir os olhos da me enquanto remexia a comida. -- O qu? -- disse em tom desafiador. -- Bom, voc falou como uma garotinha mimada, s isso. -- Por qu? Porque no gosto de embries de peixe debaixo do meu nariz? Voc tambm no come isso. Pelo menos eu fui sincera. -- E eu fui discreta -- disse a me. -- Voc acha que o garom no vai contar pro chef que a filha da juza  uma chata? -- At parece que eu ligo. -- Mas eu ligo. O que voc faz reflete em mim, e tenho uma

reputao a zelar. -- Reputao de qu? De puxa-saco? -- De uma pessoa que est acima de crticas, tanto dentro quanto fora do tribunal. Josie inclinou a cabea para o lado. -- E se eu fizesse uma coisa ruim? -- Ruim? Ruim como? -- Vamos dizer que eu fumasse maconha -- disse Josie. A me ficou imvel. -- Voc quer me contar alguma coisa, Josie? -- Meu Deus, me, no estou fazendo isso.  uma hiptese.

--

Porque, voc sabe, agora que est no fundamental II, vai

comear a encontrar garotos que fazem coisas perigosas, ou simplesmente idiotas, e espero que voc seja... -- ... forte o bastante pra saber o que no deve fazer -- concluiu Josie, ecoando-a em voz cantarolada. -- T. Entendi. Mas e se, me? E se voc chegasse em casa e me encontrasse doidona na sala? 
Voc me entregaria? -- O que voc quer dizer com entregar? -- Chamar a polcia. Entregar meu estoque. -- Josie sorriu. -- De maconha. -- No -- disse a me. -- Eu no entregaria voc. Quando era mais nova, Josie achava que cresceria e ficaria como a me, com ossos delicados, cabelos escuros e olhos claros. A combinao de elementos estava l em suas feies, mas, conforme ela cresceu, comeou a se parecer completamente com outra pessoa, algum que ela no conhecia. Seu pai. Ela se perguntava se o pai, como ela prpria, conseguia decorar as coisas em um estalo e visualiz-las no papel ao fechar os olhos. Ela se perguntava se o pai cantava desafinado e gostava de ver filmes de terror. Ela se perguntava se ele tinha sobrancelhas retas, to diferentes dos arcos delicados que a me tinha. Ela se perguntava. Ponto. -- Se voc no me denunciasse por eu ser sua filha -- disse Josie --, voc no estaria sendo justa, estaria?

--

Eu estaria agindo como me, no como juza --

Alex

respondeu, esticando a mo por cima da mesa e segurando a dela, o que foi estranho. Sua me no era do tipo que gostava de toques. -- Josie, voc sabe que pode contar comigo. Se precisar conversar, estou aqui pra te ouvir. Voc no vai ter problemas com a lei, no importa o que me contar. No se for com voc, nem mesmo se for com um dos seus amigos. Para ser bem sincera, Josie no tinha muitos amigos. Havia Peter, que ela conhecia desde sempre; apesar de ele no ir mais  casa dela e viceversa, eles ainda ficavam juntos na escola, e ele era a ltima pessoa no mundo que Josie conseguia imaginar fazendo alguma coisa ilegal. Ela sabia que um dos motivos para as outras garotas a exclurem era por ela estar sempre do lado de Peter, mas ela dizia a si mesma que no se importava. No queria ficar cercada de pessoas que s se preocupavam com o que acontecia na novela e que guardavam todo o dinheiro que ganhavam no trabalho como babs para gastar em uma loja de grife; elas pareciam to falsas s vezes que Josie achava que, se cutucasse uma delas com um lpis, ela estouraria como um balo. E da se ela e Peter no eram populares? Ela sempre dizia para Peter que isso no importava; era melhor comear a acreditar. Josie puxou a mo e fingiu estar fascinada pelo creme de aspargos. Tinha alguma coisa nos aspargos que ela e Peter achavam hilrio. Eles tinham feito um experimento uma vez para ver quanto voc tinha que comer at seu xixi ficar com cheiro estranho, e foram menos de duas mordidas, ela jurava. -- Pare de usar sua Voz de Juza -- disse Josie. -- Minha o qu?

-- Sua Voz de Juza.  a que voc usa quando atende o telefone. Ou quando est em pblico. Como agora. A me franziu a testa. -- Isso  loucura.  a mesma voz que... O garom chegou deslizando como se andasse de patins pelo salo. -- Meritssima? Sem precisar de pausa, sua me virou o rosto para o garom. -- Est tudo timo -- disse ela, e ficou sorrindo at que ele se afastasse. Em seguida, se virou para Josie. --  a mesma voz que eu sempre uso. Josie olhou para ela e para as costas do garom. -- Talvez seja -- disse. O outro garoto do time de futebol que preferiria estar em qualquer outro lugar se chamava Derek Markowitz. Ele se apresentou para Peter quando eles estavam sentados no banco durante um jogo contra North Haverhill. -- Quem obrigou voc a jogar? -- perguntara Derek, e Peter respondera que fora a me. -- A minha tambm -- ele admitira. -- Ela  nutricionista e fantica por boa forma. No jantar, Peter dizia aos pais que o treino ia bem. Inventava histrias baseadas em jogadas que tinha visto os outros garotos fazerem, feitos atlticos que ele mesmo jamais conseguiria. Fazia isso para poder ver a me olhar para Joey e dizer coisas c omo: "Acho que temos mais de um No quero interromper... mas est tudo ao seu gosto,

atleta na famlia". Quando iam torcer para ele nos jogos e Peter nunca saa do banco, ele dizia que era porque o tcnico tinha seus favoritos -- o que, de certa forma, era verdade. Como Peter, Derek era o pior jogador de futebol do planeta. Era to branco que suas veias pareciam um mapa rodovirio por baixo da pele, e tinha cabelo to claro que era preciso se esforar para encontrar as sobrancelhas. Agora, quando estavam em jogos, eles se sentavam um ao lado do outro no banco. Peter gostava dele porque ele levava barras de chocolate escondido para o treino e comia quando o tcnico no estava olhando, e porque sabia contar uma boa piada: "Por que o juiz interrompeu o jogo de vlei dos leprosos? Porque o p do jogador invadiu a quadra do outro time". "O que  mais engraado do que grampear Drew Girard a uma parede? Arrancar ele de l". Chegou a um ponto em que Peter ficava ansioso pelo treino de futebol s para ouvir o que Derek tinha a dizer -- embora Peter tenha comeado a se preocupar de novo se gostava de Derek s porque ele era Derek, ou porque Peter era gay; ento ele se sentava um pouco mais longe, ou dizia a si mesmo que, fosse como fosse, no olharia nos olhos de Derek durante todo o treino, para que ele no tivesse uma impresso errada. Eles estavam sentados no banco em uma tarde de sexta-feira, vendo todos os outros jogarem contra Rivendell. Sterling devia conseguir dar um banho neles de olhos fechados -- no que isso fosse razo suficiente para o tcnico escalar Peter ou Derek para participar de um verdadeiro jogo da liga. O placar estava chegando a um ponto humilhante no ltimo minuto do quarto final -- Sterling 24 x Rivendell 2 -- e Derek estava contando outra piada. -- Um pirata entra em um bar com um papagaio no ombro, uma perna de pau e um volante na cala -- disse Derek. -- O barman diz: "Ei,

voc est com um volante na cala". O pirata diz: "Arrrgh, eu sei. Ele est me levando  loucura". -- Bom jogo -- disse o tcnico, parabenizando cada jogador com um aperto de mo. -- Bom jogo. Bom jogo. -- Voc vem? -- perguntou Derek, se levantando. -- Encontro voc l -- disse Peter e, quando se abaixou para amarrar as chuteiras, viu um par de sapatos de mulher parar na frente dele, um par que ele reconhecia, porque sempre tropeava nele na entrada de casa. -- Oi, querido -- disse a me sorrindo. Peter engasgou. Que garoto da idade dele era buscado pela me no campo, como se estivesse saindo do maternal e precisasse dar a mo para atravessar a rua? -- Me d um segundo, Peter -- ela falou. Ele olhou para cima o bastante para ver que o time no tinha ido para o vestirio, como sempre, mas estava por ali para observar sua mais recente humilhao. Quando achou que no podia ficar pior, sua me andou em direo ao tcnico. -- palavrinha? Me mate agora, pensou Peter. -- Sou a me do Peter e estou curiosa para saber por que o senhor no escala o meu filho durante os jogos. Tcnico Yarbrowski -- disse ela. -- Podemos dar uma

--  uma questo de trabalho em equipe, sra. Houghton, e s estou dando ao Peter a chance de alcanar alguns dos outros... -- Estamos na metade da temporada, e o meu filho tem tanto direito de jogar nesse time quanto qualquer outro garoto. -- Me -- interrompeu Peter, desejando que houvesse terremotos em New Hampshire, que uma fenda se abrisse debaixo dos ps dela e a engolisse no meio da frase. -- Para. -- Est tudo bem, Peter. Vou cuidar de tudo. O tcnico apertou a parte de cima do nariz. -- Vou colocar o Peter em campo no jogo de Houghton, mas o cenrio no vai ser bonito. -- No precisa ser bonito. S precisa ser divertido. -- Ela se virou e sorriu para Peter, sem noo de nada. -- Certo? Peter mal conseguia ouvi-la. A vergonha era um tiro que ecoava em seus ouvidos, s sendo interrompida pelo burburinho dos colegas de equipe. Sua me se agachou  sua frente. Ele nunca tinha entendido o que era amar e odiar uma pessoa ao mesmo tempo, mas agora estava comeando a entender. -- Quando ele te ver em campo, voc vai ser um titular -- e bateu no joelho dele. -- Te espero no estacionamento. Os outros jogadores riram quando ele passou. -- Filhinho da mame -- disseram. -- Ela luta todas as suas batalhas, bichinha? segunda-feira, sra.

No vestirio, ele se sentou e tirou as chuteiras. Uma das meias tinha um furo no dedo, e ele ficou olhando como se estivesse espantado com isso, e no por estar se esforando para no chorar. Quase deu um pulo quando sentiu uma pessoa se sentar ao seu lado. -- Peter -- disse Derek. -- Est tudo bem? Ele tentou dizer que sim, mas no conseguiu fazer a mentira passar pela garganta. -- Voc sabe qual  a diferena entre esse time e um porcoespinho? -- Derek perguntou. Peter fez que no com a cabea. -- O porco-espinho espeta pra fora. -- Derek sorriu. -- Vejo voc na segunda. Courtney Ignatio era uma garota de alcinha. Era assim que Josie chamava a turma dela, por falta de um termo melhor -- as garotas que usavam blusinha de barriga de fora e que, durante as apresentaes dos alunos, faziam coreografias para msicas como "Bootylicious" e "Lady Marm alade". Courtney foi a primeira aluna do stimo ano a ter celular. Era rosa, e s vezes at tocava na aula, mas os professores nunca ficavam zangados com ela. Quando foi escolhida como dupla de Courtney na aula de estudos sociais para fazer uma linha do tempo da Revoluo Americana, Josie resmungou, pois tinha certeza de que faria todo o trabalho. Mas Courtney a convidou para trabalhar no projeto na casa dela, e a me de Josie disse que, se ela no fosse, a sim acabaria fazendo todo o trabalho. Assim, ela agora

estava sentada na cama de Courtney, comendo cookies com pedaos de chocolate e organizando fichas. -- O qu? -- disse Courtney, ficando de p na frente dela com as mos nos quadris. -- O que o qu? -- Por que voc est com essa cara? Josie deu de ombros. --  o seu quarto.  completamente diferente do meu. Courtney olhou ao redor, como se visse o quarto pela primeira vez. -- Diferente como? Courtney tinha um tapete roxo peludo e abajures de contas com lenos de seda para dar um clima. O tampo inteiro de uma cmoda era dedicado a maquiagem. Havia um pster de Johnny Depp pendurado atrs da porta, e uma prateleira sustentava um aparelho de som moderno. Ela tinha seu prprio aparelho de DVD. Comparado ao quarto dela, o quarto de Josie era muito simples. Tinha uma estante, uma escrivaninha, uma cmoda e uma cama. Seu edredom parecia a colcha de retalhos da vov em comparao ao edredom de cetim de Courtney. Se Josie tinha algum estilo, era completamente fora de moda. --  s diferente -- disse Josie. -- Minha me  decoradora. Ela acha que todas as adolescentes sonham com isso.

-- E voc concorda? Courtney deu de ombros. -- Acho que parece meio um bordel, mas no quero que ela fique triste. Vou pegar o meu fichrio e podemos comear... Quando ela saiu para ir at o andar de baixo, Josie se viu olhando no espelho. Atrada pela cmoda com a maquiagem, comeou a pegar tubos e vidros que no conhecia. Sua me raramente usava maquiagem; talvez um batom, mas s. Josie pegou o rmel e o abriu, passando os dedos pelas cerdas pretas. Abriu um vidro de perfume e cheirou. No reflexo no espelho, viu a garota igual a ela pegar um batom -- "Totalmente Linda!", dizia o rtulo -- e passar nos lbios. A cor fez o rosto dela florescer; deu-lhe vida. Era mesmo to fcil assim virar outra pessoa? -- O que voc est fazendo? Josie deu um pulo ao ouvir a voz de Courtney. Ela viu pelo espelho a garota se aproximar e pegar o batom das mos dela. -- Me... me desculpa -- Josie gaguejou. Para sua surpresa, Courtney Ignatio sorriu. -- Na verdade -- disse ela -- , combinou com voc. Joey tirava notas melhores do que o irmo mais novo; era melhor atleta do que Peter. Era mais engraado, tinha mais bom senso, conseguia desenhar mais do que uma linha reta e era dele que as pessoas se aproximavam nas festas. S havia uma coisa, pelo que Peter conseguia

perceber (e ele estava contando), que Joey no conseguia fazer: ele no suportava ver sangue. Quando Joey tinha sete anos e seu melhor amigo caiu por cima do guido da bicicleta e cortou a testa, foi Joey quem desmaiou. Quando passava um programa de medicina na televiso, ele tinha que sair da sala. Por causa disso, nunca fora caar com o pai, embora Lewis tivesse prometido aos filhos que, assim que fizessem doze anos, teriam idade para ir com ele e aprender a atirar. Parecia que Peter havia esperado o outono inteiro por aquele fim de semana. Ele lera sobre o rifle que o pai o deixaria usar, um Winchester modelo 94 30-30 que tinha sido do pai dele antes da compra do Remington 721 30.06 de ferrolho que ele agora usava para caar cervos. Agora, s quatro e meia da manh, Peter mal conseguia acreditar que estava com ele nas mos, com a trava cuidadosamente presa. Ele rastejou pela floresta atrs do pai, com a respirao cristalizando-se no ar. Tinha nevado na noite anterior, e por isso as condies estavam perfeitas para a caa de cervos. Eles tinham ido l no dia anterior para encontrar marcas, pontos em rvores vivas onde um cervo tivesse esfregado os chifres vrias vezes para marcar territrio. Agora, era apenas questo de encontrar o mesmo ponto e verificar marcas recentes para ver se o cervo j tinha voltado. O mundo era diferente quando no havia ningum nele. Peter tentou acompanhar os passos do pai, colocando a bota na pegada deixada por ele. Fingiu que estava no exrcito, em uma misso de guerrilha. O inimigo estava logo  frente. A qualquer momento, eles podiam ser surpreendidos em uma troca de tiros.

-- Peter -- sussurrou o pai por cima do ombro. -- Mantenha o rifle apontado pra cima! Eles se aproximaram do crculo de rvores onde tinham visto as marcas. Elas pareciam recentes, com a parte branca da madeira aparecendo e tiras verdes de tronco raspado. Peter olhou para os prprios ps. Havia marcas, uma bem maior que as outras duas. -- Ele j passou por aqui -- murmurou seu pai. -- Deve estar seguindo as fmeas. Cervos no cio no eram to inteligentes quanto costumavam ser. Ficavam to atentos s fmeas que estavam perseguindo que se esqueciam de fugir dos humanos que os podiam estar caando. Peter e o pai caminharam cuidadosamente pelo bosque, seguindo as marcas em direo ao pntano. De repente, o pai ergueu a mo: sinal para ele parar. Peter olhou para cima e viu duas fmeas, uma mais velha e a outra jovem. Seu pai se virou e movimentou a boca: No se mexa. Quando o cervo surgiu de detrs da rvore, Peter parou de respirar. Era enorme, majestoso. O largo pescoo sustentava o peso de um chifre com seis pontas. O pai de Peter assentiu imperceptivelmente para a arma. V em frente. Peter mexeu desajeitadamente no rifle, que pareceu quinze quilos mais pesado. Levou-o ao ombro e mirou no cervo. Sua pulsao estava to intensa que a arma tremia. Ele conseguia ouvir as instrues do pai como se estivessem sendo sussurradas em voz alta naquele momento: Atire debaixo da pata da frente, na

parte baixa do corpo. Se atingir o corao, vai mat-lo na hora. Se errar o corao, vai atingir os pulmes, e ele vai correr por uns cem metros e depois cair. O cervo se virou e olhou para ele. Peter apertou o gatilho e errou o tiro de longe. De propsito. Os trs cervos reagiram ao mesmo tempo, sem saber onde estava o perigo. Assim que Peter se perguntou se o pai percebera que ele tinha amarelado -- ou se tinha simplesmente suposto que Peter atirava mal --, um segundo tiro saiu do rifle do pai. As fmeas saram correndo, e o macho caiu como uma pedra. Peter ficou de p ao lado do cervo, vendo o sangue ser bombeado do corao. -- Eu no queria roubar seu tiro -- disse o pai -- , mas, se voc recarregasse, eles teriam escutado e fugido. -- No -- disse Peter, sem conseguir tirar os olhos do cervo. -- No tem problema. Em seguida, vomitou nos arbustos. Ele conseguia ouvir o pai fazendo alguma coisa atrs, mas no se virou. Ficou olhando fixamente para um monte de neve que tinha comeado a derreter. Sentiu o pai se aproximar, sentiu o sangue nas mos dele e a decepo. O pai de Peter esticou a mo e bateu em seu ombro. -- Fica pra prxima.

Dolores Keating tinha sido transferida para o fundamental II naquele ano, em janeiro. Ela era uma daquelas alunas que passam despercebidas: no era muito bonita, no era muito inteligente, no criava confuso. Ela se sentava na frente de Peter na aula de francs, com o rabo de cavalo balanando para cima e para baixo enquanto conjugava os verbos em voz alta. Um dia, quando Peter estava se esforando para no adormecer na recitao do verbo avoir da Madame, ele reparou que Dolores estava sentada em uma mancha de tinta. Achou engraado, considerando que ela estava usando cala branca, mas ento se deu conta de que no era tinta. -- A Dolores ficou menstruada! -- ele gritou em voz alta, por puro choque. Em uma casa cheia de homens -- com exceo da me,  claro --, a menstruao era um desses grandes mistrios nas mulheres, como o fato de elas conseguirem passar rmel sem arrancar os olhos e prender o suti nas costas sem ver o que estavam fazendo. Todos na sala se viraram, e o rosto de Dolores ficou to vermelho quanto sua cala. A Madame a levou at o corredor e orientou que procurasse a enfermaria. No assento  frente de Peter havia uma pequena poa de sangue. A Madame chamou o inspetor, mas, quela altura, a turma estava fora de controle, com os sussurros se espalhando como incndio no bosque, falando sobre quanto sangue havia, que Dolores agora era uma das garotas que todos sabiam que ficavam menstruadas. -- Keating est sangrando -- disse Peter para o garoto ao seu lado, cujos olhos se iluminaram.

-- Keating est sangrando -- repetiu o garoto, e o cntico se espalhou pela sala. Keating est sangrando. Keating est sangrando . Do outro lado da sala, Peter viu Josie. Josie, que comeara a usar maquiagem ultimamente. Ela estava cantando com o resto da turma. A sensao de fazer parte do grupo parecia gs hlio; Peter se sentiu inflar por dentro. Tinha sido ele quem comeara. Ao chamar a ateno para Dolores, passara a fazer parte do grupo. No almoo naquele dia, estava sentado com Josie quando Drew Girard e Matt Royston foram at ele com suas bandejas. -- Soubemos que voc viu acontecer -- disse Drew, e se sentaram para que Peter contasse em detalhes. Ele comeou a enfeitar: uma colher de ch de sangue virou uma xcara; a mancha na cala branca passou de um tamanho modesto para uma de propores enormes. Eles chamaram os amigos, alguns at do time de futebol de Peter, mas que no tinham falado com ele nem uma vez durante o ano. -- Conte pra eles tambm,  hilrio -- disse Matt, e sorriu como se Peter fosse um deles. Dolores ficou um tempo longe da escola. Peter sabia que no faria diferena se ela ficasse um ms fora ou mais. As lembranas dos alunos do sexto ano eram armadilhas de ferro, e, pelo resto do perodo escolar, Dolores sempre seria lembrada como a garota que ficou menstruada na aula de francs e sangrou na cadeira. Na manh em que ela voltou, desceu do nibus e foi imediatamente flanqueada por Drew e Matt.

-- Para uma mulher -- eles disseram, arrastando as palavras -- , voc no tem peito nenhum. Ela os empurrou, e Peter no a viu mais at a aula de francs. Algum -- ele realmente no sabia quem -- tinha elaborado um plano. A Madame sempre se atrasava para a aula; tinha que vir do outro lado da escola. Assim, antes de o sinal tocar, todos andariam at a mesa de Dolores e entregariam um absorvente interno que Courtney Ignatio arrumou ao roubar uma caixa da me. Drew foi o primeiro. Quando colocou o absorvente sobre a mesa dela, ele disse: -- Acho que voc deixou cair isso. Seis absorventes depois, o sinal ainda no tinha tocado e a Madame ainda no estava na sala. Peter andou at ela, segurando o tubo embrulhado na mo, pronto para solt-lo sobre a mesa, mas reparou que Dolores estava chorando. No era alto, e mal dava para perceber. Mas, quando Peter esticou a mo com o absorvente, se deu conta de que era assim estar do outro lado, quando ele estava sofrendo o inferno nas mos dos outros. Ento esmagou o absorvente na mo. -- Parem -- disse baixinho, e se virou para os trs alunos em fila que esperavam a vez de humilhar Dolores. -- Parem j com isso. -- Qual  o problema, bichinha? -- perguntou Drew. -- No tem mais graa.

Talvez nunca tenha tido. Mas no era com ele, e isso era bom o bastante. O garoto atrs de Peter o empurrou e jogou o absorvente, que bateu na cabea de Dolores e rolou para baixo da cadeira de Peter. E ento foi a vez de Josie. Ela olhou para Dolores e depois para Peter. -- No -- ele murmurou. Josie apertou os lbios e soltou o absorvente sobre a mesa de Dolores. -- Ops -- disse ela, e, quando Matt Royston riu, ela foi ficar ao lado dele. Peter estava esperando. Embora Josie no estivesse andando com ele havia algumas semanas, ele sabia o que ela fazia depois da escola: normalmente, passeava pela cidade para tomar ch gelado com Courtney e companhia e olhar vitrines. s vezes, ficava de longe observando-a como se observaria uma borboleta que voc conheceu como lagarta, se perguntando como a mudana pde ter sido to dramtica. Ele esperou at ela ter se separado das outras garotas e a seguiu pela rua que levava  casa dela. Quando a alcanou e segurou seu brao, ela gritou. -- Meu Deus, Peter! Por que voc no me mata logo de susto? Ele tinha pensado no que ia perguntar a ela, porque as palavras no lhe ocorriam facilmente, e sabia que precisava praticar mais do que os outros; mas, quando estava com Josie to perto, depois de tudo que tinha

acontecido, todas as perguntas pareciam um tapa. Ento ele se sentou no meio-fio e abriu as mos no ar. -- Por qu? -- perguntou. Ela se sentou ao lado dele e cruzou os braos sobre os joelhos. -- No estou fazendo isso pra te magoar. -- Voc fica to falsa com eles. -- S no sou do jeito que sou com voc -- disse Josie. -- Como eu falei: falsa. -- Existem diferentes tipos de real. Peter deu uma risada de desprezo. -- bobagem. -- Eles no esto me ensinando nada -- argumentou Josie. -- Estou l porque gosto deles. So divertidos e engraados, e quando eu estou com eles... -- ela parou de repente. -- O qu? -- perguntou Peter. Josie o encarou. -- Quando estou com eles -- ela disse -- , as pessoas gostam de mim. Peter sups que a mudana podia ser extremamente trgica: em um instante, voc podia passar de querer matar algum para querer se matar. Se  isso que aqueles babacas esto te ensinando,  tudo

-- No vou mais deixar que tirem sarro de voc -- prometeu Josie. --  uma coisa boa, no ? Peter no respondeu. A questo no era ele. -- Eu s... s no posso ficar com voc agora -- explicou Josie. Ele ergueu o rosto. -- No pode? Josie se levantou e se afastou. -- A gente se v por a, Peter -- ela disse, e saiu da vida dele.

D para sentir as pessoas olhando fixamente;  como o calor que sobe do asfalto durante o vero, como uma cutucada nas costelas. Voc no precisa ouvir um sussurro para saber que  sobre voc. Eu costumava parar em frente ao espelho do banheiro para ver o que eles ficavam olhando. Queria saber o que fazia a cabea das pessoas se virar, o que eu tinha que era to incrivelmente diferente. A princpio, no consegui identificar. Quer dizer, era apenas eu. Mas a, um dia, quando me olhei no espelho, eu entendi. Olhei em meus prprios olhos e me odiei, talvez tanto quanto todos eles. Foi o dia em que comecei a acreditar que talvez eles estivessem certos.

Dez dias depois

J

osie esperou at no conseguir mais ouvir a televiso no quarto da me -- Leno, no Letterman -- e deitou de lado para ver o movimento do LED no relgio digital. s duas horas da manh,

decidiu que era seguro, tirou as cobertas e saiu da cama. Ela sabia como descer escondida. Tinha feito isso algumas vezes antes para encontrar Matt no quintal. Uma noite, ele mandou uma mensagem de texto para o celular dela: qro T V agora. Ela foi de pijama, e por um momento, quando ele a tocou, ela achou que fosse escorregar pelos dedos dele. S havia uma parte em que a madeira rangia, e Josie sabia qual era para no pisar nela. No andar de baixo, remexeu na pilha de DVDs em busca do que queria -- no queria ser pega assistindo aquele. Em seguida, ligou a televiso e deixou o som to baixo que precisou se sentar bem perto da TV para ouvir. A primeira pessoa a aparecer foi Courtney. Ela levantou a mo, bloqueando a pessoa que estava filmando. Mas estava rindo, os cabelos compridos caam sobre o rosto como uma seda. Fora da imagem, a voz de Brady Pryce: "Faz alguma coisa pra gente mandar pro Garotas enlouquecidas , Court". A cmera ficou embaada por um momento, e surgiu um close de um bolo de aniversrio. FELIZ 16 ANOS, JOSIE. Uma srie de rostos, inclusive o de Haley Weaver, cantou para ela.

Josie fez uma pausa no DVD. Ali estavam Courtney, Haley, Maddie, John e Drew. Encostou o dedo na testa de cada um deles, recebendo um pequeno choque eltrico a cada uma das vezes. Em sua festa de aniversrio, eles fizeram um churrasco em Storrs Pond. Havia cachorro-quente, hambrguer e milho cozido. Eles esqueceram o ketchup e algum teve que voltar at a cidade para comprar no mercadinho. O carto de Courtney estava assinado BFF, "melhores amigas para sempre", embora Josie soubesse que ela tinha escrito o mesmo no carto de Maddie um ms antes. Quando a tela ficou embaada de novo e seu rosto apareceu, Josie comeou a chorar. Ela sabia o que ia acontecer; se lembrava dessa parte. A cmera se afastou e ali estava Matt, com os braos ao redor dela, enquanto ela estava sentada no colo dele na areia. Ele tinha tirado a camisa, e Josie se lembrava da pele quente dele nas partes onde encostava na dela. Como voc podia estar to vivo em um momento e tudo parar de repente? No s seu corao e seus pulmes, mas o modo como voc sorria lentamente, com o lado esquerdo da boca se curvando antes do direito, e o tom da sua voz, e o hbito de puxar o cabelo quando estava fazendo o dever de matemtica? "No posso viver sem voc", Matt costumava dizer, e agora Josie se dava conta de que ele no precisaria. Ela no conseguia parar de chorar, ento enfiou o punho na boca para se impedir de fazer barulho. Viu Matt na tela como algum que observa um animal nunca visto antes, para memorizar tudo dele e depois contar para todo mundo o que descobrira. A mo de Matt se espalhou sobre a barriga nua dela e agarrou a beirada do biquni. Ela se viu afast-lo e corar.

-- Aqui, no -- disse sua voz, uma voz engraada, que no parecia dela nem aos prprios ouvidos. Nunca parecia quando se ouvia em uma gravao. -- Ento vamos pra outro lugar -- disse Matt. Josie ergueu a blusa do pijama e abriu a prpria mo sobre a barriga. Ps o polegar para cima, como Matt fizera, encostando na curva do seio. Tentou fingir que era ele. Ele lhe dera um medalho de ouro de aniversrio, que ela no tirava desde aquele dia, quase seis meses antes. Josie o estava usando no DVD. Ela lembrava que, quando olhou para ele no espelho, a impresso digital de Matt estava atrs, deixada quando ele o prendeu ao redor de seu pescoo. Aquilo foi to ntimo e, por alguns dias, ela fez tudo que pde para no tirar a marca. Na noite em que Josie encontrou Matt no quintal, sob a lua, ele riu do pijama dela, todo estampado com fotos de Nancy Drew. 8 -- O que voc estava fazendo quando te mandei a mensagem? -- ele perguntou. -- Dormindo. Por que voc precisava me ver no meio da noite? -- Pra ter certeza que voc estava sonhando comigo -- ele disse. No DVD, algum gritou o nome de Matt. Ele se virou sorrindo. Seus dentes eram dentes de lobo, pensou Josie. Afiados e incrivelmente brancos. Ele deu um beijo na boca de Josie. -- J volto -- disse.
8

Nancy Drew: personagem fictcia de livros de mistrio. (N. da T.)

J volto. Ela apertou o boto de pausa quando Matt ficou de p. Em seguida, colocou a mo no pescoo e arrancou o medalho da fina corrente de ouro. Abriu uma das almofadas do sof e enfiou o cordo no meio do enchimento. Ento desligou a televiso. Fingiu que Matt ficaria suspenso assim para sempre, a centmetros dela, de forma que ainda pudesse esticar a mo e peg-lo, embora soubesse que o DVD se desligaria antes mesmo de ela sair da sala. Lacy sabia que o leite tinha acabado. Naquela manh, quando ela e Lewis se sentaram como zumbis na mesa da cozinha, ela mencionara isso: -- Ouvi falar que vai chover de novo. -- Acabou o leite. -- Voc falou com o advogado do Peter? Lacy ficava arrasada em saber que no poderia visitar Peter at a semana seguinte. Eram regras da cadeia. Saber que Lewis no tinha ido vlo a matava. Como ela poderia fazer as coisas de um dia normal sabendo que o filho estava sentado em uma cela a menos de trinta quilmetros? Havia um momento em que os acontecimentos da vida se tornavam um tsunami. Lacy sabia disso porque j tinha sido tomada pela dor uma vez. Quando isso acontecia, voc se via dias depois em territrio estrangeiro, sem razes. Ento a nica escolha que voc tinha era ir para um lugar mais alto enquanto ainda podia. E foi por isso que Lacy se viu em uma loja de convenincia de posto de gasolina comprando uma caixa de leite, apesar de todos os seus instintos mandarem que ela fosse dormir debaixo das cobertas. No era to fcil

quanto parecia: para comprar o leite, ela tinha que primeiro sair da garagem com os reprteres batendo na janela do carro e bloqueando o caminho. Tinha que escapar das vans da imprensa que a seguiam pela estrada. Como resultado, foi comprar leite em um posto de Purmort, em New Hampshire, um lugar aonde quase nunca ia. -- So 2,59 dlares -- disse o caixa. Lacy abriu a carteira e tirou trs notas de um dlar. Em seguida, reparou no pequeno cartaz feito  mo ao lado da registradora. "Fundo memorial para as vtimas da Sterling High", dizia o cartaz, com uma lata de caf ao lado para receber os donativos. Ela comeou a tremer. -- Eu sei -- disse, solidrio, o caixa. -- Muito trgico, n? O corao de Lacy estava batendo com tanta fora que ela tinha certeza de que o funcionrio iria ouvir. -- A gente acaba pensando nos pais, no ? Quer dizer, como  que eles no sabiam? Lacy assentiu, com medo de o som de sua voz arruinar seu anonimato. Era quase fcil demais concordar. Ser que j existira um garoto pior? Uma me pior? Era simples dizer que por trs de toda criana terrvel havia uma me ou um pai terrvel, mas e aqueles que fizeram o melhor que podiam? E os que, como Lacy, amaram incondicionalmente, protegeram ferozmente, adoraram fervorosamente -- e ainda assim criaram um assassino? Eu no sabia, Lacy queria dizer. No  minha culpa.

Mas ficou em silncio porque, verdade seja dita, no tinha certeza se acreditava nisso. Ela esvaziou o contedo da carteira na lata de caf, notas e moedas. Entorpecida, saiu do posto de gasolina, deixando a caixa de leite na bancada. Lacy no tinha nada dentro de si. Tinha dado tudo para o filho. E essa era a maior mgoa de todas -- no importa quo espetaculares desejemos que nossos filhos sejam, quo perfeitos finjamos que so, eles esto fadados a decepcionar. No fim das contas, os filhos so mais como ns do que pensamos: completamente arruinados. Ervin Peabody, o professor de psiquiatria da faculdade, se ofereceu para fazer uma reunio de luto para toda a cidade de Sterling no centro, na igreja branca de madeira. Saiu uma pequena manchete no jornal e folhetos roxos foram pendurados no caf e no banco, mas foi o suficiente para espalhar a notcia. Quando a reunio aconteceu, s sete horas da noite, havia carros estacionados a quase um quilmetro de distncia; as pessoas se amontoavam nas portas da igreja e na rua. A imprensa, que tinha comparecido em massa para cobrir a reunio, foi afastada por um batalho de policiais de Sterling. Selena apertou o beb com mais fora contra o peito quando outra onda de moradores passou por ela. -- Voc sabia que ia ser assim? -- sussurrou para Jordan. Ele balanou a cabea e passou os olhos pela multido. Reconheceu algumas pessoas que tambm tinham ido ao tribunal no dia da acusao, mas havia uma enorme quantidade de rostos novos, que no eram intimamente ligados  escola: idosos, estudantes universitrios, casais com

bebs pequenos. Eles compareceram por causa do efeito propagador, porque o trauma de uma pessoa  a perda da inocncia de outra. Ervin Peabody estava na frente do salo, ao lado do chefe de polcia e do diretor da Sterling High. -- Ol -- disse ele, ficando de p. -- Marcamos esta reunio hoje porque ainda estamos todos atordoados. Praticamente de uma hora para outra, tudo mudou ao nosso redor. Podemos no ter todas as respostas, mas pensamos que seria bom para todos se comessemos a conversar sobre o que aconteceu. E ouvir uns aos outros, o que talvez seja ainda mais importante. Um homem se levantou na segunda fileira, segurando a jaqueta nas mos. -- Eu me mudei pra c cinco anos atrs porque minha esposa e eu queramos ir pra longe da loucura de Nova York. Estvamos iniciando uma famlia e procurando um lugar que fosse... bom, um pouco mais agradvel e hospitaleiro. Por exemplo, quando voc passa pelas ruas de Sterling, as pessoas que te conhecem buzinam. Voc vai ao banco e o caixa se lembra do seu nome. No h mais lugares assim nos Estados Unidos, e agora... -- Ele parou de falar. -- E agora Sterling no  mais assim -- concluiu Ervin. -- Sei como pode ser difcil quando a imagem que voc tem de alguma coisa no corresponde  realidade; quando o amigo ao seu lado vira um monstro. -- Monstro? -- Jordan sussurrou para Selena. -- Bom, o que ele devia dizer? Que o Peter era uma bomba-

relgio? Isso vai fazer com que se sintam seguros.

O psiquiatra olhou para a multido. -- Acho que o simples fato de vocs estarem aqui hoje mostra que Sterling no mudou. Pode no voltar a ser normal, como conhecamos... Mas vamos ter que descobrir um novo tipo de normalidade. Uma mulher levantou a mo. -- E a escola? Nossos filhos vo ter que voltar pra l? Ervin olhou para o chefe de polcia e para o diretor. -- Ainda tem uma investigao em andamento na escola -- disse o chefe. -- Esperamos terminar o ano letivo em outro local -- acrescentou o diretor. -- Estamos conversando com a superintendncia em Lebanon, para ver se podemos usar uma das escolas vazias de l. A voz de outra mulher ecoou: -- Mas eles vo ter que voltar alguma hora. Minha filha s tem dez anos e est morrendo de medo de botar o p l. Ela acorda no meio da noite gritando. Acha que tem algum com uma arma l, esperando por ela. -- Fique feliz por ela poder ter pesadelos -- respondeu um homem. Ele estava de p ao lado de Jordan, com os braos cruzados e os olhos vermelhos e lvidos. -- V at ela todas as noites quando ela chorar, abrace sua filha e diga que vai mant-la em segurana. Minta pra ela, como eu menti. Um murmrio percorreu a igreja, como um novelo sendo desenrolado. " Mark Ignatio. Pai de um dos mortos."

Assim, de repente, uma falha geolgica se abriu em Sterling -- uma depresso to profunda e lgubre que no seria transposta durante 1234567 muitos anos. J havia uma diferena na cidade entre os que tinham perdido o filho e os que ainda tinham filhos com quem se preocupar. -- Alguns de vocs conheciam minha filha Courtney -- disse Mark, afastando-se da parede. -- Talvez ela tenha sido bab de um de seus filhos, ou servido um hambrguer pra vocs no Steak Shack no vero. Talvez vocs a conhecessem de vista, porque ela era uma garota linda. -- Ele se virou para a frente do palco. -- Quer me dizer como devo descobrir esse novo tipo de normalidade, doutor? Voc no ousaria sugerir que um dia isso fica mais fcil. Que vou conseguir seguir em frente. Que vou esquecer que a minha filha est deitada em um tmulo enquanto um psicopata est vivo e passa bem. -- De repente, o homem se virou para Jordan. -- Como voc consegue viver assim? -- falou em tom acusatrio. -- Como consegue dormir  noite sabendo que est defendendo aquele filho da puta? Todos os olhos do salo se viraram para Jordan. Ao seu lado, ele conseguiu sentir Selena apertando o rosto de Sam contra o peito, protegendo o beb. Jordan abriu a boca para falar, mas no conseguiu encontrar nenhuma palavra. O som de botas no corredor o distraiu. Patrick Ducharme estava indo em direo a Mark Ignatio. -- No consigo nem imaginar a dor que voc est sentindo, Mark -- disse Patrick, olhando para o rosto sofrido do homem. -- E sei que voc tem todo o direito de vir aqui e de estar abalado. Mas, pela maneira como o nosso pas funciona, as pessoas so inocentes at que se prove o contrrio. O sr. McAfee s est fazendo o trabalho dele. -- Ele colocou a mo no ombro de Mark e baixou a voz. -- Por que no vamos tomar um caf?

Quando Patrick estava levando Mark Ignatio em direo  sada, Jordan se lembrou do que queria dizer. -- Eu tambm moro aqui -- disse ele. Mark se virou. -- No por muito tempo. Alex no era apelido de Alexandra, como a maior parte das pessoas supunha. Seu pai simplesmente lhe dera o nome do filho que preferia ter tido. Depois que a me de Alex morreu de cncer de mama quando ela tinha cinco anos, o pai a criou. No era o tipo de pai que ensinava a andar de bicicleta nem a fazer pedras quicarem na gua. Em vez disso, ele lhe ensinou as palavras em latim para coisas como torneira, polvo e porco-espinho; explicou a ela a Declarao dos Direitos dos Cidados. Ela usava o desempenho acadmico para ganhar a ateno dele: vencia competies de soletrao e de geografia, tirava sempre A, entrou em todas as faculdades s quais se candidatou. Ela queria ser como o pai, o tipo de homem que andava pela rua e os lojistas o cumprimentavam, impressionados: "Boa tarde, juiz Cormier". Queria perceber a mudana no tom da voz da recepcionista quando ouvia que era o juiz Cormier na linha. Se o pai nunca a segurava no colo, nunca lhe dava um beijo de boanoite, nunca dizia que a amava... Bem, era parte de quem ele era. Com o pai, Alex aprendeu que tudo podia ser reduzido a fatos. Alento, cuidado, amor, todas essas coisas podiam ser esmiuadas e explicadas, em vez de vivenciadas. E a lei... Bem, a lei sustentava o sistema de crenas do pai. Qualquer sentimento que voc tivesse em um contexto de tribunal tinha

explicao. Voc tinha permisso para ser emotivo em um ambiente lgico. O que voc sentia pelos clientes no era o que estava no seu corao, ou ao menos voc podia fingir, para que ningum se aproximasse o bastante para magoar voc. O pai de Alex teve um derrame quando ela estava no segundo ano de direito. Ela se sentou na beira da cama do hospital e disse que o amava. -- Ah, Alex -- ele suspirou. -- No vamos nos preocupar com isso. Ela no chorou no enterro dele porque sabia que ele preferia assim. Ser que seu pai desejara, como ela desejava agora, que a base do relacionamento deles fosse diferente? Ser que acabara desistindo de ter esperanas, preferindo a relao professor-aluno em vez de pai e filha? Quanto tempo voc podia caminhar em uma pista paralela  da filha antes de perder todas as chances de cruzar com a vida dela? Ela leu incontveis sites na internet sobre o luto e seus estgios; estudou os resultados de tiroteios em escolas. Ela sabia pesquisar, mas, quando tentava se conectar a Josie, a filha olhava para ela como se nunca a tivesse visto. Em outras ocasies, Josie desatava a chorar. Alex no sabia como combater nenhuma das duas reaes. Sentia-se incompetente, mas ento lembrava que no se tratava de si mesma, e sim de Josie, e se sentia ainda mais fracassada. A grande ironia tinha passado despercebida a Alex: ela era mais como o pai do que jamais podia imaginar. Sentia-se  vontade no tribunal, de uma forma que no se sentia dentro da prpria casa. Sabia o que dizer para um ru que aparecesse com a terceira acusao de dirigir sob efeito de lcool, mas no conseguia manter uma conversa de cinco minutos com a prpria filha.

Dez dias depois dos disparos na Sterling High, Alex entrou no quarto de Josie. Era no meio da tarde e as cortinas estavam fechadas; Josie estava escondida no casulo que fizera com as cobertas. Apesar de seu instinto imediato de abrir a janela e deixar a luz do sol entrar, Alex se deitou na cama e passou os braos ao redor do volume que era a filha. -- Quando voc era pequena -- disse Alex -- , s vezes eu vinha pra c e dormia com voc. Houve um movimento e Josie tirou o lenol e as cobertas de cima do rosto. Seus olhos estavam vermelhos, e o rosto, inchado. -- Por qu? Ela deu de ombros. -- Nunca gostei de tempestades. -- Como eu nunca acordei e encontrei voc aqui? -- Eu sempre voltava pra minha cama. Eu tinha que ser forte... No queria que voc pensasse que eu tinha medo de alguma coisa. -- Superme -- sussurrou Josie. -- tenho medo de perder voc -- disse Alex. -- Tenho medo de j ter perdido. Josie olhou para ela por um momento. -- Tambm tenho medo de me perder. Alex se sentou e prendeu o cabelo da filha atrs da orelha. -- Vamos sair daqui -- sugeriu ela.

Josie ficou imvel. -- No quero sair. -- Querida, seria bom pra voc.  como fisioterapia, mas pra mente. Fazer o de sempre, seguir os padres da rotina. Voc acaba lembrando como fazer naturalmente. -- Voc no entende... -- Se voc no tentar, Jo -- disse ela --, significa que ele venceu. Josie levantou a cabea de repente. Alex no precisava dizer quem era ele. -- Voc imaginava? -- Alex se ouviu perguntar. -- Imaginava o qu? -- Que ele poderia fazer isso? -- Me, eu no quero... -- Eu fico pensando nele quando pequeno -- disse Alex. Josie balanou a cabea. -- Faz muito tempo -- murmurou ela. -- As pessoas mudam. -- Eu sei. Mas s vezes ainda consigo ver ele entregando aquele rifle pra voc... -- Ns ramos crianas -- interrompeu Josie, com os olhos se enchendo de lgrimas. -- ramos burros. -- Ela afastou as cobertas, em pressa repentina. -- Pensei que voc quisesse sair.

Alex olhou para ela. Uma advogada insistiria. Mas uma me talvez no. Minutos depois, Josie estava sentada no banco do passageiro do carro ao lado da me. Ela prendeu o cinto de segurana, soltou e prendeu de novo. Alex a observou puxar o cinto para se certificar de que travaria. Atentou para o bvio enquanto seguiam: que os primeiros narcisos tinham forado cabeas corajosas pela neve na divisria da Rua Main; que a equipe da Faculdade de Sterling estava treinando no rio Connecticut, com os remos quebrando o gelo residual; que o termmetro do carro dizia que fazia mais de dez graus. Alex pegou o caminho mais longo intencionalmente, aquele que no passava pela escola. S uma vez Josie virou a cabea para olhar a paisagem, quando passaram pela delegacia. Alex parou em uma vaga em frente  lanchonete. A rua estava cheia de pessoas fazendo compras depois do almoo e pedestres apressados, carregando caixas em direo aos correios, falando em celulares e olhando vitrines. Para quem no soubesse de nada, era um dia comum em Sterling. -- E ento -- disse Alex, virando-se para Josie -- , como estamos? Josie olhou para as prprias mos no colo. -- Tudo bem. -- No  to ruim quanto voc pensava, ? -- Ainda no. -- Minha filha, a otimista. -- disse Alex, sorrindo para ela. -- Quer dividir um hambrguer com bacon e uma salada?

-- Voc ainda nem olhou o cardpio -- disse Josie, e as duas saram do carro. De repente, um Dodge Dart enferrujado furou um sinal vermelho na Rua Main, com o escapamento dando estouros enquanto se afastava. -- Idiota -- murmurou Alex. -- Eu devia anotar a placa... -- Ela parou de falar quando se deu conta de que Josie tinha desaparecido. -- Josie! Ento viu a filha deitada na calada, com o rosto plido e o corpo tremendo. -- Foi s um carro. S um carro. -- Ela ajudou Josie a se levantar. Ao redor, as pessoas estavam olhando e fingindo no olhar. Alex protegeu Josie da viso deles. Tinha falhado de novo. Para algum famosa por ser boa em avaliao, ela de repente parecia no conseguir fazer nenhuma. Pensou em uma coisa que lera na internet: que, s vezes, quando a questo era luto, voc podia dar um passo para frente e trs para trs. Ela se perguntou por que a internet no acrescentava que, quando algum que voc ama est sofrendo, isso lhe corta a alma tambm. -- Tudo bem -- disse Alex, com os braos firmes ao redor dos ombros de Josie. -- Vamos voltar pra casa. Patrick tinha se acostumado a viver, comer e dormir trabalhando no caso. Na delegacia, ele agia com tranquilidade e controle -- afinal, era o lder daqueles investigadores -- , mas em casa questionava cada passo dado. Na geladeira havia fotos dos mortos; no espelho do banheiro, ele criou uma linha cronolgica do dia de Peter. Ficava sentado no meio da noite anotando perguntas: O que Peter estava fazendo em casa antes de ir

para a escola? O que mais havia no computador dele? Onde havia aprendido a atirar? Como conseguira as armas? De onde viera tanta raiva? Mas, durante o dia, ele caminhava entre a enorme quantidade de informaes a serem processadas e entre a quantidade ainda maior de informaes a serem colhidas. Agora, Joan McCabe estava sentada  sua frente. Ela tinha chorado at acabar com a ltima caixa de lenos da delegacia, e agora tinha toalhas de papel nas mos. -- Me desculpe -- disse ela para Patrick. -- Achei que ficaria mais fcil com o tempo. -- Acho que no  assim que funciona -- disse ele com delicadeza. -- Agradeo a boa vontade e o tempo para vir falar comigo sobre o seu irmo. Ed McCabe fora o nico professor morto no ataque. A sala dele ficava no topo da escadaria, no caminho do ginsio; ele teve a m sorte de sair e tentar impedir o que estava acontecendo. De acordo com os registros da escola, McCabe foi professor de matemtica de Peter no primeiro ano do ensino mdio. Ele teve mdia B. Ningum conseguia se lembrar de ele no se dar bem com o sr. McCabe naquele ano; a maior parte dos alunos nem se lembrava de Peter estar na turma. -- No tem mais nada que eu possa falar -- disse Joan. -- Pode ser que o Philip se lembre de mais alguma coisa. -- Seu marido? Joan ergueu o olhar para ele. -- No. O companheiro de Ed. Patrick se recostou na cadeira.

-- Companheiro. De... -- O Ed era gay -- disse Joan. Podia ser alguma coisa, mas, por outro lado, podia no ser. Pelo que Patrick sabia, Ed McCabe, que at meia hora atrs era considerado uma vtima da m sorte, podia ser o motivo de Peter ter sado atirando. -- Ningum na escola sabia -- disse Joan. -- Acho que ele tinha medo das reaes. Ele dizia para as pessoas da cidade que o Philip era seu antigo colega de quarto de faculdade. Outra vtima, mas que ainda estava viva, era Natalie Zlenko. Ela levara um tiro na lateral do corpo e precisou de cirurgia para remoo do fgado. Patrick achava que se lembrava de ter visto o nome dela como presidente do clube GLAAD (Aliana de Gays e Lsbicas contra a Difamao) da Sterling High. Ela foi uma das primeiras atingidas; o sr. McCabe, um dos ltimos. Talvez Peter Houghton fosse homofbico. Patrick entregou seu carto a Joan. -- Eu gostaria muito de conversar com Philip -- disse ele. Lacy Houghton colocou uma chaleira e um prato de aipo cortado na frente de Selena. -- Estou sem leite. Fui comprar, mas... -- a voz falhou, e Selena tentou preencher as lacunas. -- Agradeo muito que voc tenha aceitado conversar comigo -- disse ela. -- Qualquer coisa que possa me contar, vamos usar pra ajudar o Peter.

Lacy assentiu. -- Qualquer coisa -- disse. -- Pergunte o que quiser. -- Bom, vamos comear com as coisas fceis. Onde ele nasceu? -- No Centro Mdico Dartmouth-Hitchcock -- disse Lacy. -- Parto normal? -- Sim. Sem complicaes. -- Ela sorriu um pouco. -- Eu caminhava cinco quilmetros por dia quando estava grvida. Lewis achava que eu ia acabar tendo o Peter em frente  casa de algum. -- Voc o amamentou? Ele se alimentava bem? -- Me desculpe, no vejo por que... -- Porque precisamos saber se ele pode ter um distrbio cerebral -- disse Selena diretamente. -- Algum problema orgnico. -- Ah -- disse Lacy baixinho. -- Sim, eu amamentei. Ele sempre foi saudvel. Um pouco menor do que as crianas da idade dele, mas nem Lewis nem eu somos grandes. -- Como foi o desenvolvimento social dele quando criana? -- Ele no tinha muitos amigos -- disse Lacy. -- No como o Joey. -- Joey? -- O irmo mais velho do Peter. O Peter  um ano mais novo e muito mais sossegado. Ele sofria provocaes por ser pequeno e por no ser to bom atleta quanto o Joey... -- Que tipo de relacionamento o Peter tem com o Joey?

Lacy olhou para as mos entrelaadas. -- O Joey morreu um ano atrs. Em um acidente de carro, por causa de um motorista bbado. Selena parou de escrever. -- Sinto muito. -- Sim -- disse Lacy. -- Eu tambm. Selena se reclinou ligeiramente para trs na cadeira. Era loucura, ela sabia, mas, caso a m sorte fosse contagiosa, ela no queria chegar muito perto. Pensou em Sam, que tinha deixado dormindo de manh no bero. Durante a noite, ele tirou uma das meias; seus dedos dos ps eram gordos como ervilhas; ela mal conseguia evitar beijar a pele cor de caramelo. Muito da linguagem do amor era assim: voc devorava a pessoa com os olhos, se embevecia com a imagem dela, engolia a pessoa inteira. O amor era alimento, partido e pulsando na corrente sangunea. Ento se voltou para Lacy. -- O Peter se dava bem com o Joey? -- Ah, o Peter idolatrava o irmo mais velho. -- Ele falou isso? Lacy deu de ombros. -- No precisava. Ele ia a todos os jogos de futebol americano do Joey e torcia tanto quanto ns. Quando ele chegou ao ensino mdio, todo mundo esperava grandes coisas dele, por ser o irmo mais novo do Joey.

E Selena sabia que isso podia ser tanto fonte de frustrao quanto de orgulho. -- Como o Peter reagiu  morte do Joey? -- Ele ficou arrasado, como ns. Chorou muito. Passou muito tempo fechado no quarto. -- Seu relacionamento com o Peter mudou depois que o Joey morreu? -- Acho que ficou mais forte -- disse Lacy. -- Fiquei to devastada. O Peter... deixou que nos apoissemos nele. -- Ele se apoiou em algum? Tinha algum relacionamento ntimo? -- Voc est falando de garotas? -- Ou garotos -- disse Selena. -- Ele ainda estava naquela idade estranha. Sei que convidou algumas garotas pra sair, mas acho que nunca deu em nada. -- Como eram as notas do Peter? -- Ele no tirava s A, como o irmo -- disse Lacy -- , mas tirava B e de vez em quando C. Sempre dissemos que era pra ele fazer o melhor que conseguisse. -- Ele tinha alguma deficincia de aprendizado? -- No. -- E fora da escola? O que ele gostava de fazer? -- perguntou Selena. -- Ele ouvia msica. Jogava videogames. Como qualquer adolescente.

-- Voc j ouviu as msicas que ele escutava ou jogou algum desses jogos? Lacy permitiu que um sorriso assombrasse seu rosto. -- Eu tentava no fazer isso. -- Voc monitorava o uso que ele fazia da internet? -- Ele s podia usar pra trabalhos da escola. Tivemos longas

conversas sobre salas de bate-papo e como a internet no  segura, mas o Peter tinha uma cabea boa. A gente... -- ela se interrompeu e afastou o olhar. -- A gente confiava nele. -- Voc sabia que downloads ele fazia? -- No. -- E armas? Sabe onde ele as conseguiu? Lacy respirou fundo. -- O Lewis caa. Ele levou o Peter uma vez, mas o Peter no gostou muito. As armas sempre ficam trancadas em um armrio especial... -- E o Peter sabia onde a chave ficava. -- Sabia -- murmurou Lacy. -- E as pistolas? -- Nunca tivemos pistolas em casa. No tenho ideia de onde vieram. -- Voc examinava o quarto dele? Debaixo da cama, nos armrios, essas coisas? Lacy olhou nos olhos dela.

-- Sempre respeitamos a privacidade dele. Acho importante um filho ter seu espao e... -- Ela se calou e apertou os lbios. -- E? -- E s vezes, quando voc comea a procurar -- disse Lacy baixinho --, encontra coisas que no quer ver. Selena se inclinou para frente com os cotovelos apoiados nos joelhos. -- Quando foi isso, Lacy? Lacy andou at a janela e abriu a cortina. -- Voc tinha que conhecer o Joey pra entender. Ele estava no ltimo ano, era um aluno brilhante, um atleta. E ento, uma semana antes da formatura, ele morreu. -- Ela deixou a mo passear sobre o tecido. -- Algum tinha que mexer no quarto dele, empacotar tudo, se livrar das coisas que no queramos guardar. Demorei um tempo, mas acabei fazendo isso. Eu estava mexendo nas gavetas dele quando encontrei as drogas. S um pouco de p em uma embalagem de chiclete, uma colher e uma seringa. Eu no sabia que era herona at procurar na internet. Joguei na privada e descartei a seringa no trabalho. -- Ela se virou para Selena com o rosto vermelho. -- No consigo acreditar que estou te contando isso. Nunca contei pra ningum, nem pro Lewis. Eu no queria que ele nem ningum pensasse mal do Joey. Lacy se sentou no sof de novo. -- Eu no entrei no quarto do Peter de propsito, porque tinha medo do que poderia encontrar l -- confessou. -- Eu no sabia que podia ser ainda pior.

-- Voc o interrompia quando ele estava no quarto? Batia na porta, enfiava a cabea pela porta? -- Claro. Eu ia dizer boa-noite. -- O que ele costumava estar fazendo? -- Estava no computador -- disse Lacy. -- Quase sempre. -- Voc no via o que estava na tela? -- No sei. Ele fechava. -- Como ele agia quando voc o interrompia de repente? Parecia aborrecido? Irritado? Culpado? -- Por que parece que voc est julgando o Peter? -- disse Lacy. -- Voc no devia estar do nosso lado? Selena olhou nos olhos dela com firmeza. -- O nico jeito de eu fazer uma investigao precisa e detalhada desse caso  perguntar sobre os fatos, sra. Houghton.  o que estou fazendo. -- Ele era como qualquer adolescente -- disse Lacy. -- Aguentava quando eu lhe dava um beijo de boa-noite. No parecia constrangido. No agia como se estivesse escondendo alguma coisa de mim.  isso que voc quer saber? Selena colocou a caneta sobre a mesa. Quando a pessoa entrevistada comeava a ficar na defensiva, era hora de encerrar a entrevista. Mas Lacy ainda estava falando, mesmo sem perguntas.

-- Nunca pensei que houvesse algum problema -- ela admitiu. -- Eu no sabia que o Peter estava abalado. No sabia que queria se matar. No sabia de nada disso. -- Ela comeou a chorar. -- Todas aquelas famlias por a, eu no sei o que dizer pra elas. Queria poder dizer que tambm perdi uma pessoa. S que perdi h muito tempo. Selena passou os braos ao redor da outra mulher, menor do que ela. -- No  sua culpa -- disse, palavras que ela sabia que Lacy

Houghton precisava ouvir. Em um ataque de ironia estudantil, o diretor da Sterling High tinha colocado o Grupo de Estudos da Bblia na sala ao lado da Aliana de Gays e Lsbicas. Eles se reuniam s teras, s trs e meia da tarde, nas salas 233 e 234 da escola. Durante o dia, a sala 233 era onde o sr. McCabe dava aulas. Um membro do Grupo de Estudos da Bblia era a filha de um pastor local e se chamava Grace Murtaugh. Ela foi atingida no corredor que levava ao ginsio, em frente a um bebedouro. A lder da Aliana de Gays e Lsbicas ainda estava no hospital: Natalie Zlenko, fotgrafa de anurio, tinha se assumido lsbica depois do primeiro ano, quando entrou na sala de reunies do GLAAD, a sala 233, para ver se havia mais algum no planeta como ela. -- No podemos dar nomes. -- A voz de Natalie era to baixa que Patrick teve que se reclinar sobre a cama para escutar. A me de Natalie estava grudada atrs dele. Quando ele foi fazer algumas perguntas  garota, ela disse que era melhor ele ir embora, seno ela chamaria a polcia. Ento ele a lembrou de que ele era a polcia. -- No estou pedindo nomes -- disse Patrick. -- S estou pedindo seu auxlio para ajudar o jri a entender por que isso aconteceu.

Natalie assentiu e fechou os olhos. -- Peter Houghton -- disse Patrick. -- Ele foi a alguma reunio? -- Uma vez -- disse Natalie. -- Ele disse ou fez alguma coisa que voc se lembre? -- Ele no disse nem fez nada, ponto. Apareceu uma nica vez e nunca mais voltou. -- Isso acontece com frequncia? -- s vezes -- disse Natalie. -- Se a pessoa no estiver pronta pra assumir. E s vezes tem uns babacas que querem saber quem  gay pra poder tornar a nossa vida na escola um inferno. -- Na sua opinio, o Peter se encaixava em alguma dessas duas categorias? Ela ficou em silncio por bastante tempo, com os olhos ainda fechados. Patrick se afastou, pensando que ela tivesse dormido. -- Obrigado -- disse ele para a me, e em seguida Natalie falou de novo. -- O Peter era maltratado muito antes de aparecer na reunio -- concluiu. Jordan estava encarregado de Sam enquanto Selena entrevistava Lacy Houghton, e o beb tinha uma dificuldade incrvel para dormir sozinho. No entanto, uma volta de dez minutos de carro o derrubava, ento Jordan o agasalhou e o prendeu no assento do carro. S quando engatou a r no Saab percebeu que os aros das rodas estavam arrastando no cho; seus quatro pneus tinham sido cortados.

-- Merda -- exclamou Jordan, e Sam comeou a chorar de novo no banco de trs. Ele tirou o beb, carregou-o para dentro e o prendeu no canguru que Selena usava em casa. Em seguida, ligou para a polcia para denunciar o ato de vandalismo. Jordan soube que estava encrencado quando o policial no pediu que ele soletrasse seu sobrenome, porque j sabia como escrev-lo. -- Vamos verificar -- disse o policial. -- Mas primeiro tem um esquilo em uma rvore que precisa de ajuda pra descer. -- A linha ficou muda. Era possvel processar um policial por ser um filho da puta nada solidrio? Por algum milagre -- provavelmente os feromnios do estresse -- , Sam adormeceu, mas levou um susto e comeou a berrar quando a campainha tocou. Jordan abriu a porta e encontrou Selena do lado de fora. -- Voc acordou o beb -- ele a acusou, enquanto ela pegava Sam no canguru. -- Ento voc no devia ter trancado a porta. Oi, docinho -- disse Selena com voz doce. -- O papai foi um monstro enquanto estive fora? -- Algum cortou meus pneus. Selena olhou para ele por cima da cabea do beb. -- Ah, voc sabe como ganhar amigos e influenciar pessoas. Me deixe adivinhar: os policiais no esto correndo pra anotar sua queixa? -- No.

-- Faz parte, eu acho -- disse Selena. -- Foi voc quem pegou o caso. -- Que tal um pouco de compreenso conjugal? Selena deu de ombros. -- No fazia parte do meu juramento na igreja. Se quer uma festa de piedade, arrume a mesa s pra voc. Jordan passou a mo pelo cabelo. -- Voc pelo menos conseguiu alguma coisa com a me? Tipo, que Peter tem um problema psiquitrico? Ela tirou a jaqueta enquanto equilibrava Sam em uma das mos e depois na outra, desabotoou a blusa e se sentou no sof para amamentar. -- No. Mas ele tinha um irmo. --  mesmo? -- . Um irmo que, antes de ser morto por um motorista bbado, era o modelo de filho perfeito. Jordan se sentou ao lado dela. -- Posso usar isso... Selena revirou os olhos. -- S dessa vez, ser que voc consegue no ser advogado e se concentrar em ser humano? Jordan, essa famlia estava to enrolada que no tinha a menor chance. O garoto era um barril de plvora. Os pais estavam lidando com a prpria dor e dormiram no volante. O Peter no tinha a quem recorrer.

Jordan olhou para ela com um sorriso se abrindo no rosto. -- Excelente -- disse ele. -- Nosso cliente acabou de se tornar digno de compaixo. Uma semana depois do tiroteio na Sterling High, a escola Mount Lebanon -- uma escola de ensino fundamental de primeiro ciclo que tinha se tornado prdio administrativo quando a populao escolar de Lebanon diminuiu -- foi preparada para receber os alunos do ensino mdio, para que conclussem o ano letivo. No dia em que as aulas recomearam, a me de Josie entrou em seu quarto. -- Voc no precisa ir -- disse ela. -- Pode tirar mais algumas semanas, se quiser. Houve um alvoroo de telefonemas, uma onda de pnico que comeou alguns dias antes, quando cada aluno recebeu uma carta escrita avisando que as aulas recomeariam. "Voc vai voltar? Voc vai?" Houve boatos: a me de quem no ia deixar o filho voltar; quem ia ser transferido para a St. Mary's; quem ia assumir a aula do sr. McCabe. Josie no ligou para nenhuma das amigas. Estava com medo de ouvir as respostas. Ela no queria voltar para a escola. No conseguia imaginar ter que andar por um corredor, mesmo que no fosse fisicamente localizado na Sterling High. Ela no sabia como o superintendente e o diretor esperavam que todos atuassem -- pois todos estariam fazendo exatamente isso, atuando, porque sentir alguma coisa real seria terrvel. Mas havia outra parte de Josie que entendia que ela tinha de voltar para a escola, que ali era o seu lugar. Os outros alunos na Sterling High eram os nicos que realmente entendiam como era acordar de manh e desejar aqueles trs

segundos que vinham antes de voc lembrar que sua vida no era mais como antes. Eles eram os nicos que tinham esquecido como era fcil confiar que o cho debaixo dos seus ps era slido. Se voc estivesse  deriva com mil outras pessoas, ainda podia dizer que estava perdida? -- Josie? -- disse a me. -- Est tudo bem -- ela mentiu. Sua me saiu e Josie comeou a pegar os livros. De repente se deu conta de que no fizera a prova de cincias. Catalisadores. No se lembrava de mais nada sobre o assunto. A sra. Duplessiers no seria m o bastante para dar a prova no dia em que as aulas voltassem, seria? O tempo no parou durante essas trs semanas. Ele mudou completamente. Na ltima manh em que fora para a escola, no estava pensando em nada especial. Naquela prova, talvez. Em Matt. Em quanto dever de casa teria naquela noite. Em outras palavras, em coisas normais. Em um dia normal. No havia nada que o destacasse de qualquer outra manh na escola, ento como Josie podia ter certeza de que aquele dia tambm no viraria do avesso? Quando Josie chegou  cozinha, a me estava de terno, roupa de trabalho. Ela ficou surpresa. -- Voc vai voltar hoje? -- Josie perguntou. A me se virou, segurando uma esptula. -- Ah -- ela respondeu, sem palavras -- , s achei que, como voc est... Voc sempre pode me localizar por meio da minha assistente, se

houver algum problema. Juro por Deus, Josie, estarei l em menos de dez minutos... Josie afundou em uma cadeira e fechou os olhos. De alguma maneira, no importava que ela ficasse fora o dia todo. Ela ainda imaginava a me sentada em casa esperando por ela, s por garantia. Mas era idiotice, no era? Nunca tinha sido assim, ento por que seria diferente agora? Porque sim, sussurrou uma voz na cabea de Josie. Tudo est diferente. -- Eu reorganizei meu horrio pra poder pegar voc na escola. E se houver algum problema... -- Eu sei. Ligo pra assistente. T bom. A me se sentou diante dela. -- Querida, o que voc esperava? Josie olhou para frente. -- Nada. Parei de esperar faz muito tempo. -- Ela se levantou. -- Voc est deixando as panquecas queimarem -- disse e voltou para o quarto. Ento afundou o rosto no travesseiro. No sabia o que havia de errado com ela mesma. Era como se depois houvesse duas Josies: a garotinha que no deixava de esperar que tudo fosse um pesadelo, que talvez nunca tivesse acontecido, e a realista, que ainda sofria tanto que atacava qualquer pessoa que se aproximasse demais. O problema era que Josie no sabia qual personalidade assumiria no prximo instante. Ali estava sua me, pelo amor de Deus, que no conseguia nem ferver gua, mas que estava tentando fazer panquecas para ela antes de ela voltar para a escola. Quando ela era

mais nova, imaginara morar no tipo de casa em que, no primeiro dia de aula, a me fazia ovos com bacon e servia suco para comear o dia da maneira certa, em vez de enfileirar caixas de cereal e um guardanapo de papel. Bem, ela tinha o que desejara, certo? Uma me que se sentava ao seu lado quando ela estava chorando, uma me que abandonara temporariamente o emprego que a definia para ficar perto dela. E o que ela fez? Afastou-a. Disse, em todas as entrelinhas: Voc nunca se importou com nada que acontecia na minha vida quando ningum estava vendo, ento no pense que pode comear agora . De repente, Josie ouviu o som de um motor parando na porta de casa. Matt, pensou antes que pudesse evitar, e ento cada nervo de seu corpo se tensionou at doer. De alguma forma, ela no pensara em como seria fisicamente transportada para a escola; Matt sempre a buscava no caminho. Sua me,  claro, a teria levado. Mas Josie se perguntou por que no tinha pensado na logstica antes. Porque tinha medo? Porque no queria? Da janela do quarto, Josie viu Drew Girard sair do Volvo velho. Quando ela chegou  porta da frente para abri-la, a me tambm j tinha sado da cozinha. Ela estava com o detector de fumaa na mo, arrancado do encaixe de plstico no teto. Drew estava parado em uma rea banhada de sol, protegendo os olhos com a mo livre. O outro brao ainda estava em uma tipoia. -- Eu devia ter ligado. -- Tudo bem -- disse Josie. Ela estava meio tonta. Percebeu que, ao fundo, os pssaros tinham voltado do local para onde iam no inverno.

Drew olhou para Josie e para a me dela. -- Achei que talvez voc precisasse de carona. De repente, Matt estava ali de p com eles; Josie conseguia sentir seus dedos nas costas. -- Obrigada -- disse a me -- , mas hoje eu vou levar a Josie. O monstro dentro de Josie se manifestou. -- Prefiro ir com o Drew -- disse ela, pegando a mochila pendurada no corrimo. -- Vejo voc na sada. Sem se virar para ver o rosto da me, Josie correu para o carro, que brilhava como um santurio. J dentro, ela esperou que Drew desse a partida e sasse da frente de sua casa. -- Seus pais esto assim? -- perguntou Josie, fechando os olhos enquanto eles percorriam as ruas. -- No deixam nem voc respirar? Drew olhou para ela. -- Esto. -- Voc conversou com algum? -- Tipo a polcia? Josie balanou a cabea. -- Tipo a gente. Ele diminuiu a marcha.

-- Fui ao hospital ver o John algumas vezes -- disse Drew. -- Ele no conseguia lembrar do meu nome. No consegue lembrar do nome de coisas como garfo, escova de cabelo e escada. Fiquei sentado l contando coisas idiotas pra ele, tipo quem ganhou os ltimos jogos dos Bruins, mas o tempo todo fiquei me perguntando se ele j sabe que no vai mais poder andar. -- No sinal, Drew se virou para ela. -- Por que no eu? -- O qu? -- Por que ns fomos os que deram sorte? Josie no sabia o que dizer. Ela olhou pela janela, fingindo estar fascinada por um cachorro que estava puxando o dono em vez de ser puxado. Drew parou no estacionamento da escola de Mount Lebanon. Ao lado do prdio havia um parquinho, j que aquela tinha sido uma escola infantil, e, mesmo quando virou prdio administrativo, as crianas do bairro ainda brincavam no escorregador e no balano. Na frente da escola, estavam o diretor e uma fila de pais, chamando os alunos e os encorajando a entrar. -- Tenho uma coisa pra voc -- disse Drew, esticando a mo para o banco de trs e pegando um bon que Josie reconheceu. O bordado dele j havia se desfeito, a aba estava desfiada e muito curva. Ele o entregou para Josie, que passou o dedo com delicadeza no contorno interno. -- Ele deixou no meu carro -- explicou Drew. -- Eu ia dar pros pais dele... depois. Mas a pensei que voc podia querer. Josie assentiu e o choro lhe subiu  garganta. Drew apoiou a cabea no volante. Josie levou um momento para perceber que ele tambm estava chorando.

Ela esticou a mo e a colocou no ombro dele. -- Obrigada -- conseguiu dizer, e colocou o bon de Matt na cabea. Ela abriu a porta e pegou a mochila, mas, em vez de ir em direo  escola, passou pelos portes enferrujados e foi para o parquinho. Andou pela caixa de areia, olhou para suas pegadas e se perguntou quantas mudanas no tempo seriam necessrias para faz-las desaparecer. Duas vezes Alex pediu licena do tribunal para ligar para o celular de Josie, apesar de saber que ela o deixava desligado durante as aulas. O recado que deixou as duas vezes foi o mesmo: "Sou eu. S queria saber como voc est". Alex falou para sua assistente, Eleanor, que, se Josie ligasse, era para cham-la. De qualquer jeito. Estava aliviada por voltar ao trabalho, mas precisou se forar a prestar ateno no caso. Havia uma r no banco que alegava no ter experincia com o sistema judicirio criminal. -- No entendo o processo do tribunal -- disse a mulher, virando-se para Alex. -- Posso ir agora? O promotor estava no meio do interrogatrio. -- Primeiro, por que voc no conta  juza Cormier sobre a ltima vez em que esteve em um tribunal? A mulher hesitou. -- Acho que foi por causa de uma multa de excesso de velocidade. -- O que mais?

-- No consigo lembrar -- disse ela. -- Voc no est em condicional? -- perguntou o promotor. -- Ah -- respondeu a mulher. -- Isso. -- Est em condicional por que motivo? -- No consigo lembrar. -- Ela olhou para o teto e enrugou as sobrancelhas, pensativa. -- Comea com F... F... F... F... furto! Furto,  isso! O promotor suspirou. -- No tinha a ver com um cheque? Alex olhou para o relgio e pensou que, se tirasse a mulher da porcaria do banco, poderia ver se Josie j tinha ligado. -- Que tal falsificao? -- interrompeu ela. -- Tambm comea com F. -- Assim como fraude -- observou o promotor. A mulher olhou para Alex sem entender. -- No consigo lembrar. -- Vamos fazer um recesso de uma hora -- Alex anunciou. -- O tribunal volta a se reunir s onze horas. Assim que passou pela porta que levava  sua sala, ela tirou a toga. Ela a estava sufocando hoje, coisa que Alex no entendia exatamente, pois era assim que sempre se sentira bem. A lei era um conjunto de regras que ela entendia, um cdigo de comportamento em que certas aes tinham certas consequncias. Ela no podia dizer o mesmo de sua vida pessoal, em que

uma escola que deveria ser segura virava um matadouro, em que uma filha gerada dentro dela tinha se transformado em uma pessoa que Alex no entendia mais. Certo, se era para ser sincera, que ela jamais entendera. Frustrada, ela ficou de p e entrou na sala da assistente. Duas vezes antes de o julgamento comear, chamou Eleanor por motivos triviais, torcendo para que, em vez de ouvir "Sim, Meritssima", a assistente fosse baixar a guarda e perguntar a Alex como ela estava, como Josie estava. Que, por um breve momento, ela no fosse a juza para algum, mas apenas mais uma me tomada por um enorme susto. -- Preciso de um cigarro -- disse Alex. -- Vou l pra baixo. Eleanor ergueu o olhar. -- Certo, Meritssima. Alex, pensou ela. Alex. Alex. Alex . Do lado de fora, Alex se sentou no bloco de cimento perto da rea de carga e descarga e acendeu um cigarro. Tragou com fora e fechou os olhos. -- Isso vai te matar, sabia? -- A velhice tambm -- respondeu Alex, virando-se e vendo Patrick Ducharme. Ele virou o rosto para o sol e apertou os olhos. -- Eu no esperava que uma juza tivesse vcios. -- Voc deve pensar que dormimos no tribunal.

Patrick sorriu. -- Bom, isso seria idiotice. No tem espao pra um colcho. Ela ergueu o mao. -- Fique  vontade. -- Se voc quer me corromper, existem maneiras mais interessantes. Alex sentiu o rosto ficar quente. Ele no tinha acabado de dizer aquilo, tinha? Para uma juza? -- Se voc no fuma, por que veio aqui pra fora? -- Pra fazer fotossntese. Quando fico preso no tribunal o dia todo, meu feng shui fica pssimo. -- As pessoas no tm feng shui. S os lugares. -- Tem certeza? Alex hesitou. -- Bom. No. -- Pois . -- Ele se virou para ela, e, pela primeira vez, ela reparou que ele tinha uma mecha branca no cabelo, bem no bico de viva. -- Por que est me encarando? Alex imediatamente desviou o olhar. -- No tem problema -- disse Patrick, rindo. --  albinismo. -- Albinismo?

-- , voc sabe. Pele clara, cabelo branco.  recessivo, ento ganhei uma tira, como a de um gamb. Estou a um gene de distncia de parecer um coelho. -- Ele olhou para ela e ficou srio. -- Como est a Josie? Ela considerou erguer uma muralha da China, dizer para ele que no queria falar nada que comprometesse o caso. Mas Patrick Ducharme fez a nica coisa que Alex desejava: tratou-a como uma pessoa, e no como uma figura pblica. -- Ela voltou pra escola -- confidenciou Alex. -- Eu sei. Eu a vi. -- Voc... estava l? Patrick deu de ombros. -- Estava. S por garantia. -- Aconteceu alguma coisa? -- No -- ele disse. -- Foi... normal. A palavra pairou entre eles. Nada voltaria a ser normal, os dois sabiam. Dava para consertar o que estava quebrado, mas, se foi voc quem consertou, l no fundo voc sempre saberia onde estavam as marcas. -- Ei -- disse Patrick, tocando o ombro dela. -- Voc est bem? Ela morreu de vergonha ao perceber que estava chorando. Limpou os olhos e se afastou dele. -- No tem nada de errado comigo -- disse, desafiando Patrick a duvidar. Ele abriu a boca como se fosse falar, mas tornou a fech-la.

-- Vou deixar voc com seus vcios, ento -- disse e voltou para dentro do prdio. Somente quando Alex voltou para sua sala, percebeu que ele tinha usado o plural. Que ele no s a tinha flagrado fumando, mas tambm mentindo. Havia novas regras: todas as portas, exceto as da entrada principal, ficariam trancadas aps o incio das aulas, apesar de um atirador poder ser um aluno que j estivesse dentro da escola. No se podia mais entrar com mochila nas salas de aula, apesar de uma arma poder ser carregada secretamente debaixo de um casaco, dentro de uma bolsa ou at mesmo dentro de um fichrio com zper. Todos, tanto alunos quanto funcionrios, receberiam cartes de identificao para usar pendurados no pescoo. Era para poder controlar todo mundo, e Josie no conseguiu deixar de pensar que, desse jeito, na prxima vez seria mais fcil saber quem havia morrido. O diretor falou no alto-falante durante a entrada e acolheu a volta de todos  Sterling High, mesmo no sendo mais na Sterling High. Ele sugeriu um minuto de silncio. Enquanto outros adolescentes da sala baixavam a cabea, Josie olhou ao redor. Ela no era a nica que no estava rezando. Alguns garotos estavam passando bilhetes. Dois estavam ouvindo msica no iPod. Um cara estava copiando um dever de matemtica. Ela se perguntou se eles, como ela, tinham medo de homenagear os mortos porque os fazia se sentir mais culpados. Josie se mexeu e bateu o joelho. As mesas e cadeiras levadas para a escola provisria eram para crianas pequenas, no para refugiados do ensino mdio. Como resultado, ningum cabia nelas. Os joelhos de Josie

iam at o queixo. Alguns garotos nem conseguiam se encaixar sob as mesas; tinham que escrever com o fichrio no colo. Sou Alice no Pas das Maravilhas, pensou Josie. Me vejam cair. Jordan esperou que seu cliente se sentasse  sua frente na sala de reunies da cadeia. -- Me fale sobre o seu irmo, Peter -- disse ele. Ele observou o rosto de Peter, viu a decepo surgir ao se dar conta de que mais uma vez Jordan tinha descoberto uma coisa que ele esperava que fosse permanecer escondida. -- O que tem ele? -- disse Peter. -- Vocs se davam bem? -- Eu no matei meu irmo, se  isso que voc quer saber. -- No  isso que eu quero saber. -- Jordan deu de ombros. -- S estou surpreso por voc no ter falado dele antes. Peter olhou para ele com raiva. -- Tipo quando? Quando eu tinha que ficar calado na acusao? Ou depois disso, quando voc veio aqui e me disse que ia falar e eu ia ouvir? -- Como ele era? -- Olha s, o Joey est morto, o que voc j deve saber. Ento, no entendo por que falar dele vai me ajudar. -- O que aconteceu com ele? -- insistiu Jordan. Peter passou a unha do polegar na beirada de metal da mesa.

-- Ele e suas notas A de garoto de ouro foram atropelados por um motorista bbado. --  difcil competir com isso -- disse Jordan com cuidado. -- O que voc quer dizer? -- Bom, seu irmo era o garoto perfeito, certo? Isso j  difcil, mas a ele morre e se transforma num santo. Jordan estava bancando o advogado do diabo para ver se Peter morderia a isca, e deu certo: o rosto do garoto se transformou. -- No d pra competir com isso -- disse Peter com raiva. -- No d pra alcanar. Jordan bateu com o lpis na beirada da pasta. Ser que a raiva de Peter tinha nascido do cime ou da solido? Ou ser que o massacre era um meio de finalmente chamar a ateno para si, e no para Joey? Como ele poderia formular uma linha de defesa dizendo que o ato de Peter foi de desespero, no uma tentativa de superar a notoriedade do irmo? -- Voc sente falta dele? -- perguntou Jordan. Peter deu um sorrisinho de deboche. -- Meu irmo -- disse ele. -- Meu irmo, o capito do time de beisebol; meu irmo, que ficou em primeiro lugar em uma competio estadual de francs; meu irmo, que era amigo do diretor; meu irmo, meu fabuloso irmo, que me largava a um quilmetro do porto da escola pra no ser visto dirigindo comigo no carro. -- Por qu?

-- Ningum ganha vantagem nenhuma andando comigo, ou voc ainda no percebeu? Jordan teve um vislumbre dos pneus do carro, rasgados at o aro. -- O Joey no te defendia quando voc era provocado? -- Voc est brincando? Foi o Joey que comeou. -- Como? Peter andou at a janela da pequena sala. Um rubor subiu pelo pescoo dele, como se a lembrana pudesse lhe queimar a pele. -- Ele dizia pras pessoas que eu era adotado. Que minha me era uma prostituta viciada em crack, e que por isso meu crebro era todo ferrado. s vezes ele falava bem na minha cara, e, quando eu ficava puto e partia pra cima dele, ele ria, me derrubava no cho e olhava pros amigos, como se isso fosse prova de que tudo que ele tinha dito era verdade. Ento voc quer saber se sinto falta dele? -- Peter repetiu e encarou Jordan. -- Estou feliz que ele tenha morrido. Jordan no costumava ficar surpreso, mas Peter Houghton j o tinha chocado vrias vezes. Peter era simplesmente o que uma pessoa seria se voc depurasse as emoes mais cruas e exclusse qualquer contrato social. Se voc sente dor, chore. Se est com raiva, bata. Se voc tem esperana, prepare-se para a decepo. -- Peter -- murmurou Jordan -- , voc queria mat-los? Jordan imediatamente se amaldioou -- tinha acabado de fazer a nica pergunta que um advogado de defesa nunca deve fazer, deixando

Peter pronto para admitir premeditao. Mas, em vez de responder, Peter fez outra pergunta, que tinha uma resposta tambm perturbadora. -- Bom -- disse ele -- , o que voc teria feito? Jordan colocou outro pedao de pudim de baunilha na boca de Sam e lambeu a colher. -- No  pra voc -- disse Selena. -- Est gostoso. Diferente daquela porcaria de ervilha que voc o obriga a comer. -- Perdo por ser uma boa me. Selena pegou uma toalha molhada e limpou a boca de Sam, depois fez o mesmo em Jordan, que se encolheu para longe da mo dela. -- Estou completamente ferrado -- disse ele. -- No consigo fazer o Peter ser digno de pena pela morte do irmo, porque ele odiava o Joey. Nem tenho uma defesa legal vlida para ele, a no ser que eu tente insanidade, e vai ser impossvel provar isso com a montanha de provas de premeditao que a acusao tem. Selena se virou para ele. -- Voc sabe qual  o problema aqui, no sabe? -- Qual? -- Voc acha que ele  culpado. -- Ah, pelo amor de Deus. Noventa e nove por cento dos meus clientes so assim, e isso nunca me impediu de conseguir absolvies.

-- Certo. Mas, l no fundo, voc no quer que Peter Houghton seja absolvido. Jordan franziu a testa. -- Isso  besteira. -- Uma besteira verdadeira. Voc tem medo de gente como ele. -- Ele  um garoto... -- ... que apavora voc, pelo menos um pouco. Porque ele no se disps a ficar sentado e deixar o mundo continuar cagando em cima dele, e isso no deve acontecer. Jordan olhou para ela. -- Matar dez estudantes no torna ningum heri, Selena. -- Torna, para os milhes de outros garotos e garotas que queriam ter coragem pra fazer o mesmo -- disse ela simplesmente. -- Excelente. Voc pode ser a lder do f-clube de Peter Houghton. -- Eu no concordo com o que ele fez, Jordan, mas consigo ver de onde vem isso tudo. Voc nasceu em bero de ouro e com tudo de ouro. Seja honesto, alguma vez voc no fez parte do grupo de elite? Na escola, no tribunal ou em qualquer outro lugar? As pessoas te conhecem, te admiram. Voc tem passagem livre e nem percebe que outras pessoas nunca tm isso na vida. Jordan cruzou os braos. -- Voc vai comear o discurso de orgulho africano de novo? Porque, pra falar a verdade...

-- Voc nunca andou pela rua e algum atravessou pra outra calada s porque voc  negro. Nunca ningum olhou pra voc com nojo porque voc est carregando um beb e esqueceu de colocar a aliana. Voc tem vontade de fazer alguma coisa, tomar uma atitude, gritar com as pessoas, dizer que so idiotas, mas no pode. Estar  margem  a sensao mais impotente que existe, Jordan. Voc se acostuma tanto com o mundo de uma certa forma que parece no ter como escapar. Jordan deu um sorriso de deboche. -- Voc tirou essa parte final do meu discurso de encerramento no caso de Katie Riccobono. -- A esposa espancada? -- Selena deu de ombros. -- Mesmo que tenha tirado,  isso mesmo. De repente, Jordan piscou. Levantou-se, abraou a esposa e a beijou. -- Voc  brilhante pra cacete. -- No vou discutir, mas voc tem que me contar por qu. -- Sndrome da esposa espancada.  uma defesa legal vlida.

Mulheres espancadas ficam presas em um mundo que as oprime; elas chegam a um ponto em que se sentem to constantemente ameaadas que acabam tomando uma atitude, e realmente acreditam que esto se protegendo, mesmo que o marido esteja dormindo na hora do crime. Isso se encaixa perfeitamente no caso de Peter Houghton. -- Longe de mim querer ser portadora de ms notcias, Jordan -- disse Selena -- , mas o Peter no  mulher nem  casado.

-- A questo no  essa.  transtorno de estresse ps-traumtico. Quando essas mulheres surtam e atiram no marido ou cortam o pinto deles, no esto pensando nas consequncias... s em acabar com a agresso.  isso que o Peter est dizendo desde o comeo, ele s queria que tudo parasse. E isso  ainda melhor, porque eu no preciso lutar contra a refutao usual do promotor de que uma mulher adulta tem idade suficiente para saber o que est fazendo quando pega a faca ou a arma. O Peter  um garoto. Por definio, ele no sabe o que est fazendo. Monstros no cresciam do nada. Uma dona de casa no virava assassina a no ser que algum a tornasse uma. O dr. Frankenstein, no caso dela, era um marido controlador. E, no caso de Peter, era toda a Sterling High. Os valentes chutavam, provocavam, socavam, beliscavam, e todos esses comportamentos tinham a inteno de forar a pessoa a voltar ao seu lugar. Foi nas mos de seus torturadores que Peter aprendeu a reagir. No cadeiro, Sam comeou a reclamar. Selena o pegou no colo. -- Ningum nunca fez isso -- disse ela. -- No existe sndrome da vtima de bullying. Jordan pegou o pote de pudim de baunilha de Sam e raspou os restos com o dedo. -- Agora existe -- disse ele, saboreando o final do doce. Patrick estava sentado em frente ao computador do escritrio no escuro, passando o cursor pelo jogo criado por Peter Houghton. Voc comeava escolhendo um personagem, um entre trs garotos: o campeo de soletrao, o gnio da matemtica ou o nerd do computador.

Um era pequeno e magro, com acne. O outro usava culos. O terceiro era muito acima do peso. Voc no vinha equipado com uma arma. Tinha que percorrer vrias salas da escola e usar a inteligncia: a sala dos professores tinha vodca para fazer granadas de mo. A sala do boiler tinha uma bazuca. O laboratrio de cincias tinha compassos para perfurar e rguas de metal para cortar. A sala de computadores tinha fios para fazer garrotes. A sala de carpintaria tinha motosserras. A sala de artes domsticas tinha liquidificadores e agulhas de croch. A sala de artes tinha uma fornalha. Era possvel combinar materiais para fazer armas de curto alcance: balas flamejantes usando a bazuca e a vodca, adagas cidas usando produtos qumicos e compassos, armadilhas com fios de computador e livros pesados. Patrick guiou o cursor por corredores, escadas, vestirios, at a sala do inspetor. Enquanto dobrava esquinas virtuais, ele se deu conta de que j tinha percorrido aquele mapa. Era a planta da Sterling High. O objetivo do jogo era mirar nos atletas, nos valentes e nos alunos populares. Cada um valia certa quantidade de pontos. Se voc matasse dois de uma vez, ganhava pontos dobrados. No entanto, voc tambm podia ser ferido. Podia levar socos, ser empurrado contra a parede ou contra um armrio. Se voc conseguisse cem mil pontos, ganhava uma escopeta. Se chegasse a quinhentos mil, uma metralhadora. Se passasse de um milho, montava um mssil nuclear. Patrick viu uma porta virtual se abrir. "Parado!", gritaram o s altofalantes, e um policial com jaqueta da SWAT apareceu na tela. Ele colocou os dedos nas teclas das setas e se preparou. Por duas vezes, tinha chegado a esse ponto e morreu ou se matou, o que significava perder.

Mas dessa vez ele ergueu a metralhadora virtual e viu o policial cair em uma chuva de sangue. PARABNS! VOC GANHOU HIDE-N-SHRIEK!, dizia a tela. QUER JOGAR DE NOVO? No dcimo dia aps o tiroteio na Sterling High, Jordan se sentou no Volvo no estacionamento do tribunal. Como esperava, havia vans brancas da imprensa por todos os lados, com antenas apontadas para o cu como girassis. Ele bateu com o dedo no volante em sincronia com o CD dos Wiggles, que estava fazendo seu simples trabalho de impedir que Sam desse um chilique no banco de trs. Selena j tinha entrado no tribunal sem impedimento; ningum na imprensa a reconheceria como algum ligada ao caso. Quando ela voltou e se aproximou do carro, Jordan saiu e pegou uma folha de papel que ela lhe entregava. -- timo -- disse ele. -- Te vejo mais tarde. Ela se inclinou para tirar Sam da cadeirinha do carro enquanto Jordan seguia para o tribunal. Assim que um reprter o viu, houve um efeito domin: lmpadas se acenderam como uma onda de fogos de artifcio, microfones foram enfiados diante do seu rosto. Ele os afastou com o brao esticado e murmurou: -- Sem comentrios. E correu para dentro.

Peter j tinha sido levado para a cela da sala do xerife e aguardava a hora de aparecer no tribunal. Estava andando em um crculo pequeno, falando sozinho, quando Jordan foi levado at l. -- Ento  hoje -- disse Peter um pouco nervoso, um pouco sem flego. -- Engraado voc dizer isso -- disse Jordan. -- Voc sabe por que estamos aqui hoje? -- Isso  algum tipo de teste? Jordan ficou olhando para ele. --  a audincia preliminar -- disse Peter. -- Foi o que voc me disse semana passada. -- Certo. O que no contei  que vamos abrir mo dela. -- Abrir mo? -- disse Peter. -- O que isso significa? -- Significa que passamos a vez antes mesmo de as cartas serem distribudas -- respondeu Jordan, entregando a Peter o papel que Selena levara ao carro. -- Assine. Peter balanou a cabea. -- Quero outro advogado. -- Qualquer um que seja minimamente bom vai dizer a mesma coisa... -- O qu? Pra desistir sem nem tentar? Voc disse... -- Eu disse que faria a melhor defesa que pudesse -- interrompeu Jordan. -- J existe a causa provvel que leva a acreditar que voc cometeu um crime, pois h centenas de testemunhas que alegam ter visto voc

atirando na escola naquele dia. A questo no  se voc cometeu o crime ou no, Peter,  por que cometeu. Passar por uma audincia preliminar hoje significa que eles marcam muitos pontos e ns no marcamos nenhum. Seria apenas uma forma de a promotoria liberar provas para a imprensa e para o pblico antes de terem a chance de ouvir o nosso lado da histria. -- Ele esticou a mo novamente com o papel em direo a Peter. -- Assine. Peter olhou nos olhos dele, furioso. Em seguida, pegou o papel de Jordan e a caneta. -- Isso  uma droga -- disse, ao rabiscar sua assinatura. -- Seria pior se houvesse a audincia preliminar. -- Jordan pegou o papel, saiu da cela e do escritrio do xerife para entregar a renncia a um funcionrio. -- Te vejo l dentro. Quando ele chegou ao tribunal, o local j estava lotado. A imprensa que tinha recebido permisso de entrar estava na fileira de trs, com as cmeras prontas. Jordan procurou Selena. Ela estava equilibrando Sam no meio da terceira fila atrs da mesa do promotor. E ento?, perguntou ela com uma rpida elevao de sobrancelhas. Jordan assentiu bem de leve. Feito. O juiz que presidiria no tinha importncia para ele: era algum que carimbaria o processo e o entregaria para o tribunal onde Jordan teria que montar seu show. O Meritssimo David Iannucci -- o que Jordan se lembrava dele era que tinha feito transplante capilar, e, quando voc ficava na frente dele, tinha que se esforar muito para manter os olhos em seu rosto de fuinha e no na linha marcada no couro cabeludo.

O escrivo anunciou o caso de Peter e dois meirinhos o guiaram por uma passagem. O pblico, que estava conversando baixinho, ficou em silncio. Peter no olhou para frente ao entrar; continuou olhando para o cho mesmo quando foi levado para o assento ao lado de Jordan. O juiz Iannucci passou os olhos pelo papel colocado  sua frente. -- Sr. Houghton, vejo que deseja renunciar  sua audincia preliminar. Com essa notcia, como Jordan esperava, houve um suspiro coletivo da imprensa, que desejava um espetculo. -- Sr. Houghton, o senhor entende que hoje eu teria a obrigao de descobrir se h ou no uma causa provvel que leve a crer que o senhor cometeu os atos dos quais  acusado, e que, ao renunciar  audincia preliminar, o senhor no requer que eu descubra essa causa provvel; e que agora ser levado ao grande jri, e que vou entregar esse caso para a corte superior? Peter se virou para Jordan. -- Ele falou ingls? -- Diga sim -- Jordan respondeu. -- Sim -- repetiu Peter. O juiz Iannucci ficou olhando para ele. -- Sim, Meritssimo -- corrigiu. -- Sim, Meritssimo -- disse Peter, virando-se para Jordan novamente e falando baixinho: -- Continua uma droga.

-- Esto dispensados -- disse o juiz, e os meirinhos tiraram Peter da cadeira. Jordan se levantou, abrindo espao para o advogado de defesa do prximo caso. Aproximou-se de Diana Leven na mesa do promotor, ainda arrumando os arquivos que no teve chance de usar. -- Bom -- disse ela, no se dando ao trabalho de olhar para ele. -- No posso dizer que tenha ficado surpresa. -- Quando voc vai me mandar as provas da acusao? -- perguntou Jordan. -- No me lembro de ter recebido sua carta requisitando-as. Ento passou por ele e andou rapidamente pelo corredor. Jordan fez uma anotao mental para pedir que Selena digitasse uma carta e a mandasse para a promotoria. Era uma formalidade, mas ele sabia que Diana iria querer segui-la. Em um caso grande assim, o promotor pblico seguia cada regra ao p da letra, para que, se o caso fosse revisto em uma apelao, o procedimento no atrapalhasse o veredito original. Saindo pelas portas duplas da sala do tribunal, ele foi interceptado pelos Houghtons. -- Que diabos foi aquilo? -- perguntou Lewis. -- No estamos pagando voc pra trabalhar no tribunal? Jordan contou at cinco mentalmente. -- Conversei sobre isso com meu cliente, o Peter. Ele me deu

permisso para renunciar  audincia.

-- Mas voc no disse nada -- argumentou Lacy. -- Nem deu a ele a chance de dizer. -- A audincia de hoje no teria beneficiado o Peter. Mas teria colocado vocs sob o microscpio de cada cmera do lado de fora do tribunal. Isso vai acontecer de qualquer jeito. Vocs realmente preferiam que fosse mais cedo, e no mais tarde? -- Ele olhou de Lacy Houghton para o marido, e depois para ela de novo. -- Eu fiz um favor a vocs -- disse Jordan, e os deixou com a verdade entre eles, uma pedra que ficava mais pesada a cada momento. Patrick estava indo para a audincia preliminar de Peter quando recebeu uma ligao no celular que o fez cantar pneus e seguir na direo oposta, a caminho da loja de armas Sm yth's, em Plainfield. O dono da loja, um homenzinho rolio com barba manchada de tabaco, estava sentado no meio-fio chorando quando Patrick chegou. Ao lado dele estava um policial, que indicou a porta aberta com o queixo. Patrick se sentou ao lado do dono. -- Sou o detetive Ducharme -- disse. -- Pode me contar o que aconteceu? O homem balanou a cabea. -- Foi muito rpido. Ela pediu pra ver uma pistola, uma Smith and Wesson. Disse que queria ter uma arma em casa para se proteger. Perguntou se eu tinha livros sobre o modelo e, quando virei as costas pra procurar... ela... -- Ele balanou a cabea e ficou em silncio. -- Onde ela conseguiu as balas? -- perguntou Patrick.

-- No vendi pra ela -- disse o dono. -- Ela devia estar com as balas na bolsa. Patrick assentiu. -- Fique aqui com o policial Rodriguez. Talvez eu tenha mais

perguntas. Dentro da loja de armas havia um borrifo de sangue e massa cinzenta em uma das paredes. O legista, Guenther Frankenstein, j estava inclinado sobre o corpo, deitado de lado no cho. -- Como chegou aqui to rpido? -- perguntou Patrick. Guenther deu de ombros. -- Eu estava na cidade, em uma exposio de colecionadores de cards de beisebol. Patrick se agachou ao lado dele. -- Voc coleciona cards de beisebol? -- Bom, no posso colecionar fgados, posso? -- Ele olhou para Patrick. -- Temos que parar de nos encontrar assim. -- Bem que eu queria. -- No tem mistrio nenhum -- disse Guenther. -- Ela enfiou a arma na boca e puxou o gatilho. Patrick reparou na bolsa sobre a bancada de vidro. Mexeu nela e encontrou uma caixa de munio e um recibo do Walmart. Em seguida, abriu a carteira da mulher em busca da identidade, na mesma hora em que Guenther virou o corpo.

Mesmo com o resduo de plvora manchando as feies de preto, Patrick a reconheceu antes de ver o nome. Tinha conversado com Yvette Harvey; tinha sido ele a contar para ela que sua nica filha -- uma menina com sndrome de Down -- no tinha sobrevivido ao tiroteio na Sterling High. Patrick percebeu que, indiretamente, a contagem de vtimas de Peter Houghton ainda estava aumentando. -- S porque uma pessoa coleciona armas, isso no quer dizer que ela pretende fazer uso delas -- disse Peter, com cara de raiva. Estava estranhamente quente para o fim de maro, chegando a trinta graus, e o ar-condicionado da priso estava quebrado. Os detentos estavam andando nas celas; os guardas estavam todos tensos. A equipe tcnica, que tinha sido chamada com a desculpa de melhorar as condies humanas da priso, estava trabalhando to devagar que Jordan concluiu que terminariam o servio na poca em que voltasse a nevar. Ele estava sentado na sala de reunies, que mais parecia uma sauna, com Peter havia duas horas e sentia como se tivesse encharcado cada fibra do tecido do terno. Ele queria desistir. Queria ir para casa e dizer a Selena que nunca deveria ter aceitado o caso, e depois queria ir com a famlia para os mseros trinta quilmetros de praia com os quais New Hampshire tinha sido abenoado e pular de roupa e tudo no Atlntico gelado. Morrer de hipotermia no podia ser pior do que a morte lenta que Diana Leven e a promotoria pblica tinham planejado para ele no tribunal. A pequena esperana que Jordan alimentou ao descobrir uma defesa vlida, apesar de nunca ter sido usada perante um juiz, tinha sido gradualmente erodida nas semanas seguintes  audincia pelas provas que chegaram da promotoria: pilhas de papis, fotos e provas. Considerando

todas aquelas informaes, era difcil imaginar um jri que se importasse com o motivo de Peter ter matado dez pessoas, e no apenas com o fato de que ele as matara. Jordan apertou o alto do nariz. -- Voc colecionava armas -- repetiu ele. -- Imagino que estava guardando debaixo da cama at conseguir comprar um armrio legal. -- Voc no acredita em mim? -- Pessoas que colecionam armas no as escondem. Pessoas que colecionam armas no tm listas com fotos circuladas. O suor brilhava na testa de Peter e ao redor da gola do uniforme da priso, e ele apertou a boca. Jordan se inclinou para frente. -- Quem  a garota que foi descartada? -- Que garota? -- Nas fotos. Voc circulou a foto dela, mas depois escreveu DEIXAR VIVA. Peter afastou o olhar. --  uma pessoa que eu conhecia. -- Qual  o nome dela? -- Josie Cormier. -- Peter hesitou, depois olhou para Jordan de novo. -- Ela est bem, n?

Cormier, pensou Jordan. A nica Cormier que ele conhecia era a juza que presidiria o caso de Peter. No podia ser. -- Por qu? -- perguntou ele. -- Voc machucou a garota? Peter balanou a cabea. -- Essa  uma pergunta capciosa. Tinha acontecido alguma coisa que Jordan no sabia? -- Ela era sua namorada? Peter sorriu, mas o sorriso no chegou aos olhos. -- No. Jordan tinha ido ao tribunal da juza Cormier algumas vezes. Gostava dela. Era firme, mas justa. Na verdade, era a melhor juza que Peter podia ter nesse caso. O outro juiz da corte superior era o juiz Wagner, velho demais e que sempre favorecia a acusao. Josie Cormier no tinha sido vtima dos tiros, mas esse no era o nico cenrio que podia comprometer a juza Cormier como magistrada do julgamento. De repente, Jordan estava pensando em coero de testemunhas, nas centenas de coisas que poderiam dar errado. Estava se perguntando como poderia descobrir o que Josie Cormier sabia sobre o tiroteio sem mais ningum saber que ele estava investigando isso. Estava se perguntando se o que ela sabia podia ajudar o caso de Peter. -- Voc falou com ela desde que veio pra c? -- disse Jordan. -- Se eu tivesse falado com ela, estaria perguntando se ela est bem?

--

Bom, no fale com ela --

instruiu Jordan. -- No fale com

ningum alm de mim. --  como falar com uma parede de tijolos -- murmurou Peter. -- Sabe, eu sou capaz de citar mil coisas que eu preferia estar fazendo em vez de estar com voc em uma sala de reunies mais quente que o inferno. Peter apertou os olhos. -- Ento por que voc no vai fazer alguma dessas coisas? Voc no escuta mesmo uma palavra do que eu digo. -- Eu escuto cada palavra, Peter. Escuto e penso nas caixas de provas que a promotoria largou na minha porta e que fazem voc parecer um assassino frio. Escuto voc me dizer que colecionava armas, como se fosse um entusiasta da Guerra Civil. Peter fez uma careta. -- Tudo bem. Voc quer saber se eu ia usar as armas? Sim, ia. Eu planejei tudo. Elaborei tudo na minha cabea. Pensei nos mnimos detalhes. Eu ia matar a pessoa que eu mais odiava. Mas no consegui. -- Essas dez pessoas... -- Elas s estavam no caminho -- disse Peter. -- Ento, quem voc ia matar? Do lado oposto da sala, o ar-condicionado de repente ganhou vida, e Peter se virou. -- Eu -- disse ele.

Um ano antes

A

inda no acho uma boa ideia -- disse Lewis ao abrir a porta de trs da van. O cachorro, Dozer, estava deitado de lado, se esforando para respirar. -- Voc ouviu o veterinrio -- disse Lacy, acariciando a

cabea do labrador. Era um bom cachorro; eles o haviam comprado quando Peter tinha trs anos. Agora, Dozer estava com doze anos e seus rins tinham parado de funcionar. Mant-lo vivo com medicamentos seria apenas para o bem deles, no do cachorro -- era difcil imaginar a casa sem o co andando pelos corredores. -- Eu no estava falando sobre sacrific-lo -- esclareceu Lewis. -- Estava falando sobre trazer todo mundo. Os garotos se arrastaram para fora da van. Apertaram os olhos contra a luz do sol e encolheram os ombros. Suas costas largas fizeram Lacy pensar em carvalhos que se estreitavam at o cho; os dois tinham o mesmo hbito de virar o p esquerdo quando andavam. Ela queria que eles pudessem ver como eram parecidos. -- No acredito que voc trouxe a gente at aqui -- disse Joey. Peter chutou o cascalho do estacionamento. -- Que saco.

-- Olha a boca -- avisou Lacy. -- E, quanto a todos ns estarmos aqui, no acredito que vocs seriam egostas o bastante para no quererem se despedir de um membro da nossa famlia. -- A gente podia ter se despedido em casa -- murmurou Joey. Lacy colocou as mos nos quadris. -- A morte faz parte da vida. Eu gostaria de estar cercada das pessoas que amo quando chegasse a minha vez. -- Ela esperou que Lewis pegasse Dozer nos braos para em seguida fechar a porta. Lacy pediu a ltima consulta do dia, para que o veterinrio no se apressasse. Eles ficaram sentados sozinhos na sala de espera, com o cachorro como um cobertor sobre as pernas de Lewis. Joey pegou uma revista Sports Illustrated de trs anos atrs e comeou a ler. Peter cruzou os braos e olhou para o teto. -- Vamos falar da nossa melhor lembrana do Dozer -- disse Lacy. Lewis suspirou. -- Pelo amor de Deus... -- Isso  ridculo -- acrescentou Joey. -- Pra mim -- disse Lacy, como se eles no tivessem falado nada -- foi quando o Dozer era filhote e o encontrei na mesa da sala de jantar com a cabea enfiada no peru. -- Ela acariciou a cabea do cachorro. -- Foi o ano em que tomamos sopa no Dia de Ao de Graas. Joey bateu com a revista na mesa e suspirou.

Marcia, a secretria do veterinrio, era uma mulher com uma longa trana, que ia para baixo dos quadris. Lacy fizera o parto dos filhos gmeos dela cinco anos antes. -- Oi, Lacy -- ela disse, aproximando-se e tomando-a nos braos. -- Voc est bem? Lacy sabia que a morte acabava fazendo as pessoas ficarem sem palavras de alento. Marcia andou at Dozer e o acariciou atrs das orelhas. -- Vocs querem esperar aqui fora? -- Sim -- disse Joey com um movimento de lbios para Peter. -- Vamos todos entrar -- Lacy respondeu com firmeza. Eles seguiram Marcia at um dos consultrios e colocaram Dozer sobre a mesa. Ele tentou se apoiar e arrastou as unhas no metal. -- Bom garoto -- disse Marcia. Lewis e os meninos entraram na sala e ficaram de p contra a parede, como numa fila de identificao policial. Quando o veterinrio chegou com a seringa, eles se encolheram ainda mais. -- Vocs gostariam de ajudar a segur-lo? -- perguntou o

veterinrio. Lacy se adiantou assentindo e colocou os braos ao redor dos de Marcia. -- Bom, Dozer, voc lutou at o fim -- disse o veterinrio, depois se virou para os garotos. -- Ele no vai sentir nada.

-- O que ? -- perguntou Lewis, olhando para a agulha. -- Uma combinao de substncias que relaxam a musculatura e encerram a transmisso nervosa. E sem transmisso nervosa no h pensamento, nem sentimento, nem movimento.  um pouco como adormecer. Ele procurou uma veia na perna do cachorro enquanto Marcia segurava Dozer com firmeza. Ento injetou a soluo e acariciou a cabea de Dozer. O cachorro respirou fundo e parou de se mexer. Marcia deu um passo para trs e o deixou nos braos de Lacy. -- Vamos dar um minuto pra vocs -- disse ela, saindo da sala acompanhada do veterinrio. Lacy estava acostumada a segurar vida nova nos braos, e no a sentila deixar o corpo que abraava. Era apenas outra transio: da gravidez ao nascimento, da criana ao adulto, da vida  morte. Mas havia alguma coisa em se despedir do animal da famlia que era ainda mais difcil, como se fosse bobagem ter sentimentos to fortes por um ser que no era humano. Como se fosse tolice admitir que voc amava um cachorro -- um que sempre ficava no caminho, arranhava o couro e sujava a casa de lama -- tanto quanto amava seus filhos. Mas funcionava assim. Aquele era o cachorro que permitira estoicamente e em silncio que um Peter de trs anos cavalgasse nele como um pnei pelo jardim. Era o cachorro que latira sem parar quando Joey adormecera no sof com o jantar no forno, at que o forno inteiro estivesse pegando fogo. Era o cachorro que se sentava debaixo da escrivaninha aos ps de Lacy, no meio do inverno,

enquanto ela respondia a e-mails, compartilhando o calor da barriga plida e rosada. Ela se inclinou sobre o corpo do cachorro e comeou a chorar -- baixinho a princpio, mas depois com soluos to altos que fizeram Joey se virar e Lewis se encolher. -- Faz alguma coisa -- ela ouviu Joey dizer, com a voz grave e densa. Ela sentiu uma mo no ombro e sups que era Lewis, mas foi Peter quem comeou a falar. -- Quando ele era filhote -- disse o garoto -- , quando fomos buscar o Dozer no meio da ninhada. Todos os outros cachorrinhos estavam tentando pular do ninho, e ele estava no alto. Ele olhou pra gente, tropeou e caiu em cima dos outros. -- Lacy ergueu o rosto e olhou para ele. --  a minha melhor lembrana -- disse Peter. Lacy sempre se considerou uma mulher de sorte por ter ganhado um filho que no era o garoto perfeito, mas que era sensvel, emotivo e to em sintonia com o que os outros sentiam e pensavam. Ela soltou o pelo do cachorro e abriu os braos, para que Peter pudesse se colocar entre eles. Ao contrrio de Joey, que j era mais alto do que ela e mais forte do que Lewis, Peter ainda cabia no seu abrao. At a rea pontuda da escpula, to larga sob a camiseta de algodo, parecia mais delicada debaixo de suas mos. Incompleto e inacabado, um homem ainda esperando para acontecer. Se ao menos fosse possvel deix-los daquele jeito: modelados em mbar, sem nunca crescer... Em cada concerto e em cada pea escolar da vida de Josie, ela s tivera uma pessoa na plateia. Sua me -- para crdito dela -- reagendara compromissos de trabalho para poder ver Josie ser a placa na pea da escola

sobre higiene bucal e para ouvir seu solo de cinco notas no coral de Natal. Havia outros alunos com me ou pai solteiro -- os filhos de casais divorciados, por exemplo -- , mas Josie era a nica na escola que nunca tinha conhecido o pai. Quando era pequena e a turma do segundo ano estava fazendo cartes em forma de gravata para o Dia dos Pais, ela ficou sentada no canto com a garota cujo pai morrera prematuramente de cncer aos quarenta e dois anos. Como qualquer criana curiosa, ela perguntou sobre isso  me quando estava crescendo. Josie queria saber por que seus pais no eram mais casados, mas no esperava ouvir que eles nunca tinham se casado. -- Ele no era do tipo que casa -- dissera a me, e Josie no entendeu por que isso tambm significava que ele no era do tipo que manda presente no aniversrio da filha, ou que a convida para passar uma semana em sua casa no vero, ou que liga para ouvir sua voz. Esse ano, ela teria aula de biologia e j estava nervosa com o captulo sobre gentica. Josie no sabia se o pai tinha olhos castanhos ou azuis; se tinha cabelo encaracolado, sardas ou seis dedos no p. A me tentou afastar as preocupaes da filha. -- Certamente vai ter algum adotado na sua turma -- disse ela. -- Voc sabe cinquenta por cento mais sobre suas origens do que essas pessoas. O que Josie descobriu sobre o pai foi o seguinte: Seu nome era Logan Rourke. Ele era professor na faculdade de direito onde a me estudou. Seu cabelo ficou prematuramente branco, mas -- garantiu -- de um jeito legal, no esquisito. sua me lhe

Era dez anos mais velho do que a me, o que significava que tinha cinquenta anos. Tinha dedos longos e tocava piano. No sabia assobiar. No era o bastante para fazer uma biografia, na opinio de Josie, mas ningum nunca tinha se dado ao trabalho de perguntar. Ela estava sentada no laboratrio de biologia ao lado de Courtney. Josie normalmente no escolheria Courtney como parceira de laboratrio -- ela no era a mente mais brilhante da sala -- , mas isso no parecia importar. A sra. Aracort era a professora conselheira das lderes de torcida, e Courtney era uma delas. Por piores que fossem seus relatrios de laboratrio, elas sempre conseguiam tirar A. Um crebro de gato dissecado estava na mesa da frente, ao lado da sra. Aracort. Tinha cheiro de formaldedo e parecia um bicho atropelado, o que j teria sido bem ruim, mas, alm disso, eles tinham almoado antes da aula. "Aquela coisa", disse Courtney tremendo, "vai me deixar ainda mais bulmica." Josie estava tentando no olhar enquanto trabalhava no projeto de aula: cada aluno tinha recebido um laptop com conexo sem fio para navegar na internet em busca de exemplos de testes em animais que fossem compassivos. At aquele momento, Josie tinha catalogado um estudo com primatas feito por um fabricante de antialrgicos, no qual eles contraam asma e depois eram curados, e outro que envolvia sndrome da morte sbita infantil e cachorrinhos. Ela apertou um boto do navegador por engano e chegou  pgina inicial do The Boston Globe . A cobertura da eleio ocupou a tela: a disputa

entre o atual promotor pblico e seu oponente, o supervisor da Faculdade de Direito de Harvard, um homem chamado Logan Rourke. O peito de Josie se encheu de borboletas. No podia haver mais do que um, podia? Ela apertou os olhos e chegou mais perto da tela, mas a foto estava granulada e o brilho do sol atrapalhava. -- Qual  o problema? -- sussurrou Courtney. Josie balanou a cabea e fechou o laptop, como se ele tambm pudesse guardar o segredo muito bem. Peter nunca usava o mictrio. Mesmo se s precisasse urinar, ele no queria fazer isso ao lado de um aluno enorme do terceiro ano que poderia fazer um comentrio sobre, bem, o fato de ele ser um reles aluno do nono ano, principalmente nas partes baixas. Preferia entrar em uma cabine e fechar a porta para ter privacidade. Ele gostava de ler as paredes do banheiro. Uma delas tinha uma srie de piadas de toc-toc. Outras listavam nomes de garotas que tinham feito boquete em quem escreveu. Havia um rabisco para o qual Peter acabava olhando repetidamente: TREY WILKINS  UMA BICHA. Ele no conhecia Trey Wilkins, achava que ele nem era mais aluno da Sterling High, mas se perguntou se Trey tambm tinha entrado no banheiro e usado a cabine para urinar. Peter tinha sado da aula de ingls no meio de um teste-surpresa de gramtica. Ele realmente achava que, no grande esquema da vida, no faria diferena se um adjetivo modificava ou no um substantivo ou um verbo ou se apenas sumisse da face da terra, que era o que ele realmente esperava que acontecesse antes de ter que voltar para a aula. J tinha feito o que tinha que fazer no banheiro; agora, estava matando tempo. Se tirasse nota ruim

no teste, seria a segunda seguida. No era nem com a raiva dos pais que Peter se preocupava. Era com o modo como olhariam para ele, decepcionados por ele no ser como Joey. Ele ouviu a porta do banheiro se abrir e o rudo da agitao no corredor que entrou atrs dos dois garotos. Peter se abaixou e olhou por baixo da porta. Tnis Nike. -- Estou suando que nem um porco -- disse uma voz. O segundo garoto riu. --  por causa das suas banhas. -- Ah, t. Eu poderia te dar uma surra na quadra de basquete com uma das mos amarrada nas costas. Peter ouviu a torneira se abrir e o barulho da gua. -- Ei, voc est me encharcando! -- Aaaah, muito melhor -- disse a primeira voz. -- Pelo menos agora no estou suando. Ei, olha o meu cabelo. Pareo o Alfafa. -- Quem? -- Voc  retardado? O garoto dos Batutinhas que tem o cabelo em p na parte de trs da cabea. -- Na verdade, voc est muito gay... -- Sabe... -- mais risadas -- , eu t mesmo parecendo o Peter. Assim que Peter ouviu seu nome, seu corao disparou. Ele abriu o trinco da porta e saiu. De p, em frente  fileira de pias, estava um jogador

de futebol que ele s conhecia de vista e seu prprio irmo. O cabelo de Joey estava encharcado e arrepiado na parte de trs da cabea, como o de Peter s vezes ficava, mesmo quando ele tentava endireitar com o gel de cabelo da me. Joey lanou um olhar para ele. -- Some daqui, esquisito -- ordenou, e Peter saiu correndo do banheiro, se perguntando se isso era possvel quando praticamente no se tinha vida. Os dois homens no tribunal de Alex moravam um em cada andar de um sobrado, mas se odiavam. Arliss Undergroot era um instalador de placas de reboco com tatuagens nos dois braos, cabea raspada e piercings no rosto suficientes para fazer o detector de metais do frum disparar. Rodney Eakes era caixa de banco, vegetariano e tinha uma coleo de discos com gravaes originais de peas da Broadway. Arliss morava no andar de baixo; Rodney, no de cima. Alguns meses antes, Rodney levara para casa um fardo de feno com a inteno de cobrir o jardim orgnico, mas nunca chegara a completar a tarefa, e o fardo ficara na varanda de Arliss. Este pediu que ele se livrasse do feno, mas Rodney no foi rpido o bastante. Assim, uma noite, Arliss e a namorada cortaram o barbante e espalharam o feno no gramado da frente. Rodney chamou a polcia, e Arliss foi preso por contraveno -- vocabulrio legal para o ato de destruir um fardo de feno. -- Por que os contribuintes de New Hampshire esto gastando dinheiro para que um caso desses seja julgado no tribunal? -- perguntou Alex. O promotor deu de ombros.

-- O chefe de polcia me pediu para dar continuidade ao caso -- disse, revirando os olhos. Ele j tinha provado que Arliss pegara o fardo de feno e o espalhara no gramado, cumprindo a parte do nus da prova. Mas, nesse caso, uma condenao significaria que Arliss teria registro criminal pelo resto da vida. Ele podia ser um pssimo vizinho, mas no merecia isso. Alex se virou para o promotor. -- Quanto a vtima pagou pelo fardo de feno? -- Quatro dlares, Meritssima. Ela encarou o ru. -- Voc tem quatro dlares a? Arliss assentiu. -- timo. Seu caso ser arquivado assim que voc pagar a vtima. Pegue quatro dlares na sua carteira e entregue para aquele policial ali, que os levar para o sr. Eakes no fundo do tribunal. -- Ela olhou para o escrivo. -- Vamos fazer um recesso de quinze minutos. Em sua sala, Alex tirou a toga e pegou um mao de cigarros. Seguiu a escada dos fundos at o trreo do prdio e acendeu um, tragando profundamente. Havia dias em que ela sentia orgulho do trabalho, e havia outros, como hoje, em que se perguntava por que havia sado da cama. Encontrou Liz, a zeladora, passando o ancinho no gramado da frente do frum. -- Trouxe um cigarro pra voc -- disse Alex.

-- Qual  o problema? -- Como voc sabe que tenho um problema? -- Porque voc trabalha aqui faz sei l quantos anos e nunca me trouxe um cigarro. Alex se recostou em uma rvore e ficou observando as folhas, brilhantes como pedras preciosas, ficarem presas no ancinho de Liz. -- Acabei de desperdiar trs horas em um caso que nunca deveria ter chegado ao tribunal. Estou com uma dor de cabea terrvel. E fiquei sem papel higinico no banheiro da minha sala e tive que chamar a escriv pra ir buscar um rolo. Liz olhou para uma rvore quando uma rajada de vento jogou mais folhas na grama j limpa. -- Alex -- disse ela -- , posso te fazer uma pergunta? -- Claro. -- Quando foi a ltima vez que voc foi pra cama com algum? Alex se virou com o queixo cado. -- O que isso tem a ver... -- A maior parte das pessoas que sai pra trabalhar fica se

perguntando quanto tempo falta pra voltar pra casa e poder fazer o que realmente quer fazer. Com voc  o contrrio. -- No  verdade. A Josie e eu... -- O que vocs duas fizeram de divertido no ltimo fim de semana?

Alex pegou uma folha e a despedaou. Nos ltimos trs anos, o calendrio social de Josie esteve lotado de telefonemas e noites na casa de amigas e grupos de adolescentes que iam ao cinema ou se reuniam no poro da casa de algum. No fim de semana anterior, Josie tinha ido fazer compras com Haley Weaver, uma aluna do segundo ano que tinha acabado de tirar a habilitao. Alex escrevera duas sentenas e limpara as gavetas de frutas e legumes da geladeira. -- Vou arrumar um encontro pra voc -- disse Liz. Havia vrios estabelecimentos comerciais em Sterling que

contratavam adolescentes para trabalhar depois da escola. Depois do primeiro vero trabalhando no QuikCopy, Peter deduziu que era porque os empregos eram horrveis e no conseguiam encontrar mais ningum que os quisesse. Ele era responsvel por xerocar a maior parte do material que os professores dos cursos da Faculdade de Sterling levavam at l. Sabia como reduzir um documento a 1/32 do tamanho original e trocar o cartucho de tinta. Quando os clientes pagavam, ele gostava de adivinhar que nota tirariam da carteira apenas pelo modo como se vestiam ou usavam o cabelo. Os universitrios sempre pagavam com notas de vinte. Mes com carrinhos de beb usavam carto de crdito. Professores usavam notas de um dlar amassadas. Ele estava trabalhando porque precisava de um computador novo com uma placa de vdeo melhor, para que pudesse fazer o design dos jogos que ele e Derek vinham elaborando ultimamente. Peter nunca deixava de se impressionar com o fato de ser possvel pegar uma srie de comandos aparentemente sem sentido e, como num passe de mgica, isso se tornava um cavaleiro, uma espada ou um castelo na tela. Ele gostava do prprio

conceito: que uma coisa que algum poderia rotular de besteira pudesse ser vibrante e atraente, se voc soubesse olhar. Na semana anterior, quando seu chefe dissera que havia contratado outro estudante, Peter ficou to nervoso que precisou se trancar no banheiro por vinte minutos at conseguir agir como se no fosse nada de mais. Por mais idiota e chato que fosse o trabalho, era um refgio. Peter ficava sozinho a maior parte da tarde; no precisava ter medo de cruzar o caminho dos alunos populares. Mas, se o sr. Cargrew contratara algum da Sterling High, essa pessoa sabia quem Peter era. E, mesmo que o garoto no fosse parte da turma popular, a loja de xerox no seria mais um lugar confortvel. Peter teria que pensar duas vezes sobre o que dissesse ou fizesse, seno poderia virar fonte de boatos na escola. Mas, para a grande surpresa de Peter, seu colega de trabalho acabou sendo Josie Cormier. Ela entrou atrs do sr. Cargrew. -- Esta  Josie -- disse ele, apresentando-os. -- Vocs j se

conhecem? -- Mais ou menos -- respondeu Josie, na mesma hora em que Peter disse: -- Sim. -- O Peter vai te mostrar como as coisas funcionam -- disse o sr. Cargrew, e saiu para jogar golfe. Ocasionalmente, quando Peter andava pelo corredor da escola e via Josie com sua nova turma, no a reconhecia. Ela se vestia de maneira

diferente agora: com jeans que exibiam a barriga chapada e um arco-ris de camisetas, uma por cima da outra. Usava maquiagem que fazia seus olhos parecerem enormes. E um pouco tristes, ele s vezes pensava, mas duvidava que ela soubesse. A ltima conversa importante que tivera com Josie fora cinco anos antes, quando estavam no sexto ano. Ele tinha certeza de que a verdadeira Josie sairia daquela nvoa de popularidade e se daria conta de que as pessoas com quem andava eram to cheias de vida quanto bonecos de papelo. Tinha certeza de que, assim que eles comeassem a desmoralizar as outras pessoas, ela voltaria para ele. Ah, meu Deus, ela diria, e eles ririam da jornada dela para o submundo. O que eu tinha na cabea? Mas Josie nunca voltou para ele rastejando, e ento ele comeou a andar com Derek, do time de futebol, e quando estava no stimo ano passou a achar difcil acreditar que ele e Josie j tinham passado duas semanas elaborando um aperto de mo secreto que ningum nunca conseguiria imitar. -- E a -- disse Josie naquele primeiro dia, como se nunca o tivesse visto antes -- , o que temos que fazer? Eles estavam trabalhando juntos havia uma semana. Bem, no juntos. Era mais uma dana pontuada pelos suspiros e resmungos das copiadoras e pelos toques estridentes do telefone. Em geral, se conversavam, era sobre trabalho: "Temos cartucho de tinta pra copiadora colorida?" "Quanto eu cobro pra algum receber um fax aqui?" Nessa tarde, Peter estava tirando cpias de artigos para um curso de psicologia da faculdade. De vez em quando, conforme as pginas percorriam a mquina, ele via ressonncias de crebros de esquizofrnicos,

com crculos rosa-intenso nos lbulos frontais que saam reproduzidos em tons de cinza. -- Que palavra  aquela pra quando a gente chama uma coisa pelo nome da marca em vez de pelo que realmente ? Josie estava grampeando outro trabalho e deu de ombros. -- Tipo xerox -- disse Peter. -- Ou bombril. -- Gilete -- respondeu Josie depois de um momento. -- Google. Josie olhou para frente. -- Band-aid -- disse ela. -- Durex. Ela pensou por um momento e um sorriso se espalhou em seu rosto. -- Cndida. Danone. Peter sorriu. -- Cotonete. Frisbee. -- Isopor. -- Isso no ... -- Pode procurar -- disse Josie. -- Jacuzzi. Post-it. -- Chiclete. -- Pingue-pongue!

A essa altura, os dois tinham parado de trabalhar. Estavam de p um ao lado do outro rindo quando o sino acima da porta tocou. Matt Royston entrou na loja. Estava usando bon de hquei da Sterling; apesar de a temporada s comear dali a um ms, todos sabiam que ele seria selecionado para o time oficial da escola, mesmo sendo calouro. Peter, que estava maravilhado com o milagre de Josie estar com ele de novo como antes, a viu se virar para Matt. As bochechas dela ficaram vermelhas; os olhos pularam como a parte mais intensa de uma chama. -- O que voc est fazendo aqui? Ele se apoiou na bancada. --  assim que voc trata todos os seus clientes? -- Est precisando tirar cpia de alguma coisa? A boca de Matt se retorceu num sorriso. -- De jeito nenhum. Sou original. -- Ele olhou ao redor da loja. -- Ento  aqui que voc trabalha. -- No, s venho aqui comer caviar e tomar champanhe -- Josie brincou. Peter observou a conversa de trs da bancada. Esperou que Josie dissesse para Matt que estava no meio de um trabalho, o que podia no ser necessariamente verdade, mas eles estavam tendo uma conversa. Mais ou menos. -- Que horas voc sai? -- perguntou Matt. -- s cinco.

-- A gente vai pra casa do Drew hoje  noite, dar um tempo por l. -- Isso  um convite? -- disse ela, e Peter reparou pela primeira vez em uma covinha quando ela sorria muito. Ou talvez ela no sorrisse assim perto dele. -- Voc quer que seja? -- disse Matt. Peter andou at a bancada. -- Precisamos voltar pro trabalho -- disse em um rompante. Os olhos de Matt foram na direo dele. -- Para de olhar pra mim, bichinha. Josie se mexeu de forma a bloquear para Peter a viso de Matt. -- Que horas? -- s sete. -- Te vejo l -- disse ela. Matt bateu as mos na bancada. -- Legal -- respondeu e foi embora. -- Tupperware -- disse Peter. -- Vaselina. Josie se virou para ele, confusa. -- O qu? Ah. Certo. Ela pegou os materiais que estava grampeando, empilhou algumas folhas e alinhou as beiradas.

Peter colocou papel na mquina que estava fazendo o trabalho para ele. -- Voc gosta dele? -- perguntou. -- Do Matt? Gosto. -- No assim -- disse Peter. Ele apertou o boto de copiar e viu a mquina comear a parir centenas de bebs idnticos. Como Josie no respondeu, ele foi ficar ao lado dela na mesa de separao. Pegou uma pilha de papis e grampeou, depois entregou a ela. -- Como ? -- ele perguntou. -- Como  o qu? Peter pensou por um momento. -- Estar no topo. Josie esticou a mo na frente dele para pegar outra pilha de papis e colocar no grampeador. Ela grampeou trs, e Peter teve certeza de que ela ia ignor-lo, mas ento ela falou: -- A sensao  de que, se voc der um passo errado, vai acabar caindo. Quando ela falou, Peter percebeu um tom na voz dela que era como uma cantiga de ninar. Ele conseguia se lembrar vividamente de estar sentado na entrada da casa de Josie, no calor de julho, tentando fazer fogo com serragem, luz do sol e seus culos. Conseguia ouvi-la gritando por cima do ombro enquanto eles corriam para casa depois da escola,

desafiando Peter a alcan-la. Viu um leve rubor tingir seu rosto e se deu conta de que a Josie que era sua amiga ainda estava l, presa dentro de vrios casulos, como uma daquelas bonecas russas que escondem uma dentro da outra e mais outra, at que voc chega quela que se encaixa na palma da sua mo. Se ele conseguisse ao menos faz-la se lembrar dessas coisas tambm... Talvez o que fez Josie comear a andar com Matt e companhia no fosse o fato de querer ser popular. Talvez fosse por ela ter esquecido que gostava de andar com Peter. Ele observou Josie com o canto do olho. Ela estava mordendo o lbio inferior, se concentrando para grampear certo. Peter queria saber ser descontrado e agir naturalmente como Matt, mas, em toda sua vida, ele sempre pareceu rir alto demais ou tarde demais -- e no estar ciente do fato de que era dele que os outros riam. Ele no sabia como ser qualquer outra pessoa alm de quem sempre fora, ento respirou fundo e disse a si mesmo que, no muito tempo atrs, aquilo tinha sido bom o bastante para Josie. -- Ei -- disse ele -- , olha isso. Ele andou at o escritrio contguo, onde o sr. Cargrew deixava uma foto da esposa e dos filhos e o computador, no qual eles no tinham permisso de mexer e que era protegido por senha. Josie o seguiu e ficou de p atrs da cadeira quando Peter se sentou. Ele digitou algumas letras e de repente uma tela de acesso se abriu. -- Como voc fez isso? -- ela perguntou. Peter deu de ombros.

-- Eu mexo muito em computadores. Invadi o do sr. Cargrew semana passada. -- Acho que a gente no devia... -- Espera. Peter mexeu no computador at chegar a uma pasta de downloads bem escondida e abriu o primeiro site de pornografia. -- Isso ... um ano? -- murmurou Josie. -- E um burro? Peter inclinou a cabea. -- Pensei que fosse um gato muito grande. -- Seja o que for,  muito nojento. -- Ela estremeceu. -- Eca. Como vou aceitar o pagamento das mos desse homem agora? -- Ela olhou para Peter. -- O que mais voc sabe fazer com esse computador? -- Qualquer coisa -- gabou-se ele. -- Tipo... invadir outros lugares? Escolas e coisas assim? -- Claro -- disse Peter, embora no tivesse certeza. Estava

comeando a aprender sobre codificao e como abrir brechas nela. -- E encontrar um endereo? -- Moleza -- respondeu Peter. -- De quem? -- De uma pessoa aleatria -- disse ela, inclinando-se por cima dele para digitar. Ele sentiu o cheiro de ma do cabelo dela e a presso que seu ombro fazia contra o dele. Peter fechou os olhos, esperando que um raio o

atingisse. Josie era bonita, era uma garota, mas ainda assim... ele no sentiu nada. Seria por ela ser familiar demais, como uma irm? Ou porque no era um garoto? Para de olhar pra mim, bichinha . Ele no contou isso para Josie, mas, quando encontrou o site pornogrfico do sr. Cargrew, se viu olhando para os caras, no para as mulheres. Ser que isso queria dizer que se sentia atrado por eles? Por outro lado, tinha olhado tambm para os animais. Ser que no podia ter sido apenas curiosidade? Comparao at, entre os homens e ele? E se Matt -- e todos os outros -- estivesse certo? Josie clicou algumas vezes com o mouse at a tela estar tomada por um artigo do The Boston Globe . -- Pronto -- disse ela, apontando. -- Esse cara. Peter apertou os olhos para ler a legenda. -- Quem  Logan Rourke? -- Quem se importa? -- disse Josie. -- Uma pessoa que no parece estar na lista telefnica. No parecia mesmo, mas Peter concluiu que qualquer pessoa que estivesse concorrendo a um cargo pblico seria inteligente o bastante para tirar as informaes pessoais do catlogo telefnico. Ele demorou dez minutos para descobrir que Logan Rourke tinha trabalhado na Faculdade

de Direito de Harvard e mais quinze para invadir os arquivos dos recursos humanos de l. -- T-r -- disse Peter. -- Ele mora em Lincoln. Conant Road. Ele olhou por cima do ombro e viu um sorriso contagiante se espalhar no rosto de Josie. Ela olhou para a tela por bastante tempo. -- Voc  bom -- disse por fim. As pessoas costumam dizer que os economistas sabem o preo de tudo e o valor de nada. Lewis pensou nisso ao abrir o enorme arquivo do computador do escritrio, a Pesquisa de Valores Mundiais. Feita por cientistas sociais noruegueses, consistia de dados coletados entre centenas de milhares de pessoas no mundo todo, com uma disposio enorme de detalhes. Alguns mais simples, como idade, sexo, ordem de nascimento, peso, religio, estado civil, nmero de filhos, e alguns mais complexos, como vises polticas e afiliaes religiosas. A pesquisa at considerou alocao de tempo: quanto tempo a pessoa passava no trabalho, com que frequncia ia  igreja, quantas vezes por semana fazia sexo e com quantos parceiros. O que pareceria tedioso para a maioria das pessoas era para Lewis como uma volta na montanha-russa. Quando voc comeava a decifrar os padres em dados to extensos, no sabia onde seriam as viradas, quo ngreme seria a queda ou quo alto o maior pico. Ele examinava esses nmeros com frequncia suficiente para saber que conseguiria produzir rapidamente uma apresentao para a conferncia da semana seguinte. No precisava ser perfeita -- a reunio seria pequena, e seus superiores no estariam presentes. Ele sempre poderia pegar o que conseguisse produzir agora e aprimorar depois para publicar em um peridico acadmico.

O foco de sua apresentao envolvia atribuir um preo s variveis da felicidade. Todo mundo sempre disse que o dinheiro compra a felicidade, mas quanto? A renda tinha efeito direto ou casual na felicidade? As pessoas mais felizes eram mais bem-sucedidas no trabalho, ou recebiam um salrio melhor por serem mais felizes? E a felicidade no se limitava  renda da pessoa. O casamento era mais valioso nos Estados Unidos ou na Europa? O sexo importava? Por que religiosos praticantes relatavam nveis mais altos de felicidade do que os no praticantes? Por que os escandinavos -- que alcanavam a pontuao mais elevada na escala da felicidade -- tinham uma das maiores taxas de suicdio do mundo? Quando Lewis comeou a avaliar as variveis da pesquisa usando a anlise de regresso multivarivel no software STATA, pensou no valor que colocaria nas variveis de sua prpria felicidade. Que valor poderia compensar o fato de no ter uma mulher como Lacy em sua vida? De no conseguir uma posio permanente no quadro de docentes da Faculdade de Sterling? De no ter sade? No ajudava muito uma pessoa comum saber que o estado civil era associado a um aumento de 0,07 no nvel de felicidade -- com margem de erro-padro de 0,02%. Por outro lado, se voc dissesse para uma pessoa qualquer que estar casado tem o mesmo efeito na felicidade geral do que um adicional de cem mil dlares por ano, isso colocaria as coisas em perspectiva. Estas eram suas descobertas at ento: 1. Renda mais alta se associava a maior felicidade, mas com

retornos decrescentes. Por exemplo, uma pessoa que ganhava cinquenta mil dlares por ano relatava estar mais feliz do que um

homem com salrio de vinte e cinco mil dlares. Mas o ganho adicional em felicidade que vinha de um aumento de cinquenta para cem mil dlares era bem menor. 2. Apesar das melhorias materiais, a felicidade  plana ao

longo do tempo: a renda relativa pode ser mais importante do que os ganhos absolutos de renda. 3. O bem-estar era maior entre as mulheres, pessoas

casadas, pessoas com educao superior e aquelas cujos pais no se divorciaram. 4. A felicidade das mulheres estava diminuindo com o

tempo, possivelmente porque elas alcanaram maior igualdade aos homens no mercado de trabalho. 5. Negros nos Estados Unidos eram bem menos felizes do

que brancos, mas a satisfao de vida deles estava se elevando. 6. Clculos indicavam que a "reparao" por estar

desempregado custaria sessenta mil dlares por ano. A "reparao" por ser negro custaria trinta mil dlares por ano. A "reparao" por ser vivo ou separado custaria cem mil dlares por ano. Havia um jogo que Lewis fazia consigo mesmo depois que os meninos nasceram, quando estava se sentindo to ridiculamente sortudo que tinha a certeza de que uma tragdia aconteceria. Ele se deitava na cama e se forava a escolher o que estava disposto a perder primeiro: seu casamento, seu trabalho ou um filho. Ele se perguntava quanto um homem poderia suportar at ser reduzido a nada. Fechou a janela de dados e olhou para o protetor de tela do computador. Era uma foto tirada quando os meninos tinham oito e dez

anos, em um zoolgico em Connecticut. Joey estava carregando o irmo nas costas e eles estavam sorrindo, com um pr do sol cor-de-rosa ao fundo. Momentos depois, um cervo -- um cervo que usava esteroides, dissera Lacy -- empurrou as pernas de Joey e os dois meninos caram e se acabaram de chorar... mas no era isso que Lewis gostava de lembrar. A felicidade no era apenas o que voc relatava; era tambm como escolhia lembrar. Havia outra descoberta que ele catalogara: a felicidade tinha formato de U. As pessoas eram mais felizes quando eram muito novas e muito velhas. A virada acontecia por volta dos quarenta anos de idade. Em outras palavras, Lewis pensou com alvio, no podia ficar pior. Apesar de Josie ir bem em matemtica e gostar da matria, era a nica na qual tinha de se esforar. Os nmeros no eram fceis para ela, apesar de ela ser capaz de argumentar com lgica e de escrever uma redao sem suar. Nisso, ela achava que era como a me. Ou talvez como o pai. O sr. McCabe, professor de matemtica, estava andando entre as carteiras, jogando uma bola de tnis contra o teto e cantando uma msica de Don McLean adaptada: Xi, xi, qual  o valor de pi Vou lutar com algarismos At chegar a hora de ir... Os alunos do nono ano no sabem o que fazer

S dizem: Sr. McCabe, pra qu? Ah, sr. McCabe, pra qu... Josie apagou uma coordenada do papel quadriculado  sua frente. -- Nem estamos usando pi -- disse um garoto. O professor se virou e jogou a bola de tnis, que quicou na carteira dele. -- Andrew, fico feliz de ver que voc acordou a tempo de reparar nisso. -- Isso conta como teste-surpresa? -- No. Talvez eu devesse aparecer na TV -- refletiu o sr. McCabe. -- Existe um programa chamado dolo da matemtica? -- Credo, espero que no -- murmurou Matt na carteira atrs de Josie. Ele cutucou o ombro dela, que empurrou o papel para o canto superior esquerdo da carteira, porque sabia que ele conseguiria ver as respostas do trabalho melhor ali. Essa semana, eles estavam trabalhando com grficos. Alm de um zilho de deveres em que voc tinha de pegar dados e transformar em grficos de barras e diagramas, cada aluno tinha de criar e apresentar um grfico de alguma coisa que gostasse. O sr. McCabe dedicava dez minutos no final de cada aula s apresentaes. No dia anterior, Matt mostrara um grfico da idade relativa dos jogadores de hquei da liga nacional. Josie, que apresentaria o seu no dia seguinte, tinha avaliado as amigas para ver se

havia uma relao entre o nmero de horas que se passava fazendo dever de casa e a mdia final. Hoje era a vez de Peter Houghton. Ela o tinha visto com o grfico na escola, um cartaz enrolado. -- Olha s -- disse o sr. McCabe. -- Estamos falando sobre pizza. Mas do outro tipo. O grfico de Peter era em formato de pizza. Tinha sido marcado com cores, e etiquetas de computador identificavam cada sesso. O ttulo no alto do grfico dizia POPULARIDADE. -- McCabe. Quase parecia que Peter ia desmaiar, mas na verdade ele sempre tinha essa aparncia. Desde que Josie comeara a trabalhar na loja de xerox, eles tinham voltado a se falar, mas, seguindo uma regra subentendida, s fora da escola. Dentro era diferente: um aqurio onde qualquer coisa que voc fizesse e dissesse estava sendo observada por todo mundo. Quando eles eram crianas, Peter nunca parecia reparar quando estava chamando a ateno apenas por ser ele mesmo. Como quando decidiu falar marciano durante o recreio, por exemplo. Josie achava que o lado bom disso, o lado otimista, era que ele nunca tentava ser outra pessoa. Ela no podia dizer o mesmo sobre si. Peter limpou a garganta. -- Meu grfico  sobre o status aqui na escola. Minha amostra estatstica veio dos vinte e quatro alunos desta turma. Vocs podem ver Quando estiver pronto, pode comear, Peter -- disse o sr.

aqui -- ele apontou para uma fatia da pizza -- que um pouco menos de um tero da turma  popular. Violeta, a cor da popularidade, pintava sete fatias, cada uma com o nome de um aluno. Havia Matt e Drew. Algumas garotas que almoavam com Josie. Mas ela reparou que o palhao da turma tambm estava naquele grupo, e o garoto novo que tinha sido transferido de Washington. -- Aqui esto os nerds -- disse Peter, e Josie leu os nomes do crnio da turma e da garota que tocava tuba na fanfarra. -- O grupo maior  o que chamo de normal. E cerca de cinco por cento so os excludos. Todos ficaram em silncio. Josie se deu conta de que era um daqueles momentos em que os orientadores seriam chamados para dar uma injeo animadora de tolerncia a diferenas. Ela conseguiu ver a testa do sr. McCabe se enrugar como um origami enquanto ele pensava em como transformar a apresentao de Peter num momento especial; viu Drew e Matt sorrindo um para o outro; e, mais do que tudo, reparou em Peter, que estava alegremente inconsciente de que a situao ia comear a feder em pouco tempo. O sr. McCabe limpou a garganta. -- Sabe, Peter, talvez voc e eu devssemos... Matt levantou a mo. -- Sr. McCabe, tenho uma pergunta. -- Matt... -- No,  srio. No consigo ler aquela fatia fina da pizza. A laranja.

-- Ah -- disse Peter. -- Essa  uma ponte. Voc sabe. Uma pessoa que consegue se encaixar em mais de uma categoria ou que anda com tipos diferentes de pessoa. Tipo a Josie. Ele se virou para ela sorrindo, e Josie sentiu os olhos de todos sobre ela, como uma onda de flechas. Encolheu-se sobre a carteira como uma onze-horas, deixando o cabelo cair sobre o rosto. Para falar a verdade, ela estava acostumada a ser olhada -- andar por a com Courtney fazia isso acontecer -- , mas havia uma diferena entre as pessoas olharem por quererem ser como voc e porque sua desgraa as fazia se sentir melhor. No mnimo, os colegas lembrariam que, no passado, Josie fora uma excluda, que andava com Peter. Ou suporiam que Peter tinha uma queda esquisita por ela, o que era doentio, e ela teria de aguentar isso para sempre. Um murmrio percorreu a sala de aula como um choque eltrico. "Aberrao", algum murmurou, e Josie implorou para que no estivessem falando dela. Como Deus existia, o sinal tocou. -- Ento, Josie -- disse Drew -- , voc  a Ponte de Tobin ou a Golden Gate? Ela tentou enfiar os livros na mochila, mas eles se espalharam no cho com as pginas abertas. -- A de Londres -- disse John Eberhard, rindo. -- Vejam, ela est desmoronando. quela altura, algum da aula de matemtica certamente j tinha contado para algum no corredor o que havia acontecido. Josie ouviria risadas seguindo-a como a rabiola de uma pipa durante todo o dia, talvez at mais.

Ela percebeu que algum estava tentando ajud-la a pegar os livros e, no instante seguinte, que esse algum era Peter. -- No -- disse Josie, levantando a mo como um campo de fora que o fez parar na mesma hora. -- Nunca mais fale comigo, t? No corredor, ela andou cegamente at encontrar o pequeno acesso que levava  sala de carpintaria. Josie fora muito ingnua ao pensar que, uma vez dentro do grupo, estaria estabelecida. Mas dentro s existia porque algum havia desenhado uma linha na areia, e todas as outras pessoas ficaram fora; e essa linha mudava constantemente. Voc poderia de repente estar do lado errado, apesar de no ser culpa sua. O que Peter no colocou no grfico foi como a popularidade era frgil. A ironia era a seguinte: ela no era ponte nenhuma; apenas tinha atravessado uma para se tornar parte do grupo, excluindo as outras pessoas para chegar aonde queria desesperadamente estar. Por que essas pessoas iriam receb-la de volta? -- Oi. Ao ouvir a voz de Matt, Josie inspirou fundo. -- S pra voc saber, eu no sou amiga dele. -- Bom, na verdade ele est certo sobre voc. Josie ficou olhando para ele. Ela j tinha testemunhado a crueldade de Matt: quando ele jogava elsticos em alunos de intercmbio que no tinham vocabulrio suficiente para delat-lo para os professores; quando chamava uma garota acima do peso de Terremoto Ambulante; quando escondia o livro de matemtica de um garoto tmido para v-lo surtar pensando t-lo perdido. Era engraado na hora porque no era com ela.

Mas ser o objeto de humilhao dele era como um tapa. Ela pensou erroneamente que andar com o grupo certo lhe daria imunidade, mas isso acabou sendo uma piada. Eles caam em cima de voc do mesmo jeito, desde que os fizesse parecer mais engraados, mais legais, diferentes de voc. Ver Matt com aquele sorriso no rosto, como se ele achasse que ela sempre fora uma piada, doeu ainda mais, porque ela o considerava um amigo. Bem, para ser sincera, s vezes desejava mais do que isso: quando uma mecha de cabelo caa sobre seus olhos e seu sorriso se espalhava devagar, ela ficava totalmente sem palavras. Mas Matt tinha esse efeito em todo mundo -- at em Courtney, que sara com ele por duas semanas durante o sexto ano. -- Nunca achei que valia a pena ouvir qualquer coisa que a bichinha dissesse, mas pontes levam voc de um lugar pro outro -- disse Matt. -- E  isso que voc faz comigo. Ele pegou a mo de Josie e a apertou contra o peito. Seu corao estava batendo com tanta fora que ela conseguia sentir, como se possibilidade fosse uma coisa que desse para pegar com a mo. Ela olhou para ele com os olhos bem abertos quando ele se inclinou para beijla, para no perder nenhum segundo. Josie conseguiu sentir o calor dele como bala de canela, do tipo que ardia. Por fim, quando ela lembrou que tinha de respirar, afastou-se dele. Nunca tinha estado to ciente de cada centmetro de sua pele; mesmo os pedaos escondidos sob camadas de camiseta e suter tinham ganhado vida. -- Nossa -- disse Matt, se afastando.

Ela entrou em pnico. Talvez ele tivesse acabado de lembrar que estava beijando uma garota que era uma pria social cinco minutos atrs. Ou talvez ela tivesse feito alguma coisa errada durante o beijo. No existe manual que ensine isso. -- Acho que no sou muito boa nisso -- gaguejou Josie. Matt ergueu as sobrancelhas. -- Se voc melhorar... pode acabar me matando. Josie sentiu um sorriso crescer dentro dela como a chama de uma vela. --  mesmo? Ele assentiu. -- Foi meu primeiro beijo -- ela admitiu. Quando Matt encostou no lbio inferior dela com o polegar, ela conseguiu sentir o toque em todo o corpo, da ponta dos dedos at a garganta e o calor entre as pernas. -- Bom -- disse ele -- , no vai ser o ltimo. Alex estava se arrumando no banheiro quando Josie entrou procurando um barbeador. -- O que  isso? -- perguntou Josie, observando o rosto de Alex no espelho como se pertencesse a uma estranha. -- Rmel? -- Ah, eu sei o que  -- disse Josie. -- S queria saber o que est fazendo no seu rosto.

-- Devo ter sentido vontade de usar maquiagem. Josie se sentou na beirada da banheira e sorriu. -- E eu devo ser a rainha da Inglaterra. O que ? Uma nova foto pra uma revista? -- De repente, suas sobrancelhas se ergueram. -- Voc no vai ter, tipo, um encontro, vai? -- No "tipo" um encontro -- disse Alex, passando blush. --  um encontro de verdade. -- Ai, meu Deus. Me conta sobre ele. -- No sei nada. A Liz que marcou. -- A Liz da manuteno? -- Ela  zeladora -- disse Alex. -- No importa. Ela deve ter falado alguma coisa sobre esse cara. -- Josie hesitou. --  um cara, certo? -- Josie! -- Bom, faz muito tempo. Seu ltimo encontro que consigo lembrar foi com aquele homem que no comia nada verde. -- O problema no era esse -- Alex disse. -- Era que ele

no me deixava comer nada verde. Josie se levantou e pegou um batom. --  uma cor boa pra voc -- disse ela, passando-o nos lbios da me. Alex e Josie tinham exatamente a mesma altura; ao olhar nos olhos da filha, Alex conseguia ver um reflexo minsculo de si mesma. Perguntou-se

por que nunca tinha feito isso com Josie: sentar-se com ela no banheiro e brincar de passar sombra, pintar as unhas, fazer cachos nos cabelos. Eram lembranas que quase todas as mes de menina pareciam ter; s agora Alex estava se dando conta de que dependia dela ger-las. -- Pronto -- disse Josie, virando Alex para que se olhasse no espelho. -- O que voc acha? Alex olhou fixamente, mas no para si mesma. Atrs de seu ombro estava Josie, e, pela primeira vez, ela realmente conseguia ver um pedao de si na filha. No era bem o formato do rosto, mas o brilho nele; no a cor dos olhos, mas o sonho preso como fumaa neles. No havia maquiagem cara que pudesse deix-la com o aspecto que Josie tinha naquele momento -- era o que se apaixonar fazia com uma pessoa. Era possvel sentir inveja da prpria filha? -- Bom -- disse Josie, batendo nos ombros de Alex --eu te convidaria pra um segundo encontro. A campainha tocou. -- No estou nem vestida -- disse Alex em pnico. -- Eu enrolo. Josie desceu a escada correndo, enquanto Alex colocava um vestido preto e sapatos de salto. Conseguiu ouvir a conversa se iniciar e o som dela subir pelo vo da escada. Joe Urquhardt era um banqueiro canadense e tinha sido colega de quarto do primo de Liz em Toronto. Ela tinha jurado que era um cara legal. Alex perguntou por que ele ainda estava solteiro, se era to legal.

-- Como voc responderia a essa pergunta? -- perguntara Liz, e Alex precisou pensar por um momento. -- No sou to legal -- ela dissera. Ela ficou agradavelmente surpresa ao ver que Joe no tinha estatura de troll, tinha uma cabeleira castanha ondulada que no parecia presa com fita dupla-face e tinha dentes. Ele assobiou quando viu Alex. -- Todos de p -- disse ele. -- E, quando digo todos, estou falando do sr. Feliz. O sorriso congelou no rosto de Alex. -- Pode me dar licena um momento? -- ela perguntou, arrastando Josie at a cozinha. -- Pode me matar agora. -- , foi bem horrvel. Mas pelo menos ele come comida verde. Eu perguntei. -- E se voc fosse at l e dissesse que estou passando muito mal? -- disse Alex. -- Voc e eu podemos pedir comida. E alugar um filme. O sorriso de Josie sumiu. -- Mas, me, eu j tenho planos. -- Ela olhou pela porta para o local onde Joe estava esperando. -- Eu posso dizer pro Matt que... -- No, no -- disse Alex, forando um sorriso. -- Uma de ns precisa se divertir. Ela saiu da cozinha e encontrou Joe segurando um candelabro e olhando a parte de baixo. -- Lamento muito, mas aconteceu um imprevisto.

-- Pode me contar, gata -- disse Joe, olhando para ela com malcia. -- No, quero dizer que no posso sair hoje. Tenho um caso -- ela mentiu. -- Preciso voltar ao tribunal. Talvez ser do Canad tenha sido o que impediu Joe de entender quo incrivelmente improvvel seria o tribunal funcionar em uma noite de sbado. -- Ah -- disse ele. -- Bom, longe de mim impedir as engrenagens da justia de funcionarem. Outro dia? Alex assentiu e o levou at a porta. Tirou os sapatos e subiu a escada para colocar o moletom mais velho. Comeria chocolate no jantar e assistiria a filmes de mulherzinha at ficar cansada de chorar. Quando passou pelo banheiro, ouviu o chuveiro ligado. Era Josie se aprontando para seu encontro. Por um momento, Alex ficou com a mo na porta, se perguntando se Josie a receberia bem se ela entrasse e a ajudasse a passar maquiagem, se oferecesse para arrumar o cabelo dela, assim como Josie tinha feito. Mas, para a filha, isso era natural; ela tinha passado a vida aproveitando momentos do tempo de Alex quando ela estava ocupada se preparando para alguma coisa. De alguma forma, Alex tinha suposto que esse tempo seria infinito, que Josie sempre estaria l esperando. Ela nunca sups que poderia ser deixada para trs um dia. No fim, Alex se afastou da porta do banheiro sem bater, com tanto medo de ouvir Josie dizer que no precisava da ajuda dela que nem se arriscou a fazer a proposta. A nica coisa que salvou Josie da completa runa social aps a apresentao de matemtica de Peter foi a simultnea conquista do status

de namorada de Matt Royston. Ao contrrio da maior parte dos alunos, que eram casais ocasionais -- ficavam em festas ou eram melhores amigos que s vezes ficavam juntos --, ela e Matt eram um casal. Matt a levava at as aulas e costumava deix-la na porta com um beijo que todos viam. Qualquer pessoa burra o bastante para mencionar o nome de Peter Houghton em conjuno ao de Josie teria que responder a ele. Qualquer pessoa exceto o prprio Peter. No trabalho, ele no parecia entender as dicas que Josie dava, virando de costas quando ele entrava na sala, ignorando-o quando ele fazia uma pergunta. Ele acabou encurralandoa no depsito uma tarde. -- Por que voc est agindo assim? -- disse ele. -- Porque, quando fui legal com voc, voc achou que a gente era amigo. -- Mas ns somos amigos -- respondeu ele. Josie o encarou. -- No  voc quem decide isso -- disse ela. Uma tarde no trabalho, quando Josie foi para os fundos carregando vrios sacos de lixo, Peter j estava l. Era o intervalo dele; ele costumava atravessar a rua e comprar um suco de ma, mas naquele dia estava inclinado sobre a beirada de metal do lato de lixo. -- Sai -- disse ela, e ergueu os sacos de lixo. Assim que caram no fundo, uma chuva de fagulhas subiu. Quase imediatamente, o fogo subiu pelo papelo empilhado dentro do lato e rugiu contra o metal.

-- Peter, sai da! -- gritou Josie. Ele no se mexeu. As chamas danaram em frente ao seu rosto, o calor distorceu suas feies. -- Peter, agora! Ela esticou a mo, segurou o brao dele e o puxou para o cho na mesma hora em que alguma coisa -- um cartucho de tinta? leo? -- explodiu dentro do lato. -- Temos que ligar pra emergncia -- Josie gritou e ficou de p. Os bombeiros chegaram em minutos e jogaram um produto qumico no lato. Josie mandou um recado para o pager do sr. Cargrew, que estava jogando golfe. -- Graas a Deus vocs no se machucaram -- disse ele para os dois. -- A Josie me salvou -- respondeu Peter. Enquanto o sr. Cargrew falava com os bombeiros, ela voltou para a loja com Peter logo atrs. -- Eu sabia que voc ia me salvar -- disse Peter. -- Foi por isso que fiz aquilo. -- Fez o qu? Mas Peter no precisava responder. Josie j sabia por que ele estava no lato quando deveria estar no intervalo. Ela sabia quem tinha jogado o fsforo assim que a ouviu saindo pelos fundos com os sacos de lixo. Josie disse a si mesma, enquanto puxava o sr. Cargrew de lado, que s estava fazendo o que qualquer funcionrio responsvel faria: contar para o

chefe quem tinha tentado destruir a propriedade dele. No admitiu que estava com medo do que Peter tinha dito, porque era verdade. E fingiu no sentir aquele pequeno calor no peito -- uma verso menor do fogo que Peter tinha provocado --, que identificou, pela primeira vez na vida, como vingana. Quando o sr. Cargrew demitiu Peter, Josie no ouviu a conversa. Ela sentiu o olhar dele nela, quente, acusador, quando ele saiu, mas concentrou sua ateno em um trabalho de um banco local. Enquanto olhava os papis saindo da mquina, pensou em como era estranho medir o sucesso pela forma como intimamente cada novo produto era parecido com o que surgira antes. Depois da aula, Josie esperava por Matt na bandeira. Ele chegava por trs e ela fingia no perceber que ele estava chegando, at que ele a beijava. As pessoas olhavam, e Josie adorava isso. De certa forma, ela pensava em seu status como uma identidade secreta; agora, se ela tirasse s A ou dissesse que realmente gostava de ler por diverso, no seria vista como esquisita, simplesmente porque, quando as pessoas a viam, reparavam na popularidade primeiro. Concluiu que era um pouco como o que a me vivenciava em todos os lugares que ia: quando voc era a juza, nenhuma outra caracterstica importava. s vezes, ela tinha pesadelos em que Matt percebia que ela era uma fraude: que no era bonita, no era legal, no era digna de admirao. O que estvamos pensando?, ela imaginava seus amigos dizendo, e talvez por isso era muito difcil, mesmo quando estava acordada, pensar neles como amigos. Ela e Matt tinham planos para o fim de semana, planos importantes sobre os quais ela mal conseguia guardar segredo. Enquanto estava sentada

nos degraus de pedra que levavam  bandeira, esperando por ele, sentiu algum cutucar seu ombro. -- Voc est atrasado -- disse ela com um largo sorriso, mas se virou e viu Peter. Ele parecia to chocado quanto ela se sentia, apesar de ter sido quem a procurou. Nos meses desde que Josie fizera Peter ser demitido da loja de xerox, ela se esforou para no ter contato com ele, o que no era fcil, considerando que tinham aula de matemtica juntos todos os dias e se cruzavam nos corredores inmeras vezes. Josie sempre enfiava o nariz em um livro ou concentrava a ateno em outra conversa. -- Josie -- disse ele -- , podemos conversar um minuto? Os alunos estavam saindo da escola; ela conseguia sentir os olhares como um chicote. Ser que estavam olhando fixamente por causa de quem ela era ou por causa de sua companhia? -- No -- disse ela rispidamente. --  que... preciso muito que o sr. Cargrew me devolva o emprego. Sei que foi um erro o que eu fiz. Pensei que, se voc falasse com ele... -- Ele parou de falar. -- Ele gosta de voc. Josie queria dizer para ele ir embora; dizer que no queria mais trabalhar com ele, muito menos ser vista conversando com ele. Mas alguma coisa aconteceu nos meses depois que Peter ateou fogo no lato de lixo. A vingana que ela achou devida depois do lamentvel episdio na aula de matemtica ardia em seu peito cada vez que ela pensava no assunto. E Josie comeou a se perguntar se talvez Peter tivesse entendido errado no por ser louco, mas por ela t-lo levado a isso. Afinal, quando no tinha ningum na loja, eles conversavam, riam. Ele era um garoto legal, s no era algum com

quem voc necessariamente gostaria de ser associado em pblico. Mas sentir isso era bem diferente de agir com base no sentimento, certo? Ela no era como Drew e Matt e John, que empurravam Peter em uma parede cada vez que passavam por ele nos corredores e roubavam a sacola de papel com o almoo dele e brincavam de bobinho no meio do refeitrio, at que a sacola se rasgasse e o contedo se espalhasse no cho. Era? Ela no pretendia falar com o sr. Cargrew. No queria que Peter pensasse que ela desejava ser amiga dele, que queria ter algum contato com ele. Mas tambm no queria ser como Matt, cujos comentrios para Peter s vezes a deixavam enjoada. Peter estava sentado na frente dela, esperando uma resposta, mas de repente no estava mais. Ele rolou pelos degraus de pedra e Matt apareceu acima dele. -- Fica longe da minha namorada, bichinha -- disse Matt. -- Vai procurar um garotinho legal pra brincar. Peter caiu de cara no asfalto. Quando ergueu a cabea, o lbio estava sangrando. Ele olhou para Josie primeiro, e, para a surpresa dela, no pareceu chateado nem zangado, s profundamente cansado. -- Matt -- disse Peter, ficando de joelhos. -- Voc tem pinto grande? -- Aposto que voc adoraria saber -- disse Matt. -- Na verdade no. -- Peter cambaleou e ficou de p. -- Eu s estava curioso se  grande o bastante pra voc ir se foder.

Josie sentiu o ar mudar entre eles no momento antes de Matt voar para cima de Peter como um furaco, dando socos na cara dele, lutando com ele no cho. -- Voc gosta disso, no gosta? -- Matt gritou enquanto o prendia ao asfalto. Peter balanou a cabea com lgrimas descendo pelas bochechas, manchadas de sangue. -- Sai... de... cima... -- Aposto que voc est gostando -- disse Matt com desprezo. A essa altura, uma multido havia se juntado em volta deles. Josie olhou ao redor desesperada, procurando um professor, mas as aulas j tinham acabado e no havia mais nenhum na escola. -- Para -- gritou ela, vendo Peter se soltar e Matt ir atrs dele de novo. -- Matt, para com isso. Ele deu outro soco e se levantou, deixando Peter encolhido de lado como um caracol. -- Voc est certa. Pra que desperdiar meu tempo? -- disse Matt, e comeou a andar, esperando que Josie fosse para o lado dele. Eles estavam indo para o carro de Matt. Josie sabia que iriam at a cidade tomar um caf antes de irem para a casa dela. L, ela se concentraria no dever de casa at ficar impossvel ignorar Matt massageando seus ombros ou beijando seu pescoo, e ento eles ficariam de amasso at ouvirem o carro da me dela parando na garagem.

Ainda havia fria contida em Matt; seus punhos estavam fechados nas laterais do corpo. Josie segurou um punho, abriu a mo dele e entrelaou os dedos aos dele. -- Posso dizer uma coisa sem voc ficar bravo? -- perguntou ela. Era uma pergunta retrica, Josie sabia: Matt j estava bravo. Era o outro lado da paixo que a fazia sentir como se tivesse eletricidade por dentro, s que direcionada negativamente para algum fraco. Como ele no respondeu, Josie foi em frente. -- No entendo por que voc precisa implicar com Peter Houghton. -- Foi aquela bichinha que comeou -- argumentou Matt. -- Voc ouviu o que ele disse. -- Bom, ouvi -- disse Josie. -- Depois que voc empurrou ele pela escada. Matt parou de andar. -- Desde quando voc virou anjo da guarda dele? Ele estava olhando de um jeito que a feriu at a alma. Josie estremeceu. -- No virei -- disse rapidamente e respirou fundo. -- Eu s... no gosto do jeito como voc trata os garotos que no so como a gente, t? S porque voc no quer andar com fracassados, no quer dizer que precisa torturar esses coitados. -- Quer, sim -- disse Matt. -- Porque, se no houver eles, no pode haver ns. -- Ele estreitou os olhos. -- Voc devia saber disso melhor do que ningum.

Josie se sentiu entorpecer. No sabia se Matt estava falando do grfico de matemtica de Peter ou de coisa pior, de sua histria como amiga dele em sries anteriores. Mas tambm no queria descobrir. Esse era seu maior medo: de que o grupo se desse conta de que ela no fazia parte dele desde o comeo. Ela no falaria para o sr. Cargrew o que Peter dissera. Nem lhe daria ateno se ele voltasse a procur-la. E tambm no mentiria para si mesma, fingindo ser melhor do que Matt quando ele debochava de Peter ou batia nele. Voc fazia o que era preciso para solidificar seu lugar na hierarquia. E a melhor maneira de ficar no topo era pisar em outra pessoa para chegar l. -- E a -- disse Matt -- , voc vem comigo? Ela se perguntou se Peter ainda estava chorando. Se seu nariz estava quebrado. Se isso era o pior. -- Vou -- disse Josie, e seguiu Matt sem olhar para trs. Lincoln, Massachusetts, era um subrbio de Boston que j tinha sido uma fazenda e agora era uma confuso de casas enormes com valores ridiculamente altos. Josie olhou pela janela observando o cenrio em que ela poderia ter crescido, sob circunstncias diferentes: os muros de pedra que contornavam as propriedades, as placas de "patrimnio histrico" em casas que tinham quase duzentos anos, a pequena barraca de sorvete que tinha cheiro de leite fresco. Perguntou-se se Logan Rourke sugeriria que eles andassem at o Dairy Joy e dividissem um sundae. Talvez fosse direto at a bancada e pedisse noz-pec com manteiga sem nem precisar perguntar para ela qual era seu sabor favorito; talvez fosse o que um pai conseguisse fazer por instinto.

Matt estava dirigindo devagar, com o pulso em cima do volante. Com apenas dezesseis anos, ele tinha habilitao e estava disposto a dirigir para qualquer lugar: para comprar leite para a me, para levar roupa na lavanderia, para acompanhar Josie at em casa depois da aula. Para ele, o destino no era importante, e sim a jornada. E foi por isso que Josie pediu que ele a levasse para ver seu pai. Alm do mais, ela no tinha alternativa. No podia pedir para a me, considerando que ela nem sabia que Josie estava procurando Logan Rourke. Poderia ter descoberto como pegar um nibus para Boston, mas chegar a uma casa no subrbio era mais complicado que isso. Assim, decidiu contar toda a verdade a Matt: que nunca conhecera o pai e o descobrira em um jornal porque ele estava concorrendo a uma vaga pblica. A entrada da casa de Logan Rourke no era to grandiosa quanto algumas das outras pelas quais passaram, mas era imaculada. O gramado tinha sido bem aparado e vrias flores selvagens cresciam ao redor da base de ferro da caixa de correio. Pendurado em um galho de rvore acima estava o nmero da casa: 59. Josie sentiu os cabelos da nuca se arrepiarem. Quando jogara no time de hquei na grama no ano anterior, seu nmero tinha sido esse. Era um sinal. Matt parou em frente  casa. Havia dois carros, um Lexus e um Jeep, e tambm um caminho de bombeiro de criana. Josie no conseguia tirar os olhos dele. Por algum motivo, no imaginara que Logan Rourke pudesse ter outros filhos. -- Quer que eu v com voc? -- perguntou Matt.

Ela balanou a cabea. -- Estou bem. Quando estava andando at a porta da frente, comeou a se perguntar o que estava pensando. Voc no podia aparecer sem avisar na casa de um cara que era uma pessoa pblica, podia? Devia haver um agente do servio secreto ou alguma coisa assim; um co de guarda. Como se planejado, ela ouviu um latido. Josie se virou na direo do som e viu um pequeno yorkshire com um lao rosa na cabea correndo em direo aos ps dela. A porta da frente se abriu. -- Titnia, deixe o carteiro em... -- Logan Rourke parou de falar quando reparou em Josie de p  sua frente. -- Voc no  o carteiro. Ele era mais alto do que ela imaginara e tinha a mesma aparncia da foto no Globe: cabelo branco, nariz aquilino, alto e magro. Os olhos eram da mesma cor dos dela e to eltricos que Josie no conseguiu afastar o olhar. Ela se perguntou se essa tinha sido a runa da me dela tambm. -- Voc  a filha da Alex -- disse ele. -- Bom -- disse Josie. -- E sua. Pela porta aberta, ela ouviu o grito de uma criana ainda tonta e alegre de alguma brincadeira. Uma voz de mulher: -- Logan, quem ? Ele esticou a mo e fechou a porta atrs de si, para que Josie no pudesse mais ver a vida dele. Pareceu incrivelmente desconfortvel, apesar

de Josie imaginar ser justo que ele se sentisse incomodado ao ser confrontado pela filha que abandonara antes de nascer. -- O que voc est fazendo aqui? No era bvio? -- Eu queria te conhecer. Achei que talvez voc tambm quisesse. Ele respirou fundo. -- No  uma boa hora. Josie olhou para a entrada da casa, onde o carro de Matt estava estacionado. -- Eu posso esperar. -- Olha...  que... eu estou concorrendo a um cargo poltico. Neste momento,  uma complicao que no posso ter... Josie foi atingida por aquela palavra. Ela era uma complicao? Ela viu Logan Rourke pegar a carteira e tirar trs notas de cem dlares. -- Tome -- disse ele, colocando-as na mo dela. --  o bastante? Josie tentou respirar, mas algum devia ter enfiado uma estaca em seu peito. Ela se deu conta de que era dinheiro sujo, que seu prprio pai achava que ela tinha ido at l para chantage-lo. -- Depois da eleio -- disse ele -- , talvez a gente possa almoar. As notas estavam rgidas em sua mo, eram do tipo que tinham acabado de entrar em circulao. Josie teve uma lembrana repentina de

quando era pequena e acompanhava a me ao banco: a me a deixava contar as notas de vinte para ter certeza de que o funcionrio lhe dera a quantia certa, e o dinheiro sempre tinha cheiro de tinta e de boa-sorte. Logan Rourke no era seu pai, assim como o cara que pegara as moedas na cabine do pedgio ou qualquer outro estranho. Voc podia ter o DNA de algum e ainda assim no ter nada em comum com essa pessoa. Josie se deu conta por um momento que j tinha aprendido essa lio com a me. -- Bom -- disse Logan Rourke, e se virou para a porta. Ele hesitou com a mo na maaneta. -- Eu... no sei o seu nome. Josie engoliu em seco. -- Margaret -- disse, para que ela fosse uma mentira para ele tanto quanto ele era para ela. -- Margaret, ento -- ele respondeu e entrou em casa. A caminho do carro, Josie abriu os dedos como uma flor. Viu as notas carem no cho perto de uma planta que parecia, como todas as outras coisas ali, estar crescendo em prosperidade. Para ser sincero, a ideia toda do jogo surgiu na cabea de Peter quando ele estava dormindo. Ele j criara jogos de computador antes -- rplicas de Pong, pistas de corrida e at um cenrio de fico cientfica que permitia que voc jogasse online com algum de outro pas se a pessoa fizesse login no site -- , mas essa era a maior ideia que ele j concebera. Ela surgiu porque, depois de um dos jogos de futebol de Joey, eles pararam em uma pizzaria em que Peter comeu muita pizza de almndega e calabresa, e ficou olhando um fliperama

chamado CAA AOS CERVOS. Voc colocava uma moeda de vinte e cinco centavos e atirava com um rifle falso nos cervos que exibiam a cabea atrs das rvores; se atingisse uma fmea, voc perdia. Naquela noite, Peter sonhou que foi caar com o pai, mas, em vez de ir atrs de um cervo, eles estavam procurando pessoas de verdade. Ele acordou coberto de suor e com a mo apertada, como se estivesse segurando uma arma. No seria to difcil criar avatares, personalidades computadorizadas. Ele tinha feito algumas experincias, e, mesmo que o tom de pele no estivesse certo e os grficos no estivessem perfeitos, ele sabia diferenciar raas, cor de cabelo e tipo fsico em linguagem de programao. Poderia ser bem divertido fazer um jogo em que a presa fosse humana. Mas jogos de guerra estavam batidos, e at mesmo os de gangue j tinham sido muito explorados, graas a Grand Theft Auto. Peter se deu conta de que precisava de um novo vilo, um que as pessoas quisessem acertar. Esta era a graa de um videogame: ver uma pessoa que merecia se dar mal. Tentou pensar em outros microcosmos do universo que poderiam ser campos de batalha: invases aliengenas, tiroteios no Velho Oeste, misses de espionagem. Ento Peter pensou na linha de combate que enfrentava todos os dias. E se voc pegasse a presa... e a transformasse em caador? Peter saiu da cama, se sentou  mesa e tirou o anurio do oitavo ano da gaveta na qual o tinha escondido meses atrs. Ele criaria um jogo de computador que seria A vingana dos nerds atualizado para o sculo XXI. Um

mundo de fantasia onde o equilbrio de poder estaria de cabea para baixo, onde o perdedor finalmente teria a chance de vencer os valentes. Pegou uma caneta e comeou a olhar o anurio, circulando retratos. Drew Girard. Matt Royston. John Eberhard. Peter virou a pgina e parou por um momento. Ento circulou o rosto de Josie Cormier tambm. -- Pode parar aqui? -- disse Josie quando achou que no conseguiria passar mais um minuto no carro fingindo que o encontro com o pai tinha ido bem. Matt mal tinha encostado quando ela abriu a porta e saiu correndo pela grama alta no bosque na beira da estrada. Ela afundou no tapete de folhas de pinheiro e comeou a chorar. O que estava esperando, ela no sabia dizer, s que no era aquilo. Aceitao incondicional, talvez. Curiosidade, no mnimo. -- Josie? -- disse Matt, surgindo atrs dela. -- Voc est bem? Ela tentou dizer que sim, mas estava cansada de mentir. Sentiu a mo de Matt acariciar seu cabelo, e isso s a fez chorar mais; o carinho cortava como uma faca. -- Ele no deu a mnima pra mim. -- Ento voc no devia dar a mnima pra ele -- respondeu Matt. Josie o encarou.

-- No  to simples assim. Ele a tomou nos braos. -- Ah, Jo. Matt era o nico que lhe dera um apelido. Ela no conseguia se lembrar da me usando um apelido bobo, como Chuchu ou Joaninha, como outros pais faziam. Quando Matt a chamava de Jo, ela se lembrava do livro Mulherzinhas, e, apesar de ter certeza de que Matt nunca lera o romance de Alcott, ficava secretamente feliz de ser associada a uma personagem to forte e segura. --  uma idiotice. Nem sei por que estou chorando.  que... eu qu eria que ele gostasse de mim. -- Eu sou louco por voc -- disse Matt. -- Isso conta? Ele se inclinou para frente e a beijou, seguindo a trilha das lgrimas. -- Conta muito. Ela sentiu os lbios de Matt se deslocarem do rosto para o pescoo, para o ponto atrs da orelha que sempre a fazia se sentir como se estivesse derretendo. Era principiante em amassos, mas Matt a persuadia a ir cada vez mais longe quando estavam sozinhos. "A culpa  sua", ele dizia e dava aquele sorriso. "Se voc no fosse to gostosa, e u conseguiria manter minhas mos longe de voc." Isso por si s era um afrodisaco para Josie. Ela? Gostosa? E, como Matt prometera todas as vezes, a sensao de deix-lo tocar em todas as partes dela era boa, de deixar que ele sentisse o gosto dela. Cada intimidade a mais com Matt fazia com que ela se sentisse como se estivesse caindo de um precipcio: a perda de flego, as borboletas no

estmago. Mais um passo e ela estaria voando. No ocorria a Josie que, quando ela pulava, tambm tinha chance de cair. Agora, sentiu as mos dele sob a camiseta, passando por baixo da renda do suti. Suas pernas se enroscaram nas dele, e ele se esfregou nela. Quando Matt levantou a blusa dela e o ar frio percorreu sua pele, ela voltou  realidade. -- A gente no pode fazer isso -- ela sussurrou. Matt passou os dentes na extenso de seu ombro. -- Estamos parados no acostamento. Ele olhou para ela, drogado, febril. -- Mas eu te quero -- disse Matt, como j dissera uma dzia de vezes antes. Dessa vez, contudo, ela olhou para ele. E eu quero voc. Josie poderia t-lo impedido, mas percebeu que no pretendia. Ele a queria, e, naquele momento, era o que ela mais precisava ouvir. Houve um instante em que Matt ficou parado, se perguntando se o fato de ela no ter afastado suas mos significava o que ele pensava. Ela ouviu o alumnio de uma embalagem de preservativo se rasgando -- H quanto tempo ele carrega isso no bolso ? Em seguida, ele abaixou o jeans e levantou a saia dela, como se ainda estivesse esperando que ela mudasse de ideia. Josie sentiu Matt puxando o elstico da calcinha dela para o lado e a queimao do dedo dele entrando nela. No foi como nas outras vezes, em que o toque dele deixava uma marca como um cometa sobre sua pele;

quando ela se via tomada de desejo depois de pedir que ele parasse. Matt mudou de posio e foi para cima dela de novo, s que dessa vez houve mais queimao, mais presso. -- Ai -- gemeu ela, e Matt hesitou. -- No quero te machucar -- disse ele. Ela virou a cabea para o lado. -- Vai logo -- disse Josie, e Matt pressionou os quadris contra os dela. Foi o tipo de dor que, apesar de ela estar esperando, fez com que desse um grito. Matt entendeu o grito como prazer. -- Eu sei, baby -- ele gemeu. Ela conseguia sentir os batimentos dele, mas de dentro, e ento ele comeou a se mover mais rpido, se contorcendo contra ela como um peixe libertado de um anzol em um per. Josie queria perguntar a Matt se tambm doera na primeira vez dele. Perguntou-se se sempre doeria. Talvez a dor fosse o preo que todo mundo pagava pelo amor. Ela virou o rosto de encontro ao ombro de Matt e tentou entender por que, mesmo com ele ainda dentro dela, ela se sentia to vazia. -- Peter -- disse a sra. Sandringham no final da aula de ingls -- , posso falar com voc um instante? Ao ouvir o chamado da professora, Peter voltou a se sentar. Comeou a pensar em desculpas que poderia dar aos pais quando voltasse para casa com outra nota baixa.

Ele gostava da sra. Sandringham. Ela tinha menos de trinta anos, e era possvel olhar para ela enquanto ela falava de gramtica e de Shakespeare e imaginar que, no muito tempo atrs, ela devia estar jogada no assento como qualquer aluno se perguntando por que a hora parecia no passar. Peter esperou at o resto da turma sair para se aproximar da mesa da professora. -- Eu s queria falar sobre a sua redao -- disse ela. -- Ainda no dei as notas de todo mundo, mas tive a oportunidade de ler a sua e... -- Posso refazer -- disse Peter. A sra. Sandringham ergueu as sobrancelhas. -- Mas, Peter... Eu queria d izer que voc tirou A. Ela lhe entregou a redao, e ele ficou olhando para a nota de caneta vermelha na margem. O dever era escrever sobre um evento significativo que mudou sua vida. Apesar de ter acontecido apenas uma semana antes, Peter escreveu sobre sua demisso por ter incendiado o lato de lixo no trabalho. No texto, no mencionou Josie Cormier uma nica vez. A sra. Sandringham tinha circulado uma frase da concluso: "Aprendi que voc acaba sendo pego, ento  preciso pensar bem antes de agir". A professora esticou a mo e a colocou no pulso de Peter. -- Voc realmente aprendeu algo com esse incidente -- disse ela, e sorriu para ele. -- Eu confiaria em voc num piscar de olhos. Peter assentiu e pegou o papel de cima da mesa. Entrou no fluxo de alunos no corredor ainda com ele na mo. Imaginou o que sua me diria se

chegasse em casa com um dever com um A enorme; se, pela primeira vez na vida, ele fizesse uma coisa que todo mundo esperava de Joey, no dele. Mas isso exigiria que ele contasse  me sobre o incidente do lato de lixo. Ou que admitisse que tinha sido demitido, e que agora passava as horas depois da aula na biblioteca em vez de na loja de xerox. Peter amassou a redao e a jogou na primeira lixeira que encontrou. Assim que Josie comeou a passar o tempo livre quase exclusivamente com Matt, Maddie Shaw ganhou discretamente a posio de melhor amiga de Courtney. De certa forma, ela se encaixava melhor do que Josie: se voc estivesse andando atrs de Courtney e Maddie, no conseguiria diferenciar quem era quem -- Maddie tinha cultivado com tanta dedicao o estilo e os movimentos de Courtney que os elevara de imitao a arte. Essa noite, eles se reuniram na casa de Maddie porque os pais dela tinham ido visitar seu irmo mais velho, aluno do segundo ano na Universidade de Syracuse. Ningum ia beber -- era temporada de hquei, e os jogadores tinham de assinar um contrato com o tcnico --, mas Drew Girard tinha alugado a verso sem cortes de uma comdia adolescente de sexo, e os garotos estavam discutindo quem era mais gostosa, Elisha Cuthbert ou Shannon Elizabeth. -- Eu no expulsaria nenhuma das duas da minha cama -- disse Drew. -- O que te faz pensar que elas iriam pra cama com voc? -- riu John Eberhard. -- Minha reputao vai longe... Courtney deu uma risadinha de deboche.

--  a nica parte sua que vai. -- Ah, Court, voc bem que queria ter certeza. -- Ou no... Josie estava sentada no cho com Maddie, tentando fazer um tabuleiro Ouija funcionar. Elas o tinham encontrado no armrio do poro, junto com um Cobras e Escadas e um Trivial Pursuit. As pontas dos dedos de Josie estavam apoiadas de leve no indicador mvel. -- Voc est empurrando? -- Juro por Deus que no -- disse Maddie. -- Voc est? Josie balanou a cabea. Ela se perguntou que tipo de fantasma iria para uma festa adolescente. Uma pessoa que tivesse morrido tragicamente,  claro, e jovem demais, talvez em um acidente de carro. -- Qual  o seu nome? -- disse Josie em voz alta. O indicador deslizou at a letra A, depois at a B e parou. -- Abe -- anunciou Maddie. -- Deve ser. -- Ou Abby. -- Voc  homem ou mulher? -- perguntou Maddie. O indicador saiu completamente do tabuleiro, e Drew comeou a rir. -- Talvez seja gay. -- S um gay consegue reconhecer outro -- disse John.

Matt bocejou e se espreguiou, e sua camiseta subiu. Apesar de Josie estar de costas para ele, ela conseguiu praticamente sentir isso, de to sintonizados que estavam seus corpos. -- Por mais divertido que esteja isso aqui, estamos indo. Jo, vamos. Josie viu o indicador soletrar uma palavra: N--O. -- No vou embora -- disse ela. -- Estou me divertindo. -- Miau -- disse Drew. -- Quem  que  dominado pela gatinha? Desde que comearam a namorar, Matt passava mais tempo com Josie do que com os amigos. E, embora ele tivesse dito que preferia ficar de amasso com ela a ficar na companhia de imbecis, Josie sabia que era importante para ele ter o respeito de Drew e John. Mas isso no significava que ele tinha que trat-la como escrava, no ? -- Eu disse que estamos indo -- repetiu Matt. Josie olhou para ele. -- E eu disse que vou quando eu quiser. Matt sorriu para os amigos, convencido. -- Voc nunca tinha gozado na vida antes de me conhecer -- disse ele. Drew e John caram na gargalhada, e Josie sentiu que ficou vermelha de vergonha. Ela se levantou, desviou o olhar e subiu correndo a escada do poro. Na entrada da casa de Maddie, pegou o casaco. Quando ouviu passos atrs de si, Josie nem se virou.

-- Eu estava me divertindo. Ento... Ela parou e deu um gritinho quando Matt segurou forte seu brao e a virou, prendendo-a contra a parede pelos ombros. -- Voc est me machucando... -- Nunca mais faa isso. -- Foi voc que... -- Voc me fez passar por idiota -- disse Matt. -- Eu falei que estava na hora de ir embora. Surgiram hematomas na pele de Josie onde ele a segurou com fora, como se ela fosse uma tela e ele estivesse determinado a deixar sua marca. Ela ficou mole sob as mos dele: instinto, uma rendio. -- Eu... me desculpa -- ela sussurrou. As palavras foram como uma chave, e as mos de Matt relaxaram. -- Jo -- ele suspirou, apoiando a testa na dela -- , eu no gosto de dividir voc. Voc no pode me culpar por isso. Ela balanou a cabea, mas ainda no confiava em si o bastante para falar. --  que eu te amo demais. Ela piscou. -- Ama? Ele ainda no tinha dito isso, e ela tambm no, apesar de sentir, porque, se no fosse recproco, Josie tinha certeza de que simplesmente

evaporaria de pura humilhao. Mas ali estava Matt, dizendo primeiro que a amava. -- No  bvio? -- disse ele, e pegou a mo dela, levou at os lbios e beijou as dobras com tanta delicadeza que Josie quase esqueceu tudo que tinha acontecido e que os levou at aquele momento. -- Kentucky Fried People 9 -- disse Peter, refletindo sobre a ideia de Derek, durante a aula de educao fsica, enquanto os times de basquete eram escolhidos. -- No sei... No parece um pouco... -- Violento? -- disse Derek. -- Desde quando voc est atrs de um nome politicamente correto? Imagina se voc pudesse chegar na sala de artes, se tivesse pontos suficientes, e usar a fornalha como arma. Derek vinha testando o novo jogo de computador de Peter, fazendo observaes sobre melhorias e falhas no design. Eles sabiam que tinham bastante tempo para conversar, pois seriam os ltimos garotos escolhidos para os times. O treinador Spears tinha escolhido Drew Girard e Matt Royston para serem os capites -- que grande surpresa, no? Eles eram atletas do time principal da escola mesmo ainda no segundo ano. -- Fora, pessoal! -- gritou o treinador Spears. -- Vocs tm que mostrar para os capites que esto secos pra jogar, que so o prximo Michael Jordan. Drew apontou para um garoto no fundo. -- Noah.

9

Kentucky Fried People (Pessoas Fritas do Kentucky): trocadilho com a rede de lanchonetes de fast-food Kentucky Fried Chicken (Frango Frito do Kentucky). (N. da T.

Matt indicou o garoto sentado ao lado dele. -- Charlie. Peter se virou para Derek. -- Ouvi falar que, apesar de o Michael Jordan ter se aposentado, ele ainda recebe quarenta milhes de dlares por ano com publicidade. -- Isso significa que ele ganha 109.589 dlares por dia pra no

trabalhar -- calculou Derek. -- Ash -- escolheu Drew. -- Robbie -- disse Matt. Peter se inclinou para perto de Derek. -- Se ele for ao cinema, vai pagar dez dlares pra entrar, mas vai receber 9.132 dlares enquanto estiver l. Derek sorriu. -- Se ele cozinhar um ovo por cinco minutos, vai ganhar trezentos e oitenta dlares. -- Stu. -- Freddie. -- O-boy. -- Walt. A essa altura, s haviam sobrado trs garotos para serem escolhidos: Derek, Peter e Royce, que tinha problemas de agressividade e por isso tinha um mediador que o acompanhava.

-- Royce -- disse Matt. -- Ele ganha 4.560,85 a mais por hora do que ganharia se trabalhasse no McDonald's -- acrescentou Derek. Drew observou Peter e Derek. -- Ganha 2.283 dlares pra ver um episdio de Friends -- disse Peter. -- Se ele quisesse juntar dinheiro pra comprar um Maserati,

demoraria vinte e uma horas -- disse Derek. -- Droga, eu queria saber jogar basquete. -- Derek -- escolheu Drew. O garoto comeou a se levantar. --  -- disse Peter -- , mas mesmo que o Michael Jordan guardasse cem por cento da sua renda pelos prximos quatrocentos e cinquenta anos, ainda no teria tanto dinheiro quanto o Bill Gates tem neste segundo. -- Tudo bem -- disse Matt. -- Eu fico com a bichinha. Peter foi para trs do time de Matt. -- Voc deve ser bom nesse jogo, Peter -- disse Matt, alto o bastante para que todo mundo pudesse ouvir. --  s deixar as mos nas bolas. Peter se recostou em um tapete que havia sido preso  parede, como o interior de um manicmio. Uma sala de borracha, onde o inferno podia virar realidade. De certa forma, ele desejava estar to certo de quem era como todos pareciam estar. -- Tudo bem -- disse o treinador Spears. -- Vamos jogar.

A primeira tempestade de neve da estao chegou antes do Dia de Ao de Graas. Comeou depois da meia-noite, com o vento sacudindo o velho esqueleto da casa e pedrinhas de gelo batendo nas janelas. Faltou energia, mas Alex j esperava que isso acontecesse. Ela acordou de repente com o silncio absoluto que acompanhava a perda da tecnologia e pegou a lanterna que tinha deixado ao lado da cama. Havia velas tambm. Alex acendeu duas e viu sua sombra, maior do que ela, rastejar pela parede. Conseguia se lembrar de noites assim quando Josie era pequena, quando elas deitavam juntas na cama e Josie adormecia cruzando os dedos para que no houvesse aula na manh seguinte. Por que os adultos nunca tinham esse tipo de folga? Mesmo que no houvesse aula no dia seguinte -- e no haveria mesmo, se o palpite de Alex estivesse certo --, mesmo que o vento ainda estivesse gritando como se a terra sofresse e o gelo estivesse solidificado nos limpadores do para-brisa, Alex teria de aparecer no tribunal. Aulas de ioga, jogos de basquete e apresentaes de teatro seriam adiadas, mas ningum cancelava a vida real. A porta do quarto se abriu. Josie estava ali, de regata e cueca boxer -- Alex no fazia ideia de onde ela a tinha conseguido e rezava para que no fosse de Matt Royston. Por um momento, Alex mal conseguiu associar aquela jovem mulher curvilnea e de longos cabelos com a filha que ainda imaginava ter, uma garotinha com a trana se desfazendo, usando pijama da Mulher-Maravilha. Ela puxou as cobertas para o lado, como um convite. Josie entrou debaixo delas e as puxou at o queixo. -- Est horrvel l fora -- disse ela. -- Parece que o cu est desabando. -- Estou mais preocupada com as ruas.

-- Voc acha que amanh vai nevar de dia? Alex sorriu no escuro. Josie podia estar mais velha, mas as prioridades ainda eram as mesmas. -- Provavelmente. Com um suspiro satisfeito, Josie afundou no travesseiro. -- Bem que o Matt e eu podamos ir esquiar em algum lugar. -- Voc no vai sair de casa se as ruas estiverem ruins. -- Mas voc vai. -- No tenho escolha -- disse Alex. Josie se virou para ela com os olhos refletindo a luz das velas. -- Todo mundo tem escolha -- retrucou, apoiando-se em um

cotovelo. -- Posso te perguntar uma coisa? -- Claro. -- Por que voc no se casou com Logan Rourke? Alex sentiu como se tivesse sido jogada nua na tempestade, de to despreparada que estava para a pergunta de Josie. -- De onde veio isso? -- O que ele tinha que no era bom o bastante? Voc me disse que ele era bonito e inteligente. E voc deve ter se apaixonado, pelo menos em algum momento...

-- Josie, isso  uma coisa muito antiga, voc no devia se preocupar com isso, porque no tem nada a ver com voc. -- Tem tudo a ver comigo -- disse Josie. -- Sou metade ele. Alex olhou para o teto. Talvez o cu estivesse desabando; talvez fosse isso o que acontecia quando voc achava que espelhos e fumaa poderiam criar uma iluso duradoura. -- Ele era todas essas coisas -- disse Alex baixinho. -- O problema no foi ele. Fui eu. -- E tinha a parte de ele ser casado. Ela se sentou na cama. -- Como voc descobriu? -- Est nos jornais agora que ele est concorrendo a um cargo

pblico. No  preciso ser um cientista espacial. -- Voc ligou pra ele? Josie olhou nos olhos dela. -- No. Havia uma parte de Alex que desejava que Josie tivesse falado com ele, para ver se ele tinha acompanhado a carreira de Alex, se perguntaria sobre ela. O ato de deixar Logan, que pareceu to certo em prol da filha ainda no nascida, agora parecia egosta. Por que no tinha falado com Josie sobre isso antes? Porque estava protegendo Logan. Josie podia ter crescido sem conhecer o pai, mas isso no era melhor do que descobrir que ele queria que

voc tivesse sido abortada? Mais uma mentira, pensou Alex,s uma pequenininha. S para que a Josie no seja magoada . -- Ele no queria deixar a esposa. -- Alex olhou de lado para Josie. -- Eu no consegui me tornar pequena o bastante para caber no espao em que ele queria me colocar para poder fazer parte da vida dele. Faz sentido? -- Acho que sim. Por baixo das cobertas, Alex pegou a mo de Josie. Era o tipo de ao que teria parecido forada se fosse feita abertamente -- algo emocional demais para qualquer uma das duas --, mas ali, no escuro, com o mundo na penumbra ao redor delas, pareceu perfeitamente natural. -- Sinto muito -- disse ela. -- Por qu? -- Por no te dar a escolha de ter ele por perto quando voc estava crescendo. Josie deu de ombros e afastou a mo. -- Voc fez a coisa certa. -- No sei. -- Alex suspirou. -- A coisa certa te deixa incrivelmente solitria s vezes. -- De repente, ela se virou para Josie e deu um largo sorriso. -- Por que estamos falando sobre isso? Ao contrrio de mim, voc tem sorte no amor, certo? Naquele momento, a energia voltou. No andar de baixo, o micro-ondas apitou; a luz do banheiro se espalhou, amarelada, no corredor. -- Acho que vou voltar pra minha cama -- disse Josie.

-- Ah. Tudo bem -- respondeu Alex, quando o que queria dizer era que a filha podia ficar onde estava. Quando Josie saiu andando pelo corredor, Alex esticou a mo para acertar o rdio-relgio. Ele piscava, 12:00 12:00 12:00, luzes em pnico, como se quisesse avisar  Cinderela que  difcil conseguir finais de contos de fadas. Para a surpresa de Peter, o segurana do Front Runner nem olhou para sua identidade falsa. Assim, antes que ele tivesse tempo de pensar sobre o fato de que estava finalmente l, foi empurrado para dentro. Foi atingido no rosto por uma onda de fumaa, e demorou um instante para se adaptar  luz fraca. A msica preenchia todos os espaos entre as pessoas, em um ritmo Techno dance to alto que fazia os tmpanos de Peter latejarem. Duas mulheres altas flanqueavam a porta de entrada para verificar quem entrava. Peter precisou de um segundo olhar para se dar conta de que uma delas tinha uma barba rala no rosto. Um deles. A outra pessoa se parecia mais com uma garota do que a maioria das garotas que ele j tinha visto, mas, por outro lado, Peter nunca tinha visto um travesti de perto. Talvez eles fossem perfeccionistas. Havia homens em grupos de dois ou trs, exceto os que estavam como falces em uma sacada que tinha vista para a pista de dana. Havia homens de cala de couro, homens beijando outros homens nos cantos, homens compartilhando baseados. Espelhos em todas as paredes faziam o clube parecer enorme, com sales infinitos. No foi difcil descobrir sobre o Front Runner, graas a salas de batepapo na internet. Como Peter ainda estava aprendendo a dirigir, teve de pegar um nibus at Manchester e depois um txi at a entrada da casa

noturna. Ainda no sabia bem por que estava l; em sua cabea, era como um experimento antropolgico. Para ver se ele se encaixava nessa sociedade, em vez de na sua prpria. No  que ele quisesse se envolver com um homem; pelo menos, ainda no. S queria saber como era estar entre caras que eram gays e no se importavam com isso. Queria saber se podiam olhar para ele e perceber imediatamente que Peter era como eles. Ele parou em frente a um casal que estava de amasso em um canto escuro. Ver um homem beijar outro era estranho na vida real. Claro, havia beijos gays em programas de televiso -- momentos grandiosos que costumavam ser controversos o bastante para chegar  imprensa, ento Peter sabia quando seriam transmitidos --, e s vezes ele os via apenas para se certificar se sentia alguma coisa. Mas era atuao, como qualquer envolvimento em programas de televiso... ao contrrio da exibio  sua frente naquele momento. Ele esperou para ver se seu corao comearia a bater um pouco mais forte, se aquilo faria sentido para ele. Mas no se sentiu particularmente excitado. Curioso, claro -- ser que a barba arranhava na hora do beijo? --, e no enojado, mas Peter no sabia dizer se sentia com convico que era algo que ele queria experimentar tambm. Os homens interromperam o beijo e um deles apertou os olhos. -- Isso aqui no  um show -- ele disse, empurrando Peter para longe. O garoto cambaleou e caiu em cima de uma pessoa sentada no bar.

-- Ei -- disse o homem, e seus olhos se iluminaram. -- O que temos aqui? -- Me desculpe... -- No precisa se desculpar. -- Ele tinha vinte e poucos anos, cabelo louro-branco cortado curto e marcas de nicotina na ponta dos dedos. -- Primeira vez aqui? Peter se virou para ele. -- Como voc sabe? -- Voc tem aquele olhar de cervo pego de surpresa pelo farol do carro. -- Ele apagou o cigarro e chamou o barman, que, Peter percebeu, parecia ter sado das pginas de uma revista. -- Rico, traz uma bebida pro meu amigo aqui. O que voc quer? Peter engoliu em seco. -- Uma Pepsi? O homem mostrou os dentes em um sorriso. -- Ah, t. -- Eu no bebo. -- Ah -- disse ele. -- Ento toma. Ele entregou um par de pequenos tubos para Peter e pegou dois para si dentro do bolso. No havia p dentro, s ar. Peter o viu abrir a tampa, inalar profundamente e fazer o mesmo com o outro vidro na outra narina. Ao imit-lo, Peter sentiu a cabea girar, como na nica vez em que tomara seis cervejas -- quando os pais foram ver Joey jogar futebol americano.

Mas, ao contrrio daquela ocasio, quando s teve vontade de dormir depois, dessa vez Peter sentiu todas as clulas do corpo vibrando, bem despertas. -- Meu nome  Kurt -- disse o homem, esticando a mo. -- Peter. -- Ativo ou passivo? Peter deu de ombros, tentando parecer que sabia do que o homem estava falando, quando na verdade no fazia ideia. -- Meu Deus -- disse Kurt, com o queixo cado. -- Sangue novo. O barman colocou uma Pepsi na frente de Peter. -- Deixe ele em paz, Kurt. Ele  s um garoto. -- Ento acho que a gente pode jogar alguma coisa -- disse Kurt. -- Voc gosta de bilhar? Peter podia lidar com um jogo de bilhar. -- Seria timo. Ele viu Kurt tirar uma nota de vinte da carteira e deix-la para Rico. -- Fique com o troco -- disse ele. A sala de bilhar era adjacente  parte principal do clube, com quatro mesas, todas ocupadas. Peter se sentou em um banco encostado  parede e ficou observando as pessoas. Algumas estavam tocando nas outras -- um brao nos ombros, um tapinha no traseiro --, mas a maioria agia como um grupo de homens. Como amigos.

Kurt pegou um punhado de moedas de vinte e cinco centavos no bolso e o colocou na beirada da mesa. Peter pensou que fosse o valor da aposta e pegou duas notas de um dlar amassadas de dentro do bolso do casaco. -- No  aposta -- disse Kurt rindo. --  o que se paga pra jogar. Ele se levantou quando o grupo  sua frente encaapou a ltima bola e comeou a colocar as moedas no orifcio da mesa, at que ela liberou uma torrente colorida de bolas lisas e listradas. Peter pegou um taco na parede e passou giz na ponta. No era muito bom em bilhar, mas j tinha jogado algumas vezes e no tinha feito nada muito idiota, como arranhar o taco na mesa e fazer a bola pular pela beirada. -- Ento voc  um homem de apostas -- disse Kurt. -- Isso pode tornar o jogo interessante. -- Aposto cinco dlares -- disse Peter, torcendo para que isso o fizesse parecer mais velho. -- No aposto dinheiro. Que tal assim: se eu ganhar, levo voc pra casa. E, se voc ganhar, voc me leva pra casa. Peter no via como podia ganhar de uma maneira ou de outra, pois no queria ir para a casa de Kurt e tinha certeza de que no o levaria para sua casa. Ento colocou o taco na beirada da mesa. -- Acho que no estou muito a fim de jogar. Kurt segurou o brao de Peter. Os olhos dele brilhavam demais, como pequenas estrelas quentes.

-- Minhas moedas j esto l dentro. Est tudo pronto. Voc quis jogar... Isso quer dizer que tem que ir at o fim. -- Me solta -- disse Peter, com a voz subindo rapidamente a escada do pnico. Kurt sorriu. -- Mas estamos apenas comeando. Atrs de Peter, outro homem falou. -- Acho que voc ouviu o garoto. Peter se virou, ainda com a mo de Kurt lhe segurando o brao, e viu o sr. McCabe, seu professor de matemtica. Foi um daqueles momentos estranhos, como quando voc est no cinema, v a moa que trabalha nos correios, sabe que a conhece de algum lugar, mas sem as caixas postais, as balanas e as mquinas de selo ao redor dela, no consegue lembrar quem ela . O sr. McCabe estava segurando uma cerveja e usando uma camisa feita de algum tecido sedoso. Ele colocou a garrafa na mesa e cruzou os braos. -- No se mete com ele, Kurt, ou chamo a polcia e fao voc ser expulso daqui. Kurt deu de ombros. -- Tudo bem -- disse e voltou para o bar enfumaado. Peter olhou para o cho, esperando que o sr. McCabe falasse. Ele tinha certeza de que o professor ligaria para seus pais, ou rasgaria sua identidade falsa, ou perguntaria por que ele achava que ir a um bar gay em Manchester era uma boa ideia.

De repente, Peter se deu conta de que poderia perguntar a mesma coisa ao sr. McCabe. Ao erguer o olhar, considerou um princpio matemtico que o professor certamente j conhecia: se duas pessoas tm o mesmo segredo, ele deixa de ser segredo. -- Acho que voc precisa de uma carona pra casa -- disse o sr. McCabe. Josie encostou a mo na de Matt, a pata de um gigante. -- Olha como voc  pequena em comparao a mim -- disse Matt. --  incrvel que eu no mate voc. Ento ele se mexeu, ainda duro dentro dela, e ela sentiu o peso do corpo dele. Depois ele colocou a mo no pescoo dela. -- Porque -- ele disse -- eu poderia. E apertou s um pouco a garganta dela. No o bastante para que ela ficasse sem ar, mas o suficiente para afetar sua fala. -- No -- Josie conseguiu dizer. Matt olhou para ela, intrigado. -- No o qu? -- disse, e, quando comeou a se movimentar dentro dela de novo, Josie teve certeza de ter entendido errado. Durante a maior parte do trajeto de uma hora desde Manchester, a conversa entre Peter e o sr. McCabe foi to superficial quanto uma liblula sobre um lago, variando entre temas de que nenhum dos dois gostava particularmente: a situao dos Bruins no campeonato de hquei, o baile formal de inverno que se aproximava, o que as boas faculdades procuravam atualmente nos candidatos.

S depois que eles deixaram a Route 89, na sada para Sterling, e estavam passando pelas ruas escuras em direo  casa de Peter, o sr. McCabe mencionou o motivo de estarem os dois no carro. -- Quanto a hoje -- ele comeou -- , poucas pessoas sabem sobre mim na escola. Ainda no sa do armrio. O pequeno retngulo de luz refletida do retrovisor cobria seus olhos como os de um guaxinim. -- Por que no? -- Peter se viu perguntando. -- No  que eu ache que os professores no me dariam apoio... S acho que no  da conta deles. Est certo? Peter no sabia como responder, ento se deu conta de que o sr. McCabe no estava pedindo a opinio dele, s as instrues do caminho. -- Est -- disse Peter. -- Vire aqui,  a terceira casa  esquerda. O sr. McCabe parou em frente  casa de Peter, mas no embicou na garagem. -- Estou te contando isso porque confio em voc, Peter. E porque, se voc precisar de algum com quem conversar, quero que se sinta  vontade pra me procurar. Peter soltou o cinto de segurana. -- Eu no sou gay. -- Tudo bem -- respondeu o sr. McCabe, mas alguma coisa nos olhos dele contradizia isso.

-- Eu no sou gay -- Peter repetiu com mais firmeza, ento abriu a porta do carro e correu o mais rpido que pde em direo  casa. Josie sacudiu o vidro de esmalte da OPI e olhou para o adesivo no fundo. "Vermelho No Sou Garonete de Verdade." -- Quem voc acha que inventa esses nomes? Ser que  um grupo de mulheres sentadas ao redor de uma mesa de reunies? -- No -- disse Maddie. -- Devem ser velhas amigas que ficam bbadas uma vez por ano e escrevem todos os sabores. -- No  sabor se no  de comer -- observou Emma. Courtney se virou e seus cabelos caram pela lateral da cama como uma cascata. -- Isso aqui est um saco -- reclamou, apesar de ser a casa dela e a festa do pijama dela. -- Tem que ter alguma coisa legal pra gente fazer. -- Vamos ligar pra algum -- sugeriu Emma. Courtney pensou. -- Tipo um trote? -- A gente podia pedir pizza e mandar entregar na casa de algum -- disse Maddie. -- Fizemos isso da ltima vez com o Drew -- disse Courtney, suspirando e sorrindo ao pegar o telefone. -- Tenho uma ideia melhor. Ela colocou no viva-voz e ligou, em uma sequncia musical que pareceu familiar para Josie. -- Al -- disse uma voz com irritao do outro lado da linha.

-- Matt -- disse Courtney, levando um dedo aos lbios para todas fazerem silncio. -- Oi. -- So trs horas da manh, Court. -- Eu sei.  que... estou esperando h bastante tempo pra te dizer uma coisa e no sei o que fazer, porque a Josie  minha amiga e tudo mais... Josie comeou a falar, para que Matt soubesse que estava sendo enganado, mas Emma colocou a mo na boca da amiga e a empurrou sobre a cama. -- Eu gosto de voc -- disse Courtney. -- Eu tambm gosto de voc. -- No, eu quero dizer... que gosto de voc. -- Nossa, Court. Se eu soubesse disso, acho que teria feito sexo selvagem com voc, mas no d... eu amo a Josie e sei que ela deve estar a um metro de voc agora. O silncio foi destrudo quando as gargalhadas o quebraram como vidro. -- Meu Deus! Como voc sabia? -- disse Courtney. -- Porque a Josie me conta tudo, inclusive quando vai dormir na sua casa. Agora me tira do viva-voz porque quero dar boa-noite pra ela. Courtney entregou o telefone a Josie. -- Boa resposta -- disse Josie. A voz de Matt estava rouca de sono.

-- Voc duvidava? -- No -- ela respondeu, sorrindo. -- Bom, divirta-se. Mas no tanto quanto se estivesse comigo. Ela ouviu Matt bocejar. -- V pra cama. -- Queria que voc estivesse do meu lado -- disse ele. Josie virou as costas para as outras garotas. -- Eu tambm. -- Eu te amo, Jo. -- Eu tambm te amo. -- E eu -- anunciou Courtney -- vou vomitar. Ela esticou a mo e desligou o telefone. Josie jogou o aparelho sobre a cama. -- Foi ideia sua ligar pra ele. -- Voc s est com cimes -- disse Emma. -- Eu queria ter algum que no conseguisse viver sem mim. -- Voc tem tanta sorte, Josie -- concordou Maddie. Josie abriu o vidro de esmalte e uma gota caiu do pincel na coxa dela, como uma gota de sangue. Qualquer uma de suas amigas -- bem, talvez no Courtney, mas a maior parte delas -- mataria para estar em seu lugar.

Mas ser que morreriam para isso?, sussurrou uma voz dentro dela. Ela olhou para Maddie e Emma e forou um sorriso. -- Nem me falem -- disse Josie. Em dezembro, Peter conseguiu um emprego na biblioteca da escola. Ele era encarregado do equipamento audiovisual, e todos os dias, durante uma hora depois da aula, rebobinava microfilmes e organizava os DVDs em ordem alfabtica. Ele levava retroprojetores e TVs com videocassete para as salas de aula, para que estivessem no local quando os professores que precisariam deles chegassem  escola de manh. Ele gostava muito do fato de que ningum o importunava na biblioteca. Os adolescentes populares no iriam para l depois da aula nem mortos. Peter tinha mais chance de encontrar os alunos com necessidades especiais e seus mediadores trabalhando nos deveres. Ele conseguiu o emprego depois de ajudar a sra. Wahl, a bibliotecria, a consertar o computador velho para que parasse de exibir tela azul toda hora. Agora, Peter era seu aluno favorito na Sterling High. Ela o deixava trancar a biblioteca quando ia embora e fez uma chave para ele do elevador de servio, para que ele pudesse transportar o equipamento de um andar a outro da escola. O ltimo trabalho de Peter naquele dia era levar um projetor do laboratrio de biologia no segundo andar de volta para a sala de audiovisual. Ele entrou no elevador e girou a chave para fechar a porta quando algum gritou e pediu que ele esperasse. Um momento depois, Josie Cormier entrou.

Ela estava de muletas e com uma bota imobilizadora. Olhou para Peter quando a porta do elevador se fechou e rapidamente voltou o olhar para o cho. Apesar de terem se passado meses desde que ela o fizera ser demitido, Peter ainda sentia uma pontada de raiva quando via Josie. Podia praticamente ouvi-la contando os segundos em pensamento at as portas do elevador se abrirem de novo. Tambm no estou feliz de estar preso aqui com voc, pensou ele, e nessa hora o elevador tremeu e parou. -- Qual  o problema do elevador? -- Josie apertou o boto do primeiro andar. -- Isso no vai ajudar em nada -- disse Peter. Ele esticou a mo diante dela -- e reparou que ela quase perdeu o equilbrio tentando se inclinar para trs, como se ele tivesse uma doena contagiosa -- e apertou o boto vermelho de emergncia. Nada aconteceu. -- Que droga -- disse Peter. Ele olhou para o teto do elevador. Nos filmes, os heris de ao sempre subiam pelos dutos de ar at a passagem do elevador, mas, mesmo que ele subisse em cima do projetor, no via como poderia abrir a portinhola sem uma chave de fenda. Josie apertou o boto de novo. -- Ol?!

-- Ningum vai ouvir voc -- disse Peter. -- Os professores foram todos embora e o zelador assiste Oprah das cinco s seis no poro. -- Ele olhou para ela. -- O que voc est fazendo aqui mesmo? -- Estudo independente. -- O que  isso? Ela levantou uma muleta. --  o que voc faz pra conseguir pontos quando no pode fazer aula de educao fsica. O que voc est fazendo aqui? -- Eu trabalho aqui agora -- disse Peter, e os dois ficaram em silncio. Pela lgica, pensou Peter, cedo ou tarde algum os encontraria. O zelador provavelmente os descobriria quando fosse levar a enceradeira para o andar de cima, mas, se isso no acontecesse, o mximo que teriam de esperar seria at de manh, quando todos chegassem novamente. Ele sorriu um pouco, pensando no que poderia dizer para Derek: Adivinha s, eu dormi com a Josie Cormier. Ele abriu o iBook e apertou um boto, iniciando uma apresentao de PowerPoint na tela. Amebas, blstulas. Diviso celular. Um embrio.  incrvel pensar que todos comeamos assim: microscpicos, indistinguveis. -- Quanto tempo vai demorar pra acharem a gente? -- No sei. -- As bibliotecrias no vo reparar se voc no voltar?

-- Nem meus pais reparariam se eu no voltasse. -- Ai, meu Deus... e se a gente ficar sem ar? -- Josie bateu na porta com a muleta. -- Socorro! -- No vamos ficar sem ar -- disse Peter. -- Como voc sabe? Ele no sabia, no de verdade. Mas o que mais poderia dizer? -- Fico nervosa em lugares pequenos -- disse Josie. -- No consigo ficar aqui. -- Voc  claustrofbica? Ele se perguntou como no sabia isso sobre Josie. Mas, por outro lado, por que saberia? Afinal, ele no fora parte ativa da vida dela nos ltimos seis anos. -- Acho que vou vomitar -- gemeu Josie. -- Ah, merda -- disse Peter. -- No faz isso. Fecha os olhos e voc nem vai perceber que est em um elevador. Josie fechou os olhos, mas, quando fez isso, quase perdeu o equilbrio. -- Espera. Peter pegou as muletas, e ela ficou equilibrada em um p. Em seguida, segurou as mos dela enquanto ela se sentava no cho, esticando a perna machucada. -- Como voc se machucou? -- ele perguntou, indicando a perna imobilizada.

-- Ca no gelo. Ela comeou a chorar e a ofegar. Peter achou que ela estava hiperventilando, embora s conhecesse a palavra escrita, no sabia como era ao vivo. A pessoa tinha que respirar dentro de um saco de papel, certo? Peter procurou alguma coisa que servisse no elevador. Havia um saco plstico com alguns documentos no carrinho de audiovisual, mas colocar isso na cabea no parecia uma ideia particularmente brilhante. -- Tudo bem -- disse ele, pensando -- , vamos fazer alguma coisa pra tirar sua mente de onde voc est. -- Tipo o qu? -- Acho que a gente pode jogar alguma coisa -- sugeriu Peter, e ouviu as mesmas palavras repetidas em sua mente, com a voz de Kurt, do Front Runner. Ele balanou a cabea para parar de pensar naquilo. -- Vinte Perguntas? Josie hesitou. -- Animal, vegetal ou mineral? Depois de seis rodadas de Vinte Perguntas e uma hora de geografia, Peter comeou a ficar com sede. Tambm precisava urinar, o que o preocupava, porque ele achava que no conseguiria aguentar at de manh e nem morto mijaria com Josie olhando. Ela estava em silncio, mas pelo menos tinha parado de tremer. Ele achou que ela poderia estar dormindo. Mas, em seguida, ela falou: -- Verdade ou consequncia? Peter se virou para ela.

-- Verdade. -- Voc me odeia? Ele baixou a cabea. -- s vezes. -- E deveria -- disse Josie. -- Verdade ou consequncia? -- Verdade -- disse ela. -- Voc me odeia? -- No. -- Ento por que -- perguntou Peter -- voc age desse jeito? Ela balanou a cabea. -- Preciso agir do jeito que as pessoas esperam que eu aja.  parte da coisa... toda. Se eu no... -- Ela puxou o apoio de borracha da muleta. --  complicado. Voc no entende. -- Verdade ou consequncia? -- disse Peter. Josie sorriu. -- Consequncia. -- Lambe a sola do seu p. Ela comeou a rir.

-- No consigo nem andar com a sola do meu p -- disse ela, mas se inclinou, tirou o tnis e botou a lngua para fora. -- consequncia? -- Verdade. -- Covarde -- disse Josie. -- Voc j se apaixonou? Peter olhou para ela e lembrou que eles j tinham amarrado um bilhete com o endereo de cada um em um balo de hlio e o soltaram no quintal da casa dela, certos de que chegaria a Marte. Mas acabaram recebendo uma carta de uma viva que morava a duas quadras. -- J -- disse ele. -- Acho que sim. Os olhos dela se arregalaram. -- Por quem? -- Essa no foi a pergunta. Verdade ou consequncia? -- Verdade -- disse Josie. -- Qual foi a ltima mentira que voc contou? O sorriso sumiu do rosto dela. -- Quando falei que escorreguei no gelo. O Matt e eu brigamos e ele bateu em mim. -- Ele bateu em voc? -- No foi bem assim... Eu falei uma coisa que no devia, e quando ele... Enfim, eu perdi o equilbrio e machuquei o tornozelo. -- Josie... Verdade ou

Ela baixou a cabea. -- Ningum sabe. Voc no vai contar, n? -- No. -- Peter hesitou. -- Por que voc no contou pra ningum? -- Essa no foi a pergunta -- disse Josie, repetindo o que ele dissera. -- Estou perguntando agora. -- Ento prefiro consequncia. Peter fechou as mos em forma de punhos nas laterais do corpo. -- Me beija -- disse ele. Ela se inclinou lentamente na direo dele, at que seu rosto estivesse perto demais para ele manter o foco. O cabelo dela caiu sobre o ombro de Peter como uma cortina e ela fechou os olhos. Ela tinha cheiro de outono -- de cidra de ma e de sol poente que anuncia o frio. Ele sentiu o corao pular, preso no confinamento do prprio corpo. Os lbios de Josie pousaram na extremidade dos dele, quase na bochecha e no exatamente na boca. -- Fico feliz de no ter ficado presa aqui sozinha -- disse ela timidamente, e ele saboreou as palavras, doces como bala de menta no hlito dela. Peter olhou para baixo e rezou para que Josie no reparasse que ele estava duro como pedra. Deu um sorriso to largo que doeu. No era que ele no gostasse de garotas -- era que s havia uma certa. Naquele momento, algum bateu na porta de metal. -- Tem algum a?

-- Tem! -- gritou Josie, lutando para ficar de p com as muletas. -- Socorro! Houve batidas e marteladas, e o som de um p de cabra forando o metal. As portas se abriram, e Josie saiu rapidamente do elevador. Matt Royston estava esperando ao lado do zelador. -- Fiquei preocupado quando vi que voc no estava em casa -- ele disse e abraou Josie. Mas voc bateu nela, Peter pensou, mas lembrou que tinha feito uma promessa a Josie. Ele ouviu o gritinho de surpresa de Josie quando Matt a tomou nos braos, carregando-a para que ela no precisasse usar as muletas. Peter empurrou o carrinho com o iBook e o projetor at a biblioteca e trancou a sala de audiovisual. Estava tarde, e ele precisaria ir andando para casa, mas quase no se importava. Decidiu que a primeira coisa que faria seria apagar o crculo ao redor do retrato de Josie no anurio e tirar as caractersticas dela dos viles em seu jogo. Estava revisando mentalmente a logstica disso em termos de programao quando chegou em casa. Demorou um momento para se dar conta de que alguma coisa estava errada -- as luzes no estavam acesas, mas os carros estavam l. -- Ol? -- gritou, andando da sala de estar para a sala de jantar e a cozinha. -- Tem algum em casa? Encontrou os pais sentados no escuro  mesa da cozinha. A me olhou para frente, atordoada. Era bvio que ela estava chorando.

Peter sentiu alguma coisa quente se libertar em seu peito. Ele tinha dito para Josie que os pais no notariam sua ausncia, mas isso no era verdade. Obviamente, seus pais estavam desesperados. -- Estou bem -- Peter disse para eles. -- De verdade. O pai se levantou, piscando para afastar as lgrimas, e tomou o garoto nos braos. Peter no conseguia se lembrar da ltima vez em que fora abraado assim. Apesar de querer parecer seguro por j ter dezesseis anos, ele derreteu contra o corpo do pai e o abraou com fora. Primeiro Josie, e agora isso? Esse estava sendo o melhor dia da vida de Peter. --  o Joey -- disse o pai em meio s lgrimas. -- Ele morreu.

Pergunte a uma adolescente qualquer se ela quer ser popular e ela vai dizer que no, mesmo que a verdade seja que, se ela estivesse em um deserto morrendo de sede e pudesse escolher entre um copo de gua e a popularidade instantnea, ela provavelmente escolheria a segunda opo. Voc no pode admitir que quer ser popular, porque isso te torna menos bacana. Para ser verdadeiramente popular, tem que parecer uma coisa que voc , quando na verdade  o que voc se faz. Eu me pergunto se alguma pessoa se dedica mais a qualquer coisa do que os adolescentes para serem populares. At os controladores de trfego areo e o presidente dos Estados Unidos tiram frias, mas observe um aluno comum de ensino mdio e voc ver uma pessoa que se dedica vinte e quatro horas por dia durante todo o ano letivo. E como se entra nesse santurio interno? Bem, eis o problema: no depende de voc. O importante  o que todo mundo pensa sobre como voc se veste, o que voc come no almoo, que programas de TV voc assiste, que msicas voc tem no seu iPod. Mas eu sempre me perguntei: Se a opinio de todo mundo  o que importa, ento voc chega a ter opinio prpria?

Um mes depois
disparos, a promotora nem tinha olhado para ele. Primeiro ela teve que se preparar para a audincia preliminar, depois esteve diante de um jri para pedir que fizessem o indiciamento. S agora ela estava comeando a ler as anlises de digitais, balstica e marcas de sangue, assim como os relatrios policiais originais. Ela passou a manh toda lendo a logstica do tiroteio e organizando mentalmente a declarao inicial, seguindo o mesmo caminho de destruio de Peter Houghton, acompanhando o movimento dele de vtima a vtima. A primeira a ser atingida foi Zoe Patterson, na escada da escola. Alyssa Carr, Angela Phlug, Maddie Shaw. Courtney Ignatio. Haley Weaver e Brady Pryce. Lucia Ritolli, Grace Murtaugh. Drew Girard. Matt Royston. Mais. Diana tirou os culos e esfregou os olhos. Um livro dos mortos, um mapa dos feridos. E esses eram apenas aqueles cujos ferimentos foram srios o bastante para envolver internao no hospital. Havia dezenas de adolescentes que foram tratados e liberados, centenas cujas cicatrizes eram profundas demais para serem vistas.

A

pesar de o relatrio investigativo de Patrick Ducharme estar na mesa de Diana desde o dcimo dia aps os

Diana no tinha filhos -- na posio dela, os homens que ela conhecia ou eram criminosos, o que era horrvel, ou advogados de defesa, o que era pior. Mas ela tinha um sobrinho de trs anos, que levou bronca na creche por apontar para um colega e dizer: "Bang, voc morreu". Quando a irm ligou indignada citando a Declarao dos Direitos dos Cidados, por acaso Diana pensou que o sobrinho cresceria e viraria um psicopata? Nem por um segundo. Ele era s uma criana brincando. Ser que a famlia Houghton pensara o mesmo? Diana olhou para a lista de nomes  sua frente. Seu trabalho era ligar esses pontos, mas o que realmente precisava ser feito era encontrar um momento bem antes disso: o ponto de virada em que a mente de Peter Houghton mudara sutilmente de e se para quando. Outra lista chamou sua ateno, a do hospital. Cormier, Josie. De acordo com os registros mdicos, a garota de dezessete anos tinha sido internada para observao depois de um desmaio e tinha uma lacerao na cabea. A assinatura da me estava no final do consentimento para exames de sangue. Alex Cormier. No podia ser. Diana se recostou na cadeira. Ningum jamais queria ser a pessoa que pediria a um juiz para se afastar de um caso. Era o mesmo que anunciar que voc duvidava da capacidade dele de ser imparcial. E, como Diana estaria naquele tribunal muitas vezes no futuro, no era uma ao inteligente para sua carreira. Mas a juza Cormier certamente sabia que no tinha como julgar esse caso com justia, no com a filha como testemunha. Era verdade que Josie no tinha levado um tiro, mas tinha se ferido durante o tiroteio. A

juza Cormier se afastaria, certamente. O que significava que ela no tinha com que se preocupar. Diana voltou a ateno para a descoberta sobre sua mesa, lendo at as letras se embaralharem na pgina, at Josie Cormier ser apenas mais um nome. A caminho de casa, depois de sair do frum, Alex passou pelo memorial improvisado que fora erigido para as vtimas da Sterling High. Havia dez cruzes brancas de madeira, apesar de um dos adolescentes mortos, Justin Friedman, ser judeu. As cruzes no estavam perto da escola, mas em uma rea da Route 10 em que havia uma vrzea do rio Connecticut. Nos dias aps os disparos, sempre havia pessoas perto das cruzes, depositando objetos s pilhas de fotos, bichos de pelcia e buqus. Alex percebeu que estava parando no acostamento. No sabia por que estava parando naquele momento, por que no tinha parado antes. Seus saltos afundaram na grama esponjosa. Ela cruzou os braos e andou at as cruzes. No estavam em nenhuma ordem em particular, e o nome de cada aluno morto estava entalhado na parte horizontal da cruz. Alex no conhecia a maior parte dos alunos, mas as cruzes de Courtney Ignatio e Maddie Shaw estavam lado a lado. As flores que tinham sido deixadas ali tinham murchado, e os papis de embrulho estavam apodrecendo no cho. Alex se ajoelhou e passou o dedo por um poema apagado preso  cruz de Courtney. Courtney e Maddie tinham ido dormir na casa de Alex vrias vezes. Ela se lembrava de encontrar as garotas na cozinha, comendo massa crua de biscoito em vez de ass-los, com os corpos fluidos como ondas enquanto se moviam. Conseguia se lembrar de sentir inveja delas, por serem to jovens e

saberem que ainda no tinham cometido um erro que mudaria suas vidas. Ento Alex ruborizou de desgosto: pelo menos, ainda tinha vida e podia mud-la. Mas foi na cruz de Matt Royston que Alex comeou a chorar. Encostada na base de madeira branca havia uma foto em um porta-retratos, embrulhada em um saco plstico para que no se estragasse nas intempries. Ali estava Matt, com os olhos brilhantes e o brao ao redor do pescoo de Josie. Josie no estava olhando para a cmera. Estava olhando para Matt, como se no conseguisse ver mais nada. De alguma forma, pareceu mais seguro desmoronar ali, em frente a um memorial improvisado, do que em casa, onde Josie poderia ouvi-la chorar. Por mais que permanecesse tranquila e controlada, pelo bem de Josie, a nica pessoa que no conseguia enganar era ela mesma. Podia retomar a rotina naturalmente, podia dizer para si mesma que Josie tinha tido sorte, mas, quando estava sozinha no chuveiro ou presa no espao intersticial entre acordar e dormir, Alex comeava a tremer incontrolavelmente, como acontece quando voc desvia para evitar um acidente e precisa parar no acostamento para se certificar de que ainda est inteira. A vida era o que acontecia quando todos os "e se" no aconteciam, quando o que voc sonhava ou esperava ou, nesse caso, temia passava despercebido. Alex passara noites suficientes pensando em boa sorte, em como ela era tnue como um vu, em como era possvel passar facilmente de um lado ao outro. A cruz diante da qual estava ajoelhada poderia facilmente ser de Josie, o memorial da filha que servia de apoio para a foto. Um tremor de mo do atirador, um passo em falso, um ricochete de bala, e tudo poderia ter sido diferente.

Alex ficou de p e respirou fundo para se fortalecer. Ao voltar para o carro, viu o buraco estreito onde houvera uma dcima primeira cruz. Depois que as dez foram posicionadas, algum acrescentara uma com o nome de Peter Houghton. Noite aps noite, aquela cruz foi removida ou vandalizada. Houve editoriais nos jornais sobre isso: Peter Houghton merecia uma cruz, mesmo estando vivo? Montar um memorial para ele era uma tragdia ou uma caricatura? A pessoa que fez a cruz de Peter acabou decidindo deixar a questo de lado e parou de recoloc-la todos os dias. Quando Alex entrou novamente no carro, perguntou-se como -- at ter ido ali sozinha -- tinha conseguido esquecer que algum, em algum momento, considerou Peter Houghton uma vtima tambm. Desde Aquele Dia, como Lacy Houghton tinha passado a cham-lo, ela fizera o parto de trs bebs. A cada vez, apesar de os partos no terem incidentes e tudo ter sido fcil, alguma coisa dava errado. No para a me, mas para a parteira. Quando Lacy entrava na sala de parto, ela se sentia txica, negativa demais para ser quem receberia outro ser humano neste mundo. Ela sorria durante os partos e oferecia o apoio e os cuidados mdicos necessrios s novas mes, mas, assim que lhes dava alta, cortando o ltimo cordo umbilical entre o hospital e a casa, Lacy sabia que estava dando a elas conselhos errados. Em vez de trivialidades fceis como "Deixem que mamem quando sentirem fome" e "Vocs no podem ficar com o beb no colo o tempo todo", ela devia falar a verdade: "Essa criana que vocs esperaram no  quem vocs imaginam que seja. Agora vocs so estranhos, e sero estranhos daqui para frente". Anos atrs, ela costumava se deitar na cama e imaginar como a vida seria se ela no fosse me. Imaginava Joey colhendo para ela um buqu de dentes-de-leo e trevos; Peter adormecendo em seu peito com a ponta de sua trana ainda na mo. Revivia as dores do parto e o mantra que usara

para passar por elas: Quando isso acabar, imagine o que voc ter . A maternidade pintara as cores do mundo de Lacy com mais vividez, a preenchera com a crena de que a vida no poderia ser mais completa. O que ela no tinha percebido  que s vezes, quando sua viso era to intensa e verdadeira, ela podia ferir voc. Que s quem se sentia to preenchida poderia entender a dor de estar vazia. Ela no contou aos pacientes -- por Deus, no contou nem a Lewis -- , mas, atualmente, quando se deitava na cama e imaginava como a vida teria sido se no fosse me, se via remoendo duas palavras amargas: mais fcil. Hoje, Lacy estava fazendo visitas de rotina; tinha visto cinco pacientes e estava a caminho de ver a sexta. "Janet Isinghoff", ela leu, passando os olhos pela pasta. Apesar de ser paciente de outra parteira, a poltica do grupo era de que todas as mulheres passassem por todas as parteiras, pois nunca se sabia quem estaria de planto na hora do parto. Janet Isinghoff tinha trinta e trs anos, estava em sua primeira gestao e tinha histrico familiar de diabetes. Tinha sido hospitalizada uma vez antes, em virtude de uma apendicite, tinha asma controlada e era saudvel de modo geral. Estava de p na porta do consultrio, segurando a camisola de hospital, enquanto discutia calorosamente com Priscilla, a enfermeira. -- No quero saber -- dizia Janet. -- Se precisar, vou pra outro hospital. -- Mas no  assim que as coisas funcionam por aqui -- explicou Priscilla. Lacy sorriu.

-- Posso ajudar em alguma coisa? Priscilla se virou e ficou entre ela e a paciente. -- No  nada. -- No me pareceu ser nada -- respondeu Lacy. -- No quero que o parto do meu beb seja feito por uma mulher que tem um filho assassino -- disse Janet. Lacy sentiu os ps grudarem no cho e a respirao ficar to fraca como se tivesse levado um soco. E no tinha? Priscilla ficou vermelha. -- Sra. Isinghoff, acho que posso falar por toda a equipe de parteiras quando digo que a Lacy ... -- No tem problema -- murmurou Lacy. -- Eu entendo. A essa altura, as outras enfermeiras e parteiras estavam olhando. Lacy sabia que falariam em sua defesa, que mandariam Janet Isinghoff procurar outro hospital, que explicariam que Lacy era uma das melhores e mais experientes parteiras de New Hampshire. Mas isso no importava, na verdade. A questo no era Janet Isinghoff exigir outra parteira para o parto de seu beb; era que, mesmo depois que Janet fosse embora, haveria outra mulher ali amanh ou no dia seguinte com o mesmo pedido desconfortvel. Quem iria querer que as primeiras mos a tocar seu recmnascido fossem as mesmas que seguraram a de um assassino quando ele atravessava a rua, que tiraram o cabelo dele da testa quando ele estava doente, que o embalaram at dormir?

Lacy andou pelo corredor at a sada de incndio e subiu correndo quatro lances de escada. s vezes, quando tinha um dia particularmente difcil, ela se refugiava no telhado do hospital. Deitava de costas, olhava para o cu e fingia, com aquela vista, que podia estar em qualquer lugar do mundo. Um julgamento era apenas uma formalidade -- Peter seria declarado culpado. No importava quanto ela tentasse se convencer ou convencer Peter do contrrio, o fato estava l entre eles, intenso e silencioso, naquelas horrveis visitas  cadeia. Lacy fez um paralelo com quando voc encontra uma pessoa que no v h algum tempo e percebe que ela est careca e sem as sobrancelhas: voc sabe que ela est fazendo quimioterapia, mas finge que no sabe, porque  mais fcil para os dois lados. O que Lacy teria gostado de dizer, se algum tivesse lhe dado espao para isso, era que as aes de Peter eram to surpreendentes e arrasadoras para ela quanto para qualquer outra pessoa. Ela tambm tinha perdido um filho naquele dia. No apenas fisicamente, para a cadeia, mas pessoalmente, porque o garoto que ela conhecia tinha desaparecido, tinha sido engolido por esse monstro que ela no reconhecia, capaz de atos que ela no conseguia conceber. Mas e se Janet Isinghoff estivesse certa? E se tivesse sido alguma coisa que Lacy dissera ou fizera... ou no dissera, ou no fizera... que levara Peter quele ponto? Voc podia odiar seu filho pelo que ele fizera e ainda am-lo por quem ele fora? A porta se abriu e Lacy se virou. Ningum nunca ia l, mas, por outro lado, ela raramente saa do andar to aborrecida. Mas no era Priscilla nem nenhuma de suas colegas: Jordan McAfee estava na passagem, com uma pilha de papis na mo. Lacy fechou os olhos.

-- Perfeito. -- Sim,  o que a minha esposa me diz -- gracejou ele, andando em direo a Lacy com um sorriso largo no rosto. -- Ou talvez seja o que eu gostaria que ela dissesse... Sua secretria me disse que voc provavelmente estaria aqui e... Lacy, voc est bem? Ela assentiu, mas depois balanou a cabea. Jordan segurou o brao dela e a conduziu at uma cadeira dobrvel que algum tinha levado para o telhado. -- Dia ruim? -- Pode-se dizer que sim -- respondeu Lacy. Ela tentou impedir que Jordan visse suas lgrimas. Era burrice, ela sabia, mas no queria que o advogado de Peter pensasse que ela era o tipo de pessoa que tinha que ser tratada com cuidado extra. Seno, ele poderia no contar a ela todas as verdades cruis sobre Peter, e ela queria saber de tudo, fosse o que fosse. -- Preciso que voc assine uma papelada... mas posso voltar mais tarde... -- No -- disse Lacy. -- Agora est... timo. Estava melhor do que timo, ela percebeu. Era bom estar sentada ao lado de algum que acreditava em Peter, mesmo que ela estivesse pagando para isso. -- Posso fazer uma pergunta profissional? -- Claro. -- Por que  to fcil as pessoas apontarem o dedo pra outra?

Jordan se sentou na frente dela, na beirada do telhado, o que deixou Lacy nervosa. Mas, mais uma vez, ela no podia demonstrar, porque no queria que Jordan pensasse que ela era frgil. -- As pessoas precisam de um bode expiatrio -- disse ele. --  a natureza humana. Essa  a maior barreira que precisamos superar como advogados de defesa, porque, apesar de todos serem inocentes at que se prove o contrrio, o prprio ato da priso faz as pessoas suporem a culpa. Voc sabe quantos policiais se equivocaram em uma priso? Eu sei,  loucura. Quer dizer, voc acha que eles pedem desculpas profusamente e se certificam de que a famlia, os amigos e os colegas da pessoa saibam que foi um grande erro, ou apenas dizem "foi mal" e pulam fora? -- Ele olhou nos olhos dela. -- Tenho certeza que  difcil ler os editoriais que j condenaram o Peter antes mesmo de o julgamento comear, mas... -- No  o Peter -- disse Lacy baixinho. -- Esto culpando a mim. Jordan assentiu, como se j esperasse por aquilo. -- Ele no fez isso por causa do modo como o criamos. Fez apesar disso -- disse Lacy. -- Voc tem um beb, no tem? -- Tenho. O Sam. -- E se ele acabar sendo uma pessoa que voc jamais achou que seria? -- Lacy... -- Por exemplo, e se o Sam disser que  gay? Jordan deu de ombros. -- E da? -- E se ele decidir se converter ao islamismo?

--  uma escolha dele. -- E se ele se tornar um homem-bomba? Jordan fez uma pausa. -- Eu no quero pensar numa coisa dessas, Lacy. -- No -- disse ela, encarando-o. -- Eu tambm no queria. Philip O'Shea e Ed McCabe estavam juntos havia quase dois anos. Patrick comeou com as fotos sobre a lareira: dois homens com os braos ao redor um do outro, com as montanhas Rochosas do Canad ao fundo, o Corn Palace, a Torre Eiffel. -- Ns gostvamos de viajar -- disse Philip, ao entregar um copo de ch gelado para Patrick. -- Para o Ed, s vezes era mais fcil viajar do que ficar aqui. -- Por qu? Philip deu de ombros. Era um homem alto e magro com sardas que apareciam quando seu rosto se tomava de emoo. -- O Ed no tinha contado pra todo mundo sobre... nosso estilo de vida. E, para ser bem sincero, guardar segredos em uma cidade pequena  uma droga. -- Sr. O'Shea... -- Philip. Por favor. Patrick assentiu. -- Eu queria saber se o Ed alguma vez mencionou o nome de Peter Houghton pra voc.

-- Ele dava aula pro Peter, voc sabe. -- Sei. Eu estava me referindo... bom, a mais do que isso. Philip o levou at uma varanda com tela, para um par de cadeiras de vime. Todos os aposentos que ele viu na casa pareciam ter acabado de ser o cenrio de fotos para uma revista: as almofadas nos sofs inclinadas em um ngulo de quarenta e cinco graus, os vasos repletos de contas de vidro, as plantas exuberantes e viosas. Patrick pensou na sala de sua casa, onde hoje ele havia encontrado um pedao de torrada entre as almofadas do sof, que tinha o que s podia ser chamado de penicilina crescendo em sua superfcie. Podia ser um esteretipo ridculo, mas a casa de Philip tinha um ar de Martha Stewart 10para todos os lados, enquanto a de Patrick parecia uma boca de crack. -- O Ed conversou com o Peter -- disse Philip. -- Ou pelo menos tentou. -- Sobre o qu? -- Sobre ser meio que uma alma perdida, eu acho. Adolescentes esto sempre tentando se encaixar. Se voc no se encaixa na turma popular, tenta ir pra dos atletas. Se isso no funciona, voc tenta a do teatro... ou a dos drogados -- disse ele. -- O Ed achava que o Peter talvez estivesse experimentando a turma dos gays e lsbicas. -- Ento o Peter foi falar com o Ed sobre ser gay? -- Ah, no. O Ed procurou o Peter. A gente lembrava como foi tentar entender o que havia de diferente com a gente na idade dele. Morramos de
10

Martha Stewart: apresentadora americana de programas sobre cuidados

com o lar e culinria. (N. da T.)

medo de algum outro garoto gay se aproximar e acabar com o nosso disfarce. -- Voc acha que o Peter podia estar com medo de o Ed acabar com o disfarce dele? -- Eu realmente duvido, especialmente no caso do Peter. -- Por qu? Philip sorriu para Patrick. -- Voc j ouviu falar de gaydar? Patrick sentiu que ficou vermelho. Era como estar na presena de um afro-americano que fazia uma piada racista, pelo simples fato de que podia. -- J. -- Gays no vm com uma marca evidente, no  como ter uma cor de pele diferente ou alguma deficincia fsica. Voc aprende a perceber comportamentos ou olhares que duram um pouco demais. Acaba ficando bom em descobrir se algum  gay ou se s est olhando fixamente pra voc porque voc  gay. Antes de perceber o que estava fazendo, Patrick se reclinou um pouco para longe de Philip, que comeou a rir. -- Relaxa. Sua energia diz claramente que voc prefere o outro time. -- Ele olhou para Patrick. -- E Peter Houghton tambm. -- No entendi... -- O Peter podia estar confuso sobre a sexualidade dele, mas ela estava clarssima para o Ed -- disse Philip. -- Aquele garoto  htero.

Peter entrou explosivamente pela porta da sala de reunies, enfurecido. -- Por que voc no veio me ver? Jordan ergueu o olhar das anotaes que estava fazendo em um bloco. Reparou distraidamente que Peter ganhara peso e, aparentemente, msculos. -- Tenho andado ocupado. -- Bom, eu estou preso aqui sozinho. -- , e eu estou dando duro pra garantir que essa condio no seja permanente -- respondeu Jordan. -- Sente-se.

Peter se sentou em uma cadeira com expresso de raiva. -- E se eu no estiver a fim de falar com voc hoje?  claro, voc nem sempre est a fim de falar comigo. -- Peter, que tal deixarmos essa baboseira de lado pra que eu possa fazer o meu trabalho? -- Como se eu me importasse se voc pode ou no fazer o seu trabalho. -- Mas deveria -- disse Jordan --, considerando que quem se beneficia dele  voc. Quando isso acabar, pensou Jordan, vou ser ou massacrado ou canonizado . -- Quero falar sobre os explosivos -- disse ele. -- Onde  possvel conseguir uma coisa assim?

-- No www.boom.com -- respondeu Peter. Jordan ficou olhando para ele fixamente. -- Bom, no est to longe da verdade -- disse Peter. -- O Livro de receitas do anarquista est disponvel online. Assim como umas dez mil receitas de coquetel molotov. -- No encontraram nenhum coquetel molotov na sua escola. Encontraram explosivos plsticos com detonadores e um dispositivo de relgio. --  -- disse Peter. -- Digamos que eu quisesse fazer uma bomba com coisas que tenho em casa. O que eu usaria? Peter deu de ombros. -- Jornal. Fertilizante, tipo Green Thumb, o tipo qumico. Algodo. E um pouco de diesel, mas isso voc provavelmente teria que arrumar em um posto de gasolina, ento tecnicamente no seria na sua casa. Jordan o viu contar ingredientes. Havia uma segurana na voz de Peter que era de arrepiar, mas mais perturbador ainda era o tom embutido nas palavras: Peter tinha orgulho disso. -- Voc j tinha feito esse tipo de coisa antes. -- A primeira vez que constru uma, foi s pra ver se eu conseguia. -- A voz de Peter ficou mais animada. -- Fiz mais algumas depois. Do tipo que voc joga e sai correndo em disparada. -- O que tornou essa diferente?

-- Os ingredientes, antes de tudo. Voc precisa obter o clorato de potssio a partir da gua sanitria, o que no  fcil, mas  meio como fazer um experimento no laboratrio de qumica. Meu pai entrou na cozinha quando eu estava filtrando os cristais -- disse Peter. -- Foi isso que eu falei que estava fazendo, pra ganhar pontos extras. -- Meu Deus. -- Depois que voc consegue isso, s precisa de vaselina, que fica debaixo da pia do banheiro, do gs que tem em um fogareiro de acampamento e do tipo de cera que se usa para enlatar picles. Fiquei meio nervoso de usar um detonador -- disse Peter. -- Eu nunca tinha feito nada to grande antes. Mas voc sabe, quando comecei a bolar o plano todo... -- Pare -- interrompeu Jordan. -- Pare bem a. -- Foi voc quem perguntou -- disse Peter, magoado. -- Mas essa  uma resposta que no posso ouvir. Meu trabalho  fazer com que voc seja absolvido, e no posso mentir diante do jri. Por outro lado, no posso mentir sobre coisas que eu no sei. E neste momento eu posso dizer com sinceridade que voc no planejou o que aconteceu naquele dia. Eu gostaria que continuasse assim, e, se voc tiver qualquer senso de autopreservao, tambm devia querer. Peter andou at a janela. O vidro estava embaado, arranhado depois de tantos anos. De qu?, perguntou-se Jordan. Detentos usando as unhas para tentar sair? Peter no conseguiria ver que, quela altura, a neve j tinha derretido e os primeiros aafres tinham brotado da terra. Talvez fosse melhor assim. -- Tenho ido  igreja -- anunciou Peter.

Jordan no gostava muito de religio organizada, mas no tinha nada contra o alento da escolha de cada um. -- Que timo. -- Estou indo porque me deixam sair da cela para ir aos cultos -- disse Peter. -- No porque encontrei Jesus nem nada do tipo. -- Tudo bem. Jordan se perguntou o que isso tinha a ver com os explosivos ou com qualquer outra coisa relacionada  defesa de Peter. Sinceramente, ele no tinha tempo para uma discusso filosfica com Peter sobre a essncia de Deus, pois tinha que encontrar Selena em duas horas para falar sobre uma potencial testemunha de defesa, mas alguma coisa o impediu de interromper o garoto. Peter se virou. -- Voc acredita em inferno? -- Acredito. E ele est cheio de advogados de defesa. Pode perguntar pra qualquer promotor. -- No, srio -- disse Peter. -- Aposto que vou pra l. Jordan forou um sorriso. -- No fao apostas se no tenho como saber o resultado. -- O padre Moreno, que faz os cultos daqui, sabe? Ele diz que, se voc aceita Jesus e se arrepende, voc  perdoado... como se a religio fosse um passe gigantesco que te livra de qualquer problema. Mas, sabe, isso no pode estar certo... porque o padre Moreno tambm diz que todas as vidas valem alguma coisa... mas e os dez garotos que morreram?

Jordan sabia que no devia, mas mesmo assim se ouviu fazendo uma pergunta a Peter. -- Por que voc elaborou essa frase assim? -- Assim como? -- Os dez garotos que morreram. Como se fosse uma progresso natural. Peter franziu a testa. -- Porque foi. -- Como assim? --  que nem os explosivos. Depois que voc acende o pavio, ou voc destri a bomba antes que ela exploda... ou a bomba destri tudo. Jordan ficou de p e deu um passo na direo de seu cliente. -- E quem acendeu o fsforo, Peter? Ele ergueu o rosto. -- Quem no acendeu? Josie agora pensava nos amigos como os que tinham ficado para trs. Haley Weaver fora enviada a Boston para fazer cirurgia plstica; John Eberhard estava em alguma clnica de reabilitao lendo livros infantis e aprendendo a beber usando canudo; Matt, Courtney e Maddie estavam mortos para sempre. Restavam apenas Josie, Drew, Emma e Brady -- uma turma que diminura tanto que mal dava para continuar chamando de turma.

Eles estavam no poro de Emma vendo um DVD. Essa era a extenso da vida social deles atualmente, porque Drew e Brady ainda estavam com curativos e gessos, e, alm do mais, mesmo que nenhum deles quisesse dizer em voz alta, ir a qualquer lugar que eles costumavam frequentar significava lembrar dos que no estavam mais l. Brady tinha levado o filme. Josie no conseguia se lembrar do nome, mas era um daqueles filmes que saram depois de American Pie, na esperana de fazer o mesmo sucesso de bilheteria, juntando garotas nuas e rapazes ousados com o que Hollywood imaginava que era a vida adolescente e misturando tudo numa espcie de salada csmica. Naquele momento, uma perseguio de carro enchia a tela. O personagem principal estava gritando e passando por uma ponte levadia que se abria lentamente. Josie sabia que ele ia conseguir passar. Primeiro, porque o filme era comdia. Segundo, porque ningum tinha coragem de matar o personagem principal antes de a histria acabar. Terceiro, seu professor de fsica usara esse mesmo filme para provar cientificamente que, dada a velocidade de um carro e a trajetria dos vetores, o ator podia realmente pular a ponte, mas s se no houvesse vento. Josie tambm sabia que a pessoa no carro no era real, no era nem o ator que fazia o papel, mas um dubl que j tinha feito isso mil vezes. Ainda assim, enquanto assistia  ao que se desenrolava na tela da televiso, ela viu uma coisa completamente diferente: o para-choque do carro batendo na extremidade da ponte que se abria. O metal retorcido girando no ar, batendo na gua e afundando. Adultos sempre diziam que adolescentes dirigiam rpido demais ou ficavam bbados ou no usavam camisinha porque pensavam que eram invencveis. Mas a verdade era que a qualquer momento voc podia morrer.

Brady podia ter um derrame no campo de futebol, como aqueles jovens atletas de faculdade que caam mortos de repente. Emma podia ser atingida por um raio. Drew podia entrar em uma escola comum em um dia incomum. Josie se levantou. -- Preciso de ar -- murmurou e correu pela escada do poro at a porta da casa de Emma. Sentou-se na varanda e olhou para o cu, para duas estrelas que se encostavam. No se era invencvel quando se era adolescente. S se era burro. Ela ouviu a porta abrir e fechar. -- E a?-- disse Drew, indo se sentar ao lado dela. -- Tudo bem? -- Tudo timo. Josie deu um sorriso. Parecia grudento, como um papel de parede que no tinha sido esticado direito. Mas ela tinha se tornado to boa nisso, to boa em fingir, que era natural. Quem teria imaginado que ela herdaria alguma coisa da me, afinal? Drew pegou uma folha de grama e comeou a parti-la em fiapos com o polegar. -- Eu digo a mesma coisa quando aquele psiclogo idiota da escola me chama pra perguntar como eu estou. -- Eu no sabia que ele chama voc tambm. -- Acho que ele chama todo mundo que estava, voc sabe, perto...

Ele no terminou a frase: Perto dos que no sobreviveram? Perto da morte naquele dia? Perto de acabar com a prpria vida? -- Voc acha que algum diz alguma coisa importante pro psiclogo? -- perguntou Josie. -- Duvido. Ele no estava l naquele dia. Ele no entende. -- Algum entende? -- Voc. Eu. O pessoal l embaixo -- disse Drew. -- Bem-vinda ao clube do qual ningum quer fazer parte. Voc  scia vitalcia. Josie no pretendia, mas as palavras de Drew, o cara idiota no filme tentando pular a ponte e o modo como as estrelas espetavam a pele dela, como inoculaes para uma doena terminal, de repente a fizeram chorar. Drew esticou o brao bom e passou pelos ombros dela, e ela se apoiou nele. Ela fechou os olhos e apertou o rosto contra a camisa de flanela. A sensao era muito familiar, como se ela tivesse voltado para a prpria cama depois de anos navegando pelo mundo e descobrisse que o colcho ainda se adaptava  forma do seu corpo. Mas, por outro lado, o tecido da camisa no tinha o mesmo cheiro de antes. O garoto que a abraava no era do mesmo tamanho, no tinha o mesmo formato, no era o mesmo garoto. -- Acho que no consigo fazer isso -- sussurrou Josie. Drew imediatamente se afastou. O rosto dele ficou vermelho, e ele no conseguiu olhar nos olhos de Josie. -- Eu no quis passar essa impresso. Voc e o Matt... -- A voz dele ficou sem inflexo. -- Eu sei que voc ainda  dele. Josie olhou para o cu. Ela assentiu para ele, como se fosse isso que quisesse dizer desde o comeo.

Tudo comeou quando a oficina deixou um recado na secretria eletrnica. Peter no tinha comparecido para fazer a vistoria do carro. Ele gostaria de remarcar? Lewis estava sozinho em casa quando ouviu o recado. Ligou para o nmero antes de perceber o que estava fazendo, e no foi surpresa para ele comparecer ao horrio remarcado. Ele saiu do carro e entregou a chave para o funcionrio. -- Pode esperar l dentro -- disse o homem. -- Tem caf. Lewis se serviu de um copo e colocou trs colheres de acar e muito leite, do mesmo jeito que Peter faria. Sentou-se e, em vez de pegar um exemplar velho da revista Newsweek, folheou uma PC Gamer. Um, pensou ele. Dois, trs. Na hora, o funcionrio entrou na sala de espera. -- Sr. Houghton -- disse ele -- , o carro l fora s precisa fazer vistoria estadual em julho. -- Eu sei. -- Mas voc... voc marcou esse horrio. Lewis assentiu. -- O outro carro no est comigo no momento. Estava confiscado em algum lugar. Com os livros, o computador, os dirios e s Deus sabe o que mais de Peter. O funcionrio olhou para ele como se faz quando voc se d conta de que a conversa que voc est tendo saiu do plano racional.

-- Senhor -- disse ele -- , no podemos vistoriar um carro que no est aqui. -- No -- disse Lewis. -- Claro que no. -- Ele colocou a revista na mesa de centro e ajeitou a capa amassada. Em seguida, passou a mo pela testa. --  que... o meu filho marcou esse horrio -- disse ele. -- Eu quis cumpri-lo por causa dele. O funcionrio assentiu e se afastou lentamente. -- Certo... Que tal eu deixar o carro estacionado l fora? -- S pra voc saber -- disse Lewis baixinho -- , ele teria passado na vistoria. Uma vez, quando Peter era pequeno, Lacy o mandou para um acampamento para o qual Joey j tinha ido e adorado. Era em algum lugar depois do rio Vermont, e os campistas faziam esqui aqutico no lago Fairlee, tinham aulas de vela e faziam percursos noturnos de canoa. Peter ligou na primeira noite implorando para voltar para casa. Apesar de Lacy estar pronta para ligar o carro e ir busc-lo, Lewis a convenceu a no ir. "Se ele no for at o fim", dissera Lewis, "como vai saber se consegue?" Ao final de duas semanas, quando Lacy viu Peter novamente, havia mudanas nele. Estava mais alto e tinha ganhado peso. Mas tambm havia alguma coisa diferente em seus olhos, uma luz que tinha se consumido e virado cinzas de alguma maneira. Quando Peter olhou para ela, pareceu na defensiva, como se entendesse que ela no era mais uma aliada. Agora, ele estava olhando para ela do mesmo jeito enquanto ela sorria para ele, fingindo que no havia brilho de luz fluorescente acima da cabea dele, que ela podia esticar a mo e toc-lo em vez de olhar do outro lado da linha vermelha que tinha sido desenhada no cho da cadeia.

-- Sabe o que encontrei no sto ontem? Aquele dinossauro que voc adorava, o que rugia quando voc puxava o rabo. Eu achava que voc ia carregar aquilo at o altar no dia do seu casamento... -- Lacy parou de falar ao se dar conta de que talvez nunca existisse casamento para Peter, nem qualquer caminhada que no fosse dentro da priso. -- Bom -- disse ela, aumentando a fora do sorriso -- , eu o coloquei na sua cama. Peter olhou para ela. -- T bom. -- Acho que a sua festa de aniversrio que eu mais gostei foi a de dinossauro, quando enterramos aqueles ossos de plstico na caixa de areia e voc teve que cavar pra encontrar -- disse Lacy. -- Lembra? -- Lembro que ningum foi. --  claro que foi... -- Cinco crianas, talvez, as que as mes obrigaram a estar l -- disse Peter. -- Meu Deus. Eu tinha seis anos. Por que estamos falando sobre isso? Porque eu no sei o que mais dizer , pensou Lacy, e olhou para a sala de visitao. S havia alguns detentos e uns poucos devotados que ainda acreditavam neles, em lados opostos daquela linha vermelha. Lacy se deu conta de que, na verdade, aquela linha divisria entre ela e Peter existia havia anos. Se voc mantivesse o queixo erguido, podia at se convencer de que no havia nada separando vocs. S quando voc tentava atravessar a linha, como agora, entendia como uma barreira podia ser real. -- Peter -- disse Lacy de repente -- , desculpa por no ter ido buscar voc naquele acampamento.

Ele olhou para ela como se ela fosse louca. -- Hum, valeu, mas j superei isso faz uns cem anos. -- Eu sei. Mas ainda posso pedir desculpas. Ela lamentava umas mil coisas de repente: no ter prestado mais ateno quando Peter mostrou para ela algumas habilidades novas em programao; no ter comprado para ele outro cachorro depois que Dozer morreu; no terem voltado para o Caribe nas ltimas frias de inverno, porque Lacy supusera erroneamente que tinham todo o tempo do mundo. -- Pedir desculpas no muda nada. -- Muda pra pessoa que pede. Peter gemeu. -- Que porra  essa? Histrias para aquecer o garoto sem corao? Lacy se encolheu. -- Voc no precisa falar palavro pra... -- Porra -- cantarolou Peter. -- Porra porra porra porra porra. -- No vou ficar aqui sentada ouvindo isso... -- Vai, sim -- disse Peter. -- Sabe por qu? Porque, se voc for embora, vai ser s mais uma coisa que vai lamentar. Lacy estava se levantando da cadeira, mas a verdade nas palavras de Peter pesou sobre ela e a fez sentar novamente. Parecia que ele a conhecia bem mais do que ela algum dia o conhecera.

-- Me -- ele disse com gentileza, a voz mal passando da linha vermelha. -- Eu no quis dizer isso. Ela olhou para ele com a garganta entalada de lgrimas. -- Eu sei, Peter. -- Fico feliz de voc vir aqui. -- Ele engoliu em seco. -- Voc  a nica. -- Seu pai... Peter deu uma risada debochada. -- No sei o que ele anda dizendo pra voc, mas no vejo meu pai desde a primeira vez que ele veio. Lewis no ia ver Peter? Isso era novidade para Lacy. Para onde ele ia quando saa de casa dizendo que ia at a cadeia? Ela imaginou Peter sentado na cela a cada duas semanas, esperando uma visita que no chegava. Lacy forou um sorriso -- ela se aborreceria quando estivesse sozinha, no com Peter -- e imediatamente mudou de assunto. -- Para a audincia... eu trouxe um bom palet pra voc usar. -- O Jordan disse que eu no preciso. Pra audincia, tenho que usar essas roupas. S preciso de palet no julgamento. -- Peter sorriu um pouco. -- Espero que voc ainda no tenha tirado as etiquetas. -- Eu no comprei.  o blazer de entrevistas do Joey. Eles se olharam.

-- Ah -- murmurou Peter. -- Ento era isso que voc estava fazendo no sto. Eles fizeram silncio ao se lembrar de Joey descendo a escada com o blazer de marca que Lacy comprara em Boston com um bom desconto. Era para as entrevistas de faculdade; Joey as estava marcando na poca do acidente. -- Voc s vezes deseja que eu tivesse morrido no lugar do Joey? -- Peter perguntou. O corao de Lacy pesou como uma pedra. --  claro que no. -- Mas voc ainda teria o Joey -- disse ele. -- E nada disso teria acontecido. Ela pensou em Janet Isinghoff, a mulher que no a quisera como parteira. Parte de crescer era aprender a no ser to sincero, aprender quando era melhor mentir em vez de magoar algum com a verdade. Era por isso que Lacy ia para aquelas visitas com um sorriso na cara como uma mscara de Halloween, quando na verdade queria cair no choro cada vez que via Peter sendo levado para a sala de visitao por um agente penitencirio. Era por isso que falava sobre o acampamento e os bichos de pelcia, as marcas do filho de quem ela lembrava, em vez de descobrir o que ele havia se tornado. Mas Peter nunca aprendera a dizer uma coisa quando sentia outra. Era uma das razes por que se magoava tantas vezes. -- Teria sido um final feliz -- disse Peter. Lacy inspirou. -- No sem voc junto.

Ele olhou para ela por um longo instante. -- Voc est mentindo -- disse ele, sem se zangar, sem acusar. Apenas como se estivesse declarando os fatos de uma maneira que ela no estava. -- No estou... -- Voc pode repetir isso um milho de vezes que no vai se tornar verdade. -- Peter sorriu ento, com tanta sinceridade que Lacy sentiu a mesma dor de um golpe de chicote. -- Voc pode enganar o meu pai, a polcia e qualquer outra pessoa que te escute -- disse ele. -- Mas no pode enganar outro mentiroso. Quando Diana parou na frente do quadro com a agenda do tribunal para ver qual juiz presidiria a audincia de acusao de Houghton, Jordan McAfee j estava l. Diana o odiava por mero princpio, porque ele no tinha rasgado dois pares de meia-cala ao tentar vesti-los, porque no estava com o cabelo ruim, porque no parecia estar nada incomodado com o fato de toda a cidade de Sterling estar na entrada do frum querendo sangue. -- Bom dia -- ele disse, sem nem olhar para ela. Diana no respondeu. Seu queixo quase caiu quando ela leu o nome do juiz que presidiria o caso. -- Acho que h algum erro -- ela disse para a escriv. A escriv olhou para o quadro, por cima do ombro dela. -- A juza Cormier est presidindo hoje. -- No caso Houghton? Voc est brincando?

A escriv balanou a cabea. -- No. -- Mas a filha dela... -- Diana fechou a boca, com o pensamento em torvelinho. -- Precisamos de uma reunio privada com a juza antes da audincia. Assim que a escriv saiu, Diana olhou para Jordan. -- Que diabos Cormier est pensando? No era comum Jordan ver Diana Leven suar e, francamente, era divertido. Para ser sincero, Jordan tinha ficado to chocado quanto ela ao ver o nome da juza Cormier no quadro, mas no ia dizer isso para Diana. No entregar o jogo era a nica vantagem que ele tinha agora, porque, honestamente, a situao estava feia para ele. Diana franziu a testa. -- Voc no esperava que ela... A escriv voltou. Jordan se divertia com Eleanor; ela aliviava a barra dele no frum e at ria das piadas bobas de loira que ele sempre lhe contava, enquanto a maioria dos escrives se achava muito importante. -- A Meritssima vai receber vocs agora -- disse Eleanor. Quando Jordan a estava seguindo at a sala da juza, ele se inclinou e sussurrou a frase final que ia falar antes de Leven interromper grosseiramente sua piada ao chegar. -- Ento o marido dela olha para a caixa e diz: "Querida, no  um quebra-cabea...  Sucrilhos!"

Eleanor riu e Diana fez cara de raiva. -- O que  isso, alguma espcie de cdigo? -- , Diana.  a linguagem secreta dos advogados de defesa e significa: Faa o que fizer, no conte para a promotora o que estou dizend o. -- Eu no ficaria surpresa -- murmurou Diana, e logo eles chegaram  sala. A juza Cormier j estava de toga, pronta para comear a audincia de acusao. Estava de braos cruzados, encostada  mesa. -- Muito bem, senhores advogados, temos muitas pessoas no tribunal esperando. Qual  o problema? Diana olhou para Jordan, mas ele apenas ergueu as sobrancelhas. Se ela queria cutucar o vespeiro, tudo bem, mas ele ficaria longe quando isso acontecesse. Que Cormier tivesse ressentimento da acusao, no da defesa. -- Juza -- disse Diana hesitante -- , pelo que sei, sua filha estava na escola na hora dos disparos. Na verdade, ns a entrevistamos. Jordan tinha que dar crdito a Cormier; ela conseguiu encarar Diana como se a promotora no tivesse acabado de apresentar um fato vlido e perturbador, mas tivesse dito uma coisa ridcula. Como a frase final de uma piada de loiras, por exemplo. -- Estou ciente disso -- disse a juza. -- Havia mil crianas na escola na hora dos disparos.

--

 claro, Meritssima.  que... eu queria perguntar, antes de

entrarmos no tribunal, se a corte est planejando conduzir apenas a acusao ou se a senhora est planejando presidir o caso todo. Jordan olhou para Diana, se perguntando por que ela tinha tanta certeza de que Cormier no deveria presidir o caso. O que ela sabia sobre Josie Cormier que ele no sabia? -- Como falei, havia milhares de crianas na escola. Alguns dos pais delas so policiais, alguns trabalham aqui na corte superior. Um at trabalha no seu gabinete, sra. Leven. -- Sim, Meritssima... mas esse advogado em particular no est trabalhando neste caso. A juza a encarou calmamente. -- A senhora vai convocar minha filha como testemunha, sra. Leven? Diana hesitou. -- No, Meritssima. -- Bom, eu li a declarao da minha filha, senhora promotora, e no vejo razo para no irmos em frente. Jordan repassou o que sabia at ento: Peter tinha perguntado sobre o bem-estar de Josie. Josie estava presente durante o tiroteio. A foto de Josie no anurio, uma das provas, era a nica que tinha sido marcada com as palavras DEIXAR VIVA.

Mas, de acordo com a me, o que ela havia contado  polcia no afetaria o caso. Segundo Diana, nada do que Josie sabia era importante o bastante para que ela se tornasse testemunha de acusao. Ele baixou o olhar, a mente repassando os fatos sem parar, como um vdeo que se repetia. Mas que no fazia sentido. A antiga escola fundamental que estava servindo de instalao para a Sterling High no tinha refeitrio; afinal, as criancinhas comiam na sala, sentadas na carteira. Mas, por algum motivo, isso no era considerado saudvel para os adolescentes. Dessa forma, a biblioteca se transformara em um refeitrio improvisado. No havia mais livros nem prateleiras, mas o tapete ainda tinha o ABC bordado e ainda havia um pster do Gato da Cartola pendurado ao lado das portas duplas. Josie no se sentava mais com os amigos no refeitrio. No parecia certo, como se uma massa crtica estivesse faltando e eles provavelmente fossem se romper como um tomo sob presso. Em vez disso, se escondia em um canto da biblioteca, a rea com elevaes atapetadas, onde ela gostava de imaginar uma professora lendo em voz alta para os alunos pequenos. Hoje, quando os alunos chegaram  escola, as cmeras de TV j estavam esperando. Era preciso passar por elas para chegar  porta da frente. Elas tinham diminudo ao longo da semana anterior -- sem dvida havia alguma outra tragdia em algum outro lugar para os reprteres cobrirem -- , mas voltaram com fora total para acompanhar a audincia de acusao. Josie se perguntava como eles iriam da escola at o frum a tempo. Perguntava-se quantas vezes ao longo do ensino mdio eles voltariam. No ltimo dia de aula? Nos aniversrios do tiroteio? Na

formatura? Ela imaginava o artigo da revista People que seria escrito em uma dcada sobre os sobreviventes do massacre de Sterling. "Onde eles esto agora?" Ser que John Eberhard estaria jogando hquei de novo, ou mesmo andando? Ser que os pais de Courtney teriam se mudado de Sterling? Onde Josie estaria? E Peter? A me dela era a juza do julgamento dele. Mesmo que ela no falasse sobre isso com a filha -- legalmente, no podia --, Josie sabia. Estava presa em algum ponto entre puro alvio por saber que a me presidiria o caso e absoluto pavor. Por um lado, sabia que a me comearia a juntar as peas do que aconteceu naquele dia, e isso significava que Josie no precisaria falar sobre isso. Por outro lado, quando a me comeasse a juntar as peas, o que mais descobriria? Drew entrou na biblioteca jogando uma laranja no ar e pegando-a repetidamente. Olhou ao redor, para os alunos sentados em pequenos grupos no tapete, equilibrando as bandejas do almoo nos joelhos, e viu Josie. -- E a? -- ele perguntou, sentando-se ao lado dela. -- Nada de novo. -- Os chacais pegaram voc? Ele estava se referindo aos reprteres de televiso. -- Eu meio que passei correndo. -- Queria que eles fossem todos se foder -- disse Drew. Josie apoiou a cabea na parede.

-- Eu queria que tudo voltasse ao normal. -- Talvez depois do julgamento. -- Drew se virou para ela. --  estranho? Voc sabe, com a sua me e tal? -- A gente no fala sobre isso. A gente no fala sobre nada, na verdade. Ela pegou a garrafa de gua e tomou um gole para que Drew no percebesse que sua mo estava tremendo. -- Ele no  louco. -- Quem? -- Peter Houghton. Vi os olhos dele naquele dia. Ele sabia exatamente que merda estava fazendo. -- Drew, cala a boca -- Josie suspirou. -- Bom,  verdade. No importa o que uma porra de um advogado fodo vai dizer pra livrar a cara dele. -- Acho que quem decide isso  o jri, no voc. -- Nossa, Josie -- disse ele. -- Voc  a ltima pessoa que eu imaginaria que ia querer defender o cara. -- No estou defendendo. S estou dizendo como a lei funciona. -- Ah, valeu, Marcia Clark.11 Mas de alguma forma voc liga bem menos pra isso quando  voc que tem uma bala tirada de dentro do ombro. Ou quando voc v seu melhor amigo, ou seu namorado, sangrar at morrer
11

Marcia Clark: advogada que ganhou fama ao ser a promotora no caso O.

J. Simpson. (N. da T.)

na sua... -- Ele parou de falar de repente, quando Josie derrubou a garrafa de gua, molhando a si mesma e Drew. -- Desculpa -- disse ela, limpando a baguna com um guardanapo. Drew suspirou. -- Desculpa tambm. Acho que estou um pouco nervoso com essas cmeras e tudo mais. Ele arrancou um pedao do guardanapo molhado e o enfiou na boca, depois cuspiu a bolinha nas costas de uma garota acima do peso que tocava tuba na banda da escola. Ai, meu Deus, pensou Josie. Nada mudou . Drew pegou outro pedao de guardanapo e fez uma bolinha na palma da mo. -- Para -- disse Josie. -- O qu? -- Drew deu de ombros. -- Era voc que queria que tudo voltasse ao normal. Havia quatro cmeras alm de televiso disso, no

tribunal: ABC, NBC, CBS e CNN;

reprteres

da Time, Newsweek, The New York Times , The Boston Globe e da Associated Press. A imprensa havia se reunido com Alex na semana anterior na sala dela, para que ela pudesse decidir quem seria representado no tribunal enquanto os outros esperavam do lado de fora, nos degraus do frum. Ela estava ciente das luzinhas vermelhas das cmeras que indicavam que estavam gravando, do som de canetas no papel, dos reprteres escrevendo as palavras que ela dizia. Peter Houghton tinha ficado famoso, e, como resultado disso, Alex agora teria seus quinze minutos de fama. Talvez sessenta, ela pensou. Ela demoraria esse tempo todo somente para ler as acusaes.

-- Sr. Houghton -- disse Alex --, voc est sendo acusado de, no dia 6 de maro de 2007, ter cometido homicdio qualificado, conforme o item 631:1-A, tendo causado propositalmente a morte de outra pessoa, a saber, Courtney Ignatio. Voc est sendo acusado de, no dia 6 de maro de 2007, ter cometido homicdio qualificado, conforme o item 631:1-A, tendo causado propositalmente a morte de outra pessoa, a saber... -- Ela olhou para o nome. -- Matthew Royston. As palavras eram rotina, coisa que Alex podia fazer at dormindo. Mas se concentrou nelas, em manter a voz comedida e regular, em dar peso ao nome de cada adolescente. Os assentos estavam lotados, e Alex reconheceu os pais desses alunos, e at mesmo alguns estudantes. Uma me, que Alex no conhecia de vista nem de nome, estava sentada na fileira da frente, atrs da mesa da defesa, e segurava uma foto de vinte por vinte e cinco centmetros de uma garota sorridente. Jordan McAfee estava sentado ao lado de seu cliente, que estava com o macaco laranja da priso e algemas e estava fazendo tudo que podia para evitar olhar para Alex enquanto ela lia as acusaes. -- Voc est sendo acusado de, no dia 6 de maro de 2007, ter cometido homicdio qualificado, conforme o item 631:1-A, tendo causado propositalmente a morte de outra pessoa, a saber, Justin Friedman...Voc est sendo acusado de, no dia 6 de maro de 2007, ter cometido homicdio qualificado, conforme o item 631:1-A, tendo causado propositalmente a morte de outra pessoa, a saber, Christopher McPhee...Voc est sendo acusado de, no dia 6 de maro de 2007, ter cometido homicdio qualificado, conforme o item 631:1-A, tendo causado propositalmente a morte de outra pessoa, a saber, Grace Murtaugh...

A mulher com a foto ficou de p enquanto Alex lia as acusaes. Ela se inclinou por cima da barra divisria, entre Peter Houghton e seu advogado, e bateu o porta-retratos com tanta fora na mesa que o vidro rachou. -- Voc se lembra dela? -- gritou a mulher com a voz grossa. -- Se lembra da Grace? McAfee se virou rapidamente. Peter baixou a cabea, mantendo o olhar na mesa  sua frente. Alex j tivera pessoas descontroladas no tribunal antes, mas no conseguia se lembrar de nenhuma que lhe tivesse tirado o flego. A dor dessa me parecia ocupar todo o espao vazio do aposento, parecia aumentar as emoes dos outros espectadores ao ponto de fervura. Suas mos comearam a tremer, e ela as colocou debaixo da mesa para que ningum pudesse v-las. -- Senhora -- disse Alex -- , vou ter que pedir que se sente... -- Voc olhou na cara dela quando atirou nela, seu filho da me? Olhou?, pensou Alex. -- Meritssima -- disse McAfee. A capacidade de Alex de julgar esse caso imparcialmente j tinha sido desafiada pela promotoria. Apesar de no precisar justificar suas decises para ningum, ela disse aos advogados que conseguia facilmente separar o envolvimento pessoal e profissional nesse caso. Ela pensava que seria uma questo de ver Josie no como filha especificamente, mas como uma das centenas de pessoas presentes durante os disparos. No tinha se dado

conta que acabaria sendo questo de ver a si mesma no como juza, mas como mais uma me. Voc consegue, disse a si mesma. Lembre-se apenas do motivo pelo qual est aqui. -- Meirinhos -- murmurou Alex, e os dois homens musculosos pegaram a mulher pelos braos para escolt-la para fora do tribunal. -- Voc vai queimar no inferno! -- gritou a mulher, enquanto as cmeras de televiso acompanhavam sua conduo pelo corredor. Alex no a seguiu com o olhar. Manteve os olhos em Peter Houghton, enquanto McAfee estava distrado. -- Sr. McAfee -- disse ela. -- Sim, Meritssima? -- Por favor, pea ao seu cliente que abra a mo. -- Me desculpe, Meritssima, mas acho que j houve preconceito suficiente... -- Obedea, advogado. McAfee assentiu para Peter, que ergueu as mos algemadas e as abriu. Brilhando na palma da mo de Peter havia um pedao de vidro do portaretratos. O advogado empalideceu e o pegou da mo dele. -- Obrigado, Meritssima -- ele murmurou. -- Disponha. -- Alex olhou para o pblico e limpou a garganta. -- Acredito que no haver mais rompantes assim, seno serei forada a fechar a audincia ao pblico.

Ela continuou a ler as acusaes, em um tribunal to silencioso que dava para ouvir coraes se partindo e sentir a esperana flutuando at o teto. -- Voc est sendo acusado de, no dia 6 de maro de 2007, ter cometido homicdio qualificado, conforme o item 631:1-A, tendo causado propositalmente a morte de outra pessoa, a saber, Madeleine Shaw. Voc est sendo acusado de, no dia 6 de maro de 2007, ter cometido homicdio qualificado, conforme o item 631:1-A, tendo causado propositalmente a morte de outra pessoa, a saber, Edward McCabe. Voc est sendo acusado de, no dia 6 de maro de 2007, ter cometido homicdio qualificado, conforme o item 631:1-A, tendo causado propositalmente a morte de outra pessoa, a saber, Emma Alexis. Voc est sendo acusado de porte de armas de fogo em rea escolar. Posse de aparatos explosivos. Uso ilegal de aparato explosivo. Receptao de mercadoria roubada, a saber, armas de fogo. Quando Alex terminou, estava com a voz rouca. -- Sr. McAfee -- disse ela --, como seu cliente se declara? -- Inocente de todas as acusaes, Meritssima. Um murmrio se espalhou como vrus pelo tribunal, coisa que sempre acontecia aps uma declarao de inocncia, e isso sempre pareceu ridculo para Alex. O que o ru podia fazer? Dizer que era culpado? -- Considerando a natureza das acusaes, voc no tem direito a fiana. Vai permanecer sob custdia do xerife. Alex encerrou a audincia e foi para sua sala. L dentro, com a porta fechada, andou de um lado para o outro como um atleta em uma disputa brutal. Se havia uma coisa da qual estava segura era sua capacidade de ser uma juza justa. Mas, se tinha sido to difcil na audincia de acusao,

como ela agiria quando a promotoria comeasse a delinear os eventos daquele dia? -- Eleanor -- disse Alex, apertando o boto do interfone para chamar a escriv --, deixe minha agenda livre por duas horas. -- Mas a senhora... -- Faa isso -- ela ordenou. Ela ainda conseguia ver o rosto dos pais no meio do pblico. O que eles haviam perdido estava estampado como uma cicatriz coletiva. Alex tirou a toga e seguiu para a escada dos fundos, que levava ao estacionamento. Mas, em vez de parar para fumar um cigarro, entrou no carro. Dirigiu direto at a escola e estacionou na rea para carros de bombeiro. Ainda havia uma van da imprensa no estacionamento dos professores. Alex entrou em pnico at se dar conta de que a placa era de Nova York, e de que a chance de algum reconhec-la sem a toga era pequena. A nica pessoa que tinha o direito de pedir a Alex para se retirar do caso era Josie, mas ela sabia que a filha entenderia. Era seu primeiro grande caso na corte superior. Seria dar o exemplo para Josie de comportamento saudvel, de seguir com a vida normal. Alex tentou ignorar a ltima razo pela qual estava lutando para permanecer no caso, a que a perfurava como um espinho, como uma farpa, e que a machucava fosse qual fosse a abordagem: ela tinha uma chance maior de descobrir tudo que sua filha havia passado pela promotoria e pela defesa do que pela boca de Josie. Alex entrou na secretaria.

-- Preciso pegar minha filha -- disse, e a secretria da escola empurrou uma prancheta na direo dela, com informaes a serem preenchidas. ALUNO, leu Alex. HORA DE SADA. MOTIVO. HORA DE CHEGADA. "Josie Cormier", escreveu. "10h45. Ortodontista." Ela sentia os olhos da secretria sobre ela. Estava claro que a mulher queria saber por que a juza Cormier estava de p em frente  mesa dela em vez de estar no frum presidindo a acusao que todos estavam esperando. -- Se voc puder mandar a Josie para o carro... -- disse Alex, retirando-se da secretaria. Em cinco minutos, a garota abriu a porta do passageiro e se sentou. -- Eu no uso aparelho. -- Precisei pensar rpido em uma desculpa -- respondeu Alex. -- Foi a primeira que surgiu na minha cabea. -- Ento por que voc est aqui? Alex viu Josie aumentar o fluxo da ventilao dentro do veculo. -- Preciso de motivo pra almoar com a minha filha? -- So umas dez e meia. -- Ento vamos matar aula. -- Voc que sabe -- disse Josie. Alex saiu dirigindo. Josie estava a meio metro dela, mas era como se estivessem em continentes diferentes. A filha olhava com firmeza pela janela, vendo o mundo passar.

-- Acabou? -- perguntou Josie. -- A audincia? Sim. -- Foi por isso que voc veio aqui? Como Alex podia descrever a sensao de ver todas aquelas mes e pais sem nome no meio do pblico, sem os filhos entre eles? Se voc perdia a filha, ser que ainda podia ser chamada de me? E se voc tivesse sido burra o bastante para deixar que ela se afastasse? Alex dirigiu at o fim da rua que dava vista para o rio. Ele flua rapidamente, como sempre acontecia na primavera. Se voc no soubesse, se estivesse olhando para uma foto, poderia querer dar um mergulho. No dava para perceber s de olhar que a gua roubaria seu flego, que a correnteza o levaria para longe. -- Eu queria te ver -- confessou Alex. -- Tinha pessoas no meu tribunal hoje... pessoas que provavelmente acordam todos os dias desejando ter feito isso, ter sado no meio do dia pra almoar com os filhos em vez de dizer a si mesmas que poderiam fazer isso outro dia. -- Ela se virou para Josie. -- Essas pessoas no tiveram a chance de ter outros dias. Josie puxou uma linha solta e ficou em silncio por tanto tempo que Alex comeou a se dar chutes mentais. Sua investida espontnea na maternidade fora um fracasso. Alex tinha sido abalada pelas prprias emoes durante a audincia de acusao e, em vez de dizer a si mesma que estava sendo ridcula, agiu com base nisso. Mas isso era exatamente o que acontecia, no era, quando voc comeava a remexer na areia movedia dos sentimentos, em vez de se basear nos fatos? Para o inferno com a demonstrao de sentimentos; nunca dava certo.

-- Matar aula -- disse Josie baixinho. -- Almoo, no. Alex se recostou no banco, aliviada. -- Voc que sabe -- brincou, esperando at que Josie olhasse em seus olhos. -- Quero conversar com voc sobre o caso. -- Achei que voc no pudesse. --  mais ou menos sobre isso que eu queria conversar. Mesmo que essa fosse a maior oportunidade do mundo na minha carreira, eu desistiria se acreditasse que permanecer no caso tornaria as coisas mais difceis pra voc. Voc ainda pode me procurar na hora que quiser pra me falar o que quiser. As duas fingiram por um momento que Josie fazia isso regularmente, quando na verdade havia anos que ela no compartilhava nada particular com a me. Josie olhou de lado para ela. -- Mesmo sobre a audincia? -- Mesmo sobre a audincia. -- O que o Peter disse no tribunal? -- perguntou Josie. -- Nada.  o advogado quem fala. -- Como ele estava? Alex pensou por um instante. Ao ver Peter pela primeira vez com o macaco da priso, ela ficou impressionada com quanto ele tinha crescido. Apesar de t-lo visto ao longo dos anos -- no fundo da sala de aula durante eventos escolares, no xerox onde ele e Josie trabalharam juntos por algum

tempo, at mesmo dirigindo pela Rua Main --, ela ainda esperava que ele fosse o mesmo garotinho do jardim de infncia de Josie. Alex pensou na roupa laranja, nos chinelos de borracha, nas algemas. -- Ele parecia um ru -- disse ela. -- Se ele for condenado -- perguntou Josie --, ele nunca vai sair da priso, vai? Alex sentiu o corao se apertar. Josie estava tentando no demonstrar, mas como podia no ter medo de que alguma coisa acontecesse de novo? Por outro lado, como Alex, sendo juza, poderia prometer condenar Peter antes mesmo de ele ser julgado? Ela se sentiu caminhando na corda bamba entre a responsabilidade pessoal e a tica profissional, esforando-se ao mximo para no cair. -- Voc no precisa se preocupar com isso... -- Isso no  resposta -- disse Josie. -- Ele provavelmente vai passar a vida na cadeia, sim. -- Se ele ficar na priso, as pessoas podem ir falar com ele? De repente, Alex no conseguiu mais seguir a lgica de Josie. -- Por qu? Voc quer falar com ele? -- No sei. -- No consigo imaginar por que voc iria querer, depois... -- Eu era amiga dele -- disse Josie. -- Voc no  amiga do Peter h anos -- respondeu Alex, mas de repente uma coisa estalou em sua mente e ela entendeu por que a filha, que

aparentemente estava apavorada pela potencial sada de Peter da priso, poderia ainda querer se comunicar com ele aps a condenao: remorso. Talvez Josie acreditasse que alguma coisa que fez ou deixou de fazer tivesse levado Peter ao ponto de sair atirando pela Sterling High. Se Alex no entendesse o significado de uma conscincia culpada, quem entenderia? -- Querida, tem gente cuidando do Peter, gente cujo trabalho  cuidar dele. Voc no precisa fazer isso. -- Alex sorriu um pouco. -- Voc s precisa cuidar de si mesma, est certo? Josie afastou o olhar. -- Tenho prova na prxima aula -- disse ela. -- Podemos voltar pra escola agora? Alex dirigiu em silncio, porque quela altura j era tarde para fazer qualquer correo, para dizer  filha que havia algum cuidando dela tambm, que ela no estava sozinha. s duas da manh, quando Jordan j balanava um beb choroso e doente nos braos havia cinco horas, ele se virou para Selena. -- Por que tivemos um filho mesmo? Selena estava sentada  mesa da cozinha -- bem, no, na verdade estava espalhada sobre a mesa, com a cabea apoiada nos braos. -- Porque voc queria passar adiante a marca gentica aprimorada da minha linhagem. -- Sinceramente, acho que estamos todos passando adiante algum vrus.

De repente, Selena se sentou. -- Ei -- sussurrou ela. -- Ele dormiu. -- Graas a Deus. Pegue ele aqui. -- Nem se eu estivesse louca. Ele no ficou melhor em nenhum outro lugar o dia todo. Jordan olhou bravo para ela e afundou na cadeira em frente, com as mos ainda ao redor do filho adormecido. -- Ele no  o nico. -- Estamos falando sobre o seu caso de novo? Porque, pra ser sincera, Jordan, estou to cansada que preciso de alguma dica se formos mudar de assunto... -- S no consigo entender por que ela no se afastou. Quando a promotoria tocou no assunto da filha, a Cormier deixou de lado... e, o mais importante, a Leven tambm. Selena bocejou e ficou de p. -- Voc est olhando os dentes de um cavalo dado, querido. A Cormier com certeza  uma juza melhor pra voc do que o Wagner. -- Mas alguma coisa est me incomodando nisso. Ela sorriu para ele com indulgncia. -- Est com assadura, ? -- Mesmo que a filha dela no lembre de nada agora, isso no significa que no vai lembrar. E como a Cormier pode ser imparcial sabendo que o namorado da filha levou um tiro do meu cliente com ela olhando?

-- Bom, voc pode entrar com uma petio para tirar a Cormier do caso -- disse Selena. -- Ou pode esperar que a Diana faa isso. Jordan olhou para ela. -- Se eu fosse voc, ficaria de boca calada -- ela completou. Ele esticou a mo e puxou o cinto do roupo dela, que desamarrou. -- Quando  que eu fico de boca calada? Selena riu. -- Sempre tem uma primeira vez. Cada pavimento na priso de segurana mxima tinha quatro celas, de dois por dois e meio metros. Dentro da cela havia um beliche e um vaso sanitrio. Peter demorou trs dias para conseguir defecar com os agentes penitencirios andando de um lado para o outro sem que o intestino se contrasse, mas -- e foi assim que ele soube que estava se acostumando a estar ali -- agora provavelmente conseguiria defecar quando quisesse. Em uma extremidade do corredor da priso de segurana mxima, havia uma pequena televiso. Como s havia lugar para uma cadeira na frente da TV, o cara mais antigo era quem se sentava. Todos os outros ficavam em p atrs dele, como mendigos na fila da sopa, para poderem ver. No havia muitos programas com os quais os detentos concordavam. A maioria era da MTV, apesar de eles sempre colocarem no de Jerry Springer.12 Peter concluiu que isso acontecia porque, independentemente de quanto voc ferrava sua vida, era sempre bom saber que havia pessoas mais burras do que voc por a.
12

Jerry

Springer:

apresentador

de

um

programa

de

auditrio

sensacionalista. (N. da T.)

Se algum detento fizesse alguma coisa errada -- nem precisava ser Peter, mas, por exemplo, um babaca como Satan Jones (Satan no era o nome verdadeiro dele; era Gaylord, mas, se voc mencionasse isso, mesmo que em sussurro, ele pulava no seu pescoo), que desenhou na parede da cela uma caricatura de dois dos agentes penitencirios fazendo atividades horizontais --, todos perdiam o privilgio da televiso durante uma semana. Isso deixava a outra extremidade para que eles perambulassem: um chuveiro com cortina de plstico e um telefone, do qual voc podia ligar a cobrar por um dlar por minuto, e a cada poucos segundos ouvia "Esta ligao est sendo feita do Departamento de Correo do Condado de Grafton", para o caso de voc ter tido sorte o bastante para esquecer. Peter estava fazendo abdominais, coisa que odiava. Ele odiava todos os tipos de exerccio, na verdade. Mas a alternativa era ficar sentado murchando para que todos achassem que podiam implicar com voc, ou ir para fora durante o horrio de exerccios. Ele foi algumas vezes, no para jogar basquete nem para correr, e muito menos para fazer acordos secretos perto da cerca em troca de drogas e cigarros que eram contrabandeados para dentro da cadeia, mas s para ficar ao ar livre, respirando o ar que no tinha sido respirado pelos outros detentos. Infelizmente, do ptio de exerccios dava para ver o rio. Era de pensar que seria um bnus, mas, na verdade, era a pior das provocaes. s vezes o vento soprava de forma que Peter conseguia sentir o cheiro dele, do solo ao longo da beirada, da gua glida, e quase o derrubava saber que no podia andar at l, tirar os sapatos e meias e entrar, nadar, se afogar se quisesse. Depois disso, ele parou de ir l para fora. Peter terminou o centsimo abdominal -- a ironia era que, depois de um ms, ele estava to mais forte que provavelmente poderia ter dado uma surra em Matt Royston e Drew Girard ao mesmo tempo -- e se sentou na

cama com o formulrio de compras. Uma vez por semana, voc podia comprar coisas como enxaguante bucal e papel, com preos ridiculamente altos. Peter se lembrava de ir a St. John com a famlia uma vez; no mercado, uma caixa de cereais custava uns dez dlares, por ser um artigo muito raro. Xampu no era um artigo raro, mas na cadeia voc estava  merc da administrao, o que significava que eles podiam cobrar 3,25 dlares por um vidro de xampu ou dezesseis dlares por um circulador de ar. A outra opo era torcer para que um detento que sasse da priso estadual lhe desse seus pertences, mas, para Peter, isso parecia um pouco coisa de abutre. -- Houghton -- disse um agente penitencirio, com as pesadas botas soando no corredor de metal --, tem carta pra voc. Dois envelopes voaram para dentro da cela e caram debaixo da cama de Peter. Ele os pegou, passando as unhas no piso de cimento. A primeira carta era da me, que ele j estava quase esperando. Peter recebia cartas da me pelo menos trs ou quatro vezes por semana. As cartas costumavam falar de coisas bobas, como os editoriais no jornal local e o desenvolvimento das plantas dela. Por um tempo, ele pensou que ela estava escrevendo em cdigo -- alguma coisa de que ele precisava saber, alguma coisa transcendental e inspiradora --, mas comeou a se dar conta de que aquilo era apenas para ocupar espao. Foi quando parou de abrir as cartas da me. Ele no se sentia mal quanto a isso. Peter sabia que o motivo de ela lhe escrever no era para que ele lesse as cartas. Era para que ela pudesse dizer para si mesma que as tinha escrito. Ele no culpava os pais por serem sem noo. Primeiro de tudo, ele tinha muita prtica com essa situao. Segundo, as nicas pessoas que realmente o entendiam eram as que estavam na escola naquele dia, e elas no estavam exatamente enchendo sua caixa postal de cartas.

Peter jogou a carta da me no cho de novo e olhou para o endereo no segundo envelope. No o reconheceu; no era de Sterling, nem de New Hampshire. "Elena Battista", leu. Elena de Ridgewood, New Jersey. Ele rasgou o envelope e leu a carta. Peter, Sinto que j conheo voc, porque venho acompanhando o que aconteceu na escola. Estou na faculdade agora, mas acho que sei como eram as coisas com voc... porque tambm era assim comigo. Na verdade, estou escrevendo minha tese agora sobre os efeitos de sofrer bullying na escola. Sei que  presunoso achar que voc aceitaria conversar com algum como eu... Mas acho que, se eu tivesse conhecido algum como voc quando eu estava no ensino mdio, minha vida teria sido diferente, e talvez nunca seja tarde demais. Atenciosamente, Elena Battista Peter bateu o envelope rasgado na coxa. Jordan tinha dito especificamente que no era para ele conversar com ningum, exceto os pais e o prprio Jordan. Mas os pais eram inteis, e o advogado no estava exatamente mantendo seu lado do acordo, que envolvia estar fisicamente presente com frequncia suficiente para Peter desabafar sobre qualquer coisa que o estivesse incomodando. E tinha outra coisa. Ela era uma garota de faculdade. Era meio bacana pensar que uma garota de faculdade quisesse falar com ele; e ele no ia contar a ela nada que ela j no soubesse.

Peter pegou a lista de compras e marcou o quadradinho pedindo um carto genrico. Um julgamento podia ser dividido em duas partes: o que tinha acontecido no dia do evento, que era a prioridade da promotoria, e tudo que tinha levado a isso, que era o que a defesa tinha que apresentar. Por isso, Selena se ocupou entrevistando todo mundo que tinha entrado em contato com o cliente durante os dezessete anos da vida dele. Dois dias depois da audincia de acusao de Peter na corte superior, ela se sentou com o diretor da Sterling High em sua sala na escola de ensino fundamental adaptada. Arthur McAllister tinha barba cor de areia, uma barriga arredondada e dentes que ele no mostrava quando sorria. Ele lembrava um daqueles assustadores ursos falantes vendidos quando Selena era pequena, Teddy Ruxpin, o que se tornou ainda mais estranho quando ele comeou a responder s perguntas dela sobre as polticas antibullying da escola. -- No  tolerado -- disse McAllister, apesar de Selena j estar esperando ouvir isso. -- Ficamos sempre de olho. -- Ento se um aluno procura o senhor para reclamar que esto implicando com ele, quais so as consequncias para quem praticou o bullying? -- Uma das coisas que descobrimos, Selena... posso chamar voc de Selena?...  que, se a administrao intervm, tudo fica pior para o aluno que est sofrendo bullying. -- Ele hesitou. -- Eu sei o que as pessoas esto dizendo sobre o tiroteio. Esto comparando com os massacres de Columbine e Paducah e os que aconteceram antes. Mas acredito firmemente que no foi o bullying em si que levou o Peter a fazer o que fez. -- O que ele supostamente fez -- corrigiu Selena, de forma

automtica. -- O senhor mantm registros de incidentes de bullying?

-- Se a coisa ganha propores maiores e os alunos so trazidos a mim, sim. -- Algum foi trazido at o senhor por cometer bullying contra Peter Houghton? McAllister se levantou e pegou um arquivo em um armrio. Comeou a folhe-lo e parou em uma pgina. -- Na verdade, o Peter foi trazido at aqui duas vezes este ano. Ele levou suspenso por brigar nos corredores. -- Brigar? -- disse Selena. -- Ou se defender? Quando Katie Riccobono enfiou uma faca quarenta e seis vezes no peito do marido enquanto ele dormia, Jordan chamou o dr. King Wah, psiquiatra forense especialista em sndrome da mulher espancada. Era uma vertente especfica do transtorno de estresse ps-traumtico, que sugeria que uma mulher que tivesse sido repetidamente abusada, tanto mental quanto fisicamente, poderia temer to constantemente pela vida que a linha entre realidade e fantasia se tornava indistinta, a ponto de ela chegar a sentir medo mesmo quando a ameaa estava adormecida, ou, no caso de Joe Riccobono, apagado depois de uma bebedeira de trs dias. King ganhou o caso para eles. Nos anos seguintes, tornou-se um dos maiores especialistas em sndrome da mulher espancada, e comparecia de forma rotineira como testemunha de defesa em todo o pas. Seu preo tinha subido vertiginosamente; seu tempo agora era precioso. Jordan seguiu para o escritrio de King, em Boston, sem marcar hora, pois achava que seu charme o faria passar por qualquer secretria que o bom doutor empregasse. Mas no contava com um drago prximo da idade de se aposentar chamado Ruth.

-- Os horrios do doutor esto ocupados pelos prximos seis meses -- disse ela, sem nem se dar ao trabalho de levantar o olhar para Jordan. -- Mas  uma visita pessoal, no profissional. -- E da? -- disse Ruth, em um tom que sugeria claramente que ela no se importava. Jordan concluiu que no ajudaria em nada dizer que ela estava linda hoje, ou tentar faz-la rir com uma piada de loira burra, ou usar sua carreira bem-sucedida de advogado de defesa. --  uma emergncia familiar -- disse ele. -- Sua famlia est tendo uma emergncia psicolgica -- repetiu Ruth secamente. -- Nossa famlia -- improvisou Jordan. -- Sou irmo do dr. Wah. -- Quando viu que Ruth ficou olhando fixamente para ele, Jordan acrescentou: -- Irmo adotado do dr. Wah. Ela ergueu uma sobrancelha e apertou um boto do telefone. Um momento depois, ele tocou. -- Doutor -- disse ela -- , um homem que alega ser seu irmo est aqui para v-lo. -- Ela desligou o telefone. -- Ele falou para voc entrar. Jordan abriu a pesada porta de mogno e encontrou King comendo um sanduche com os ps cruzados sobre a escrivaninha. -- Jordan McAfee -- disse sorrindo. -- Eu devia ter desconfiado. Me conta... como vai a mame?

-- Como  que eu vou saber, ela sempre gostou mais de voc -- brincou Jordan, adiantando-se para apertar a mo de King. -- Obrigado por me receber. -- Eu precisava descobrir quem tinha chutzpah suficiente pra dizer que era meu irmo. -- Chutzpah -- repetiu Jordan. -- Voc aprendeu isso na escola chinesa? -- . A aula de idiche era logo depois da introduo ao baco. -- Ele gesticulou para que Jordan se sentasse. -- Como voc est? -- Bem -- disse Jordan. -- Quer dizer, talvez no to bem quanto voc. No consigo sintonizar a TV Justia sem ver seu rosto na tela. -- , eu ando mesmo ocupado. Na verdade, s tenho dez minutos antes do meu prximo cliente. -- Eu sei. Foi por isso que me arrisquei pra que voc me recebesse. Quero que voc avalie o meu cliente. -- Jordan, meu caro, voc sabe que eu faria isso, mas estou com seis meses de julgamento agendados. -- Esse  diferente, King. So acusaes de assassinatos mltiplos. -- Assassinatos? -- disse King. -- Quantos maridos ela matou? -- Nenhum. E no  ela,  um garoto. Um adolescente. Foi vtima de bullying durante anos, depois virou a mesa e saiu atirando pela Sterling High School. King entregou metade de seu sanduche de atum para Jordan.

--

Tudo bem, irmozinho --

disse ele. --

Vamos conversar

enquanto almoamos. Josie olhou do piso cinza resistente para as paredes de cimento, das barras de ferro que isolavam o despacho da rea de espera para a porta pesada com a tranca automtica. Era parecido com uma priso, e ela se perguntou se os policiais l dentro pensavam nessa ironia. Mas, assim que a imagem de cadeia surgiu na mente de Josie, ela pensou em Peter e comeou a entrar em pnico de novo. -- No quero ficar aqui -- disse ela, virando-se para a me. -- Eu sei. -- Por que ele quer falar comigo de novo? J falei que no consigo lembrar de nada. Elas haviam recebido a carta pelo correio. O detetive Ducharme tinha "mais algumas perguntas" para fazer a ela. Para Josie, isso significava que ele devia saber de alguma coisa agora que no sabia na primeira vez que a interrogara. A me explicou que uma segunda entrevista era apenas uma maneira de se certificar de que a promotoria tinha feito tudo certo; que no significava nada, mas que ela tinha que ir  delegacia mesmo assim, para no comprometer a investigao. -- Tudo que voc precisa fazer  dizer para ele de novo que no lembra de nada... e pronto -- disse a me, gentilmente colocando a mo no joelho de Josie, que tinha comeado a tremer. O que Josie queria fazer era se levantar, sair pelas portas duplas da delegacia e comear a correr. Queria correr pelo estacionamento e para o outro lado da rua, pelos campos da escola e no bosque que seguia em direo ao lago, para as montanhas que ela s vezes via da janela do quarto

se as folhas tivessem cado das rvores, at estar o mais alto que pudesse ir. E ento... E ento ela talvez abrisse os braos e pulasse do precipcio do mundo. E se tudo isso fosse uma armao? E se o detetive Ducharme j soubesse... de tudo? -- Josie -- disse uma voz. -- Muito obrigado por vir at aqui. Ela ergueu o olhar e viu o detetive de p na frente delas. A me se levantou. Josie tentou, de verdade, mas no conseguiu encontrar coragem. -- Juza, agradeo voc ter trazido sua filha aqui. -- A Josie est transtornada -- disse Alex. -- Ela ainda no consegue lembrar de nada daquele dia. -- Preciso ouvir isso da prpria Josie. O detetive se ajoelhou para poder olhar nos olhos dela. Josie percebeu que ele tinha olhos bonitos. Um pouco tristes, como os de um bass. Isso a fez se perguntar como seria ouvir todas essas histrias dos feridos e dos perturbados, se era inevitvel absorver tudo por osmose. -- Prometo que no vai demorar -- disse ele com delicadeza. Josie comeou a imaginar como seria quando a porta da sala de reunies se fechasse, como as perguntas poderiam se intensificar, feito a presso dentro de uma garrafa de champanhe. Perguntou-se o que doa mais: no se lembrar do que tinha acontecido, por mais que voc tentasse fazer com que voltasse  mente, ou se lembrar de cada momento terrvel. Com o canto do olho, Josie viu sua me se sentar.

-- Voc no vai entrar comigo? Na ltima vez em que o detetive conversara com ela, a me dera a mesma desculpa: ela era a juza, no podia acompanhar uma entrevista policial. Mas elas tiveram aquela conversa depois da audincia de acusao; sua me fizera questo de que Josie soubesse que agir como juza nesse caso e agir como me no seriam mutuamente exclusivos. Ou, em outras palavras: Josie fora burra o bastante para achar que as coisas entre elas poderiam ter comeado a mudar. Sua me abriu e fechou a boca, como um peixe fora d'gua. Deixei voc desconfortvel?, pensou Josie, com as palavras crescendo como uma bolha em sua mente. Bem-vinda ao clube. -- Quer uma xcara de caf? -- perguntou o detetive, depois

balanou a cabea. -- Ou uma Coca. Sei l, os adolescentes da sua idade j tomam caf ou estou te oferecendo um vcio porque sou burro demais pra saber? -- Eu gosto de caf -- disse Josie. Ela evitou o olhar da me quando o detetive Ducharme a levou at o santurio da delegacia. Eles entraram em uma sala de reunies, e o detetive lhe serviu uma caneca de caf. -- Leite? Acar? -- Acar -- disse Josie.

Ela pegou dois sachs na tigela e os derramou na caneca. Em seguida, olhou ao redor, para a mesa de frmica, para as luzes fluorescentes, para a normalidade da sala. -- O qu? -- O que o qu? -- disse Josie. -- Algum problema? -- Eu s estava pensando que essa sala no parece o tipo de lugar onde se arranca uma confisso de algum. -- Depende se voc tem uma confisso pra ser arrancada -- disse o detetive. Quando Josie empalideceu, ele riu. -- fao o papel de policial na TV. -- Voc faz papel de policial na TV? Ele suspirou. -- Deixa pra l. -- Esticou a mo para um gravador no meio da mesa. -- Vou gravar a nossa conversa, como da outra vez... principalmente porque sou muito lerdo pra lembrar de tudo certinho. O detetive apertou o boto e se sentou diante de Josie. -- As pessoas dizem o tempo todo que voc parece a sua me? -- Humm... nunca. -- Ela inclinou a cabea. -- Voc me trouxe aqui pra perguntar isso? Ele sorriu. Estou brincando. Sinceramente, a nica vez em que arranco confisses de algum  quando

-- No. -- De qualquer forma, eu no pareo com ela. -- Parece sim. So os olhos. Josie olhou para a mesa. -- A cor dos meus  completamente diferente dos dela. -- Eu no estava falando da cor -- disse o detetive. -- Josie, me conte de novo o que voc viu no dia do tiroteio na Sterling High. Por baixo da mesa, ela apertou as mos. Enfiou as unhas de uma das mos na palma da outra, para que alguma coisa doesse mais do que as palavras que ele estava fazendo com que ela dissesse. -- Eu tinha uma prova de cincias. Tinha estudado at tarde e estava pensando nela quando acordei de manh.  tudo que sei. J te falei, no consigo nem lembrar de ter ido pra escola naquele dia. -- Voc lembra o que fez voc desmaiar no vestirio? Josie fechou os olhos. Ela conseguia visualizar o vestirio: o piso, os armrios cinza, a meia sozinha esquecida em um canto do chuveiro. E depois tudo ficou vermelho como raiva. Vermelho como sangue. -- No -- disse Josie, mas as lgrimas deixaram a voz dela

entrecortada. -- Nem sei por que pensar nisso me faz chorar. Ela odiava ser vista assim, odiava estar assim; mais do que tudo, odiava no saber quando ia acontecer: uma mudana no vento, uma virada da mar. Josie pegou o leno de papel que o detetive ofereceu. -- Por favor -- ela sussurrou -- , posso ir agora?

Houve um momento de hesitao, e Josie conseguiu sentir o peso da piedade do detetive caindo sobre ela como uma rede que se prendia s palavras dela, enquanto todo o resto -- a vergonha, a raiva, o medo -- passava direto. -- Claro, Josie -- ele disse. -- Pode ir. Alex estava fingindo ler o Relatrio Anual da Cidade de Sterling quando Josie saiu de repente pela porta reforada que levava  rea de espera da delegacia. Estava chorando muito, e Patrick Ducharme no estava por perto. Vou matar esse cara, Alex pensou racionalmente,

calmamente, depois que eu cuidar da minha filha . -- Josie -- ela chamou, quando a garota saiu correndo do prdio em direo ao estacionamento. Alex correu atrs dela e finalmente a alcanou em frente ao carro. Passou os braos pela cintura da filha e a sentiu tentar se desvencilhar. -- Me deixa em paz -- disse Josie, chorando. -- Josie, querida, o que ele disse pra voc? Fale comigo. -- No posso falar com voc! Voc no entende. Nenhum de vocs entende. -- Josie se afastou. -- As pessoas que entendem esto todas mortas! Alex hesitou, sem saber o que fazer. Podia abraar Josie com mais fora e deix-la chorar. Ou podia faz-la ver que, independentemente de quanto estivesse aborrecida, era uma coisa que ela tinha meios para controlar. Mais ou menos como as instrues do jri, percebeu Alex -- as instrues que o juiz d a um jri que no est chegando a lugar nenhum

com suas deliberaes, que basicamente os lembra de seus deveres como cidados e os assegura de que podem chegar a um consenso. Sempre funcionou para ela no tribunal. -- Sei que  difcil, Josie, mas voc  mais forte do que pensa e... Josie a empurrou com fora, soltando-se dela. -- Para de falar assim comigo! -- Assim como? -- Como se eu fosse uma porra de uma testemunha ou um advogado que voc est tentando impressionar! -- Meritssima. Lamento interromper. Alex se virou e viu Patrick Ducharme a meio metro dela, ouvindo cada palavra. Suas bochechas ficaram vermelhas; esse era exatamente o tipo de comportamento que voc no tinha em pblico quando era juza. Ele provavelmente voltaria para a delegacia e mandaria um e-mail para toda a fora policial: "Adivinhem o que acabei de ouvir". -- Sua filha... -- disse ele. -- Ela esqueceu o casaco. Rosa e de capuz, estava dobrado cuidadosamente sobre o brao dele. Ele o entregou para Josie, mas, em vez de se afastar, colocou a mo no ombro dela. -- No se preocupe, Josie -- disse ele, olhando nos olhos dela como se eles fossem as duas nicas pessoas no mundo. -- Vamos fazer com que fique tudo bem.

Alex esperava que Josie respondesse agressivamente, mas ela ficou calma com o toque dele. Assentiu, como se acreditasse nisso pela primeira vez desde que os disparos aconteceram. Alex sentiu alguma coisa crescer dentro dela: alvio, percebeu enfim, pela filha finalmente ter demonstrado um pouco de esperana. E arrependimento, amargo como amndoas, por no ter sido ela a devolver a paz ao rosto da filha. Josie limpou os olhos com a manga do casaco. -- Voc est bem? -- perguntou Ducharme. -- Acho que sim. -- Que bom. -- O detetive assentiu na direo de Alex. -- Juza. -- Obrigada -- murmurou ela, quando ele se virou e comeou a andar de volta para a delegacia. Alex ouviu a porta do carro bater depois que Josie se sentou no banco do passageiro, mas ficou olhando Patrick Ducharme at ele desaparecer de vista. Queria que tivesse sido comigo, pensou Alex, e deliberadamente se impediu de completar a frase. Como Peter, Derek Markowitz era fera no computador. Como Peter, no tinha sido abenoado com msculos e altura -- alis, com nenhum dom da puberdade. Seu cabelo se erguia em pequenos tufos, como se tivesse sido plantado. Usava a camisa para dentro da cala o tempo todo e nunca tinha sido popular. Ao contrrio de Peter, ele no foi para a escola um dia e matou dez pessoas.

Selena estava sentada  mesa da cozinha da famlia Markowitz enquanto Dee Dee Markowitz a observava como um falco. Estava l para entrevistar Derek na esperana de que ele pudesse ser testemunha de defesa. Mas, para ser honesta, as informaes que Derek lhe dera at ento o tornavam um candidato muito melhor para a promotoria. -- E se for tudo culpa minha? -- dizia Derek. -- Quero dizer, ele me deu algumas pistas. Se eu tivesse prestado mais ateno, talvez pudesse ter impedido. Eu podia ter contado pra algum, mas achei que ele estava brincando. -- Acho que ningum teria feito nada diferente na sua situao -- disse Selena gentilmente, e era o que pensava de verdade. -- O Peter que voc conhecia no era o mesmo que entrou aquele dia na escola. --  -- disse Derek, assentindo para si mesmo. -- Terminou? -- perguntou Dee Dee, dando um passo  frente. -- O Derek tem aula de violino. -- Quase, sra. Markowitz. Eu s queria perguntar pro Derek sobre o Peter que ele realmente conhecia. Como vocs se conheceram? -- Fizemos parte do time de futebol no sexto ano -- disse Derek -- , e ns dois ramos uma merda. -- Derek! -- Desculpa, me, mas  verdade. -- Ele olhou para Selena. -- Por outro lado, nenhum daqueles atletas sabia programar em HTML, nem que a vida deles dependesse disso. Selena sorriu.

--

Ah, pode me acrescentar  lista dos tecnologicamente

prejudicados. Ento vocs ficaram amigos quando eram do time? -- A gente ficava conversando no banco, porque nunca ramos

chamados pra jogar -- disse Derek. -- Mas no, s ficamos amigos depois, quando ele parou de andar com a Josie. Selena mexeu na caneta. -- Josie? -- , Josie Cormier. Ela tambm  da escola. -- E  amiga do Peter? -- Ela era, tipo, a nica pessoa que andava com ele -- explicou Derek -- , mas a ela virou uma das populares e deixou ele de lado. -- Ele olhou para Selena. -- Mas o Peter nem ligou. Ele disse que ela tinha virado uma vaca. -- Derek! -- Desculpa, me -- disse ele. -- Mas, de novo,  verdade. -- Vocs podem me dar licena? -- pediu Selena. Ela saiu da cozinha e entrou no banheiro, onde pegou o celular no bolso e ligou para casa. -- Sou eu -- disse quando Jordan atendeu, e ento hesitou. -- Por que tanto silncio? -- O Sam est dormindo. -- Voc no colocou outro vdeo dos Wiggles s pra ter tempo de ler, n?

-- Voc me ligou especificamente pra me acusar de ser mau pai? -- No -- disse Selena. -- Liguei pra dizer que o Peter e a Josie j foram melhores amigos. Na priso de segurana mxima, Peter s podia receber um visitante de verdade por semana, mas certas pessoas no contavam. Por exemplo, seu advogado podia ir ver voc quantas vezes precisasse. E a coisa louca  que os reprteres tambm. Tudo que Peter precisou fazer foi assinar um comunicado dizendo que estava fazendo a escolha voluntria de falar com a imprensa, e Elena Battista teve permisso para v-lo. Ela era gostosa. Peter reparou nisso imediatamente. Em vez de usar um suter enorme e sem forma, ela tinha colocado uma blusa apertada com botes. Se ele se inclinasse para frente, conseguia ver o decote. Ela tinha cabelos longos, volumosos e encaracolados e olhos castanhos, e Peter achou difcil acreditar que tivesse sofrido provocaes na escola. Mas ela estava sentada na frente dele, isso era verdade, e mal conseguia olhar nos olhos dele. -- No consigo acreditar -- disse ela, com os dedos dos ps

encostando na linha vermelha que os separava. -- No consigo acreditar que estou realmente conhecendo voc. Peter fingiu que ouvia isso o tempo todo. --  -- disse ele. -- Legal voc ter vindo at aqui. -- Ah, era o mnimo que eu podia fazer -- disse Elena. Peter pensou em histrias que tinha ouvido sobre tietes que escreviam para detentos e se casavam com eles em cerimnias na priso. Pensou no agente penitencirio que levara Elena at l e se perguntou se ele ia contar

para todo mundo que Peter Houghton estava recebendo a visita de uma gostosa. -- Voc no se importa se eu tomar notas, n? -- perguntou Elena. -- Pro meu trabalho? -- T tudo legal. Ele a viu pegar um lpis e encost-lo no lbio enquanto abria o caderno em uma pgina em branco. -- Como eu te falei, estou escrevendo sobre os efeitos do bullying. -- Por qu? -- Ah, teve vezes, quando eu estava na escola, que pensei que era melhor eu me matar do que voltar pra aula no dia seguinte, porque seria mais fcil. Conclu que, se eu estava pensando isso, devia ter outras pessoas pensando tambm... e foi a que tive a ideia. -- Ela se inclinou para frente (alerta de decote) e olhou nos olhos de Peter. -- Espero conseguir publicar em uma revista de psicologia, talvez. -- Seria legal. Ele fez uma careta -- meu Deus, quantas vezes ia repetir a

palavra legal? Devia estar se passando por um completo retardado. -- Ento acho que voc pode comear me contando com que

frequncia acontecia. O bullying. -- Todos os dias, eu acho. -- Que tipo de coisas eles faziam?

-- O de sempre -- disse Peter. -- Me enfiavam em um armrio, jogavam meus livros pela janela do nibus. Ento ele comeou a recitar a ladainha mil vezes repetida para Jordan: lembranas de levar cotoveladas ao subir a escada, momentos em que os culos eram arrancados e esmagados, calnias jogadas como bolas. Os olhos de Elena se derreteram. -- Deve ter sido muito difcil pra voc. Peter no sabia o que dizer. Ele queria que ela ficasse interessada na histria, mas no se significasse que ela o acharia um choro. Ele deu de ombros, esperando que fosse uma resposta boa o suficiente. Ela parou de escrever. -- Peter, posso te perguntar uma coisa? -- Claro. -- Mesmo que seja meio que fora do nosso assunto? Peter assentiu. -- Voc planejou matar esses caras? Ela estava inclinada para frente de novo, com os lbios abertos, como se o que Peter estava prestes a dizer fosse uma hstia, uma comunho pela qual ela esperara a vida toda. Peter conseguiu ouvir os passos de um guarda passando pela porta atrs dele, conseguiu praticamente sentir o hlito de Elena. Queria dar a ela a resposta certa, soar perigoso o bastante para que ela ficasse intrigada e quisesse voltar. Ele sorriu de uma forma que esperava que fosse um tanto sedutora.

--

Digamos apenas que era preciso dar um basta naquilo --

respondeu Peter. As revistas no consultrio do dentista de Jordan tinham a longevidade do plutnio. Eram to velhas que a noiva famosa na capa j tinha dois bebs com nomes bblicos ou de frutas, e o presidente listado como homem do ano j tinha deixado o cargo. Assim, quando deu de cara com a edio mais recente da revista Time enquanto esperava a hora de fazer uma restaurao, Jordan sentiu que tinha descoberto ouro. ESCOLA: A NOVA LINHA DE FRENTE DE BATALHA?, dizia a capa, com uma imagem da Sterling High tirada de um helicptero, com alunos saindo de todos os cantos do prdio. Ele folheou sem prestar muita ateno at chegar ao artigo e suas sees, sem esperar ver nada que j no soubesse ou tivesse visto no jornal, mas um trecho chamou sua ateno: "Dentro da mente de um assassino", ele leu e viu a foto bastante explorada de Peter do anurio do oitavo ano. Em seguida comeou a ler. -- Droga -- exclamou, se levantando e andando em direo  porta. -- Sr. McAfee -- disse a secretria -- , pode entrar. -- Vou ter que remarcar... -- Bom, voc no pode levar a nossa revista... -- Acrescente  minha conta -- respondeu Jordan bruscamente, e correu para o carro. O celular tocou na hora em que ele girou a chave na ignio -- ele esperou que fosse Diana Leven, se vangloriando de sua boa sorte, mas era Selena.

--

Oi, j saiu do dentista? Preciso que voc compre fraldas no

caminho pra casa. No tem mais nenhuma. -- Eu no vou pra casa. Tenho um problema bem maior agora. -- Meu amor -- disse Selena -- , no existe problema maior. -- Depois eu explico -- disse Jordan, e desligou o telefone, para que, se Diana ligasse, no conseguisse falar com ele. Ele chegou  priso em vinte e seis minutos, um recorde pessoal, e entrou correndo. L, encostou a revista no plstico que o separava do agente penitencirio que registrava sua chegada. -- Preciso levar isso quando for ver meu cliente -- disse Jordan. -- Bom, sinto muito -- disse o agente -- , mas voc no pode levar nada que tenha grampos. Frustrado, Jordan equilibrou a revista na perna e arrancou os grampos. -- Tudo bem. Posso ir ver meu cliente agora? Ele foi levado para a mesma sala de reunio que sempre usava na priso, e andou de um lado para o outro enquanto esperava por Peter. Quando ele chegou, Jordan bateu com a revista na mesa, aberta no artigo. -- Que merda voc estava pensando? O queixo de Peter caiu. -- Ela... ela nunca falou que escrevia para a Time! -- disse, passando os olhos pelas pginas. -- No acredito -- murmurou.

Jordan sentiu todo o sangue do corpo subindo para a cabea. Sem dvida era assim que as pessoas tinham derrames. -- Voc faz ideia de como as acusaes contra voc so srias? De como o seu caso  terrvel? De quantas provas existem contra voc? -- Ele bateu com a mo aberta no artigo. -- Voc acha mesmo que isso vai atrair algum tipo de solidariedade? Peter olhou para ele com raiva. -- Olha, valeu pelo sermo. Talvez se voc tivesse vindo algumas semanas atrs, a gente no estaria tendo essa discusso. -- Ah, que incrvel -- disse Jordan. -- Como no venho com a frequncia que voc espera, voc decide se vingar de mim falando com a imprensa? -- Ela no era da imprensa. Era minha amiga. -- Adivinha s -- disse Jordan. -- Voc no tem nenhum amigo. -- Me conta uma novidade -- respondeu Peter. Jordan abriu a boca para gritar com Peter de novo, mas no conseguiu. A verdade da frase o atingiu, e ele se lembrou da entrevista de Selena no comeo da semana com Derek Markowitz. Os amigos de Peter o desertavam, ou o traam, ou contavam seus segredos para quem quisesse ouvir. Se realmente quisesse fazer seu trabalho direito, Jordan no poderia ser apenas um advogado para Peter. Tinha que ser seu confidente, e at agora ele s tinha enrolado o garoto, como todas as outras pessoas na vida dele.

Jordan se sentou ao lado de Peter. -- Olha -- disse baixinho -- , voc no pode fazer uma coisa assim de novo. Se algum fizer contato com voc por qualquer motivo, voc precisa me contar. E em troca eu venho te ver com mais frequncia. Tudo bem? Peter deu de ombros e concordou. Por um longo momento, eles ficaram sentados um ao lado do outro, em silncio, sem saber o que viria depois. -- E agora? -- perguntou Peter. -- Vou ter que falar sobre o Joey de novo? Ou me preparar para aquela entrevista psiquitrica? Jordan hesitou. O nico motivo de ter ido ver Peter foi para cair em cima dele por falar com uma reprter; se no fosse por isso, ele no teria ido  priso. Ele sabia que podia pedir a Peter para recontar sua infncia, sua histria na escola ou seus sentimentos sobre sofrer bullying, mas nada disso parecia certo. -- Na verdade, preciso de um conselho -- ele disse. -- Minha esposa me deu um jogo de computador no Natal, Agents of Stealth, sabe? S que eu no consigo passar da primeira fase sem morrer. Peter olhou para ele de lado. -- Voc est se registrando como Droid ou como Regal? Como ele podia saber? Nem tinha tirado o CD da caixa. -- Como Droid.

-- Esse foi seu primeiro erro. Voc no pode se alistar na Legio Pyrhphorus, precisa ser escolhido pra servir. O jeito de fazer isso  comeando no Educationary em vez de no Mines. Entendeu? Jordan olhou para o artigo, ainda aberto sobre a mesa. Seu caso tinha se tornado imensamente mais difcil, mas talvez isso fosse compensado pelo fato de seu relacionamento com seu cliente ter ficado mais fcil. -- Sim -- disse Jordan. -- Estou comeando a entender. -- Voc no vai gostar disso -- documento para Alex. -- Por qu? --  uma petio solicitando seu afastamento do caso Houghton. A promotoria est requisitando uma audincia. Uma audincia significava que a imprensa estaria presente, as vtimas estariam presentes, as famlias estariam presentes. Significava que Alex estaria sob escrutnio pblico antes que o caso fosse adiante. -- Bom, ela no vai conseguir uma -- disse Alex com desprezo. A escriv hesitou. -- Eu pensaria duas vezes sobre isso. Alex olhou nos olhos dela. -- Pode ir. Ela esperou que Eleanor fechasse a porta e cerrou os olhos. No sabia o que fazer. Era verdade que ficara mais abalada do que esperava durante a audincia de acusao. Tambm era verdade que a distncia entre ela e disse Eleanor, entregando um

Josie podia ser medida pelos mesmos parmetros do papel dela como juza. Mas, por Alex ter firmemente suposto que era infalvel, porque tinha tanta certeza de conseguir ser uma juza justa nesse caso, ela tinha se colocado em uma sinuca de bico. Uma coisa era se afastar antes de os procedimentos comearem. Contudo, se ela mudasse de ideia agora, isso faria com que parecesse distrada -- na melhor das hipteses -- ou inepta -- na pior. Nenhum dos dois era um adjetivo que ela quisesse ter associado  sua carreira judicial. Se no desse a Diana Leven a audincia que ela estava pedindo, pareceria que Alex estava se escondendo. Era melhor deixar que eles expressassem suas posies e agir como adulta. Alex apertou um boto do telefone. -- Eleanor -- disse ela -- , pode marcar a audincia. Ento passou os dedos pelo cabelo e o ajeitou. Precisava de um cigarro. Revirou as gavetas da escrivaninha, mas s encontrou um mao vazio de Merits. -- Droga -- murmurou, mas ento se lembrou do mao de

emergncia, escondido no porta-malas do carro. Alex pegou a chave, se levantou e saiu da sala, correndo pela escada dos fundos. Abriu a porta de incndio e ouviu um som terrvel quando ela bateu em algum. -- Ai, meu Deus -- gritou ela, esticando a mo em direo ao homem que tinha abaixado o tronco de dor. -- Voc est bem? Patrick Ducharme voltou a ficar de p, fazendo uma careta.

-- Meritssima -- disse ele -- , preciso parar de esbarrar com voc. Literalmente. Ela franziu a testa. -- Voc no devia estar atrs de uma porta de incndio. -- Voc no devia abrir a porta de repente. Onde  o de hoje? -- perguntou Patrick. -- Onde  o qu? -- O incndio. -- Ele assentiu para outro policial, que estava

andando at uma viatura estacionada ali atrs. Alex deu um passo para trs e cruzou os braos. -- Acredito que j tivemos uma conversa sobre, bem, conversas. -- Primeiro de tudo, no estamos falando sobre o caso, a no ser que haja alguma coisa metafrica acontecendo e eu no saiba. Segundo, sua posio nesse caso parece estar sendo posta em dvida, pelo menos se voc acreditar no editorial do Sterling News de hoje. -- Tem um editorial sobre mim? -- disse Alex, estupefata. -- O que diz? -- Bom, eu at contaria, mas isso seria falar sobre o caso, no ? -- Ele sorriu e saiu andando. -- Espere -- disse Alex, chamando o detetive. Quando ele se virou, ela olhou ao redor para se certificar de que estavam sozinhos no estacionamento. -- Posso te perguntar uma coisa? Extraoficialmente? Ele assentiu devagar.

-- A Josie pareceu... no sei... bem quando voc falou com ela naquele dia? O detetive se encostou na parede de tijolos do frum. -- Voc a conhece melhor do que eu. -- Bom...  claro -- disse Alex. -- S pensei que ela poderia ter dito alguma coisa pra voc, sendo um estranho, que no estava disposta a dizer pra mim. -- Ela olhou para o cho entre eles. -- s vezes,  mais fcil assim. Ela podia sentir os olhos de Patrick sobre ela, mas no tinha coragem de encar-lo. -- Posso te contar uma coisa? Extraoficialmente? Alex assentiu. -- Antes de eu aceitar esse emprego, eu trabalhava no Maine, e tive um caso que no foi apenas um caso, se  que voc me entende. Alex entendia. Percebeu na voz dele uma nota que no tinha ouvido antes, uma nota baixa que ressoava com angstia, como um diapaso que nunca parava de vibrar. -- Tinha uma mulher l que era tudo pra mim, e ela tinha um filhinho que era tudo pra ela. E quando ele foi ferido de uma maneira que nenhuma criana jamais deveria ser, movi o cu e a terra pra trabalhar naquele caso, porque achei que ningum poderia fazer melhor do que eu. Ningum poderia se importar mais com o resultado. -- Ele olhou diretamente para Alex. -- Eu tinha certeza absoluta que era capaz de separar meus sentimentos do meu trabalho.

Alex engoliu em seco, como se engolisse poeira. -- E separou? -- No. Porque quando voc ama algum, no importa o que voc diz a si mesmo, aquilo deixa de ser trabalho. -- E vira o qu? Patrick pensou por um momento. -- Vingana. Certa manh, depois que Lewis disse para Lacy que ia visitar Peter na priso, ela entrou no carro e o seguiu. Nos dias desde que Peter confessara que o pai no ia v-lo, durante a audincia de acusao e depois, Lacy guardara bem o segredo. Ela falava cada vez menos com Lewis, porque tinha medo de que, se abrisse a boca, tudo escaparia como um furaco. Lacy teve o cuidado de deixar um carro entre o dela e o de Lewis. Isso a fez pensar em uma vida atrs, quando eles namoravam e ela o seguia at o apartamento dele, ou vice-versa. Eles brincavam um com o outro, ligando o limpador de para-brisa traseiro como cachorros balanam o rabo, piscando os faris em cdigo Morse. Ele dirigiu para o norte, como se estivesse indo para a priso, e por um momento Lacy teve uma crise de dvida: Ser que Peter mentira para ela por algum motivo? Ela achava que no. Mas, por outro lado, tambm achava que Lewis no mentiria. Comeou a chover quando chegaram  rea verde do Lyme Center. Lewis sinalizou e entrou em um pequeno estacionamento com um banco, um ateli e uma floricultura. Ela no podia entrar atrs dele, pois ele

reconheceria o carro dela imediatamente, ento foi at a loja de materiais de construo ao lado e estacionou atrs do prdio. Talvez ele precise tirar dinheiro, pensou Lacy, mas saiu do carro, se escondeu atrs dos tanques de leo e viu Lewis entrar na floricultura e sair cinco minutos depois com um buqu de rosas cor-de-rosa. Lacy perdeu completamente o flego. Ser que ele estava tendo um caso? Ela nunca considerou a possibilidade de que as coisas pudessem ficar ainda piores, de que a pequena famlia deles pudesse se partir ainda mais. Lacy cambaleou at o carro e conseguiu continuar seguindo Lewis. Era verdade que andava obcecada com o julgamento de Peter. E talvez ela fosse culpada de no ouvir o marido quando ele precisava conversar, porque nada do que ele tinha a dizer sobre seminrios de economia, publicaes ou eventos atuais parecia importar, no com o filho dela na cadeia. Mas Lewis? Ela sempre se imaginara como o esprito livre da unio; ela o via como a ncora. Segurana era uma miragem; estar preso com firmeza contava quando a outra ponta da corda se havia desenrolado. Ela limpou os olhos na manga.  claro que Lewis diria para ela que era apenas sexo, no amor. Que no significava nada. Ele diria que havia vrias maneiras de as pessoas lidarem com o sofrimento, com um buraco no corao. Lewis ligou a seta de novo e entrou  direita -- dessa vez, em um cemitrio. Uma queimao lenta comeou dentro do peito de Lacy. Isso era doentio. Era aqui que ele se encontrava com ela?

Lewis saiu do carro carregando as rosas, sem guarda-chuva. A chuva estava caindo com mais fora agora, mas Lacy estava decidida a ir at o fim. Ficou atrs e o seguiu at uma rea mais nova do cemitrio, com tmulos recentes. No havia lpides ainda; os tmulos pareciam patchwork de terra marrom, ao lado do gramado verde e aparado. No primeiro tmulo, Lewis se ajoelhou e colocou uma rosa na terra. Em seguida, foi para o do lado e fez o mesmo. E para o outro, e para o outro, at o cabelo estar pingando no rosto e a camisa ficar encharcada, at ter deixado dez flores no cho. Lacy parou atrs dele quando ele estava colocando a ltima rosa. -- Eu sei que voc est a -- ele disse, sem se virar. Ela mal conseguia falar: a compreenso de que Lewis no a estava traindo havia se misturado ao entendimento do que ele passava os dias fazendo. Ela no conseguia saber se ainda estava chorando ou se o cu estava fazendo isso por ela. -- Como voc ousa vir aqui -- ela o acusou -- e no ir visitar o nosso filho? Ele ergueu o rosto para ela. -- Voc sabe o que  a teoria do caos? -- No quero saber de porra de teoria do caos nenhuma, Lewis. S me importo com o Peter. O que  mais do que eu posso dizer sobre... -- Existe uma crena -- interrompeu ele -- de que voc s pode explicar o ltimo momento do tempo, linearmente... Mas que tudo que leva a ele pode ter vindo de uma srie de eventos. Ento, sabe, um garoto joga uma pedra no mar e, em algum lugar do planeta, acontece um tsunami. --

Lewis se levantou com as mos nos bolsos. -- Eu levei ele pra caar, Lacy. Falei pra insistir no esporte, mesmo sabendo que ele no gostava. Falei mil coisas. E se uma delas foi o que levou o Peter a fazer isso? Ele se inclinou para a frente, chorando. Quando Lacy esticou a mo, a chuva bateu nos ombros e nas costas dela. -- Fizemos o melhor que pudemos -- disse Lacy. -- Mas no foi o bastante -- disse Lewis, virando a cabea em direo aos tmulos. -- Olha isso. Olha isso. Lacy olhou. Pela chuva forte, com o cabelo e as roupas grudadas no corpo, ela avaliou o cemitrio e viu o rosto dos adolescentes que ainda estariam vivos se seu filho nunca tivesse nascido. Ela colocou a mo na barriga. A dor a partiu ao meio, como um truque de mgica, s que ela sabia que jamais voltaria a ser uma s. Um de seus filhos usava drogas. O outro era um assassino. Ser que ela e Lewis tinham sido os pais errados para os filhos que tiveram? Ou ser que nunca deveriam ter sido pais? Os filhos no cometiam seus prprios erros. Eles mergulhavam nos poos para onde tinham sido levados pelos pais. Ela e Lewis realmente acreditaram que o caminho era aquele, mas talvez ela devesse ter parado para pedir instrues. Talvez ento eles nunca precisassem ver Joey e depois Peter darem um passo trgico e carem. Lacy se lembrou de comparar as notas de Joey com as de Peter, de dizer para Peter que talvez ele devesse experimentar futebol, porque Joey gostava tanto. A aceitao comeava em casa, mas a intolerncia tambm.

Quando Peter foi excludo na escola, Lacy se deu conta de que ele j estava acostumado a se sentir um pria na prpria famlia. Lacy apertou bem os olhos. Pelo resto da vida, seria conhecida como a me de Peter Houghton. Em determinado ponto, isso a teria empolgado, mas voc precisa ter cuidado com o que deseja. Levar crdito pelo que um filho fazia tambm significava aceitar a responsabilidade pelo que ele fazia de errado. E, para Lacy, isso significava que, em vez de tentar compensar para essas vtimas, ela e Lewis precisavam comear mais perto de casa, com Peter. -- Ele precisa de ns -- disse Lacy. -- Mais do que nunca. Lewis balanou a cabea. -- Eu no posso ir ver o Peter. Ela se afastou. -- Por qu? -- Porque ainda penso, todos os dias, no bbado que bateu no carro do Joey. Penso em como eu queria que ele tivesse morrido no lugar do Joey, em quanto ele merecia morrer. Os pais de cada uma dessas crianas esto pensando a mesma coisa sobre o Peter -- disse Lewis. -- E, Lacy... eu no culpo nenhum deles. Lacy deu um passo para trs, tremendo. Lewis amassou o cone de papel que embrulhava as flores e o enfiou no bolso. A chuva caiu entre eles como uma cortina, tornando impossvel que um visse o outro claramente. Jordan esperou em uma pizzaria perto da priso que King Wah chegasse depois da entrevista psiquitrica com Peter. Ele chegou dez minutos atrasado, e Jordan no sabia se isso era bom ou ruim.

King entrou pela porta com uma rajada de vento, com o casaco voando atrs de si. Deslizou no banco da mesa de Jordan e pegou um pedao de pizza do prato dele. -- D pra fazer -- anunciou e deu uma mordida. --

Psicologicamente, no existe uma diferena significativa entre o tratamento de uma vtima de bullying ao longo do tempo e o tratamento de uma mulher adulta com sndrome da mulher espancada. A questo  que os dois so uma espcie de transtorno de estresse ps-traumtico. -- Ele colocou a borda de volta no prato de Jordan. -- Sabe o que o Peter me contou? Jordan pensou no cliente por um momento. -- Que  um saco estar na priso? -- Bom, todos dizem isso. Ele me disse que preferia ter morrido a passar mais um dia pensando no que podia acontecer com ele na escola. Com quem isso parece? -- Katie Riccobono -- disse Jordan. -- Depois que ela decidiu fazer uma ponte de safena tripla no marido com uma faca de carne. -- Katie Riccobono -- corrigiu King --, a mulher smbolo da

sndrome da mulher espancada. -- Ento o Peter vai se tornar o primeiro exemplo da sndrome da vtima de bullying -- disse Jordan. -- Seja sincero comigo, King. Voc acha que o jri vai se identificar com uma sndrome que nem existe? -- O jri no  composto de esposas espancadas, mas j as absolveu em vrias ocasies. Por outro lado, cada membro daquele jri j passou pelo ensino mdio. -- Ele pegou a Coca de Jordan e tomou um gole. -- Sabia

que um nico incidente de bullying na escola pode ser to traumtico para uma pessoa ao longo do tempo quanto um nico incidente de abuso sexual? -- Voc s pode estar brincando. -- Pense nisso. O denominador comum  ser humilhado. Qual  a lembrana mais forte que voc tem do ensino mdio? Jordan precisou pensar por um momento para que qualquer lembrana da escola comeasse a surgir em sua mente. Em seguida, sorriu. -- Eu estava na aula de educao fsica fazendo um teste de aptido. Parte do teste envolvia subir em uma corda pendurada no teto. No ensino mdio, eu no tinha o fsico macio que tenho agora... King riu. -- Naturalmente. -- ... ento eu estava com medo de no chegar ao topo. No fim das contas, o problema no foi esse. O problema foi descer, porque subir com a corda entre as pernas me deixou com uma ereo enorme. -- Est vendo? -- disse King. -- Faa essa pergunta a dez pessoas, e metade delas nem vai conseguir lembrar de alguma coisa concreta sobre a escola, porque bloqueou. A outra metade vai lembrar de um momento incrivelmente doloroso ou embaraoso. Eles grudam como cola. -- Isso  muito deprimente -- observou Jordan. -- cabea. -- E os que no entendem? Bom, a maior parte de ns cresce e entende que, no grande

esquema da vida, esses incidentes so uma pequena parte do quebra-

King olhou para Jordan. -- Eles acabam como o Peter. O motivo de Alex estar no closet de Josie era porque a filha tinha pegado sua saia preta emprestada e no tinha devolvido, e Alex precisava dela naquela noite. Ia se encontrar com uma pessoa para jantar: Whit Hobart, seu ex-chefe, que se aposentara da defensoria pblica. Depois da audincia de hoje, em que a promotoria entrara com a petio para o afastamento dela, Alex precisava de um conselho. Ela encontrou a saia, mas tambm encontrou um depsito de tesouros. Alex se sentou no cho com uma caixa aberta no colo. Os adereos da velha fantasia de jazz de Josie, das aulas que fazia aos seis ou sete anos, caramlhe na palma da mo como um sussurro. A seda era suave ao toque. Estava sobre uma fantasia de pele falsa de tigre que Josie usara em um Halloween e guardara para usar mais tarde -- tinha sido a primeira e ltima aventura de Alex na costura. Na metade, ela desistiu e prendeu o tecido com uma pistola de cola quente. Alex planejava levar Josie para pedir doces naquele ano, mas era defensora pblica na poca e um dos clientes havia sido preso novamente. Josie saiu com a vizinha e com os filhos dela; e, naquela noite, quando Alex chegou em casa, Josie tinha coberto seu travesseiro de doces. Pode ficar com metade, dissera ela, porque voc perdeu toda a diverso . Ela folheou o atlas que Josie fez no primeiro ano, no qual coloriu cada continente e plastificou as pginas. Leu os boletins dela. Encontrou um elstico de cabelo e o colocou ao redor do pulso. No fundo da caixa, viu um bilhete, escrito com a caligrafia curva de uma garotinha: "Quir ida mame eu te amo muito beijos". Alex passou os dedos sobre as letras. Perguntou-se por que Josie ainda guardava aquilo, por que nunca entregara  destinatria. Ser que Josie

decidiu esperar e acabou esquecendo? Ser que ficou com raiva de Alex por alguma coisa e decidiu no entregar? Alex se levantou e colocou cuidadosamente a caixa onde a tinha encontrado. Dobrou a saia preta por cima do brao e foi para o seu quarto. Ela sabia que a maior parte dos pais revirava as coisas dos filhos em busca de preservativos e sacos de maconha, para tentar peg-los no flagra. Para Alex, era diferente. Para Alex, revirar as coisas de Josie era uma forma de se aproximar de tudo que tinha perdido. A triste verdade sobre ser solteiro era que Patrick no podia justificar o trabalho de cozinhar para si mesmo. Ele comia a maior parte das refeies de p, na frente da pia, ento qual era o sentido de sujar vrias panelas e usar ingredientes frescos? Ele no viraria para ele mesmo e diria: "Patrick, que receita tima, onde voc a encontrou?" Para ele, era uma cincia, na verdade. Segunda, era noite de pizza. Tera, de Subway. Quarta, de comida chinesa. Quinta, de sopa, e na sexta ele comia um hambrguer no bar, onde costumava tomar uma cerveja antes de ir para casa. Os fins de semana eram dias de comer os restos -- muitos, por sinal. s vezes, era muito solitrio pedir comida -- haveria expresso mais triste do que "uma poro para uma pessoa?" --, mas, na maior parte, sua rotina lhe tinha ajudado a conquistar uma coleo de amigos. Sal, da pizzaria, lhe dava po de alho de graa porque ele era um cliente regular. O cara do Subway, cujo nome Patrick no sabia, apontava para ele e sorria. "Italiano-peru-queijo-maionese-azeitona-picles-extra-sal-e-pimenta", dizia ele, o equivalente verbal de um aperto de mos secreto. Como era quarta, ele estava no Golden Dragon, esperando que o pedido para viagem fosse preparado. Viu May levar a comanda para a cozinha -- onde se comprava uma wok to grande, ele sempre se

perguntava -- e voltou a ateno para a televiso sobre o bar, onde um jogo do Sox estava comeando. Uma mulher estava sentada sozinha, rasgando uma franja ao redor de um guardanapo enquanto esperava que o barman trouxesse sua bebida. Ela estava de costas para ele, mas Patrick era detetive, e havia certas coisas que conseguia descobrir vendo apenas esse lado dela. Como o fato de que tinha uma bunda linda e que o cabelo precisava se libertar do coque de bibliotecria, para que pudesse cair em ondas sobre seus ombros. Ele viu o barman -- um coreano chamado Spike, o que Patrick sempre achava engraado depois da primeira cerveja Tsingtao -- abrir uma garrafa de pinot noir e arquivou essa informao tambm: ela tinha classe. Para ela, nada que tivesse um guarda-chuvinha de papel. Ele se aproximou da mulher e entregou uma nota de vinte a Spike. -- Cortesia minha -- disse Patrick. Ela se virou, e, por uma frao de segundo, Patrick ficou grudado no cho, perguntando-se como aquela mulher misteriosa podia ter o rosto da juza Cormier. Isso o fez se lembrar de quando estava no ensino mdio, viu a me de um amigo de longe no estacionamento e a classificou automaticamente como Gata Gostosa em Potencial, at se dar conta de quem era. A juza tirou a nota de vinte da mo de Spike e a devolveu para Patrick. -- Voc no pode me pagar uma bebida -- disse ela, tirando dinheiro da carteira e entregando ao barman. Patrick se sentou no banco ao lado. -- Tudo bem, ento -- disse ele. -- Mas voc pode me pagar.

-- Acho que no. -- Ela olhou pelo restaurante. -- Acho que no devemos ser vistos conversando. -- As nicas testemunhas so as carpas chinesas no laguinho ao lado do caixa. Acho que voc est em segurana -- disse Patrick. -- Alm do mais, s estamos conversando. No estamos falando do caso. Voc ainda lembra como se conversa fora do tribunal, no lembra? Ela pegou a taa de vinho. -- O que voc est fazendo aqui, afinal? Patrick baixou a voz. -- Estou fazendo uma apreenso-surpresa de drogas da mfia

chinesa. Eles importam pio puro nos pacotes de acar. Ela arregalou os olhos. -- Srio? -- No. E eu te contaria se fosse verdade? -- Ele sorriu. -- S estou esperando minha comida pra viagem. E voc? -- Estou esperando uma pessoa. At ela falar isso, ele no tinha se dado conta de que estava gostando da companhia dela. Ele se divertia ao irrit-la, coisa que no era to difcil. A juza Cormier o lembrava do Mgico de Oz: muitos brados, sinos e apitos, mas, quando voc puxava a cortina, era apenas uma mulher comum. Que, por acaso, tinha uma bunda linda. Ele sentiu calor lhe subir ao rosto. -- Famlia feliz -- disse Patrick.

-- Como? -- Foi o que eu pedi. S estou tentando ajudar voc com aquela histria de conversa casual de novo. -- Voc s pediu um prato? Ningum vai a um restaurante chins e pede s um prato. -- Bom, nem todos tm filhos em idade de crescimento. Ela passou o dedo pela borda da taa. -- Voc no tem filhos? -- Nunca me casei. -- Por que no? Patrick balanou a cabea e sorriu de leve. -- Melhor no falar sobre isso. -- Caramba -- disse a juza. -- Ela deve ter feito muito mal a voc. O queixo dele caiu. Ser que ele era mesmo to fcil de ler? -- Acho que voc no  o nico no mercado com timas habilidades de detetive -- disse ela rindo. -- S que chamamos isso de intuio feminina. -- , isso vai te ajudar a conseguir seu distintivo pra ontem. -- Ele olhou para a mo dela, sem aliana. -- Por que voc no  casada? A juza repetiu a resposta dele. -- Melhor no falar sobre isso.

Ela tomou o vinho em silncio por um momento, e Patrick batucou com o dedo na bancada de madeira do bar. -- Ela j era casada -- ele admitiu. A juza colocou a taa vazia na bancada. -- Ele tambm -- confessou, e, quando Patrick se virou, ela olhou bem nos olhos dele. Os olhos dela eram de um cinza plido que fazia voc pensar no cair da noite, em balas de prata e no comeo do inverno. A cor que enchia o cu antes de ser partido em dois por um relmpago. Patrick nunca tinha reparado nisso antes, e de repente se deu conta do motivo. -- Voc no est usando culos. -- Fico feliz em saber que Sterling tem uma pessoa to sagaz quanto voc protegendo e servindo a cidade. -- Voc costuma usar culos. -- S quando estou trabalhando. Preciso deles pra ler. E, quando costumo te ver, voc est trabalhando . Foi por isso que ele no reparou antes que Alex Cormier era atraente: antes disso, quando seus caminhos se cruzaram, ela estava completamente no modo juza. No estava encostada no bar como uma flor de estufa. No era to... humana. -- Alex!

A voz veio de trs deles. O homem era elegante, usava um bom terno, sapatos de bico fino e tinha cabelo grisalho o suficiente nas tmporas para lhe conferir um aspecto distinto. Tinha a palavra advogado estampada no rosto e no visual. Sem dvida, era rico e divorciado; o tipo de cara que falaria sobre o cdigo penal antes de fazer amor e depois dormiria do lado dele da cama em vez de com os braos apertados em torno dela de tal maneira que, mesmo depois de adormecer, os corpos continuassem embolados. Meu Deus, pensou Patrick, olhando para o cho. De onde veio isso? Que importncia tinha para ele com quem Alex Cormier saa, mesmo que o cara fosse praticamente velho o bastante para ser pai dela? -- Whit -- disse ela. -- Que bom que voc pde vir. -- Ela o beijou na bochecha e ento, ainda segurando a mo dele, se virou para Patrick. -- Whit, este  o detetive Patrick Ducharme. Patrick, Whit Hobart. O homem tinha um bom aperto de mo, o que s irritou Patrick ainda mais. Patrick esperou para ver o que mais a juza ia dizer sobre ele na apresentao. Mas, por outro lado, que opes ela tinha? Patrick no era um velho amigo. No era uma pessoa que ela tinha conhecido no bar. Ela no podia nem dizer que os dois estavam envolvidos no julgamento Houghton, porque, nesse caso, ele no deveria estar conversando com ela. E Patrick se deu conta de que era isso que ela estava tentando dizer para ele o tempo todo. May veio da cozinha segurando um saco de papel dobrado e grampeado. -- Aqui est, Pat -- disse ela. -- At semana que vem, certo?

Ele conseguia sentir a juza olhando. -- Famlia feliz -- disse ela, oferecendo um prmio de consolao, o menor dos sorrisos. -- Foi bom ver voc, Meritssima -- disse Patrick polidamente. Ele abriu a porta do restaurante com tanta fora que ela bateu na parede do lado de fora. Estava a caminho do carro quando se deu conta de que nem estava mais com fome. A reportagem principal do noticirio local das onze da noite foi a audincia na corte superior para o afastamento da juza Cormier do caso. Jordan e Selena estavam sentados na cama no escuro, cada um com uma tigela de cereal equilibrada na barriga, vendo a me lacrimosa de uma garota paraplgica chorar em frente  cmera de TV. -- Ningum est falando em nome das nossas crianas -- disse ela. -- Se esse caso ficar enrolado por causa de alguma complicao legal... Bom, elas no so fortes o bastante para passar por isso duas vezes. -- Nem o Peter -- observou Jordan. Selena colocou a colher na mesa. -- A Cormier vai permanecer no caso nem que tenha que rastejar no tribunal. -- Bom, no posso mandar algum acabar com os joelhos dela, posso? -- Vamos ver o lado positivo -- disse Selena. -- Nada na declarao da Josie pode afetar o Peter negativamente.

-- Meu Deus, voc est certa. -- Jordan se sentou to rpido que derramou leite na colcha. Ele colocou a tigela na mesa de cabeceira. --  brilhante. -- O qu? -- A Diana no vai chamar a Josie como testemunha de acusao porque no tem nada que possa usar. Mas nada me impede de chamar a garota como testemunha de defesa. -- Voc est brincando? Vai colocar a filha da juza na sua lista de testemunhas? -- Por que no? Ela era amiga do Peter. E ele tem poucos e preciosos amigos.  tudo de boa-f. -- Voc no... -- Ah, tenho certeza que vou acabar no usando a Josie. Mas a promotora no precisa saber disso. -- Ele sorriu ao pensar em Diana. -- E alis... nem a juza. Selena tambm colocou sua tigela de lado. -- Se voc colocar a Josie na lista de testemunhas... a Cormier vai ser obrigada a se afastar. -- Exatamente. Selena esticou as mos, colocou-as nas laterais do rosto dele, e deu um beijo em seus lbios. -- Voc  terrivelmente bom. -- Que foi?

-- Voc me ouviu muito bem. -- Eu sei -- Jordan sorriu --, mas no me importo de ouvir de novo. A colcha escorregou quando ele passou os braos ao redor dela. -- Coisinha gulosa, voc, no ? -- murmurou Selena. -- No foi isso que fez voc se apaixonar por mim? Ela riu. -- Bom, no foi seu charme e sua graa, querido. Jordan se inclinou sobre ela e a beijou, at -- ele esperava -- que ela tivesse esquecido que estava prestes a debochar dele. -- Vamos ter outro beb -- ele sussurrou. -- Ainda estou amamentando o primeiro! -- Ento vamos s praticar fazer outro. No havia ningum no mundo como sua esposa, pensou Jordan: altiva e linda, mais inteligente que ele -- no que ele um dia fosse admitir isso na cara dela -- e to perfeitamente sintonizada com ele que ele quase tinha que abrir mo de seu ceticismo e acreditar que havia mdiuns entre ns. Ele afundou o rosto na parte que mais amava de Selena: aquela em que o pescoo se junta ao ombro, onde sua pele era da cor de xarope de bordo e tinha gosto ainda mais doce. -- Jordan? -- disse ela. -- Voc se preocupa com os nossos filhos? O que quero dizer ... voc sabe. Considerando o que voc faz... e o que a gente v? Ele se deitou de costas.

-- Poxa -- disse -- , isso certamente acabou com o momento. -- Estou falando srio. Ele suspirou. --  claro que eu penso nisso. Me preocupo com o Thomas. E com o Sam. E com qualquer outra pessoa que ainda possa nascer. -- Ele se apoiou em um cotovelo para olhar nos olhos dela no escuro. -- Mas acho que foi esse o motivo que nos fez t-los. -- Como assim? Ele olhou por cima do ombro de Selena, para a luz verde piscante da bab eletrnica. -- Talvez -- disse Jordan -- sejam eles que vo mudar o mundo. Whit no tomou a deciso por Alex; isso j tinha sido feito quando ela o encontrou para jantar. Mas ele foi o calmante que ela precisava passar nas feridas, a justificativa que ela tinha medo de dar a si mesma. "Voc vai ter outro caso import ante no futuro", disse ele. "Mas no vai ter esse momento com Josie de volta." Ela entrou em sua sala de supeto, principalmente porque sabia que essa era a parte fcil. Divorciar-se do caso, escrever a petio para se afastar, isso no era to apavorante quanto o que aconteceria no dia seguinte, quando no fosse mais a juza no caso Houghton. Quando passaria a ter que ser me. Eleanor no estava por perto, mas deixara a papelada na mesa de Alex. Ela se sentou e leu.

Jordan McAfee, que no dia anterior nem abrira a boca na audincia, estava comunicando sua inteno de convocar Josie como testemunha. Ela sentiu um fogo se acender na barriga. Era uma emoo para a qual Alex no tinha palavras, o instinto animal que acompanhava a percepo de que algum que voc amava fora tomado de refm. McAfee cometera o pecado terrvel de arrastar Josie para o caso, e a mente de Alex espiralou loucamente quando ela se perguntou o que poderia fazer para lev-lo a ser demitido ou at perder a permisso de advogar. Pensando bem, nem se importava se a vingana viesse de dentro dos confins da lei ou de fora. Mas, de repente, Alex parou. No seria Jordan McAfee que ela perseguiria at o fim do mundo, seria Josie. Ela faria qualquer coisa para impedir que a filha se magoasse de novo. Talvez devesse agradecer a Jordan McAfee por faz-la perceber que j tinha a matria-prima para ser uma boa me, afinal. Alex se sentou em frente ao laptop e comeou a digitar. O corao estava disparado quando ela andou at a mesa da escriv e entregou a folha de papel para Eleanor; mas isso era normal, no era, quando voc estava prestes a pular de um precipcio? -- Voc precisa ligar para o juiz Wagner -- disse Alex. No era Patrick quem precisava de um mandado de busca. Mas, quando ele ouviu outro policial falar sobre passar no frum, intercedeu. -- Estou indo pra l -- disse ele. -- Fao isso pra voc. Na verdade, ele no estava indo para o frum, pelo menos no at se oferecer. E no era to bom samaritano a ponto de dirigir sessenta

quilmetros apenas por ter bondade no corao. Patrick queria ir l apenas por uma razo: era outra desculpa para ver Alex Cormier. Ele parou em uma vaga, saiu do carro e imediatamente viu o Honda dela. Essa era uma coisa boa: at onde sabia, ela podia nem ter ido ao frum naquele dia. Mas ento ele olhou de novo ao perceber que havia algum no carro... e que esse algum era a juza. Ela estava imvel, olhando para o para-brisa. Os limpadores estavam ligados, mas no estava chovendo. Parecia que ela nem tinha percebido que estava chorando. Ele sentiu aquele mesmo tremor desconfortvel na boca do estmago que costumava sentir quando chegava a uma cena de crime e via as lgrimas de uma vtima. Estou atrasado, pensou ele. De novo. Patrick se aproximou do carro, mas a juza no o viu chegando. Quando ele bateu na janela, ela deu um pulo e limpou os olhos apressadamente. Ento ele fez um gesto para que ela abrisse a janela. -- Tudo bem? -- ele perguntou. -- Tudo. -- Voc no parece bem. -- Ento para de olhar -- respondeu ela bruscamente. Ele colocou os dedos na porta do carro. -- Quer ir pra algum lugar conversar? Eu pago o caf. A juza suspirou. -- Voc no pode pagar meu caf.

-- Mesmo assim, podemos tomar um. Ele se endireitou e andou at o lado do passageiro, abriu a porta e se sentou ao lado dela. -- Voc est em servio -- ela observou. -- Estou em horrio de almoo. -- s dez da manh? Ele esticou a mo at a chave pendurada na ignio e ligou o carro. -- Saia do estacionamento e vire  esquerda, tudo bem? -- Seno o qu? -- Pelo amor de Deus, voc no sabe que no deve discutir com uma pessoa que tem uma arma? Ela olhou para ele por um longo instante. -- Voc no pode me sequestrar -- disse a juza, mas comeou a dirigir, como ele havia pedido. -- Me lembre de me prender mais tarde -- retrucou Patrick. Alex tinha sido criada pelo pai para se esforar ao mximo em tudo, e, aparentemente, isso inclua se aborrecer. Por que no se afastar do maior julgamento de sua carreira, pedir licena administrativa e ir tomar caf com o detetive do caso de uma tacada s? Por outro lado, disse a si mesma, se no tivesse sado com Patrick Ducharme, jamais saberia que o restaurante chins Golden Dragon abre s dez horas.

Se no tivesse sado com ele, teria que dirigir para casa e recomear a vida. Todas as pessoas no restaurante pareciam conhecer o detetive e no se importaram com o fato de ele entrar na cozinha para pegar uma xcara de caf para Alex. -- O que voc viu l... -- disse Alex, hesitante. -- Voc no vai... -- Contar pra ningum que voc estava surtando dentro do carro? Ela olhou para a caneca que ele colocou na frente dela, sem nem saber como responder. Pela experincia que ela tinha, quando voc mostrava que era fraca diante de algum, essa pessoa usava isso contra voc. --  difcil ser juza s vezes. As pessoas esperam que voc aja como tal, mesmo quando est com gripe e s tem vontade de se encolher e morrer, ou xingar o caixa que deu troco a menos de propsito. No tem muito espao pra erros. -- Seu segredo est seguro -- disse Patrick. -- No vou contar pra ningum da comunidade da lei que voc tem emoes. Alex tomou um gole de caf e olhou para ele. -- Acar? Patrick cruzou os braos em cima do balco do bar e se inclinou na direo dela. -- Querida? -- Ao ver a expresso de Alex, ele comeou a rir e lhe entregou o pote de acar. -- Sinceramente, no tem nada de mais nisso. Todos ns temos dias ruins no trabalho. -- Voc se senta no carro e chora?

--

No nos ltimos tempos, mas sou conhecido por derrubar

armrios de provas em ataques de frustrao. -- Ele colocou leite em uma cremeira e a pousou no balco. -- Sabe, uma coisa no exclui a outra. -- O qu? -- Ser juza e ser humana. Alex colocou leite na caneca. -- Diga isso pra todo mundo que quer que eu me afaste do caso. -- No  essa a parte em que voc me diz que no podemos falar sobre o caso? --  -- disse Alex. -- S que no estou mais no caso. A partir do meio-dia, ser de conhecimento pblico. Patrick adquiriu uma postura mais sbria. -- Era por isso que voc estava chateada? -- No. Eu j tinha tomado a deciso de me afastar. Mas a eu soube que a Josie est na lista de testemunhas de defesa. -- Por qu? -- disse Patrick. -- Ela no lembra de nada. O que ela poderia dizer? -- No sei. -- Alex olhou para a frente. -- Mas e se for culpa minha? E se o advogado s fez isso pra me tirar do caso, porque fui teimosa demais pra me afastar quando o assunto surgiu? -- Para sua grande vergonha, ela se deu conta de que estava comeando a chorar de novo, e olhou para o bar na esperana de Patrick no reparar. -- E se ela tiver que ficar na frente de todo mundo no tribunal e reviver tudo que aconteceu naquele dia?

Patrick lhe entregou um guardanapo, e ela limpou os olhos. -- Me desculpe. No costumo ser assim -- desabafou. -- Qualquer me que teve a filha to perto de morrer tem direito de desmoronar -- disse Patrick. -- Olha s. Eu j conversei com a Josie duas vezes. Conheo a declarao dela de trs pra frente. No importa se o McAfee a colocar no banco, no tem nada que ela possa falar que v magola. A parte boa  que agora voc no precisa se preocupar com conflito de interesses. No momento, a Josie precisa mais de uma boa me do que de uma boa juza. Alex sorriu com tristeza. -- Pena que ela s tem a mim. -- Para com isso. --  verdade. A minha vida toda com a Josie tem sido uma srie de desconexes. -- Bom -- observou Patrick -- , isso quer dizer que em algum ponto vocs foram conectadas. -- Nenhuma de ns duas lembra de tanto tempo atrs. Voc teve conversas melhores com a Josie do que eu ultimamente. -- Alex olhou para a caneca de caf. -- Tudo que digo pra ela sai errado. Ela me olha como se eu fosse de outro planeta. Como se eu no tivesse direito de agir como uma me preocupada agora, s porque no agia assim antes de tudo acontecer. -- Por que voc no agia assim? -- Eu estava trabalhando. Muito -- disse Alex. -- Muitos pais trabalham muito...

-- Mas eu sou boa em ser juza. E pssima em ser me. Alex cobriu a boca com a mo, mas era tarde demais para engolir a verdade, que se encolhia no bar diante dela, como um veneno. O que ela estava pensando ao confessar isso para algum quando mal conseguia admitir para si mesma? Era melhor ter desenhado um alvo em seu calcanhar de Aquiles. -- Acho que voc devia tentar conversar com a Josie do mesmo modo como conversa com as pessoas que vo ao seu tribunal -- sugeriu Patrick. -- Ela odeia quando ajo como advogada. Alm do mais, eu quase no falo no tribunal. Em geral eu escuto. -- Bom, Meritssima -- disse Patrick. -- Isso tambm pode

funcionar. Uma vez, quando Josie era beb, Alex a deixou sozinha tempo suficiente para que ela subisse em um banquinho. Do outro lado da sala, Alex viu, apavorada, quando o pequeno peso de Josie perturbou o equilbrio. Ela no conseguiria chegar l rpido o bastante para impedir que Josie casse; no queria gritar porque tinha medo de assustar Josie e faz-la cair tambm. Ento, Alex ficou parada, esperando que um acidente acontecesse. Mas Josie conseguiu se equilibrar no banquinho, ficar de p no assento redondo e alcanar o interruptor de luz, que era seu objetivo desde o comeo. Alex a viu acender e apagar a luz, viu seu rosto se abrir com um sorriso cada vez que ela se dava conta de que suas aes podiam transformar o mundo. -- Como no estamos no tribunal -- disse ela com hesitao -- , eu gostaria que voc me chamasse de Alex.

Patrick sorriu. -- E eu gostaria que voc me chamasse de Vossa Majestade Rei Kamehameha. Alex no conseguiu se controlar e riu. -- Mas, se for muito difcil de lembrar, pode ser Patrick mesmo. -- Ele pegou a jarra de caf e serviu-lhe mais. -- Refil de graa. Ela o viu colocar acar e creme, as quantidades exatas que ela tinha usado na primeira caneca. Ele era detetive; seu trabalho era reparar em detalhes. Mas Alex achou que provavelmente no era isso que o tornava to bom policial. Era o fato de ele ser capaz de usar a fora, como qualquer outro policial, mas preferir emboscar voc com gentilezas. Alex sabia que isso era mais perigoso. No era algo que ele colocaria no currculo, mas Jordan tinha um talento especial para danar as msicas dos Wiggles. Sua favorita era "Hot Potato", mas a que deixava Sam doido era "Fruit Salad". Enquanto Selena estava no andar de cima tomando um banho quente, Jordan colocou o DVD. Ela se opunha a bombardear Sam com esse tipo de estmulo e no queria que ele soubesse soletrar D-O-R-O-T-H-Y, a dinossauro, antes de saber escrever o prprio nome. Selena sempre queria que Jordan estivesse fazendo outra coisa com o beb, como decorar Shakespeare ou resolver equaes diferentes, mas Jordan acreditava em deixar a televiso fazer seu trabalho de transformar o crebro das pessoas em mingau... pelo menos tempo suficiente para que elas danassem um tango bobo. Os bebs sempre tinham o peso certo, de forma que, quando voc os tirava dos braos, sentia que estava faltando alguma coisa.

-- Salada de frutas... que delcia! -- cantarolou Jordan, rodopiando at Sam abrir a boca e soltar uma srie de gargalhadas. A campainha tocou, e Jordan seguiu com seu pequeno parceiro at a entrada para atend-la. Em harmonia -- mais ou menos -- com Jeff, Murray, Greg e Anthony ao fundo, Jordan abriu a porta. -- Vamos fazer salada de frutas hoje -- cantou ele, e ento viu quem estava de p em sua varanda. -- Juza Cormier! -- Desculpe interromper. Ele j sabia que ela tinha se afastado do caso. O feliz comunicado tinha sido feito naquela tarde. -- No, tudo bem. Entre. Jordan olhou para a trilha de brinquedos que ele e Sam haviam deixado no caminho -- ele teria que arrumar tudo antes que Selena descesse. Chutando tantos quanto conseguiu para trs do sof, levou a juza para a sala e desligou o DVD. -- Esse deve ser o seu filho. --  -- disse Jordan, olhando para o beb, que estava a caminho de decidir se daria um ataque ou no pela msica ter sido desligada. -- Sam. Ela esticou a mo, e Sam fechou a dele ao redor do dedo indicador dela. Sam conseguiria encantar at mesmo Hitler, mas v-lo s pareceu deixar a juza Cormier mais agitada. -- Por que voc colocou a minha filha na lista de testemunhas? Ah.

-- Porque -- disse Jordan -- a Josie e o Peter eram amigos, e posso precisar dela como testemunha de carter. -- Eles foram amigos dez anos atrs. Seja sincero. Voc fez isso pra me tirar do caso. Jordan segurou Sam mais para cima, apoiado no quadril. -- Meritssima, com todo o respeito, no vou permitir que ningum julgue esse caso por mim. Especialmente uma juza que no est mais envolvida nele. Ele viu alguma coisa se acender por detrs dos olhos dela. --  claro que no -- ela retrucou rispidamente, ento se virou e foi embora. Pergunte a uma adolescente qualquer se ela quer ser popular e ela vai dizer que no, mesmo que a verdade seja que, se ela estivesse em um deserto morrendo de sede e pudesse escolher entre um copo de gua e a popularidade instantnea, ela provavelmente escolheria a segunda opo. Assim que ouviu a batida na porta, Josie enfiou o caderno entre o colcho e a base da cama box, que devia ser o pior esconderijo do mundo. A me entrou no quarto, e, por um segundo, Josie no conseguiu identificar o que no estava certo. Mas ento ela entendeu: ainda no tinha escurecido. Normalmente, quando a me chegava do frum, j era hora do jantar, mas agora eram apenas quinze para as quatro da tarde e Josie tinha acabado de chegar da escola. -- Preciso conversar com voc -- disse a me, se sentando ao lado dela sobre o edredom. -- Eu me afastei do caso hoje.

Josie ficou olhando fixamente para ela. Em toda sua vida, ela nunca vira a me se afastar de qualquer desafio legal; alm do mais, elas no tinham acabado de ter uma conversa sobre o fato de que ela no ia se afastar? Ela sentiu aquela compreenso doentia que acompanhava o chamado da professora quando ela no estava prestando ateno. O que a me tinha descoberto que no sabia dias atrs? -- O que aconteceu? -- perguntou Josie, esperando que a me no estivesse prestando muita ateno para ouvir a forma como sua voz soou desafinada. -- Bom, essa  outra coisa que preciso conversar com voc -- disse a me. -- A defesa te colocou na lista de testemunhas. Podem pedir que voc v ao tribunal. -- O qu? -- gritou Josie, e por um momento tudo parou: sua

respirao, seu corao, sua coragem. -- No posso ir ao tribunal, me -- disse ela. -- No me obrigue. Por favor... A me esticou a mo na direo dela, o que foi uma boa coisa, porque Josie tinha certeza de que, a qualquer segundo, ia simplesmente desaparecer. Sublimao, pensou ela, o ato de passar de slido a vapor. E ento se deu conta de que esse termo era um dos que tinha estudado para a prova de cincias, que nunca fizera por causa de tudo que havia acontecido. -- Andei conversando com o detetive e sei que voc no lembra de nada. A nica razo pra voc estar naquela lista  porque voc era amiga do Peter muito tempo atrs. Josie se afastou.

-- Voc jura que no vou ter que ir ao tribunal? A me hesitou. -- Querida, eu no posso... -- Voc precisa! -- E se formos falar com o advogado de defesa? -- Alex sugeriu. -- O que mudaria? -- Bom, se ele vir como isso est te perturbando, talvez pense duas vezes antes de te usar como testemunha. Josie se deitou na cama. Por um momento, a me acariciou seu cabelo. A garota pensou t-la ouvido sussurrar desculpa, e depois ela se levantou e fechou a porta ao sair. -- Matt -- sussurrou Josie, como se apenas ele pudesse ouvir, como se ele pudesse responder. Matt. Ela inspirou o nome dele como oxignio e o imaginou se quebrando em mil pedacinhos, entrando em seus glbulos vermelhos, batendo em seu corao. Peter quebrou um lpis no meio e enfiou a ponta com a borracha no po de milho. -- Parabns para mim -- cantou baixinho. No terminou a msica; qual era o sentido quando voc j sabia o que vinha depois? -- Ei, Houghton -- disse um agente penitencirio -- , temos um presente pra voc.

De p atrs dele havia um garoto no muito mais velho que Peter. Estava se balanando para frente e para trs e tinha catarro escorrendo do nariz. O agente o levou para dentro da cela. -- No vai esquecer de dividir o bolo -- disse o agente. Peter se sentou na cama de baixo do beliche s para que o garoto soubesse quem mandava. O garoto ficou parado com os braos cruzados com fora ao redor do cobertor que recebera, olhando para o cho. Ele esticou a mo e empurrou os culos no nariz, e foi nessa hora que Peter percebeu que havia alguma coisa, bem, de errado com ele. Ele tinha aquele olhar vidrado e as gengivas largas de um garoto com necessidades especiais. Peter se deu conta do motivo de terem colocado o garoto na cela dele em vez de em qualquer outra: concluram que Peter seria o que menos provavelmente mexeria com ele. Ele sentiu as mos se fecharem em formato de punho. -- Ei, voc -- disse Peter. O garoto virou a cabea na direo dele. -- Eu tenho um cachorro -- disse. -- Voc tem um cachorro? Peter visualizou os agentes penitencirios assistindo quela comdia pela cmera de vdeo, esperando que ele aguentasse aquela merda. Esperando alguma coisa dele, ponto. Esticou a mo e tirou os culos do garoto. Eram grossos como fundos de garrafa, com moldura preta de plstico. O garoto comeou a gritar e bater no prprio rosto. Seus gritos pareciam uma buzina.

Peter colocou os culos no cho e pisou neles, mas, com os chinelos de borracha, o dano no foi grande. Assim, ele os pegou e bateu nas barras da cela at o vidro se partir. quela altura, os agentes penitencirios j tinham chegado para afastar Peter do garoto, mesmo ele nem estando com as mos nele. Eles o algemaram enquanto os outros detentos comemoravam, e foi arrastado pelo corredor at a sala do superintendente. Sentou-se em uma cadeira, com um guarda observando-o respirar, at que o superintendente entrou. -- O que foi aquilo, Peter? --  meu aniversrio -- disse ele. -- Eu s queria ficar sozinho. O engraado, ele percebeu, era que, antes dos tiros, ele acreditava que a melhor coisa do mundo era ser deixado sozinho, para que ningum pudesse dizer que ele no se encaixava. Mas, na verdade -- no que ele fosse dizer isso ao superintendente --, ele no gostava muito de si mesmo tambm. O superintendente comeou a falar sobre ao disciplinar e como isso poderia afet-lo no caso de uma condenao, que poucos privilgios ele ainda tinha e que poderiam ser retirados. Peter deliberadamente parou de escutar. Pensou em quanto os outros detentos ficariam furiosos quando esse incidente os levasse  privao de TV por uma semana. Pensou na sndrome da vtima de bullying de Jordan e se perguntou se acreditava naquilo, se algum acreditaria.

Pensou em como ningum que o visitava na cadeia -- nem a me, nem o advogado -- dizia o que deveria dizer: que Peter ficaria preso para sempre, que morreria em uma cela bem parecida com aquela. Pensou em como preferia terminar a vida com uma bala. Pensou em como,  noite, voc conseguia ouvir as asas dos morcegos batendo nos cantos das paredes da cadeia e os gritos. Ningum era burro o bastante para chorar. s nove horas da manh de sbado, quando Jordan abriu a porta, ainda estava com a cala do pijama. -- S pode ser brincadeira -- disse ele. A juza Cormier deu um sorriso. -- Lamento muito termos comeado com o p esquerdo -- disse ela. -- Mas voc sabe como  quando  o seu filho que est com problema... No d pra pensar direito. Ela estava com a miniatura dela ao seu lado. Josie Cormier, pensou Jordan, avaliando a garota, que tremia como vara verde. Ela tinha cabelos castanhos que caam sobre os ombros e olhos azuis que no olhavam para ele. -- A Josie est com muito medo -- disse a juza. -- Eu queria saber se podemos conversar um minuto... Talvez voc possa tranquiliz-la sobre ser testemunha. Dizer se o que ela sabe vai ou no ajudar no seu caso. -- Jordan? Quem ?

Ele se virou e encontrou Selena na entrada, segurando Sam. Ela estava usando um pijama de flanela, que podia ou no ser um passo para o mais formal. -- A juza Cormier quer saber se podemos falar com a Josie sobre o testemunho dela -- disse ele enfaticamente, tentando desesperadamente telegrafar para Selena que estava encrencado, pois todos eles sabiam, com a exceo de Josie, talvez, que a nica razo para ele ter elaborado por escrito a inteno de us-la fora para tirar Cormier do caso. Jordan se virou para a juza de novo. --  que eu ainda no estou nesse estgio do planejamento. -- Sem dvida voc tem uma noo do que pretende ao cham-la como testemunha... seno no teria colocado a Josie na lista -- observou Alex. -- Por que voc no liga para a minha secretria e marca uma hora? -- Eu estava pensando em conversarmos agora -- disse a juza Cormier. -- Por favor. No estou aqui como juza. S como me. Selena deu um passo  frente. -- Podem entrar -- disse ela, usando o brao livre para envolver os ombros de Josie. -- Voc deve ser a Josie, certo? Este  o Sam. A garota sorriu timidamente para o beb. -- Oi, Sam. -- Querido, por que voc no oferece um caf ou um suco para a juza?

Jordan ficou olhando para a esposa, se perguntando o que ela estava tramando agora. -- Certo. Por que vocs no entram? Por sorte, a casa no estava como na primeira vez em que Cormier aparecera sem avisar: no havia pratos na pia, nem papis amontoados nas mesas, e os brinquedos estavam misteriosamente escondidos. O que Jordan poderia dizer? Sua esposa era manaca por arrumao. Ele puxou uma das cadeiras da mesa da cozinha e a ofereceu para Josie, depois fez o mesmo com a juza. -- Como vocs gostam do caf? -- ele perguntou. -- Ah, estamos bem, obrigada -- disse ela, segurando a mo da filha por baixo da mesa. -- O Sam e eu vamos para a sala brincar -- disse Selena. -- Por que no fica? -- disse Jordan, lanando-lhe um olhar

calculado, pedindo que ela no o deixasse sozinho para ser estripado. -- Voc no precisa da nossa distrao -- disse Selena, levando o beb para a sala. Jordan se sentou pesadamente diante das duas Cormiers. Ele era bom em argumentao improvisada; com certeza conseguiria passar por isso. -- Bom -- disse ele -- , no  nada pra ter medo. Eu s ia perguntar algumas coisas bsicas sobre a sua amizade com o Peter. -- Ns no somos amigos -- disse Josie. -- Sim, eu sei disso. Mas j foram. Estou interessado em quando voc conheceu o Peter.

Josie olhou para Alex. -- Por volta do maternal, talvez antes. -- Certo. Vocs brincavam na sua casa? Na dele? -- Nas duas. -- Vocs tinham outros amigos que brincavam com vocs? -- No -- disse Josie. Alex prestou ateno, mas no conseguia evitar o "modo advogada" ao ouvir as perguntas de McAfee. Ele no tem nada, pensou ela. Isso no vai dar em nada. -- Quando vocs pararam de andar juntos? -- No sexto ano -- respondeu Josie. -- Comeamos a gostar de coisas diferentes. -- Voc teve algum contato com o Peter depois disso? Josie se mexeu na cadeira. -- S nos corredores e tal. -- Mas voc trabalhou com ele, no foi? Ela olhou para a me de novo. -- No por muito tempo. Tanto a me quanto a filha estavam olhando fixamente para ele, na expectativa, o que era incrivelmente engraado, porque Jordan estava inventando tudo conforme falava.

-- E o relacionamento entre o Matt e o Peter? -- No tinha relacionamento -- disse Josie, mas suas bochechas ficaram rosadas. -- O Matt fez alguma coisa com o Peter que pode ter sido

desagradvel? -- Talvez. -- Voc pode ser mais especfica? Ela balanou a cabea, com os lbios bem apertados. -- Quando foi a ltima vez que voc viu o Matt e o Peter juntos? -- No lembro -- sussurrou Josie. -- Eles brigaram? Lgrimas encheram os olhos dela. -- No sei. Ela se virou para a me e lentamente abaixou a cabea at a mesa, com o rosto escondido na dobra do brao. -- Querida, por que voc no vai esperar na sala? -- disse a juza calmamente. Os dois viram Josie ir se sentar em uma poltrona na sala, secando os olhos, e se inclinar para ver o beb brincar no cho. -- Olha. -- A juza Cormier suspirou. -- Eu sa do caso. Sei que foi por isso que voc colocou a Josie na lista de testemunhas, mesmo que nunca tenha pretendido cham-la. Mas no estou questionando isso agora.

Estou falando de me para pai. Se eu lhe der um depoimento juramentado assinado pela Josie dizendo que ela no lembra de nada, voc pensaria duas vezes antes de coloc-la no banco? Jordan olhou para a sala. Selena tinha convencido Josie a se sentar no cho. Ela estava empurrando um avio de brinquedo na direo dos ps de Sam. Quando ele deu uma risada do tipo que s os bebs conseguem, Josie deu um sorrisinho tambm. Selena olhou para ele e ergueu as sobrancelhas em uma pergunta. Ele tinha conseguido o que queria: o afastamento de Cormier. Podia ser generoso o bastante para fazer isso por ela. -- Tudo bem -- disse ele para a juza. -- Me consiga o depoimento. -- Quando dizem pra ferver o leite -- disse Josie, esfregando outra esponja de l de ao no fundo preto da panela -- , acho que no querem dizer assim. A me pegou um pano de prato. -- Bom, como eu podia saber? -- Acho que a gente devia comear com uma coisa mais fcil do que pudim -- sugeriu Josie. -- Tipo? Ela sorriu. -- Torrada? Agora que a me ficava em casa durante o dia, estava agitada. Por isso, tinha comeado a cozinhar, o que era uma boa ideia apenas se voc trabalhasse para os bombeiros e precisasse de estabilidade no emprego.

Mesmo quando a me seguia a receita, no ficava como devia, e inevitavelmente Josie exigia detalhes e descobria que ela usara fermento em vez de bicarbonato, ou farinha integral em vez de farinha de milho. "No tinha farinha de milho", ela reclamava. A princpio, Josie sugerira aulas noturnas de culinria por autopreservao, pois no sabia o que dizer quando a me tirava do forno um tijolo queimado de bolo de carne com a mesma reverncia dramtica que poderia ser dada ao Clice Sagrado. Mas acabou sendo divertido. Quando a me no estava agindo como se soubesse de tudo -- coisa que no fazia quando o assunto era culinria --, ela era uma companhia bem divertida. E tambm era legal para Josie ter a sensao de estar no controle de uma situao; de qualquer situao, mesmo que fosse fazer pudim de chocolate ou raspar o fundo de uma panela. Nessa noite, elas fizeram pizza, o que Josie contou como sucesso at a me tentar deslizar a pizza para fora do forno e ela dobrar na metade em cima da resistncia, o que significou que tiveram que fazer queijo quente para o jantar. Comeram salada direto do saco, coisa que a me no tinha como estragar, concluiu Josie, mesmo que tentasse. Mas agora, graas ao desastre do pudim, no havia sobremesa. -- E como foi que voc conseguiu ser a Julia Child? -- perguntou a me. -- A Julia Child morreu. -- A Nigella Lawson,13 ento.

13

Julia Child e Nigella Lawson so apresentadoras de programas culinrios

na TV. (N. da T.)

Josie deu de ombros, fechou a torneira e tirou a luva amarela de borracha. -- Enjoei de sopa -- disse ela. -- Eu no te falei pra no ligar o fogo quando eu no estivesse em casa? -- Falou, mas eu no dei ateno. Uma vez, quando Josie estava no quinto ano, os alunos tiveram que construir uma ponte com palitos de picol. A ideia era criar um design que suportasse o mximo de presso. Ela conseguia se lembrar de passar de carro por cima do rio Connecticut e de estudar os arcos, estacas e suportes das pontes verdadeiras, tentando copi-los da melhor maneira possvel. Ao final do trabalho, dois engenheiros do exrcito foram at a escola com uma mquina feita para colocar peso e torque em cada ponte, para ver qual era a mais forte. Os pais foram convidados para o teste. A me de Josie estava no tribunal e foi a nica a no comparecer naquele dia. Ou pelo menos era o que ela lembrava at o momento em que percebeu que a me estava l, nos ltimos dez minutos. Ela podia ter perdido o teste na ponte de Josie, durante o qual os palitos racharam e gemeram, e acabaram explodindo em um fracasso catastrfico, mas chegou a tempo de ajud-la a recolher os restos. A panela estava brilhando, prateada. A caixa de leite estava pela metade. -- Podemos recomear -- sugeriu Josie. Quando no houve resposta, ela se virou.

-- Eu gostaria muito -- respondeu a me, baixinho, mas quela altura nenhuma das duas estava falando sobre cozinhar. Algum bateu  porta, e aquela ligao entre elas, passageira como uma borboleta que pousa em sua mo, se rompeu. -- Voc est esperando algum? -- Alex perguntou. Josie no estava, mas foi atender. Quando abriu a porta, deu de cara com o detetive que a tinha entrevistado. Os detetives no apareciam na sua porta s quando voc estava seriamente encrencado? Respire, Josie, disse para si mesma, e reparou que ele estava segurando uma garrafa de vinho na mesma hora em que a me foi ver o que estava acontecendo. -- Ah -- disse a me. -- Patrick. Patrick? Josie se virou e percebeu que a me estava ruborizando. Ele ergueu a garrafa de vinho. -- Como isso parece ser o pomo da discrdia entre ns... -- Sabem de uma coisa? -- disse Josie, desconfortvel. -- Vou, hum... estudar. Ela deixaria que a me descobrisse como ela ia fazer isso, pois tinha terminado o dever de casa antes do jantar.

Subiu a escada correndo, batendo com fora com os ps para no ouvir o que a me estava dizendo. No quarto, colocou a msica no volume mais alto, se jogou na cama e ficou olhando para o teto. O horrio de Josie voltar para casa era meia-noite, no que ela estivesse saindo muito nos ltimos tempos. Mas, antes, a negociao era assim: Matt levava Josie para casa  meia-noite; em troca, Alex desaparecia como fumaa quando eles entravam em casa, indo para o andar de cima para que ela e Matt pudessem namorar na sala. Ela no fazia ideia de qual era o raciocnio da me, a no ser que era mais seguro para Josie fazer isso em sua prpria sala do que em um carro ou debaixo das arquibancadas. Ela conseguia lembrar como eles atingiam o clmax juntos no escuro, com os corpos fundindo e o silncio medido. Saber que a qualquer momento a me dela podia descer para tomar gua ou aspirina s tornava tudo mais excitante. s trs ou quatro da madrugada, quando seus olhos estavam embaados e o queixo ardendo por causa da barba por fazer de Matt, Josie se despedia dele com um beijo na porta da frente. Via as luzes do carro dele desaparecerem como o brilho de um cigarro se apagando. Ia na ponta dos ps para o andar de cima e passava pelo quarto da me, pensando: Voc no me conhece mesmo . -- Se eu no deixo voc me pagar uma bebida -- disse Alex --, o que te faz pensar que eu aceitaria uma garrafa de vinho? Patrick sorriu. -- No estou dando pra voc. Vou abrir, e voc pode escolher pegar um pouco emprestado.

Quando ele disse isso, entrou na casa como se j conhecesse o caminho. Foi para a cozinha, farejou duas vezes -- ainda estava com cheiro de massa de pizza queimada e leite incinerado -- e comeou a abrir aleatoriamente as gavetas at encontrar um saca-rolhas. Alex cruzou os braos, no por estar com frio, mas porque no conseguia se lembrar de se sentir to leve por dentro, como se seu corpo fosse o lar de um segundo sistema solar. Viu Patrick pegar duas taas de vinho em um armrio e servir. -- A ser um civil -- disse ele, brindando. O vinho era intenso e encorpado, como veludo, como outono. Alex fechou os olhos. Gostaria de apreender aquele momento, faz-lo se arrastar o mximo possvel, at que cobrisse tantos outros que aconteceram antes. -- Ento, como ? -- perguntou Patrick. -- Estar desempregada? Ela pensou por um instante. -- Fiz queijo quente hoje sem queimar a frigideira. -- Espero que tenha emoldurado. -- No, deixei isso pra promotoria. Ela sorriu com a piadinha que fez e sentiu a graa se dissolver diante dos pensamentos que teve ao imaginar o rosto de Diana Leven. -- Voc alguma vez se sente culpado? -- perguntou Alex. -- Por qu? -- Por quase esquecer, por meio segundo, tudo que aconteceu. Patrick colocou a taa de vinho sobre a mesa.

--

s vezes, quando estou examinando as provas e vejo uma

impresso digital, uma foto ou um sapato que pertencia a um dos adolescentes que morreram, me demoro um pouco mais olhando.  loucura, mas parece que algum tem que fazer isso, para que eles sejam lembrados por mais um minuto ou dois. -- Ele olhou para ela. -- Quando algum morre, a vida dessa pessoa no  a que para naquele momento, sabia? Alex levantou a taa de vinho e bebeu tudo. -- Me conta como voc a encontrou. -- Quem? -- A Josie. Naquele dia. Patrick olhou nos olhos dela, e Alex sabia que ele estava avaliando o direito de ela saber o que a filha tinha vivenciado contra o desejo dele de poup-la de uma verdade que a feriria at a alma. -- Ela estava no vestirio -- ele comeou a dizer baixinho. -- E eu pensei... pensei que tambm estivesse morta, porque estava coberta de sangue, com o rosto para baixo, ao lado de Matt Royston. Mas ento ela se mexeu e... -- A voz dele falhou. -- Foi a coisa mais bonita que j vi. -- Voc sabe que  um heri, no sabe? Ele balanou a cabea. -- Sou um covarde. O nico motivo de ter entrado naquele prdio foi porque, se eu no entrasse, teria pesadelos pelo resto da vida. Alex tremeu. -- Eu tenho pesadelos, e nem estava l.

Ele tirou a taa de vinho dela e observou a palma de sua mo, como se fosse ler as linhas da vida. -- Talvez voc devesse experimentar no dormir -- disse Patrick. De perto assim, a pele dele tinha cheiro de sempre-viva e hortel. Alex sentia o corao batendo nas pontas dos dedos. Imaginou que ele tambm conseguia sentir. Ela no sabia o que ia acontecer depois, o que deveria acontecer depois, mas seria aleatrio, imprevisvel, desconfortvel. Estava se preparando para se afastar de Patrick quando as mos dele a seguraram com firmeza. -- Pare de ser to juza, Alex -- ele sussurrou e a beijou. Quando o sentimento voltava, em uma tempestade de cor, fora e sensaes, o mximo que se podia fazer era se segurar  pessoa ao seu lado e torcer para conseguir aguentar. Alex fechou os olhos e esperou o pior, mas no foi ruim, foi apenas diferente. Mais bagunado, mais complicado. Ela hesitou e em seguida retribuiu o beijo de Patrick, disposta a aceitar que talvez tivesse de perder o controle antes de conseguir encontrar o que estava faltando.

Sterling no  uma cidade pobre. Voc no encontra traficantes de crack na Rua Main, nem lares abaixo do nvel de pobreza. A taxa de criminalidade  praticamente inexistente.  por isso que as pessoas ainda esto to chocadas. Elas perguntam: Como isso pde acontecer aqui? Bem. Como podia no acontecer aqui? Basta haver um garoto perturbado com acesso a armas. No  preciso ir a uma cidade pobre para encontrar algum que se encaixa nesses critrios. S  preciso abrir os olhos. O candidato mais provvel pode estar no andar de cima, ou sentado em frente  sua TV agora mesmo. Mas simplesmente vamos em frente, fingindo que no vai acontecer aqui. Voc diz a si mesmo que  imune por causa de onde mora ou de quem .  mais fcil assim, no ?

No ms anterior

Q

uando se ama algum, h um padro no modo como os dois se juntam. Pode-se nem perceber, mas os corpos seguem

uma coreografia: um toque no quadril, uma carcia no cabelo. Um beijo ritmado, um afastamento, outro mais longo, a mo dele entrando debaixo da blusa dela.  uma rotina, mas no no sentido chato da palavra.  s o jeito como os dois aprenderam a se encaixar, e  o motivo pelo qual, quando se fica com a mesma pessoa por muito tempo, os dentes no se chocam, o nariz e o queixo no se esbarram quando os dois se beijam. Matt e Josie tinham um padro. Quando comeavam os amassos, ele se inclinava sobre ela e a olhava como se no conseguisse ver mais nada no mundo. Era como se ficasse hipnotizado. Ela percebeu isso porque, depois de um tempo, ela meio que se sentia assim tambm. Em seguida, ele a beijava, to devagar que mal havia presso em sua boca, at que fosse ela a se pressionar contra ele, querendo mais. Ele descia pelo corpo dela, da boca para o pescoo, do pescoo para os seios, e ento seus dedos faziam uma misso de busca e resgate abaixo da cintura do jeans. A coisa toda durava cerca de dez minutos, e ento Matt saa de cima dela e tirava a camisinha da carteira para que pudessem transar. No que Josie se importasse. Para falar a verdade, ela gostava do padro. Parecia uma montanha-russa: subir a rampa sabendo o que vinha depois e sabendo que no se podia fazer nada para impedir. Eles estavam na sala da casa dela, no escuro, com a televiso ligada para terem rudo de fundo. Matt j tinha tirado as roupas dela e agora

estava deitado sobre ela como uma onda gigante, puxando a cueca. Liberto, aninhou-se entre as pernas de Josie. -- Ei -- disse ela, quando ele tentou penetr-la. -- Voc no est esquecendo nada? -- Ah, Jo. S uma vez no quero que tenha nada entre a gente. Suas palavras a faziam derreter tanto quanto seu beijo e seu toque; ela j sabia disso. Ela odiava o cheiro de borracha que se espalhava no ar quando ele abria o pacote de camisinha, o qual ficava nas mos dele at o fim. E, Deus, ser que havia sensao melhor do que ter Matt dentro dela? Josie se mexeu s um pouquinho, sentiu seu corpo se ajustar ao dele, e suas pernas tremeram. Quando Josie ficou menstruada, aos treze anos, a me no teve com ela a tpica conversa de me e filha. Em vez disso, entregou a Josie um livro sobre probabilidade e estatstica. -- Cada vez que voc faz sexo, pode ou no engravidar -- disse a me. --  uma chance de cinquenta por cento. Portanto, no se engane pensando que se s fizer uma vez sem proteo as chances estaro a seu favor. Josie empurrou Matt. -- Acho que no devemos fazer isso -- sussurrou ela. -- Fazer sexo? -- Fazer sexo sem... voc sabe. Sem nada. Ele ficou decepcionado; Josie percebeu pelo modo como o rosto dele ficou paralisado por apenas um momento. Ento ele saiu de dentro dela, procurou a carteira e encontrou um preservativo. Josie o pegou da mo dele, abriu o pacote e o ajudou a colocar. -- Um dia -- disse ela, mas ele a beijou, e Josie esqueceu o que ia dizer.

Lacy comeava a espalhar milho no gramado em novembro para ajudar os cervos no inverno. Muitos vizinhos estranhavam essa ajuda artificial durante o inverno -- geralmente as mesmas pessoas cujos jardins eram destrudos pelos cervos sobreviventes no vero -- , mas para Lacy era uma questo de carma. Enquanto Lewis insistisse em caar, ela ia fazer o pouco que pudesse para compensar as aes dele. Colocou as pesadas botas, pois ainda havia muita neve no cho, apesar de ter esquentado o bastante para a seiva comear a fluir, o que significava, ao menos em teoria, que a primavera estava chegando. Assim que Lacy saiu, sentiu o cheiro do xarope de bordo na refinaria de acar do vizinho, como cristais doces no ar. Carregou o balde com milho at o balano no quintal, uma estrutura de madeira onde os meninos brincavam quando eram pequenos e que Lewis nunca desmontara. -- Oi, me. Lacy se virou e viu Peter parado ali perto, com as mos enfiadas nos bolsos do jeans. Estava usando uma camiseta e um colete acolchoado, e ela imaginou que ele devia estar congelando. -- Oi, querido -- disse ela. -- O que foi? Ela achava que podia contar nos dedos de uma das mos a quantidade de vezes que Peter sara do quarto recentemente, e menos ainda as que sara de casa. Fazia parte da puberdade, ela sabia, que os adolescentes se enfiassem em tocas e fizessem o que quer que fosse por trs de portas fechadas. No caso de Peter, isso envolvia o computador. Ele ficava online o tempo todo, no tanto para navegar na internet, mas para fazer programao. Como ela podia criticar esse tipo de paixo? -- Nada. O que voc est fazendo? -- A mesma coisa que fiz o inverno todo. --  mesmo?

Ela olhou para ele. Ali, em meio  beleza da energia ao ar livre, Peter parecia incrivelmente deslocado. Suas feies eram delicadas demais para acompanhar a linha escarpada das montanhas que se erguiam atrs dele, e sua pele parecia quase to branca quanto a neve. Ele no se encaixava, e Lacy se deu conta de que a maior parte das vezes em que via Peter em algum lugar, podia fazer a mesma observao. -- Aqui -- disse Lacy, entregando-lhe o balde. Peter o pegou e comeou a espalhar punhados de milho pelo cho. -- Posso perguntar uma coisa? -- Claro. --  verdade que foi voc quem chamou o papai pra sair? Lacy sorriu. -- Bom, se eu no tivesse chamado, acho que teria que esperar pra sempre. Seu pai  muitas coisas, mas no  nada observador. Ela conhecera Lewis em uma passeata a favor do aborto. Embora Lacy fosse a primeira a dizer que no havia bno maior do que ter um beb, ela era realista: j tinha mandado para casa diversas mes que eram ou jovens demais, ou pobres demais, ou ocupadas demais para saber que as chances de aquela criana ter uma vida saudvel eram poucas. Ela foi com uma amiga para uma passeata em frente ao palcio do governo em Concord e ficou de p na escada com uma irmandade de mulheres com cartazes que diziam: SOU A FAVOR DA ESCOLHA E DO VOTO...  CONTRA O ABORTO? NO FAA UM. Ela olhou para a multido naquele dia e percebeu que havia um nico homem, bem-vestido, de terno e gravata, bem no meio das manifestantes. Lacy ficou fascinada por ele. Como participante, ele era completamente diferente do resto. -- Uau -- disse Lacy, aproximando-se dele. -- Que dia. -- Nem me fale. -- Voc j esteve aqui antes? -- perguntou ela.

--  minha primeira vez -- disse Lewis. -- Minha tambm. Eles se separaram quando um outro grupo de manifestantes subiu os degraus de pedra. Um papel voou da pilha que Lewis carregava, mas, quando Lacy conseguiu peg-lo, ele tinha sido engolido pela multido. Era a capa de algo maior -- ela soube pelos buracos de grampeador em cima -- , e tinha um ttulo que quase lhe deu sono: "A alocao dos recursos da educao pblica em New Hampshire: uma anlise crtica". Mas tambm havia o nome do autor: Lewis Houghton, Departamento de Economia da Faculdade de Sterling. Quando ela ligou para dizer a Lewis que estava com o papel, ele disse que no precisava, que podia imprimir outro. -- Sim -- disse Lacy -- mas preciso levar esse de volta pra voc. -- Por qu? -- Pra que voc possa me explicar durante o jantar. Somente quando eles saram para comer sushi, Lacy soube que o motivo de Lewis estar no palcio do governo no tinha nada a ver com a passeata a favor da escolha, mas com um compromisso que ele tinha com o governador. -- Mas como voc contou pra ele? -- perguntou Peter. -- Que voc gostava dele, sabe, daquele jeito? -- Pelo que me lembro, eu agarrei seu pai depois do nosso terceiro encontro e o beijei. Por outro lado, pode ter sido pra que ele calasse a boca, porque ele estava falando sem parar sobre o livre comrcio. -- Ela olhou por cima do ombro, e de repente todas as perguntas fizeram sentido. -- Peter -- disse ela, abrindo um sorriso -- , voc est gostando de algum? Ele nem precisou responder. Seu rosto ficou vermelho. -- Posso saber o nome dela? -- No -- disse Peter, enfaticamente.

-- Bom, no importa. -- Ela passou o brao pelo dele. -- Meu Deus, tenho inveja de voc. No tem nada que se compare a esses primeiros meses, em que um s consegue pensar no outro. O amor  fantstico de qualquer jeito... mas se apaixonar... ah... -- No  assim -- disse Peter. -- O que quero dizer  que  meio unilateral. -- Aposto que ela est to nervosa quanto voc. Ele fez uma careta. -- Me, ela mal percebe minha existncia. E eu no... no ando com o tipo de pessoa com quem ela anda. Lacy olhou para o filho. -- Ah -- disse ela. -- Ento a primeira coisa que voc precisa fazer  mudar isso. -- Como? -- Encontre formas de se encontrar com ela. Talvez em lugares onde voc saiba que os amigos dela no vo estar por perto. E tente mostrar o lado de voc que ela no costuma ver. -- Tipo o qu? -- Seu interior -- Lacy bateu no peito de Peter. -- Se voc disser a ela o que sente, acho que pode ter uma surpresa com a reao. Peter baixou a cabea e chutou um monte de neve. Em seguida, olhou para ela timidamente. --  mesmo? Lacy assentiu. -- Funcionou pra mim. -- Tudo bem -- disse Peter. -- Obrigado. Ela o viu entrar em casa e em seguida voltou a ateno para os cervos. Lacy teria que aliment-los at a neve derreter. Quando voc comeava a cuidar deles, tinha que ir at o fim, seno eles no sobreviveriam.

Eles estavam no cho da sala, quase nus. Josie sentia gosto de cerveja no hlito de Matt, mas sabia que tambm devia estar com esse gosto. Os dois tinham tomado algumas na casa de Drew -- no o bastante para ficarem bbados, s alegres, o suficiente para a mo de Matt no conseguir sair do corpo dela, para a pele dele incendiar a dela. Ela estava flutuando agradavelmente em uma nvoa familiar. Sim, Matt a beijou: um beijo curto e depois outro longo e faminto, enquanto a mo trabalhava para abrir o fecho do suti. Ela estava deitada, relaxada, espalhada debaixo dele como um banquete, quando ele tirou o jeans dela. Mas, em vez de fazer o que costumava vir depois, Matt se deitou sobre ela de novo e a beijou com tanta fora que doeu. -- Mmm -- resmungou ela, empurrando-o. -- Relaxa -- murmurou Matt, e afundou os dentes no ombro dela. Ento prendeu as mos dela sobre a cabea e esfregou os quadris contra os dela. Ela conseguia sentir a ereo quente em sua barriga. No estava da maneira que costumava ser, mas Josie tinha que admitir que era excitante. No conseguia se lembrar de se sentir to pesada, como se o corao estivesse batendo entre as pernas. Enfiou as unhas nas costas de Matt para pux-lo para mais perto. -- Isso -- ele gemeu e abriu as coxas dela. E de repente Matt estava dentro dela, bombeando com tanta fora que ela foi empurrada no tapete, o que fez a parte de trs de suas pernas arder. -- Espera -- disse Josie, tentando rolar para longe dele, mas ele cobriu sua boca com a mo e bombeou com mais fora at Josie senti-lo gozar. O smen quente e grudento fez uma poa embaixo dela no tapete. Matt colocou as mos em seu rosto. -- Meu Deus, Josie -- sussurrou, e ela se deu conta de que ele estava chorando. -- Eu te amo tanto.

Josie afastou o rosto. -- Eu tambm te amo. Ela ficou deitada nos braos dele por dez minutos e disse que estava cansada e precisava dormir. Depois de lhe dar um beijo de boa-noite na porta, foi at a cozinha e pegou o limpador de tapete debaixo da pia. Esfregou o local molhado e rezou para que no ficasse manchado. # include <stdio.h> main ( ) { int time; for (time=0; time<infinity (1) ; time ++) { printf ("eu te amo|n"; } } Peter selecionou o texto na tela do computador e o apagou. Apesar de achar que seria bem legal abrir um e-mail e automaticamente ter uma mensagem de EU TE AMO escrita por toda a tela, ele conseguia entender que outra pessoa -- algum que no desse a menor bola para C++ -- pudesse achar estranho. Ele escolheu fazer isso por e-mail porque, assim, se ela desse um fora nele, ele podia sofrer a vergonha em particular. O problema era que sua me tinha dito para mostrar o que havia dentro dele, e ele no era bom no uso das palavras. Ele pensava algumas vezes que, quando a via, era apenas uma parte dela: o brao apoiado na janela do passageiro do carro, o cabelo soprando ao vento. Pensou em quantas vezes fantasiou estar naquele volante. "Minha jornada era sem sentido", ele escreveu. "At que fiz um retorno."

Peter gemeu e apagou isso tambm. Fazia com que parecesse um escritor de cartes da Hallmark, um que nem a Hallmark contrataria. Pensou no que gostaria de poder dizer para ela se tivesse coragem e colocou as mos sobre o teclado. "Sei que voc no pensa em mim. E com certeza jamais nos imaginaria juntos. Mas o creme de amendoim deve ter sido apenas creme de amendoim por muito tempo, antes que algum pensasse em colocar no sanduche junto com geleia. E havia o sal, mas o gosto dele ficou melhor acompanhado da pimenta. E qual  o sentido da manteiga sem o po? (Por que todos esses exemplos so de COMIDA?!?!??) Enfim, sozinho eu no sou nada de mais. Mas, com voc, acho que eu poderia ser especial." Ele sofreu com o final. "Seu amigo, Peter Houghton." Bem, tecnicamente, isso no era verdade. "Com sinceridade, Peter Houghton." Isso era verdade, mas era meio sem graa.  claro que havia o bvio: "Com amor, Peter Houghton." Ele digitou e releu tudo. E, antes que pudesse desistir, apertou Enter e mandou seu amor para Josie Cormier pela rede local. Courtney Ignatio estava extremamente entediada. Josie era amiga dela e tudo o mais, mas no havia nada para fazer. Elas j tinham visto trs filmes de Paul Walker em DVD, acessado o site de Lost para ler as informaes do cara lindo que fazia o papel de Sawyer e lido todas as Cosmo no recicladas, mas no havia HBO, nada de chocolate na geladeira e nenhuma festa da Faculdade de Sterling para que entrassem de penetras. Era a segunda noite de Courtney na casa de Josie, graas a seu

irmo CDF que arrastara os pais para uma visita a faculdades na costa leste. Courtney colocou um hipoptamo de pelcia sobre a barriga e olhou com a testa franzida para os olhos de boto. J tinha tentado na noite anterior arrancar detalhes sobre Matt, de coisas importantes como o tamanho do membro dele e se ele sabia us-lo, mas Josie deu uma de Hilary Duff 14 e agiu como se nunca tivesse ouvido a palavra "sexo". Josie estava no banheiro tomando banho; Courtney ainda conseguia ouvir o barulho da gua. Ela se deitou de lado e observou uma foto de Josie e Matt em um porta-retratos. Teria sido fcil odiar Josie, porque Matt era um supernamorado -- sempre ficava perto dela nas festas, ligava para ela para dar boa-noite, mesmo quando a tinha deixado em casa meia hora antes (sim, Courtney tinha testemunhado uma demonstrao dessas na noite anterior). Ao contrrio da maior parte dos caras do time de hquei, com vrios dos quais Courtney j sara, Matt parecia realmente preferir a companhia de Josie  de outras pessoas. Mas havia alguma coisa em Josie que impedia Courtney de ter inveja -- era o modo como a expresso dela mudava de vez em quando, como lentes de contato coloridas, permitindo que voc visse o que realmente havia por detrs. Josie podia ser metade do casal mais fiel da Sterling High School, mas parecia que a maior razo de ela se apegar a esse rtulo era porque ele lhe permitia saber quem ela era de verdade. "Voc tem um e-mail", falou a voz no computador de Josie. At ento, Courtney nem tinha percebido que elas deixaram o computador ligado e online. Ela se sentou  mesa e mexeu no mouse para que a tela entrasse em foco. Talvez Matt tivesse escrito algum tipo de pornografia. Seria divertido zoar um pouco com ele e fingir ser Josie.

14

Hilary Duff: cantora pop que declarou ser virgem aos 20 anos, mas

depois alegou nunca ter dado tal declarao. (N. da T.)

Mas Courtney no identificou o endereo de envio; ela e Josie tinham uma lista de amigos quase idntica. No havia assunto. Courtney clicou no link, supondo ser algum tipo de lixo eletrnico: aumente seu pnis em trinta dias, refinancie sua casa, oportunidades de compra de cartuchos de tinta. O e-mail abriu e Courtney comeou a ler. -- Ah, meu Deus -- murmurou ela. -- Isso  bom demais da conta. Ento ela encaminhou o e-mail para RTWING90@yahoo.com. "Drew", escreveu, "espalhe isso pra todo mundo." A porta do banheiro se abriu e Josie entrou no quarto com um roupo e uma toalha na cabea. Courtney fechou a janela do servidor. "Adeus", disse a voz eletrnica. -- O que foi? -- perguntou Josie. Courtney girou a cadeira, sorrindo. -- S estava vendo meus e-mails -- disse ela. Josie no conseguia dormir; sua mente estava agitada. Esse era exatamente o tipo de problema sobre o qual ela desejava poder conversar com algum, mas com quem? Com a me? At parece. Matt estava fora de questo. E Courtney, ou qualquer uma de suas amigas... Bem, ela tinha medo de falar sobre seus piores medos e, com isso, fazer com que virassem verdade. Josie esperou at ouvir a respirao regular de Courtney. Saiu da cama e entrou no banheiro. Fechou a porta e baixou a cala do pijama. Nada. Sua menstruao estava trs dias atrasada. Na tarde de tera, Josie se sentou em um sof no poro de Matt e escreveu uma redao de estudos sociais para ele sobre o abuso histrico de poder nos Estados Unidos enquanto ele e Drew malhavam.

-- Tem um milho de coisas sobre as quais voc poderia falar -- disse Josie. -- Watergate. Abu Ghraib. Kent State. Matt se esforou debaixo do peso da barra enquanto Drew o ajudava. -- O que for mais fcil, Jo -- disse ele. -- Vamos l, veadinho -- disse Drew. -- Desse jeito, voc vai ser rebaixado pro time de calouros. Matt sorriu e esticou os braos. -- Vamos ver voc fazer isso -- resmungou. Josie viu o movimento dos msculos dele, imaginou-os fortes o bastante para fazer o que ele estava fazendo e tambm suaves o bastante para abra-la. Ele se sentou e secou a testa, depois secou o banco para que Drew pudesse se sentar. -- Eu podia escrever alguma coisa sobre a Lei Patriota -- sugeriu Josie, mordendo a ponta do lpis. -- S estou pensando no que  melhor pra voc, cara -- disse Drew. -- Se voc no quer ganhar msculos pro tcnico, faa isso pela Josie. Ela olhou para frente. -- Drew, voc nasceu idiota ou foi evoluo? -- Sou inteligentemente planejado -- brincou ele. -- S estou dizendo que  melhor o Matt tomar cuidado, agora que tem concorrncia. -- Do que voc est falando? Josie olhou para ele como se ele fosse louco, mas estava secretamente em pnico. No importava se tinha dado ateno a outra pessoa ou no; s importava que Matt achasse que tinha. -- Brincadeira, Josie -- disse Drew, deitando-se no banco e fechando as mos na barra de metal. Matt riu. -- , essa  uma boa descrio de Peter Houghton. -- Voc vai acabar com ele?

-- Espero que sim -- disse Matt. -- S no decidi ainda como. -- Acho que voc precisa de inspirao potica pra elaborar um plano adequado -- disse Drew. -- Ei, Jo, pega meu fichrio. O e-mail est no bolso da frente. Josie pegou a mochila de Drew na outra ponta do sof e remexeu nos livros dele. Pegou um pedao dobrado de papel, abriu e viu o prprio endereo de e-mail no alto e todo o corpo estudantil da Sterling High como destinatrio. De onde tinha vindo aquilo? E por que ela nem tinha visto? -- Leia -- disse Drew, levantando o peso. Josie hesitou. -- "Sei que voc no pensa em mim. E com certeza jamais nos imaginaria juntos." As palavras pareciam pedras em sua garganta. Ela parou de falar, mas no importava, porque Drew e Matt estavam recitando o e-mail palavra por palavra. -- "Sozinho eu no sou nada de mais" -- disse Matt. -- "Mas, com voc... acho..." -- Drew teve um ataque de riso, com o peso caindo de novo na base. -- Porra, no consigo fazer isso dando risada. Matt se sentou no sof ao lado de Josie e passou o brao nos ombros dela, com o dedo roando em seu seio. Ela se mexeu, porque no queria que Drew visse, mas Matt queria, e se mexeu junto com ela. -- Voc inspira poesia -- disse ele, sorrindo. -- Poesia ruim, mas at Helena de Troia deve ter comeado com uma rima infantil, n? O rosto de Josie ficou vermelho. Ela no conseguia acreditar que Peter escrevera aquelas coisas para ela, que pensara que ela pudesse ser receptiva. No conseguia acreditar que a escola inteira sabia que Peter Houghton gostava dela. No era bom para ela que as pessoas achassem que ela sentia qualquer coisa por ele.

At mesmo pena. Mais arrasador ainda era o fato de que algum tinha decidido faz-la de boba. No era surpresa algum ter entrado na conta de e-mail dela, pois todos sabiam as senhas uns dos outros; podia ter sido qualquer uma das garotas, ou at mesmo Matt. Mas o que levaria os amigos a fazerem uma coisa assim, to humilhante? Josie j sabia a resposta. Aquele grupinho... eles no eram seus amigos. Pessoas populares no tinham amigos, tinham aliados. Voc s estaria seguro enquanto escondesse seus segredos. A qualquer momento, eles podiam fazer de voc o alvo de risadas, porque dessa maneira eles sabiam que ningum estaria rindo deles. Josie estava sofrendo, mas tambm sabia que parte da brincadeira era um teste para ver como ela reagiria. Se ela se virasse e acusasse os amigos de invadir o e-mail e a privacidade dela, estaria ferrada. Acima de tudo, no podia demonstrar emoo. Estava to socialmente acima de Peter Houghton que um e-mail como aquele no era nem humilhante, era hilrio. Em outras palavras: ria, no chore. -- Que fracassado -- disse Josie, como se aquilo no a incomodasse em nada, como se ela achasse tudo to engraado quanto Drew e Matt. Ela amassou o e-mail e o jogou atrs do sof. Suas mos estavam tremendo. Matt deitou a cabea no colo dela, ainda suado. -- Sobre o que eu decidi oficialmente escrever? -- ndios americanos -- respondeu Josie distraidamente. -- Como o governo rompeu acordos e tirou a terra deles. Era uma coisa com a qual ela podia se solidarizar: a falta de razes, a compreenso de que voc jamais se sentiria em casa. Drew se sentou com uma perna de cada lado do banco. -- Ei, como consigo uma garota que aumente a minha mdia?

-- Pergunte a Peter Houghton -- respondeu Matt, sorrindo. -- Ele  o mestre do amor. Quando Drew deu risada, Matt pegou a mo de Josie, a que estava segurando o lpis, e beijou-lhe os dedos. -- Voc  boa demais pra mim -- disse ele. Os armrios na Sterling High eram amontoados, uma fileira em cima e outra embaixo, o que significava que, se seu armrio fosse o de baixo, voc tinha que pegar os livros, o casaco e as outras coisas com outra pessoa praticamente em cima da sua cabea. O armrio de Peter no s ficava na fileira de baixo como tambm era de canto, o que significava que ele nunca conseguia ficar pequeno o bastante para pegar o que precisava. Peter tinha cinco minutos para ir de uma aula  outra, mas era o primeiro nos corredores quando o sinal tocava. Era um plano cuidadosamente calculado: se ele sasse o mais rpido possvel, estaria no corredor durante o maior movimento e teria menos chance de ser visto por um dos garotos populares. Ele andava com a cabea baixa, os olhos no cho, at chegar ao armrio. Estava ajoelhado na frente do armrio, trocando o livro de matemtica pelo de estudos sociais, quando um par de saltos pretos anabela parou ao seu lado. Ele olhou para cima, para a meia-cala estampada, a minissaia de tweed, o suter assimtrico e a longa cascata de cabelos louros. Courtney Ignatio parada com os braos cruzados, como se Peter j tivesse tomado tempo demais dela, quando nem tinha sido ele a faz-la parar. -- Levanta -- disse ela. -- No quero me atrasar pra aula. Peter ficou de p e fechou o armrio. No queria que Courtney visse que ali dentro ele tinha colado uma foto sua com Josie de quando eles eram pequenos. Ele teve que subir no sto onde a me guardava os velhos lbuns de fotos, pois ela tinha passado a usar cmera digital dois anos antes e agora eles s tinham CDs. Na foto, ele e Josie estavam sentados na beirada

de uma caixa de areia no maternal. A mo de Josie estava no ombro de Peter. Era a parte de que ele mais gostava. -- Olha, a ltima coisa que quero  ficar aqui parada e ser vista falando com voc, mas a Josie  minha amiga, e foi por isso que me ofereci pra fazer isso. -- Courtney olhou de um lado para o outro do corredor, para se certificar de que ningum estava se aproximando. -- Ela gosta de voc. Peter ficou olhando fixamente para ela. -- Quero dizer que ela gosta de voc, seu retardado. Ela j desencanou do Matt. S no quer largar dele at ter certeza que voc tem intenes srias com ela. -- Courtney olhou para Peter. -- Eu falei pra ela que  suicdio social, mas acho que  o tipo de coisa que as pessoas fazem por amor. Peter sentiu todo o sangue lhe subir  cabea, como um oceano em seus ouvidos. -- Por que eu acreditaria em voc? Courtney jogou o cabelo para o lado. -- No estou nem a se voc acredita ou no. S estou contando o que ela disse. O que voc faz  voc quem sabe. E foi andando pelo corredor, at desaparecer em uma esquina quando o sinal tocou. Peter ia se atrasar agora; ele odiava se atrasar, porque dava para sentir os olhos de todo mundo quando ele entrava na aula, como mil abutres bicando-lhe a pele. Mas isso no importava, no no grande esquema das coisas. A melhor coisa servida no refeitrio eram as batatas fritas, afogadas em gordura. Praticamente dava para sentir a cintura do jeans ficando mais apertada e as espinhas estourando no rosto; ainda assim, quando a moa do refeitrio serviu a colherada enorme, Josie no conseguiu resistir. Ela s

vezes se perguntava: Se fossem to nutritivas quanto brcolis, ser que ela iria quer-las do mesmo jeito? Ser que teriam um gosto to bom se no fizessem to mal? A maior parte das amigas de Josie s tomava refrigerante zero nas refeies; comer alguma coisa substancial e com base em carboidratos praticamente rotulava voc como baleia ou bulmica. Normalmente, Josie se limitava a trs batatas e dava o resto para os garotos. Mas hoje ela praticamente passou duas aulas salivando s de pensar nas batatas, e no conseguia parar de comer uma em seguida da outra. Se no fosse picles e sorvete, ainda dava para classificar aquilo como desejo? Courtney se inclinou por cima da mesa e passou o dedo pela gordura na bandeja de batatas. -- Nojento -- disse ela. -- Como pode a gasolina ser to cara se tem leo o bastante nesse treco pra encher a picape do Drew? --  um tipo diferente de leo, Einstein -- disse Drew. -- Voc acha mesmo que tem leo de cozinha nos postos de gasolina? Josie se inclinou e abriu a mochila. Tinha levado uma ma, devia estar em algum lugar ali dentro. Revirou os papis soltos e a maquiagem, to concentrada em sua busca que no reparou que a conversa de Drew, Courtney e de todo mundo tinha sido silenciada. Peter Houghton estava de p ao lado da mesa, segurando um saco de papel pardo em uma das mos e uma caixa de leite aberta na outra. -- Oi, Josie -- disse ele, como se ela estivesse ouvindo, como se ela no estivesse morrendo mil vezes e de mil maneiras naquele momento. -- Achei que voc podia querer almoar comigo. A palavra "humilhada" soava como se voc tivesse virado granito, como se no conseguisse se mexer nem para salvar sua alma. Josie imaginou que, anos depois, os alunos apontariam para a grgula petrificada que j

tinha sido ela um dia, ainda presa  cadeira de plstico do refeitrio, e diriam: "Ah, sim, eu soube o que aconteceu com ela". Josie ouviu um movimento atrs de si, mas no conseguiria se mexer naquele momento mesmo que sua vida dependesse disso. Ela olhou para Peter, desejando haver algum tipo de lngua secreta na qual o que voc dizia no era o que queria dizer, e o ouvinte automaticamente saberia que voc estava falando essa lngua. -- Humm... -- disse Josie. -- Eu... -- Ela adoraria -- disse Courtney. -- Quando o inferno congelar. A mesa toda caiu na risada com a piada interna que Peter no entendeu. -- O que tem no saco? -- perguntou Drew. -- Sanduche de creme de amendoim com geleia? -- Sal e pimenta? -- disse Courtney. -- Po com manteiga? O sorriso no rosto de Peter murchou quando ele se deu conta de como era fundo o poo no qual tinha cado e quantas pessoas o tinham cavado. Olhou de Drew para Courtney e para Emma, depois de novo para Josie -- e, quando o fez, ela teve de afastar o olhar, para que ningum, inclusive Peter, percebesse quanto a magoava ter de mago-lo, quanto a magoava perceber que, apesar do que Peter acreditara, ela no era diferente de ningum. -- Acho que a Josie devia pelo menos poder experimentar a mercadoria -- disse Matt, e, quando ele falou, ela se deu conta de que ele no estava mais sentado ao lado dela. Estava de p atrs de Peter e, em um movimento rpido, prendeu os polegares nos passadores da cala do garoto e a puxou at os tornozelos. A pele de Peter era branca como a lua sob as intensas lmpadas fluorescentes do refeitrio, e seu pnis era como uma pequena concha

espiralada em um ninho esparso de pelos pubianos. Ele imediatamente cobriu os genitais com o saco do almoo e, ao fazer isso, deixou a caixa de leite cair no cho. O leite se espalhou entre seus ps. -- Ei, olha isso -- disse Drew. -- Ejaculao precoce. O refeitrio todo comeou a girar como um carrossel, em luzes intensas e cores fortes. Josie conseguia ouvir risadas e tentou fazer com que sua prpria risada acompanhasse. O sr. Isles, um professor de espanhol sem pescoo, correu at Peter quando ele estava puxando a cala para cima. Pegou Matt com uma das mos e Peter com a outra. -- Vocs dois terminaram -- gritou ele -- , ou precisamos ir pra sala do diretor? Peter saiu correndo, mas quela altura todo mundo no refeitrio estava revivendo os gloriosos momentos em que ele ficou sem cala. Drew bateu na mo de Matt. -- Cara, foi o almoo mais divertido que j vi. Josie enfiou a mo na mochila, fingindo estar procurando a ma, mas no estava mais com fome. S no queria v-los agora; no queria deixar que a vissem. O saco com o almoo de Peter Houghton estava ao lado do p dela, onde ele o soltara quando saiu correndo. Ela olhou dentro. Um sanduche, talvez de peru. Um saco de pretzels. Cenouras, que tinham sido descascadas e cortadas em tiras regulares por algum que gostava dele. Josie enfiou o saco de papel pardo na mochila, dizendo a si mesma que procuraria Peter para devolv-lo, ou que o deixaria perto do armrio dele, mas ela sabia que no faria nem uma coisa nem outra. Ela o carregaria at que comeasse a feder, at que precisasse jog-lo fora e pudesse fingir que era muito fcil se livrar dele. Peter saiu correndo do refeitrio e disparou pelos corredores estreitos como uma bola de pinball at chegar em seu armrio. Caiu de joelhos e

apoiou a cabea no metal frio. Como pde ser to burro de confiar em Courtney, de pensar que Josie poderia dar alguma bola para ele, de pensar que ele poderia ser algum por quem ela se apaixonaria? Bateu a cabea at doer, depois apertou cegamente os botes com o nmero do armrio. Ao abrir, pegou a foto dele com Josie e a esmagou na palma da mo, descendo pelo corredor. No caminho, foi parado por um professor. O sr. McCabe estava com a testa franzida para ele e colocou uma das mos em seu ombro, mas com certeza ele conseguia ver que Peter no podia suportar ser tocado, que parecia que cem agulhas lhe penetravam a pele. -- Peter -- disse o sr. McCabe -- , voc est bem? -- Banheiro -- disse Peter com dificuldade, apressando-se pelo corredor. Ele se trancou em uma cabine e jogou a foto com Josie na privada. Em seguida, abriu o zper e urinou em cima. -- Foda-se -- sussurrou, e depois repetiu alto o bastante para fazer as paredes da cabine tremerem. -- Fodam-se vocs todos. Assim que a me de Josie saiu do quarto, ela tirou o termmetro da boca e o encostou na lmpada do abajur de cabeceira. Apertou os olhos para identificar os pequenos nmeros e o enfiou de volta na boca ao ouvir os passos da me. -- Humm... -- murmurou a me, segurando o termmetro perto da janela para enxergar melhor. -- Acho que voc est mesmo doente. Josie deu um gemido que esperava ser convincente e rolou para o lado. -- Tem certeza que voc vai ficar bem sozinha aqui? -- Tenho. -- Pode me ligar se precisar. Posso colocar o tribunal em recesso e voltar pra casa.

-- T. Ela se sentou na cama e beijou a testa da filha. -- Quer um suco? Uma sopa? Josie balanou a cabea. -- Acho que s preciso voltar a dormir -- e fechou os olhos para que a me entendesse a mensagem. Ela esperou at ouvir o carro se afastar, mas mesmo assim permaneceu na cama por mais dez minutos, para ter certeza de que estava sozinha. Em seguida, saiu da cama e ligou o computador. Procurou no Google "abortivo", a palavra que encontrara no dia anterior, a que significava "alguma coisa que acaba com uma gravidez". Josie andava pensando nisso. No que ela no quisesse um beb; no era nem que no quisesse um beb de Matt. A nica coisa da qual tinha certeza era que no queria ter que tomar essa deciso ainda. Se contasse  me, ela xingaria, gritaria e encontraria formas de lev-la  clnica de planejamento familiar ou ao mdico. Para ser sincera, nem eram os xingamentos e os gritos que a preocupavam -- era perceber que, se sua me tivesse feito isso dezessete anos atrs, Josie nem estaria viva para ter esse problema. Ela pensara na ideia de fazer contato de novo com o pai, o que teria exigido uma dose gigantesca de humildade. Ele no quisera que a filha nascesse, ento, teoricamente, faria o possvel para ajud-la a fazer um aborto. Mas. Tinha alguma coisa em ir a um mdico, ou a uma clnica, ou at falar com a me ou o pai que ela no conseguia engolir. Parecia to... deliberado. Assim, antes de chegar a esse ponto, Josie escolheu pesquisar um pouco. No podia correr o risco de ser vista em um computador da escola procurando essas coisas, ento decidiu matar aula. Afundou na cadeira,

com uma perna dobrada embaixo do corpo, e ficou maravilhada ao encontrar quase noventa e nove mil resultados. Alguns ela j sabia: as velhas lendas sobre enfiar uma agulha de tric na vagina e tomar laxante ou leo de rcino. Outros ela nunca havia imaginado: fazer lavagem com potssio, engolir raiz de gengibre, comer abacaxi verde. E havia tambm as ervas: infuses em leo de clamo, artemsia, slvia e gaultria; coquetis feitos com acteia e poejo. Josie se perguntou onde se conseguia esse tipo de coisa; no era algo que se encontrava no corredor de aspirina da farmcia. Remdios feitos  base de ervas, dizia o site, funcionavam em quarenta a quarenta e cinco por cento das vezes. O que, supunha ela, pelo menos era um comeo. Ela se inclinou para frente para ler. "No comece o tratamento com ervas depois da sexta semana de gravidez." "Lembre-se de que essas no so formas seguras de encerrar uma gestao." "Tome os chs tambm  noite, para no estragar o progresso feito durante o dia." "Pegue o sangue e acrescente gua para dilu-lo. D uma olhada nos cogulos e no tecido para ter certeza de que a placenta foi expelida." Josie fez careta. "Use de  a 1 colher (ch) da erva seca por xcara de gua, de trs a quatro vezes ao dia. No confunda atansia com erva-de-santiago, fatal para vacas que a comem no pasto." Mas ento ela encontrou uma coisa que parecia menos... medieval: vitamina C. Isso no podia fazer mal, no ? Josie clicou no link. "cido ascrbico, oito gramas, durante cinco dias. A menstruao deve comear no sexto ou stimo dia."

Josie saiu da frente do computador e foi at o armrio de remdios da me. Havia um vidro grande de vitamina C, ao lado de outros menores de comprimidos para a flora intestinal, vitamina B12 e suplemento de clcio. Ela abriu o vidro e hesitou. O outro aviso que todos os sites davam era que voc tivesse certeza de ter motivos para sujeitar seu corpo a essas ervas antes de comear a tom-las. Josie voltou para o quarto e abriu a mochila. L dentro, ainda no saco plstico da farmcia, estava o teste de gravidez que comprara no dia anterior antes de chegar em casa, depois da aula. Ela leu as instrues duas vezes. Como algum podia mijar em um palito por tanto tempo? Franziu a testa, foi para o banheiro e se sentou com o pequeno objeto entre as pernas. Em seguida, colocou-o no suporte e lavou as mos. Josie ficou sentada na beirada da banheira e observou a linha de controle ficar azul. E ento, lentamente, viu a segunda linha, perpendicular, aparecer: um sinal de mais, um positivo, uma cruz a carregar. Quando o limpador de neve ficou sem combustvel no meio da entrada da garagem, Peter foi at a lata extra que eles guardavam na garagem, mas a encontrou vazia. Ele a virou e viu uma nica gota cair no cho entre seus tnis. Normalmente tinham de lhe pedir umas seis vezes para que ele fosse limpar o caminho at a porta da frente e a dos fundos, mas hoje ele aceitara a tarefa sem os pais precisarem perturb-lo. Ele queria... no, risque isso, ele precisava sair para que os ps se movessem no mesmo ritmo da mente. Contudo, quando apertou os olhos na direo do sol poente, ainda conseguia ver uma srie de imagens no fundo das plpebras: o ar frio batendo em seu traseiro quando Matt Royston baixou sua cala, o leite se espalhando em seus tnis, o olhar de Josie se afastando.

Peter andou pela calada at a casa do vizinho do outro lado da rua. O sr. Weatherhall era um policial aposentado, e sua casa parecia exatamente isso. Havia um grande mastro no meio do jardim da frente; no vero, a grama era cortada bem rente; nunca havia folhas no gramado no outono. Peter se perguntava se Weatherhall saa no meio da noite para varr-las. At onde Peter sabia, o sr. Weatherhall agora passava o tempo assistindo ao canal de game shows e fazendo jardinagem militarista de sandlias e meias pretas. Como no deixava a grama crescer mais do que um centmetro, ele costumava ter um galo de gasolina a mais em casa; Peter j tinha pegado emprestado a pedido do pai outras vezes, para o cortador de grama e para o limpador de neve. Peter tocou a campainha, que fez ecoar a melodia "Hail to the Chief" -- o hino presidencial --, e ento o sr. Weatherhall atendeu. -- Filho -- disse ele, apesar de saber o nome de Peter havia anos -- , como voc est? -- Bem, sr. Weatherhall. Mas eu gostaria de saber se o senhor tem gasolina pra emprestar, para o limpador de neve. Bom, gasolina pra eu usar . Quer dizer, no vou poder devolver, n? -- Entre, entre. -- Ele segurou a porta para que Peter entrasse. O cheiro era de cigarro e comida de gato. Uma tigela de salgadinho estava ao lado da poltrona; na televiso, o apresentador mostrou uma vogal. -- Grandes esperanas -- gritou o sr. Weatherhall para os participantes ao passar. -- Vocs so o qu, idiotas? Ele levou Peter at a cozinha. -- Espere aqui. O poro no  lugar pra voc. Peter pensou que isso provavelmente significava que havia um pouquinho de poeira nas prateleiras. Ele se recostou na bancada, com as mos espalmadas na frmica. Peter gostava do sr. Weatherhall porque, mesmo quando ele tentava ser

grosseiro, dava para ver que era s porque sentia falta de ser policial e no tinha com quem praticar. Quando Peter era mais novo, Joey e os amigos sempre tentavam aprontar alguma coisa com o vizinho, empilhando neve na extremidade da calada limpa ou levando cachorros para fazer coc no gramado bem cuidado. Ele conseguia lembrar quando Joey tinha uns onze anos e jogou ovo na casa do sr. Weatherhall no Halloween. Ele e os amigos foram pegos no flagra. O sr. Weatherhall os arrastou para dentro de casa, para uma conversa "apavorante". "O cara  doido", Joey dissera para ele. "Guarda uma arma na lata de farinha." Peter virou o ouvido para a escada que levava ao poro. Ainda conseguia ouvir o sr. Weatherhall mexendo l para pegar a lata de gasolina. Chegou perto da pia, onde havia quatro latas de ao inoxidvel. FERMENTO, estava escrito na menor, e em tamanhos cada vez maiores: AUCAR MAS CAVO. AUCAR. FARINHA. Peter abriu com cuidado a lata de farinha. Uma nuvem de p branco voou em seu rosto. Ele tossiu e balanou a cabea. Fazia sentido: Joey mentira. Devagar, Peter abriu a lata de acar ao lado e se viu olhando para uma semiautomtica de nove milmetros. Era uma Glock 17, provavelmente a mesma que o sr. Weatherhall usava quando era policial. Peter sabia disso porque conhecia armas, tinha crescido com vrias. Mas havia uma diferena entre um rifle de caa ou uma espingarda e essa arma compacta e graciosa. Seu pai dissera que qualquer pessoa que no estivesse na fora ativa da lei e tivesse uma pistola era um idiota; tinha mais chance de ferir do que de proteger voc. O problema com as pistolas era o fato de o cano ser to curto que voc se esquecia de afastlas do corpo por questo de segurana; mirar era to simples e descomplicado quanto apontar o dedo.

Peter tocou nela. Fria, lisa. Hipnotizante. Encostou no gatilho, segurando a arma com a mo; era leve e reluzente. Passos. Peter recolocou a tampa da lata e se virou, cruzando os braos na frente do corpo. O sr. Weatherhall apareceu no alto da escada, segurando uma lata vermelha de gasolina. -- Pronto -- disse ele. -- Traga de volta cheia. -- Pode deixar -- respondeu Peter. E saiu da cozinha sem nem olhar na direo da lata, mas era o que mais queria fazer. Depois da aula, Matt chegou  casa de Josie trazendo uma canja que comprara em um restaurante local e revistas em quadrinhos. -- O que voc est fazendo fora da cama? -- perguntou. -- Voc tocou a campainha -- disse Josie. -- Eu tinha que atender, no tinha? Ele estava agitado, como se ela tivesse mononucleose ou cncer, no apenas um vrus, que foi o que ela disse quando ele ligou para o celular dela da escola naquela manh. Ao coloc-la na cama, ele ps a sopa no colo dela. -- Isso cura qualquer coisa, n? -- E as revistinhas? Matt deu de ombros. -- Minha me comprava pra mim quando eu era pequeno e ficava em casa doente. No sei. Sempre fizeram me sentir melhor. Quando ele se sentou ao lado dela na cama, Josie pegou uma das revistas. Por que a Mulher-Maravilha era to destemida? Se voc tivesse seios to grandes, iria mesmo pular de prdios e lutar contra o crime sem um bom suti de sustentao?

Pensar nisso fez Josie lembrar que mal conseguia vestir o suti ultimamente, de to sensveis que estavam seus seios. E isso a fez se lembrar do teste de gravidez que tinha embrulhado em toalhas de papel e jogado fora na lixeira da rua, para que a me no o encontrasse. -- O Drew est planejando uma festa na sexta  noite. Os pais dele vo pra Foxwoods passar o fim de semana -- disse Matt, franzindo a testa. -- Espero que voc j esteja se sentindo melhor at l, pra poder ir. O que voc acha que tem, afinal? Ela se virou para ele e respirou fundo. -- O problema  o que eu no tenho. Minha menstruao. Est duas semanas atrasada. Fiz um teste de gravidez hoje. -- Ele j falou com um cara da Faculdade de Sterling pra comprar uns barris de cerveja de uma fraternidade. Estou dizendo, essa festa vai ser animal. -- Voc me ouviu? Matt sorriu para ela do jeito que se sorriria para uma criana que acabou de falar que o cu est caindo. -- Acho que voc est exagerando. -- Deu positivo. -- Pode ser estresse. O queixo de Josie caiu. -- E se no for estresse? E se, sabe, for de verdade? -- Ento estamos juntos nisso -- disse Matt, inclinando-se para frente e beijando a testa dela. -- Voc nunca vai conseguir se livrar de mim, gata. Alguns dias depois, quando nevou, Peter tirou deliberadamente toda a gasolina do limpador de neve e andou at o outro lado da rua, para a casa do sr. Weatherhall.

-- No me diga que acabou de novo -- disse ele, ao abrir a porta. -- Acho que o meu pai ainda no conseguiu encher o nosso tanque extra -- respondeu Peter. -- Tem que arrumar tempo -- disse o sr. Weatherhall, j indo para dentro de casa depois de deixar a porta bem aberta para que Peter pudesse ir atrs. -- Tem que planejar,  assim que se faz. Ao passarem em frente  televiso, Peter viu o elenco de Match Game. -- Big Bertha  to grande -- dizia Gene Rayburn -- que, em vez de pular de paraquedas, ela usa um _________. Assim que o sr. Weatherhall desapareceu na escada, Peter abriu a lata de acar na bancada da cozinha. A arma ainda estava dentro. Ele a pegou e se lembrou de respirar. Tampou a lata e a colocou exatamente onde estava antes. Em seguida, enfiou a arma com o cano para baixo na cintura da cala jeans. O casaco acolchoado ficava frouxo na frente, ento nem dava para ver o volume. Ele abriu com cuidado a gaveta de talheres e olhou nos armrios. Foi quando passou a mo na rea poeirenta acima da geladeira que sentiu o corpo liso de outra arma. -- Sabe,  uma boa ideia ter uma lata extra... -- a voz do vizinho subiu pela escada do poro, acompanhada da percusso de seus passos. Peter soltou a arma e colocou as mos rapidamente nas laterais do corpo. Ele estava suando quando o sr. Weatherhall entrou na cozinha. -- Voc est bem? -- perguntou ele, olhando para Peter. -- Parece meio plido. -- Fiquei acordado at tarde fazendo dever. Obrigado pela gasolina. De novo. -- Diga pro seu pai que da prxima vez eu no o salvo -- disse o sr. Weatherhall, levando Peter at a varanda.

Ele esperou at o vizinho fechar a porta e comeou a correr, chutando neve para trs. Deixou a lata de gasolina ao lado do limpador de neve e entrou em casa. Trancou a porta do quarto, tirou a arma de dentro da cala e se sentou. Era preta e pesada, feita de liga de ao. O que era surpreendente de verdade era como a Glock parecia falsa, como uma arma de brinquedo, apesar de Peter supor que poderia ficar maravilhado com quanto as armas de brinquedo pareciam verdadeiras. Ele ejetou a bala da cmara e retirou o pente. Fechou os olhos e levou a arma at a cabea. -- Bam -- sussurrou. Colocou a arma na cama e tirou a fronha do travesseiro. Enrolou a Glock nela como um curativo. Colocou-a entre o colcho e a base da cama box e se deitou. Seria como aquele conto de fadas, em que a princesa conseguia sentir a fava, ou a ervilha, ou sei l o qu. S que Peter no era prncipe, e o volume no o manteria acordado  noite. Na verdade, poderia at faz-lo dormir melhor. No sonho de Josie, ela estava de p em uma oca linda. As paredes eram feitas de pele de cervo e costuradas com linha dourada. Havia histrias pintadas ao redor dela toda em tons de vermelho, ocre, violeta e azul, histrias de caadas, amores e perdas. Peles densas de bfalo estavam empilhadas para servirem de almofadas, e carves brilhavam como rubis na lareira. Quando ela olhou para cima, conseguiu ver estrelas pelo buraco de sada de fumaa. De repente, Josie comeou a sentir que seus ps estavam deslizando; pior, que no havia como impedir. Olhou para baixo e s viu cu; perguntou-se se ainda seria boba o bastante para acreditar que conseguia

andar entre as nuvens, ou se o cho abaixo dos ps tinha desaparecido quando ela olhou para outra direo. Ento comeou a cair. Conseguia sentir que estava caindo de qualquer jeito, que a saia que estava usando se inflou e o vento soprou entre suas pernas. No queria abrir os olhos, mas no conseguiu evitar espiar: o cho estava chegando perto em uma velocidade alarmante, com quadrados verdes, marrons e azuis parecendo selos postais cada vez maiores, mais detalhados, mais realistas. Ali estava sua escola. Sua casa. O telhado sobre seu quarto. Josie se sentiu cair rapidamente na direo dele e se preparou para o choque inevitvel. Mas voc nunca cai no cho nos sonhos; nunca se v morrer. O que Josie sentiu foi um jato de gua, com suas roupas se mexendo como uma gua-viva enquanto ela mergulhava em gua morna. Acordou sem flego e se deu conta de que ainda se sentia molhada. Sentou-se, ergueu as cobertas e viu uma poa de sangue debaixo de si. Depois de trs testes positivos de gravidez, depois de sua menstruao estar trs semanas atrasada, ela estava sofrendo um aborto. Graasadeusgraasadeusgraasadeus . Josie afundou o rosto no lenol e comeou a chorar. Lewis estava sentado  mesa da cozinha na manh de sbado, lendo a edio mais recente de The Economist e metodicamente comendo um waffle de farinha integral quando o telefone tocou. Ele olhou para Lacy, que, ao lado da pia, estava mais perto do telefone, mas ela mostrou as mos, pingando de gua e sabo. -- Voc pode...? Ele se levantou e atendeu. -- Al? -- Sr. Houghton?

-- O prprio -- disse Lewis. -- Aqui  Tony, da loja Burnside's. Seus projteis de ponta cncava esto prontos. Burnside's era uma loja de armas. Lewis ia l no outono para comprar solvente Hoppe e munio. Uma vez, tivera sorte o bastante de levar um cervo para ser pesado. Mas era fevereiro, e a temporada de caa aos cervos tinha terminado. -- No pedi isso -- disse Lewis. -- Deve ter havido algum engano. Ele desligou o telefone e voltou a se sentar em frente ao waffle. Lacy ergueu uma frigideira grande da pia e a colocou no escorredor. -- Quem era? Lewis virou a pgina da revista. -- Engano -- disse ele. Matt tinha um jogo de hquei em Exeter. Josie ia aos jogos dele em casa, mas raramente naqueles em que o time viajava. Mas hoje ela pediu o carro emprestado para a me e dirigiu at a costa, saindo bem cedo para se encontrar com ele antes do incio da partida. Ela colocou a cabea no vestirio do time visitante e foi imediatamente atingida pelo fedor do equipamento. Matt estava de costas para ela, usando o protetor de peito, a cala acolchoada e os patins. Ainda no tinha colocado a camisa. Alguns caras repararam nela primeiro. -- Ei, Royston -- disse um dos alunos do ltimo ano. -- Acho que a presidente do seu f-clube chegou. Matt no gostava quando ela aparecia antes de um jogo. Depois... bem, era obrigatrio, pois ele precisava de companhia para comemorar a vitria. Mas tinha deixado bem claro que no tinha tempo para Josie quando estava se aprontando; que s ia ouvir merda dos caras se ela ficasse grudenta

demais; que o tcnico queria que o time ficasse sozinho para se concentrar no jogo. Ainda assim, ela achou que poderia ser uma exceo. Uma sombra anuviou o rosto dele quando o time comeou a brincar. -- Precisa de ajuda pra se arrumar, Matt? -- Ei, rpido, arrumem um taco maior pra ele... --  -- respondeu Matt ao andar pelo tapete de borracha na direo de Josie --, vocs bem que queriam ter algum que fosse capaz de chupar o cromo de um enfeite de carro. Josie sentiu que ficou vermelha quando o vestirio inteiro caiu na risada  custa dela, e os comentrios rudes mudaram de foco, de Matt para ela. Ele a segurou pelo brao e a arrastou para fora. -- J falei pra no me procurar antes do jogo -- disse ele. -- Eu sei, mas era importante. -- Isso  importante -- corrigiu Matt, indicando o rinque. -- Eu estou bem -- disse Josie de repente. -- Que bom. Ela o encarou. -- No, Matt. Quero dizer que... estou bem. Voc estava certo. Quando ele percebeu o que Josie estava tentando dizer, colocou os braos ao redor da cintura dela e a levantou do cho. O equipamento ficou entre os dois e ele a beijou. Isso fez Josie pensar nos cavaleiros que iam para a batalha e nas garotas que ficavam para trs. -- Nunca se esquea disso -- disse Matt e sorriu.

Parte Dois
Quando voc iniciar uma jornada de vingana, comece cavando dois tmulos: um para o seu inimigo e outro para voc.
-- PROVRBIO CHINS

Sterling no  uma cidade pobre. Voc no encontra traficantes de crack na Rua Main, nem lares abaixo do nvel de pobreza. A taxa de criminalidade  praticamente inexistente.  por isso que as pessoas ainda esto to chocadas. Elas perguntam: Como isso pde acontecer aqui? Bem. Como podia no acontecer aqui? Basta haver um garoto perturbado com acesso a armas. No  preciso ir a uma cidade pobre para encontrar algum que se encaixa nesses critrios. S  preciso abrir os olhos. O candidato mais provvel pode estar no andar de cima, ou sentado em frente  sua TV agora mesmo. Mas simplesmente vamos em frente, fingindo que no vai acontecer aqui. Voc diz a si mesmo que  imune por causa de onde mora ou de quem .  mais fcil assim, no ?

Cinco meses depois

frente do computador e liam o New York Times todo online. Havia outros cuja tela de abertura do AOL nem inclua notcias, porque eles achavam isso muito deprimente. Havia pessoas do campo que tinham televiso, mas s tinham um canal pblico com qualidade ruim, por no terem dinheiro para passar cabos pelas estradas de terra; e havia outros que compravam elaborados sistemas de satlite para que pudessem ver novelas japonesas ou a hora da orao da irm Mary Margaret s trs horas da manh. Havia os que assistiam  CNN e os que assistiam ao FOX News. Era a sexta hora do voir dire individual, o processo pelo qual o jri seria selecionado para o julgamento de Peter. Isso envolvia longos dias no tribunal com Diana Leven e o juiz Wagner, enquanto o grupo de jurados seguia um a um para o banco das testemunhas para responder a vrias perguntas da defesa e da promotoria. O objetivo era encontrar doze pessoas e uma suplente que no estivessem afetadas pessoalmente pelo tiroteio; um jri que se comprometeria com um longo julgamento se necessrio, em vez de se preocupar com o que tinha de fazer em casa ou com quem ia cuidar das crianas. Um grupo de pessoas que no estivesse vivendo e respirando as notcias sobre esse julgamento nos ltimos cinco meses -- ou, como Jordan estava comeando a pensar sobre eles com afeio: os poucos abenoados que viviam debaixo de uma pedra.

D

 para saber muito sobre as pessoas pelos hbitos. Por exemplo, Jordan tinha encontrado jurados em potencial que levavam religiosamente suas xcaras de caf para a

Era agosto, e, desde a semana anterior, as temperaturas vinham chegando a quase trinta e oito graus durante o dia. Para piorar, o arcondicionado do tribunal estava quebrado, e o juiz Wagner tinha cheiro de naftalina e chul quando suava. Jordan j tinha tirado o palet e afrouxado o boto de cima da camisa. At Diana, que ele secretamente acreditava ser alguma espcie de rob, tinha prendido o cabelo e enfiado um lpis no coque para segur-lo. -- O que vem agora? -- perguntou o juiz Wagner. -- Jurado nmero 6.730.000 -- murmurou Jordan. -- Jurado nmero 88 -- anunciou o escrivo. Era um homem dessa vez, usando cala cqui e camisa de mangas curtas. Estava ficando calvo, usava docksiders e tinha aliana de casamento. Jordan anotou isso tudo no bloco. Diana ficou de p, se apresentou e comeou com sua ladainha de perguntas. As respostas determinariam se o jurado em potencial poderia ser dispensado por justa causa -- se tivesse um filho, por exemplo, que tivesse morrido na Sterling High, o que atestaria sua incapacidade de ser imparcial. Se no fosse o caso, Diana poderia querer usar uma dispensa definitiva. Tanto ela quanto Jordan tinham quinze oportunidades de dispensar um jurado em potencial por pura intuio. At o momento, Diana tinha usado uma, com um desenvolvedor de software baixinho, careca e silencioso. Jordan dispensou um ex-militar da fora de operaes especiais da Marinha. -- Com o que o senhor trabalha, sr. Alstrop? -- perguntou Diana. -- Sou arquiteto. --  casado? -- Vai fazer vinte anos em outubro. -- Tem filhos? -- Dois, um garoto de catorze anos e uma garota de dezenove.

-- Eles frequentam escola pblica? -- Meu filho, sim. Minha filha est na faculdade. Em Princeton -- disse ele com orgulho. -- O senhor sabe alguma coisa sobre esse caso? Jordan sabia que dizer sim no o excluiria. O importante era no que ele acreditava ou no, apesar do que a imprensa dissera. -- Bom, s o que leio nos jornais -- disse Alstrop, e Jordan fechou os olhos. -- O senhor l algum jornal especfico diariamente? -- Eu era assinante do Union Leader -- disse ele --, mas os editoriais me irritavam. Agora tento ler pelo menos a parte principal do New York Times. Jordan pensou nisso. O Union Leader era um jornal notoriamente conservador, e o New York Times, liberal. -- E televiso? -- perguntou Diana. -- Tem algum programa especfico do qual o senhor gosta? No era bom ter um jurado que assistisse a dez horas de TV Justia por dia. Tambm no era bom ter o cara que gostava de assistir a maratonas de filmes de Jerry Lewis. -- 60 Minutes -- respondeu Alstrop. -- E Os Simpsons. Esse  um cara normal, pensou Jordan. Ele ficou de p quando Diana passou o interrogatrio para ele. -- O que o senhor se lembra de ter lido sobre esse caso? -- perguntou Jordan. Alstrop deu de ombros. -- Houve um tiroteio na escola e um dos alunos foi acusado. -- O senhor conhecia algum dos alunos? -- No. -- Conhece algum que trabalhe na Sterling High?

Alstrop balanou a cabea. -- No. -- Conversou com algum envolvido no caso? -- No. Jordan andou at o banco das testemunhas. -- Existe uma regra neste estado que diz que voc pode virar  direita no sinal vermelho, se voc parar primeiro no semforo. O senhor a conhece? -- Claro -- disse Alstrop. -- E se o juiz dissesse que o senhor no pode virar quando o semforo estiver vermelho, que precisa ficar parado at ficar verde de novo, mesmo que haja uma placa na sua frente que diga explicitamente:PERMITIDO VIRAR  DIREITA NO SINAL VERMELHO? O que o senhor faria? Alstrop olhou para o juiz Wagner. -- Acho que eu faria o que ele diz. Jordan sorriu internamente. No dava a menor bola para os hbitos de direo de Alstrop; aquele cenrio e aquela pergunta eram uma forma de identificar as pessoas que no conseguiam ver alm das convenes. Haveria informaes nesse julgamento que no eram necessariamente intuitivas, e ele precisava de pessoas no jri que tivessem a mente aberta o suficiente para entender que as regras no eram sempre o que voc achava que elas eram, que conseguiam ouvir novos regulamentos e segui-los direito. Quando Jordan terminou suas perguntas, ele e Diana andaram em direo ao juiz. -- H algum motivo para dispensar este jurado por justa causa? -- perguntou o juiz Wagner. -- No, Meritssimo -- disse Diana, e Jordan balanou a cabea. -- Ento?

Diana assentiu. Jordan olhou para o homem, ainda sentado no banco das testemunhas. -- Pra mim, ele est bom -- disse ele. Quando Alex acordou, fingiu no ter acordado. Manteve os olhos quase fechados para conseguir olhar para o homem deitado a seu lado na cama. Esse relacionamento, com quatro meses agora, ainda era um mistrio para ela, tanto quanto a constelao de sardas nos ombros de Patrick, o vale da coluna dele, o contraste impressionante do cabelo preto contra o lenol branco. Parecia que ele tinha invadido a vida dela por osmose: ela encontrava uma camisa dele misturada com suas roupas para lavar, sentia cheiro do xampu dele na fronha, pegava o telefone, pensando em ligar para ele, e ele j estava na linha. Alex tinha ficado solteira por tanto tempo. Era prtica, decidida e acostumada com as coisas do seu jeito -- ah, quem ela queria enganar... esses eram apenas eufemismos para o que ela realmente era: teimosa --, e achava que esse ataque repentino em sua privacidade seria irritante. Mas, na verdade, ela se via desorientada quando Patrick no estava por perto, como o marinheiro que acabou de atracar depois de meses no mar e ainda sente o oceano abaixo dos ps, mesmo quando ele no est mais l. -- Consigo sentir voc me olhando, sabia? -- murmurou Patrick, com um sorriso preguioso aquecendo-lhe o rosto, mas os olhos ainda fechados. Alex se inclinou e deslizou a mo por debaixo das cobertas. -- O que voc consegue sentir? -- O que no consigo? Rpido como um relmpago, ele segurou o pulso dela e a puxou para baixo dele. Seus olhos, ainda entorpecidos de sono, eram de um azul bem

claro, que fazia Alex pensar em geleiras e mares do norte. Ele a beijou, e ela o abraou. De repente, ela abriu os olhos. -- Ah, merda -- disse. -- No era bem isso que eu esperava... -- Voc sabe que horas so? Eles tinham fechado as janelas do quarto por causa da claridade da lua na noite anterior, mas agora o sol entrava por uma pequena abertura na parte de baixo da janela. Alex ouviu Josie mexendo nas panelas na cozinha. Patrick esticou o brao por cima dela para pegar o relgio de pulso que deixara na mesa de cabeceira. -- Ah, merda -- repetiu ele, e empurrou as cobertas. -- J estou uma hora atrasado pro trabalho. Ele pegou a cueca na hora em que Alex pulou da cama para vestir o roupo. -- E a Josie? Eles no estavam escondendo o relacionamento de Josie. Patrick costumava aparecer depois do trabalho para jantar ou para passar um tempo com Alex  noite. Algumas vezes, Alex tentou falar com Josie sobre ele, para ver o que ela pensava do milagre que era sua me namorando de novo, mas Josie fazia o possvel para evitar aquela conversa. Alex no tinha certeza de onde isso ia dar, mas sabia que ela e Josie eram uma unidade havia tanto tempo que acrescentar Patrick  mistura significava que Josie se tornava a solitria. E agora Alex estava determinada a impedir que isso acontecesse. Estava compensando o tempo perdido, na verdade, pensando em Josie antes de pensar em qualquer outra coisa. Por isso, se Patrick passava a noite l, ela se certificava de que ele sasse antes de Josie acordar e encontr-lo.

Menos hoje, uma quinta-feira preguiosa de vero, quase dez horas da manh. -- Acho que pode ser uma boa hora pra contar pra ela -- sugeriu Patrick. -- Contar o qu? -- Que ns estamos... -- Ele olhou para ela. Alex o encarou fixamente. No conseguia terminar a frase dele. No sabia a resposta. Ela jamais esperara que fosse assim que ela e Patrick teriam essa conversa. Ser que ela estava com Patrick porque ele era bom nisso, em resgatar a vtima que precisava? Quando o julgamento acabasse, ser que ele partiria para outra? Ou ela? -- Que estamos juntos -- disse Patrick, resoluto. Alex virou as costas para ele e amarrou o cinto do roupo. Parafraseando Patrick um pouco antes, no era bem isso que ela esperava. Mas, por outro lado, como ele poderia saber? Se ele lhe perguntasse naquele instante a respeito do que ela queria do relacionamento deles... bem, ela sabia: queria amor. Queria ter algum esperando por ela. Queria sonhar com a viagem que fariam quando tivessem sessenta anos e saber que ele estaria l no dia em que ela entrasse no avio. Mas jamais admitiria nada disso para ele. E se admitisse e ele olhasse para ela com indiferena? E se fosse cedo demais para pensar em coisas assim? Se ele lhe perguntasse naquele momento, ela no responderia, porque responder era a maneira mais certa de se decepcionar. Alex remexeu embaixo da cama em busca dos chinelos. Acabou encontrando o cinto de Patrick e o jogou para ele. Talvez o motivo de ela no ter falado abertamente para Josie que estava dormindo com Patrick no tivesse nada a ver com proteger a filha, mas tudo a ver com proteger a si mesma. Patrick passou o cinto pelo jeans.

-- precisa ser segredo de estado -- disse ele. -- Voc tem permisso para... voc sabe. Alex olhou para ele. -- Fazer sexo? -- Eu estava tentando pensar em alguma coisa menos escancarada -- admitiu Patrick. -- Tambm tenho permisso para manter as coisas em particular -- observou Alex. -- Acho que preciso pegar de volta o depsito do outdoor ento. -- Poderia ser uma boa ideia. -- Acho que posso comprar joias pra voc em vez disso. Alex olhou para o tapete, para que Patrick no pudesse v-la tentando desmembrar a frase e encontrar o compromisso entre as palavras. Meu Deus, era sempre to frustrante no ser a pessoa no comando? -- Me -- gritou Josie do p da escada --, fiz panquecas, se voc quiser. -- Olha s -- Patrick suspirou. -- Ainda podemos impedir que a Josie descubra. Voc s precisa distra-la enquanto saio escondido. Ela assentiu. -- Vou tentar prender a Josie na cozinha, e voc... -- ela olhou para Patrick -- anda logo. Quando Alex ia saindo do quarto, Patrick segurou a mo dela e a puxou. -- Ei -- disse ele --, tchau. Ento se inclinou e a beijou. -- Me, est esfriando! -- At mais tarde -- disse Alex, se afastando. Ela desceu a escada correndo e encontrou Josie comendo um prato de panquecas de mirtilo.

-- Que cheiro bom... No consigo acreditar que dormi at to tarde -- Alex comeou a dizer, e ento percebeu que havia trs lugares na mesa. Josie cruzou os braos. -- Como ele toma o caf? Alex afundou em uma cadeira de frente para ela. -- No era pra voc descobrir. -- A, sou uma garota crescida. B, o brilhante detetive no devia ter deixado o carro dele na frente da garagem. Alex puxou um fio do jogo americano. -- Sem leite, com dois torres de acar. -- timo -- disse Josie. -- Agora j sei pra prxima vez. -- Como voc se sente sobre isso? -- Alex perguntou baixinho. -- Sobre preparar caf pra ele? -- No. A parte da prxima vez. Josie espetou um mirtilo gordo em cima da panqueca. -- No  uma escolha minha, ? --  -- disse Alex. -- Porque se voc no se sentir bem com isso, Josie, eu paro de me encontrar com ele. -- Voc gosta dele? -- perguntou Josie, olhando para o prato. -- Gosto. -- E ele gosta de voc? -- Acho que gosta. Josie ergueu o olhar. -- Ento voc no devia se preocupar com o que os outros pensam. -- Eu me preocupo com o que voc pensa -- disse Alex. -- No quero que voc sinta que  menos importante pra mim por causa dele. -- S seja responsvel -- respondeu Josie com um sorriso lento. -- Cada vez que faz sexo, voc pode ou no engravidar.  uma chance de cinquenta por cento.

Alex ergueu as sobrancelhas. -- Uau. Eu nem achava que voc estava ouvindo quando fiz esse discurso. Josie passou o dedo em uma gota de xarope de bordo que tinha pingado na mesa, com os olhos grudados na madeira. -- Ento voc... tipo... ama o Patrick? As palavras pareciam feridas, doloridas. -- No -- disse Alex rapidamente, porque, se conseguisse convencer Josie, certamente conseguiria se convencer de que o que ela sentia por Patrick tinha tudo a ver com paixo e nada com... bem...aquilo. -- Comeamos faz poucos meses. -- Acho que no tem perodo de carncia -- disse Josie. Alex decidiu que o melhor caminho a tomar por esse campo minado era o que impedisse tanto ela quanto Josie de se magoarem: fingir que no era nada, um caso, uma diverso. -- Eu no saberia como  me apaixonar mesmo que desse de cara com isso -- ela continuou despretensiosamente. -- No  como na TV, como se tudo ficasse perfeito de repente. -- A voz de Josie ficou mais baixa, at chegar a um tom pouco mais alto do que um pensamento. -- Na verdade, quando acontece, voc passa o tempo todo percebendo quanto pode dar errado. Alex olhou para ela, paralisada. -- Ah, Josie. --  assim. -- Eu no queria fazer voc... -- Vamos deixar pra l, t? -- Josie forou um sorriso. -- Ele no  feio, sabe, pra algum to velho. -- Ele  um ano mais novo que eu -- observou Alex.

-- Minha me, a papa-anjo. -- Josie pegou o prato de panquecas e passou para ela. -- Esto esfriando. Alex pegou o prato. -- Obrigada -- disse ela, sustentando o olhar de Josie por tempo o bastante para que a filha percebesse por que ela estava agradecida. Naquele momento, Patrick desceu cuidadosamente as escadas. Ao chegar embaixo, se virou e fez sinal de positivo para Alex. -- Patrick -- disse ela --, a Josie fez panqueca pra gente. Selena conhecia a diretiva -- voc tinha de dizer que no havia diferena entre meninos e meninas --, mas tambm sabia que, se voc perguntasse a qualquer me ou professora de berrio, elas diriam o contrrio, extraoficialmente. Nessa manh, ela estava sentada em um banco de parque vendo Sam interagir com um grupo de outras crianas pequenas em uma caixa de areia. Duas garotinhas estavam fingindo assar pizzas feitas de areia e pedrinhas. O garoto ao lado de Sam estava tentando destruir um caminho batendo com ele repetidamente na beirada da caixa. No tem diferena, pensou Selena. At parece. Ela observou com interesse quando Sam se afastou do garoto ao seu lado para imitar as garotas, colocando areia em um balde para fazer um bolo. Selena sorriu, torcendo para que isso fosse uma pequena indicao de que o filho cresceria contrariando os esteretipos e fazendo o que o deixasse mais  vontade. Mas ser que funcionava assim? Dava para olhar para uma criana e ver quem ela se tornaria? s vezes, quando ela observava Sam, conseguia ver o adulto que ele se tornaria um dia; estava l, nos olhos dele, a casca que o homem que ele viria a ser habitaria. Mas era mais do que atributos fsicos que s vezes dava para identificar. Ser que aquelas garotinhas virariam donas de casa ou seriam empresrias? Ser que

o comportamento destrutivo do garotinho acabaria se transformando em vcio em drogas e alcoolismo? Ser que Peter Houghton empurrava amiguinhos, pisava em grilos ou fazia alguma coisa quando criana que pudesse indicar seu futuro como assassino? O garoto na caixa de areia colocou o caminho de lado e passou a cavar, aparentemente, at a China. Sam abandonou o bolo e pegou o veculo de plstico, mas acabou perdendo o equilbrio e caiu, batendo com o joelho no contorno de madeira. Selena pulou do banco em um segundo, pronta para pegar o filho no colo antes que ele comeasse a berrar. Mas Sam olhou para as outras crianas, como se percebesse que tinha plateia. E, apesar de seu rostinho ter se enrugado e ficado vermelho, como um concentrado de dor, ele no chorou. Era mais fcil para as garotas. Elas podiam dizer "Isso di", ou "No gosto do que isso me faz sentir", e a reclamao seria socialmente aceitvel. J os garotos no falavam essa lngua. Eles no a aprendem quando crianas e no conseguem capt-la quando adultos. Selena se lembrava do ltimo vero, quando Jordan foi pescar com um velho amigo cuja esposa tinha acabado de pedir o divrcio. -- Sobre o que vocs conversaram? -- perguntara ela quando Jordan voltou para casa. -- Nada -- dissera ele. -- Estvamos pescando. Isso no fez sentido para Selena; eles ficaram seis horas fora. Como voc podia se sentar ao lado de algum em um barquinho por tanto tempo e no ter uma conversa ntima sobre como ele estava; se estava bem, apesar da crise, se se preocupava com o resto da vida. Ela olhou para Sam, que agora estava com o caminho na mo e o empurrava por cima do seu antigo bolo. A mudana podia acontecer rpido assim, Selena sabia. Ela pensava em como Sam passava seus pequenos

bracinhos ao redor dela e a beijava, como ia correndo para ela se ela abrisse os braos. Mas, cedo ou tarde, ele perceberia que os amigos no seguravam a mo das mes quando atravessavam a rua, que no faziam bolos e pizzas na caixa de areia, mas construam cidades e cavavam cavernas. Um dia, no segundo ciclo do ensino fundamental, ou talvez at antes, Sam comearia a se entocar no quarto, a se afastar do toque dela. Resmungaria suas respostas, agiria com dureza, seria um homem. Talvez fosse nossa culpa os homens ficarem do jeito que ficavam, pensou Selena. Talvez a empatia, como um msculo sem uso, acabasse se atrofiando. Josie falou para a me que conseguira um emprego de vero como voluntria na escola para dar aulas particulares de matemtica para crianas do ensino fundamental. Falou sobre Angie, cujos pais se separaram durante o ano letivo, e que, em decorrncia disso, ela acabou reprovando em lgebra. Descreveu Joseph, um paciente de leucemia que precisou faltar muito por causa do tratamento e que tinha dificuldade em entender fraes. Todos os dias, no jantar, quando a me lhe perguntava sobre o trabalho, Josie sempre tinha uma histria para contar. O problema era que no passava disso: fico. Joseph e Angie no existiam; alis, nem o emprego de professora particular. Nessa manh, como em todas as outras, Josie saiu de casa. Pegou o nibus e cumprimentou Rita, a motorista que fazia esse trajeto durante o vero. Quando os demais passageiros desceram no ponto mais perto da escola, Josie ficou no nibus. Na verdade, ela s se levantava na ltima parada, um quilmetro e meio ao sul do cemitrio Whispering Pines. Ela gostava de l. No cemitrio, no encontrava ningum com quem no tinha vontade de conversar. No precisava falar nada se no quisesse. Josie subia o caminho cheio de curvas, que j era to familiar que ela

conseguia saber, com os olhos fechados, quando o asfalto tinha um afundamento e quando virava  esquerda. Ela sabia que o arbusto carregado de hortnsias azuis ficava na metade do caminho para o tmulo de Matt, que dava para sentir cheiro de madressilva quando estava a poucos passos dele. Agora j havia uma lpide, um bloco impecvel de mrmore branco com o nome de Matt entalhado com capricho. A grama tinha comeado a crescer. Josie se sentou em um montculo de terra, que estava quente, como se o sol tivesse penetrado nele, guardando o calor  sua espera. Enfiou a mo na mochila e pegou uma garrafa de gua, um sanduche de manteiga de amendoim e um pacote de cream cracker. -- Voc acredita que as aulas comeam em uma semana? -- disse ela para Matt, porque s vezes fazia isso. Ela no esperava que ele respondesse; apenas era bom falar com ele depois de tantos meses sem falar. -- Mas ainda no vo abrir a escola de verdade. Dizem que talvez por volta do Dia de Ao de Graas, quando as obras estiverem terminadas. O que estavam fazendo na escola era um mistrio. Josie passara em frente diversas vezes para saber que o saguo de entrada e a biblioteca tinham sido demolidos, assim como o refeitrio. Ela se perguntou se a administrao era ingnua o bastante para pensar que, se reformassem a cena do crime, os alunos seriam enganados a ponto de pensar que nada acontecera ali. Ela leu em algum lugar que fantasmas no apenas ficavam em um local fsico; que, s vezes, uma pessoa podia ser assombrada. Josie no se considerava paranormal, mas acreditava nisso. Ela sabia que havia lembranas das quais voc poderia tentar fugir para sempre, mas que jamais se livraria delas. Josie se deitou, com o cabelo espalhado sobre a grama nova.

-- Voc gosta que eu venha aqui? -- sussurrou. -- Ou me mandaria sumir se pudesse falar? Ela no queria ouvir a resposta. Nem queria pensar sobre o assunto. Assim, abriu os olhos o mximo que pde e olhou para o cu, at que o azul intenso queimasse o fundo de seus olhos. Lacy estava no departamento masculino da loja de departamentos, passando a mo no tweed spero, no azul-escuro e nas listras enrugadas dos tecidos dos palets esportivos. Ela dirigira duas horas at Boston para ter as melhores escolhas para vestir Peter para o julgamento. Brooks Brothers, Hugo Boss, Calvin Klein, Ermenegildo Zegna. Feitos na Itlia, na Frana, na Gr-Bretanha, na Califrnia. Ela olhou para a etiqueta com o preo, perdeu o flego e se deu conta de que no ligava. Essa provavelmente seria a ltima vez que compraria roupas para o filho. Ento percorreu sistematicamente o departamento. Pegou uma cueca boxer feita do melhor algodo egpcio, um pacote de camisetas brancas Ralph Lauren, meias de casimira. Encontrou uma cala cqui do tamanho dele. Pegou uma camisa com gola presa por boto, porque Peter sempre odiou quando a gola da camisa aparecia por cima da gola do suter. Escolheu um blazer azul, como Jordan instrura. "Queremos que ele v vestido como se voc o estivesse mandando para um colgio interno na Sua", dissera ele. Ela lembrou que, quando Peter tinha uns onze anos, desenvolveu averso a botes. Pode parecer fcil contornar uma coisa assim, mas isso eliminava a maior parte das calas. Lacy conseguia se lembrar de dirigir at o fim do mundo para encontrar um pijama de elstico quadriculado de flanela que pudesse passar por roupa de sair. Lembrava-se de ver garotos usando calas de pijama para ir  escola desde o ano anterior e de se

perguntar se Peter tinha lanado a moda ou se simplesmente estava fora de sincronia. Mesmo depois de Lacy pegar o que precisava, ela continuou a andar pelo departamento masculino. Tocou em um arco-ris de lenos de seda que derreteram sob seus dedos e escolheu um que era da cor dos olhos de Peter. Mexeu nos cintos, pretos, marrons, de couro de avestruz, de crocodilo, e nas gravatas de bolinhas, flores-de-lis e listras. Pegou um roupo to macio que quase a levou s lgrimas, chinelos de pele de cordeiro, uma sunga vermelho-cereja. Pegou tanta roupa que parecia que estava carregando uma criana nos braos. -- Ah, me deixe ajudar com isso -- disse uma vendedora, pegando parte das peas dos braos dela e levando-as at o caixa. Ento comeou a dobrar uma a uma. -- Sei como  -- disse ela, sorrindo com solidariedade. -- Quando meu filho foi embora, achei que eu ia morrer. Lacy ficou olhando para ela. Ser que ela no era a nica mulher a ter passado por uma coisa to horrvel? Ser que, tal qual essa vendedora, era possvel identificar outras pessoas na multido, como se houvesse uma sociedade secreta de mes cujos filhos as magoaram profundamente? -- Parece que  pra sempre -- disse a mulher -- , mas, pode acreditar, quando eles voltam pro Natal ou pras frias de vero e comeam a comer tudo que tem pela casa, voc deseja que a faculdade dure o ano todo. O rosto de Lacy ficou petrificado. -- Certo -- disse ela. -- Faculdade. -- Tenho uma menina na Universidade de New Hampshire, e meu filho est em Rochester -- disse a vendedora. -- Harvard.  pra l que o meu filho vai. Eles tinham conversado sobre isso uma vez. Peter gostava mais do departamento de cincia da computao de Stanford, e Lacy brincou

dizendo que jogaria fora os livretos das faculdades a oeste de Mississippi, por serem longe demais. A priso estadual ficava menos de cem quilmetros ao sul, em Concord. -- Harvard -- disse a vendedora. -- Seu filho deve ser inteligente. --  mesmo -- disse Lacy, e continuou contando para aquela mulher sobre a ida fictcia de Peter para a faculdade, at a mentira no ter mais um gosto amargo na boca, at ela mesma quase conseguir acreditar. Pouco depois das trs da tarde, Josie se deitou de bruos, abriu bem os braos e encostou o rosto na grama. Parecia que estava tentando abraar o cho, o que no estava muito longe da verdade. Inspirou profundamente. De modo geral, no sentia outro cheiro alm de planta e terra, mas, de vez em quando, depois de uma chuva, sentia um leve aroma de gelo e xampu Pert, como se o prprio Matt ainda estivesse sob a superfcie. Pegou a embalagem do sanduche e a garrafa de gua vazia e as colocou na mochila, depois seguiu pelo caminho cheio de curvas at os portes do cemitrio. Havia um carro bloqueando a entrada; apenas duas vezes durante o vero Josie testemunhou uma procisso funeral, e ficou enjoada. Comeou a andar mais rpido, na esperana de conseguir estar longe, sentada no nibus, bem antes de o enterro comear. Mas ento percebeu que o carro que bloqueava a entrada no era um rabeco, nem era preto. Era o mesmo carro que estava estacionado na entrada da casa dela de manh, e Patrick estava recostado nele com os braos cruzados. -- O que voc est fazendo aqui? -- perguntou Josie. -- Eu poderia fazer a mesma pergunta. Ela deu de ombros. -- Moramos em um pas livre. Josie no tinha nada contra Patrick Ducharme. Ele apenas a deixava nervosa de vrias maneiras. Ela no conseguia olhar para ele sem pensar

Naquele Dia. Mas agora precisava, porque ele tambm era amante de sua me (quo estranho era dizer isso?) e, de certa forma, esse fato era ainda mais perturbador. Sua me estava nas nuvens, se apaixonando, enquanto Josie tinha que ir escondida a um cemitrio para visitar o seu namorado. Patrick se afastou do carro e deu um passo em direo a ela. -- Sua me acha que voc est dando aula de matemtica agora. -- Ela mandou voc me seguir? -- disse Josie. -- Prefiro a palavra observar -- corrigiu Patrick. Josie riu com deboche. No queria parecer to arrogante, mas no conseguia evitar. O sarcasmo era como um campo de fora; se ela o desligasse, ele talvez conseguisse ver que ela estava to perto de desmoronar. -- Sua me no sabe que estou aqui -- disse Patrick. -- Eu queria falar com voc. -- Vou perder o nibus. -- Eu te levo pra onde voc quiser -- disse ele, irritado. -- Sabe, quando estou fazendo meu trabalho, passo muito tempo desejando poder voltar o relgio. Chegar  vtima de estupro antes que o crime acontea, estar vigiando a casa quando o ladro chega. Sei como  sentir que nada do que voc faa ou diga vai tornar as coisas melhores. E sei como  acordar no meio da noite revivendo um momento sem parar, to nitidamente que parece que voc est passando por tudo de novo. Na verdade, aposto que voc e eu revivemos o mesmo momento. Josie engoliu em seco. Em todos esses meses, em todas as conversas bem-intencionadas que ela tivera com mdicos, psiquiatras e at mesmo com outros alunos da escola, ningum havia capturado de forma to sucinta a maneira como ela se sentia. Mas ela no podia permitir que Patrick soubesse disso, no podia admitir sua fraqueza, embora tivesse a sensao de que ele podia v-la de qualquer modo.

-- No finja que temos alguma coisa em comum -- disse Josie. -- Mas ns temos -- respondeu Patrick. -- Sua me -- e olhou nos olhos de Josie. -- Eu gosto dela, muito. E gostaria de saber se voc est  vontade com isso. Josie sentiu a garganta se fechando. Tentou se lembrar de Matt dizendo que gostava dela; perguntou-se se algum voltaria a lhe dizer isso. -- Minha me  adulta. Ela pode decidir sozinha com quem f... -- No -- interrompeu Patrick. -- No o qu? -- No diga uma coisa que vai desejar no ter dito. Josie deu um passo para trs, com os olhos brilhando. -- Se voc acha que ficar meu amiguinho vai ajudar a conquistar minha me, est enganado. Voc vai se sair melhor com flores e chocolate. Ela no est nem a pra mim. -- No  verdade. -- Voc no est na nossa vida h muito tempo, no ? -- Josie -- disse Patrick -- , ela  louca por voc. Ela se sentiu engasgar com a verdade. Mais difcil ainda foi falar do que engolir. -- Mas no to louca quanto  por voc. Ela est feliz. Est feliz e eu... eu sei que devia estar feliz por ela... -- Mas voc est aqui -- disse Patrick, indicando o cemitrio. -- E est sozinha. Josie assentiu e comeou a chorar. Olhou para o outro lado, constrangida, e sentiu Patrick passar os braos ao redor do seu corpo. Ele no disse nada, e, por aquele nico momento, ela at gostou dele. Qualquer palavra, at uma bem-intencionada, teria ocupado o espao onde a dor precisava estar. Ele simplesmente a deixou chorar at que parasse, e ela

descansou por um instante no ombro dele, se perguntando se aquilo era apenas o olho do furaco ou seu final. -- Sou uma vaca -- sussurrou ela. -- Estou com cimes. -- Acho que ela entenderia. Josie se afastou dele e limpou os olhos. -- Voc vai contar pra ela que eu venho aqui? -- No. Ela olhou para ele, surpresa. Imaginava que ele tomaria o lado da me. -- Voc est errada, sabia? -- disse Patrick. -- Sobre o qu? -- Sobre estar sozinha. Josie olhou para o alto da colina. No dava para ver o tmulo de Matt do porto, mas ele ainda estava l, assim como todo o resto Daquele Dia. -- Fantasmas no contam. Patrick sorriu. -- Mas mes contam. O que Lewis mais odiava era o som das portas de metal se fechando. No importava que em trinta minutos ele pudesse ir embora da priso. O importante era que os detentos no podiam. E que um desses detentos era o mesmo garoto que ele ensinara a andar de bicicleta sem rodinhas, o mesmo garoto cujo peso de papel feito no maternal ainda estava em sua mesa, o mesmo garoto que ele vira respirar pela primeira vez. Ele sabia que seria um choque para Peter v-lo. Havia quantos meses que ele dizia para si mesmo que essa seria a semana em que ele tomaria coragem de ir ver o filho na cadeia, mas acabava achando alguma coisa para fazer ou um texto para estudar? Mas, quando o agente penitencirio abriu a porta e levou Peter para a sala de visitas, Lewis se deu conta de que tinha subestimado o choque que ele sentiria ao ver Peter.

Ele estava maior. Talvez no mais alto, mas mais robusto. Os ombros preenchiam a camisa e os braos tinham engrossado com os msculos. A pele estava transparente, quase azul sob a luz artificial. As mos no pararam de se mover. Ficavam se balanando ao lado do corpo, e, quando ele se sentou, nas laterais da cadeira. -- Ah -- disse Peter. -- Mas olha s. Lewis tinha ensaiado seis ou sete discursos, explicaes do motivo de no conseguir ir ver o filho, mas, quando viu Peter sentado ali, s duas palavras lhe subiram aos lbios. -- Me desculpa. Peter apertou os lbios. -- Por qu? Por me dar o cano por seis meses? -- Est mais pra dezoito anos -- admitiu Lewis. Peter se recostou na cadeira, olhando fixamente para o pai. Ele se forou a retornar o olhar. Ser que Peter podia lhe dar a absolvio, mesmo que ele no estivesse completamente seguro de poder retribuir? Peter passou uma das mos pelo rosto e balanou a cabea. Em seguida, comeou a sorrir. Lewis sentiu os ossos se afrouxarem, os msculos relaxarem. At aquele momento, no sabia o que esperar de Peter. Podia racionalizar consigo mesmo o quanto quisesse e afirmar que um pedido de desculpas sempre seria aceito, podia dizer para si mesmo que ele era o pai, quem mandava. Mas tudo isso era muito difcil de se lembrar quando voc estava sentado em uma cadeira de visitao em uma priso, com uma mulher ao lado que tentava encostar o p no do amante por cima da linha vermelha, e um homem  direita que xingava sem parar. O sorriso no rosto de Peter se endureceu e virou deboche. -- Foda-se -- disse ele. -- Foda-se por vir aqui. Voc no liga porra nenhuma pra mim. No quer me pedir desculpas. S quer se ouvir dizer isso. Voc est aqui por voc, no por mim.

A cabea de Lewis pareceu cheia de pedras. Ele se inclinou para frente, com o pescoo incapaz de sustentar o peso, at apoiar a testa nas mos. -- Eu no consigo fazer nada, Peter -- sussurrou. -- No posso trabalhar, no consigo comer, no consigo dormir. -- Ele ergueu o rosto. -- Os alunos novos esto chegando ao campus agora. Olho pra eles da janela, e eles sempre esto apontando pros prdios, ou pra Rua Main, ou ouvindo os guias tursticos que os levam pelos ptios, e penso em como eu estava ansioso pra fazer essas mesmas coisas com voc. Ele havia escrito um trabalho anos atrs, depois de Joey nascer, sobre o aumento exponencial de felicidade, os momentos em que o quociente mudava rapidamente depois de um acidente deflagrador. O que concluiu foi que o resultado era varivel, baseado no no evento que provocara a felicidade, mas no estado em que voc estava quando ele acontecia. Por exemplo, o nascimento do seu filho seria uma coisa se voc tivesse um casamento feliz e tivesse planejado uma famlia, e seria algo completamente diferente se voc tivesse dezesseis anos e tivesse engravidado uma garota. O tempo frio seria perfeito se voc estivesse de frias esquiando, mas decepcionante se voc estivesse na praia. Um homem que j fora rico poderia ficar loucamente feliz com um dlar no meio de uma depresso, e um chef gourmet poderia comer minhocas se estivesse preso em uma ilha deserta. Um pai que desejasse que um filho fosse estudado, bem-sucedido e independente poderia, sob circunstncias diferentes, simplesmente ficar feliz por ele estar vivo e em segurana, para poder dizer ao garoto que jamais deixara de am-lo. -- Mas voc sabe o que dizem sobre a faculdade -- disse Lewis, sentando-se um pouco mais ereto. --  superestimada. As palavras dele surpreenderam Peter.

-- Todos aqueles pais gastando quarenta mil por ano -- disse Peter, sorrindo de leve. -- E aqui estou eu, aproveitando ao mximo o dinheiro do contribuinte. -- O que mais um economista poderia desejar? -- brincou Lewis, apesar de no ser engraado; jamais seria engraado. Ento ele se deu conta de que isso era uma espcie de felicidade tambm; voc diria qualquer coisa, faria qualquer coisa, para fazer seu filho sorrir daquele jeito, como se houvesse algo de que sorrir, mesmo que cada palavra parecesse que voc estava engolindo vidro. Os ps de Patrick estavam cruzados na mesa da promotora enquanto Diana olhava os relatrios que haviam chegado da balstica nos dias seguintes ao tiroteio, em preparao para o testemunho dele no julgamento. -- Tem duas armas que no foram usadas -- explicou Patrick --, e duas pistolas correspondentes, duas Glock 17, que estavam registradas no nome do vizinho da frente. Um policial aposentado. Diana ergueu os olhos do papel. -- Que legal. -- . Ah, voc conhece os policiais. Qual  o sentido de colocar a arma em um armrio trancado quando voc precisa peg-la rapidamente? De qualquer modo, a Arma A  a que foi disparada em quase toda a escola. As marcas nas balas corresponderam. A Arma B foi disparada, a balstica nos disse isso, mas no acharam nenhuma bala correspondente. Essa arma foi encontrada emperrada no cho do vestirio. O Houghton ainda estava segurando a Arma A quando foi preso. Diana se recostou na cadeira, com os dedos esticados sobre o peito. -- O McAfee vai perguntar por que o Houghton teria sacado a Arma B no vestirio se a Arma A estava funcionando to esplendidamente at aquele ponto.

Patrick deu de ombros. -- Ele pode ter usado essa arma pra atirar na barriga do Royston, e, quando ela emperrou, ele voltou pra Arma A. Ou, por outro lado, pode ter sido mais simples que isso. Como a bala da Arma B no foi recuperada,  possvel que tenha sido o primeiro tiro disparado. O projtil pode estar alojado no revestimento de fibra de vidro do refeitrio, at onde sabemos. Ela emperrou, o garoto mudou para a Arma A e enfiou a arma emperrada no bolso... e depois, no final da matana, querer. -- Ou. Odeio essa palavra. Mesmo com duas letras, est cheia de dvidas... Ela parou quando ouviu uma batida na porta e a secretria colocou a cabea dentro da sala. -- Seu compromisso das catorze horas chegou. Diana se virou para ele. -- Estou preparando Drew Girard para testemunhar. Por que voc no fica? Patrick passou para uma cadeira na lateral da sala para dar o lugar na frente da promotora para Drew. O garoto entrou com uma batida leve. -- Sra. Leven? Diana se levantou. -- Drew, obrigada por vir -- e indicou Patrick. -- Voc se lembra do detetive Ducharme? Drew assentiu para ele. Patrick observou a cala passada do garoto, a camisa com gola, a atitude. Esse no era o astro do hquei metido e famoso, como tinha sido pintado pelos alunos durante a investigao de Patrick. Mas, por outro lado, Drew tinha visto seu melhor amigo ser morto; tinha levado um tiro no ombro. O mundo no qual ele mandava no existia mais. descartou-a ou deixou-a cair sem

-- Drew -- disse Diana --, trouxemos voc aqui porque voc recebeu uma intimao, e isso significa que vai testemunhar em algum momento na semana que vem. Vamos te avisar conforme chegar mais perto... Mas por enquanto quero me certificar de que voc no est nervoso com a ideia de ir ao tribunal. Hoje vamos falar sobre algumas das coisas que vo te perguntar e como  o procedimento. Se voc tiver alguma dvida, podemos falar sobre isso tambm. Certo? -- Sim, senhora. Patrick se inclinou para a frente. -- Como est o ombro? Drew se virou para encar-lo, flexionando inconscientemente essa parte do corpo. -- Ainda estou fazendo fisioterapia, mas est bem melhor. S que... -- Ele parou de falar. -- S que o qu? -- perguntou Diana. -- No vou poder participar da temporada de hquei. Ela olhou nos olhos de Patrick; isso traria solidariedade pela testemunha. -- Voc acha que vai voltar a jogar? Drew ruborizou. -- Os mdicos dizem que no, mas acho que esto errados. -- Ele hesitou. -- Estou no ltimo ano, e eu estava contando com uma bolsa de atleta pra faculdade. Houve um silncio desconfortvel quando ningum admitiu a coragem de Drew nem a verdade. -- Ento, Drew -- disse Diana -- , quando formos pro tribunal, vou comear perguntando o seu nome, onde voc mora, se estava na escola naquele dia. -- Certo.

--

Vamos ensaiar um pouco, t? Quando voc chegou  escola

naquela manh, qual foi sua primeira aula? Drew se sentou um pouco mais ereto. -- Histria americana. -- E a segunda? -- Ingls. -- Pra onde voc foi depois da aula de ingls? -- Tive o terceiro tempo livre, e a maior parte das pessoas com perodo livre fica no refeitrio. -- Foi pra l que voc foi? -- . -- Tinha algum com voc? -- prosseguiu Diana. -- Fui sozinho, mas, quando cheguei l, encontrei vrias pessoas. -- Ele olhou para Patrick. -- Amigos. -- Quanto tempo voc ficou no refeitrio? -- No sei. Meia hora, eu acho. Diana assentiu. -- O que aconteceu depois? Drew olhou para a cala e passou o dedo pelo vinco. Patrick reparou que a mo dele estava tremendo. -- A gente estava s conversando... e a ouvi um estrondo muito alto. -- Voc percebeu de onde vinha o som? -- No. Eu no sabia o que era. -- Voc viu alguma coisa? -- No. -- O que voc fez quando ouviu o barulho? -- perguntou Diana. -- Fiz uma piada -- disse Drew. -- Disse que devia ser o almoo da escola pegando fogo. "Ah, finalmente, o macarro com queijo radioativo." -- Voc ficou no refeitrio depois do estouro?

-- Fiquei. -- E depois? Drew olhou para as mos. -- Houve um som parecido com fogos. Antes de qualquer pessoa entender o que era, o Peter entrou no refeitrio. Estava com uma mochila e segurando uma arma. Ento ele comeou a atirar. Diana levantou a mo. -- Vou interromper voc por um momento, Drew... Quando voc estiver no banco e disser isso, quero que olhe para o ru e o identifique, para os registros. Entendeu? -- Entendi. Patrick se deu conta de que no estava vendo os disparos como veria qualquer outro crime, nem o estava visualizando como uma introduo ao vdeo apavorante que tinha visto. Estava imaginando Josie, uma das amigas de Drew, sentada a uma mesa longa, ouvindo os estouros, sem ter ideia do que estava para acontecer. -- H quanto tempo voc conhece o Peter? -- perguntou Diana. -- Ns dois crescemos em Sterling. Frequentamos a mesma escola desde sempre. -- Vocs eram amigos? -- Drew balanou a cabea. -- Inimigos? -- No -- disse ele. -- No exatamente inimigos. -- J teve problemas com ele? Drew olhou para frente. -- No. -- Voc j praticou bullying contra ele? -- No, senhora -- disse ele. Patrick fechou as mos com fora. Ele sabia, por ter entrevistado centenas de adolescentes, que Drew Girard tinha enfiado Peter Houghton em armrios, que o tinha derrubado quando ele estava descendo escadas,

que tinha jogado bolinhas de papel com cuspe no cabelo dele. Nada disso justificava o que Peter havia feito, mas, mesmo assim... Havia um garoto apodrecendo na cadeia; dez pessoas se decompondo em tmulos; dezenas em processo de reabilitao e cirurgia reconstrutiva; centenas, como Josie, que ainda no conseguiam repassar aquele dia sem desabar em lgrimas; e havia pais, como Alex, que confiavam que Diana conseguiria que a justia fosse feita em nome deles. E aquele babaquinha ali, mentindo at os fios de cabelo. Diana ergueu os olhos das anotaes e encarou Drew. -- Ento, se te perguntarem sob juramento se voc j implicou com o Peter, qual vai ser sua resposta? Drew olhou para ela, a coragem sumindo apenas o suficiente para Patrick se dar conta de que o garoto estava morrendo de medo de que eles soubessem mais do que estavam admitindo. Diana olhou para Patrick e soltou a caneta. Foi o convite que ele estava esperando. Ele deu um pulo da cadeira e segurou o pescoo de Drew Girard. -- Escuta aqui, seu escrotinho -- disse Patrick -- , no vai fazer merda. Ns sabemos o que voc fazia com Peter Houghton. Sabemos que voc era o lder. Dez pessoas morreram e dezoito nunca vo ter a vida que pensavam que teriam... Tem tantas famlias nessa comunidade destinadas a sofrer pelo resto da vida que no d nem pra contar. No sei qual  a sua estratgia aqui, se voc quer bancar o santo pra proteger a sua reputao ou se est s com medo de contar a verdade. Mas, pode acreditar, se voc subir no banco das testemunhas e mentir sobre as suas aes no passado, vou garantir que voc v parar na cadeia por obstruo de justia. Ento soltou Drew e se afastou para olhar pela janela do escritrio de Diana. Ele no tinha autoridade para prender o garoto por nada, mesmo que ele cometesse perjrio, mas Drew jamais saberia disso. E talvez fosse o

bastante para assust-lo, para que se comportasse. Patrick respirou fundo e entregou a Diana a caneta que ela havia deixado cair. -- Vou perguntar de novo, Drew -- disse ela com delicadeza. -- Voc j cometeu bullying contra Peter Houghton? Drew olhou para Patrick e engoliu em seco. Em seguida, abriu a boca e comeou a falar. --  churrasco de lasanha -- anunciou Alex depois que Patrick e Josie deram a primeira garfada. -- O que vocs acham? -- Eu no sabia que dava pra fazer churrasco de lasanha -- disse Josie lentamente. Ela comeou a separar a massa do queijo, como se estivesse escalpelando-a. -- Como  isso exatamente? -- perguntou Patrick, pegando a jarra de gua para encher o copo. -- Era uma lasanha comum. Mas uma parte do recheio derramou no forno, e ficou cheio de fumaa... Eu ia comear tudo de novo, mas ento percebi que eu s estava acrescentando um sabor extra de carvo  mistura. -- Ela sorriu largamente. -- Engenhoso, no ? Olhei em todos os livros de receitas, Josie, e nunca fizeram isso antes, pelo que pude perceber. -- Por que ser? -- disse Patrick, e tossiu no guardanapo. -- Eu gosto de cozinhar -- disse Alex. -- Gosto de pegar uma receita e sair pela tangente pra ver o que acontece. -- As receitas so meio que como a lei -- respondeu Patrick. --  melhor segui-las para no cometer uma infrao... -- No estou com fome -- disse Josie de repente. Ela afastou o prato, se levantou e saiu correndo para o andar de cima. -- O julgamento comea amanh -- disse Alex, tentando explicar. Ento foi atrs de Josie sem nem pedir licena, porque sabia que Patrick entenderia. A garota tinha batido a porta e aumentado a msica;

no adiantaria bater. Alex girou a maaneta e entrou, abaixando o volume do som. Josie estava deitada na cama com o travesseiro em cima da cabea. Quando Alex se sentou no colcho, ela nem se mexeu. -- Quer conversar? -- perguntou Alex. -- No -- disse Josie, com a voz abafada. Alex tirou o travesseiro de cima da cabea dela. -- Tente. --  que... Meu Deus, me, qual  o meu problema?  como se o mundo tivesse voltado a girar pra todas as pessoas, mas eu no consigo nem voltar pro carrossel. At vocs dois, vocs devem estar pensando loucamente no julgamento tambm, mas esto aqui, rindo e se divertindo, como se pudessem tirar da cabea o que aconteceu e o que vai acontecer. J eu no consigo deixar de pensar nisso um s segundo. -- Josie olhou para Alex com os olhos cheios de lgrimas. -- Todo mundo seguiu em frente. Menos eu. Alex colocou a mo no brao de Josie e lhe fez um carinho. Ela se lembrou do prazer que sentia em estar com a filha depois que ela nasceu. Que, de alguma forma, do nada, ela havia criado aquela criatura pequenina, cheia de vida, perfeita. Passava horas na cama com a filha ao lado, tocando sua pele, vendo seus dedos dos ps como prolas, sentindo a pulsao da moleira. -- Uma vez -- disse Alex -- , quando eu ainda trabalhava como defensora pblica, um cara do escritrio deu uma festa de 4 de Julho pra todos os advogados e suas famlias. Voc devia ter uns trs anos, mas eu te levei. Soltaram fogos e eu afastei o olhar por um segundo para ver. Ento, quando olhei de novo, voc tinha sumido. Comecei a gritar e algum te encontrou, deitada no fundo da piscina. Josie se sentou ereta, fascinada pela histria que nunca tinha ouvido.

-- Eu mergulhei, tirei voc de l, fiz respirao boca a boca e voc cuspiu a gua. Eu nem conseguia falar, de tanto medo que estava sentindo. Quando voc voltou a si, comeou a brigar comigo, furiosa, dizendo que estava procurando sereias e que eu te atrapalhei. Josie puxou os joelhos para debaixo do queixo e sorriu um pouco. -- Srio? Alex assentiu. -- Eu disse que da prxima vez voc tinha que me levar com voc. -- E teve uma prxima vez? -- Me diga voc -- disse Alex, e hesitou. -- Voc no precisa de gua pra ter a sensao de que est se afogando, precisa? Quando Josie balanou a cabea, as lgrimas rolaram. Ela mudou de posio e se encaixou nos braos da me. Patrick sabia que essa era sua derrocada. Pela segunda vez na vida, estava ficando to prximo de uma mulher e da filha dela que esquecia que no era parte da famlia. Olhou para a mesa, para os detritos do jantar horrvel de Alex, e comeou a limpar os pratos intocados. O churrasco de lasanha tinha endurecido na travessa como um tijolo enegrecido. Ele empilhou os pratos na pia e abriu a gua quente, pegou uma esponja e comeou a esfreg-los. -- Ah, meu Deus -- disse Alex por trs dele. -- Voc  mesmo o homem perfeito. Patrick se virou com as mos cheias de sabo. -- Longe disso. -- Ele pegou um pano de prato. -- A Josie est...? -- Ela est bem. Vai ficar bem. Pelo menos ns duas vamos ficar repetindo isso at que se torne verdade. -- Sinto muito, Alex.

--

Quem no sente? --

Ela se sentou em uma cadeira virada,

apoiando o queixo no encosto. -- Vou ao julgamento amanh. -- Eu no esperaria que fosse diferente. -- Voc acha que o McAfee consegue a absolvio dele? Patrick dobrou o pano de prato ao lado da pia e andou na direo de Alex, ajoelhando-se na frente da cadeira. -- Alex -- disse ele -- , o garoto entrou na escola como se estivesse executando um plano de batalha. Comeou no estacionamento, explodindo uma bomba pra distrair as pessoas. Entrou pela frente da escola e atirou em uma aluna na escada. Entrou no refeitrio, atirou em um bando de alunos, matou alguns deles e depois se sentou e comeu uma tigela de cereal antes de prosseguir com o banho de sangue. No vejo como, considerando todas essas provas, um jri possa rejeitar as acusaes. Alex ficou olhando para ele fixamente. -- Me diz uma coisa... Por que a Josie teve s orte? -- Porque est viva. -- No, o que quero dizer  por que ela est viva? Ela estava no refeitrio e no vestirio. Viu pessoas morrendo ao redor dela. Por que o Peter no atirou nela? -- No sei. Acontecem coisas que nem sempre d pra entender. Algumas delas... bom, so como o tiroteio. E outras... -- ele cobriu a mo de Alex com a sua sobre o encosto da cadeira. -- Outras no so. Alex olhou para ele, e Patrick se lembrou de novo que encontrla, estar com ela, era como aquele primeiro aafro que se via na neve. Quando se achava que o inverno ia durar para sempre, aquela beleza inesperada tomava voc de surpresa, e, se voc no afastasse o olhar, se mantivesse o foco, o resto da neve de alguma forma derreteria. -- Se eu te perguntar uma coisa, voc vai ser sincero comigo? -- perguntou Alex.

Patrick assentiu. -- Minha lasanha no estava muito boa, estava? Ele sorriu para ela. -- No abra mo do seu emprego -- disse ele. No meio da noite, sem conseguir dormir, Josie foi para fora e se deitou no gramado da frente. Olhou para o cu, que ficava to baixo quela hora da noite que ela conseguia sentir as estrelas espetando-lhe o rosto. Ali fora, sem o quarto a sufocando, era quase possvel acreditar que os problemas que ela tinha eram pequenos no grande esquema do universo. Amanh, Peter Houghton seria julgado por dez assassinatos. At mesmo o pensamento daquele massacre deixava Josie de estmago embrulhado. Ela no podia acompanhar o julgamento, por mais que quisesse, porque estava na lista idiota de testemunhas. Tinha de ficar isolada, uma palavra bonita para no saber de nada. Josie respirou fundo e pensou em uma aula de estudos sociais que teve no segundo ciclo do ensino fundamental, na qual aprendeu que algum -- esquims, talvez? -- acreditava que as estrelas eram buracos no cu pelos quais as pessoas que morreram sempre podiam espiar. Era para ser reconfortante, mas Josie sempre achou aquilo meio assustador, como se significasse que estava sendo vigiada. Isso tambm a fez pensar em uma piada muito boba sobre um cara que passa por um manicmio com um muro alto, ouve os pacientes gritando "Dez! Dez! Dez!" e vai espiar por um buraco no muro para ver o que est acontecendo... Ento  cutucado no olho com uma vareta e ouve os pacientes gritarem: "Onze! Onze! Onze!" Matt tinha contado essa piada para ela. Talvez ela at tenha rido.

Isto  o que os esquims no contam: essas pessoas do outro lado precisam parar o que esto fazendo para observar voc. Mas voc consegue v-las o tempo todo. S precisa fechar os olhos. Na manh do julgamento de seu filho por assassinato, Lacy tirou do armrio uma saia preta, uma blusa preta e meia-cala da mesma cor. Vestiu-se como se estivesse indo a um enterro, o que talvez no estivesse muito longe da verdade. Rasgou trs pares de meias-calas, porque suas mos tremiam, o que a fez desistir de us-las. No fim do dia, os sapatos teriam feito bolhas em seus ps, e Lacy achava que isso seria uma coisa boa; talvez acabasse se concentrando em uma dor que fizesse sentido. No sabia onde Lewis estava nem se ele ia ao julgamento. Eles no se falavam desde o dia em que ela o seguiu at o cemitrio, quando ele passou a dormir no quarto de Joey. Nenhum dos dois entrava no de Peter. Mas, nessa manh, ela se forou a virar  esquerda no corredor e abriu a porta do quarto de Peter. Depois que a polcia esteve l, ela o arrumara um pouco, dizendo para si mesma que no queria que Peter voltasse para uma casa revirada. Ainda havia buracos: a mesa parecia nua sem o computador, as prateleiras estavam meio vazias. Andou at uma e pegou um livro. O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Peter o estava lendo para a aula de ingls quando foi preso. Ela se perguntou se ele tivera tempo de termin-lo. Dorian Gray tinha um retrato no qual ele envelhecia e ficava cruel enquanto seu ser permanecia jovem e com aparncia inocente. Talvez a me silenciosa e reservada que fosse testemunhar pelo filho tivesse um retrato em algum lugar tomado pela culpa, retorcido de dor. Talvez a mulher naquele retrato tivesse permisso de chorar e gritar, de desabar, de segurar os ombros do filho e dizer: "O que foi que voc fez?"

Ela levou um susto com o barulho de algum abrindo a porta. Lewis estava na entrada, com um terno que reservava para conferncias e formaturas da faculdade. Estava segurando uma gravata azul de seda e no falou nada. Lacy pegou a gravata da mo de Lewis, passou-a por trs dele, ao redor do pescoo, arrumou o n com delicadeza e ergueu o colarinho. Ao fazer isso, Lewis segurou sua mo e no a soltou. No havia palavras para momentos assim, quando voc se dava conta de que tinha perdido um filho e o outro estava escapando das suas mos. Ainda segurando a mo de Lacy, Lewis a tirou do quarto de Peter, fechando a porta ao passar. s seis horas da manh, quando Jordan desceu a escada silenciosamente para ler suas notas em preparao para o julgamento, encontrou a mesa arrumada com um lugar: uma tigela, uma colher e uma caixa de cereal de chocolate, a refeio com a qual ele sempre iniciava uma batalha. Ele sorriu, porque Selena devia ter acordado no meio da noite para fazer isso, pois eles foram juntos para a cama na noite anterior. Sentou-se e se serviu de uma poro caprichada. Depois, foi at a geladeira pegar o leite. Havia um bilhete grudado na caixa. BOA SORTE. Assim que Jordan se sentou para comer, o telefone tocou. Ele atendeu correndo, pois Selena e o beb ainda estavam dormindo. -- Al? -- Pai? -- Thomas -- disse ele. -- O que est fazendo acordado a essa hora? -- Bom, humm... Eu ainda no fui dormir. Jordan sorriu. -- Ah, ser jovem e estar na faculdade de novo. -- S liguei pra te desejar boa sorte. Comea hoje, certo?

Ele olhou para o cereal e se lembrou da filmagem feita pela cmera do refeitrio da Sterling High: Peter se sentando, assim como ele, para comer uma tigela de cereal ao lado de alunos mortos. Jordan afastou a tigela. --  -- disse ele. -- Comea. O agente penitencirio abriu a cela de Peter e lhe entregou uma pilha de roupas dobradas. -- Hora do baile, Cinderela -- disse. Peter esperou que ele sasse. Ele sabia que a me tinha levado aquelas roupas para ele; ela at deixara as etiquetas, para que ele pudesse ver que no eram as do armrio de Joey. Eram elegantes, o tipo de roupas que ele imaginava que seriam usadas em uma partida de polo, embora nunca tivesse visto uma. Peter tirou o macaco e vestiu a cueca boxer e as meias. Sentou-se na cama para colocar a cala, que ficou um pouco justa na cintura. Abotoou a camisa errado da primeira vez e precisou fazer de novo. No sabia dar o n da gravata direito. Ento a enrolou e a enfiou no bolso, para que Jordan a amarrasse depois. No havia espelho na cela, mas Peter imaginou que parecia uma pessoa comum agora. Se ele fosse transportado dali para uma rua movimentada de Nova York ou para as arquibancadas de um jogo de futebol americano, as pessoas provavelmente nem olhariam para ele duas vezes e no perceberiam que, por baixo da l e do algodo egpcio, havia uma pessoa que jamais imaginariam. Ou, em outras palavras, depois disso tudo, nada havia mudado. Ele estava prestes a sair da cela quando percebeu que no lhe deram o colete  prova de balas, como acontecera na audincia preliminar. No por haver menos dio agora; deve ter sido apenas um descuido. Ele ia perguntar ao guarda, mas acabou ficando quieto. Talvez, pela primeira vez na vida, Peter tivesse sorte.

Alex se vestiu como se estivesse indo trabalhar, o que estava indo mesmo fazer, mas no como juza. Perguntou-se como seria se sentar no tribunal no papel de civil. Perguntou-se se aquela me desesperada que ela vira na audincia de acusao estaria l. Ela sabia que seria difcil assistir ao julgamento e entender novamente como esteve perto de perder Josie. Alex tinha parado de fingir que s ia at l porque aquilo tinha algo a ver com seu trabalho. Ela ia at l porque precisava. Um dia Josie se lembraria e precisaria de algum para apoi-la; e, como Alex no estava l da primeira vez para proteg-la, prestaria ateno agora. Ela desceu a escada correndo e encontrou Josie  mesa da cozinha, vestida com saia e blusa. -- Eu tambm vou -- ela anunciou. Aquilo j havia acontecido antes, no dia da audincia de acusao de Peter. S que parecia ter acontecido havia tanto tempo, e ela e Josie eram pessoas bem diferentes naquela poca. Agora, ela estava na lista de testemunhas de defesa, mas no tinha recebido intimao, o que significava que no precisava ficar no frum durante o julgamento. -- Sei que no posso entrar, mas o Patrick tambm tem que ficar isolado, no tem? Na ltima vez em que Josie pedira para ir ao tribunal, Alex a impedira. Mas dessa vez ela se sentou diante da filha. -- Voc faz ideia de como vai ser? Vai ter cmeras, um monte delas. E adolescentes em cadeiras de rodas. E pais furiosos. E o Peter. O olhar de Josie foi para seu colo como uma pedra. -- Voc quer me impedir de ir de novo. -- No, quero impedir que voc se machuque. -- Eu no me machuquei -- disse Josie. --  por isso que preciso ir.

Cinco meses antes, Alex tinha tomado essa deciso pela filha. Agora, ela sabia que Josie merecia falar por si mesma. -- Encontro voc no carro -- disse ela, calmamente. Ela manteve a mscara at Josie fechar a porta ao passar, ento correu para o banheiro e vomitou. Estava com medo de que, se a filha revivesse as lembranas do tiroteio, mesmo de longe, isso a levasse alm do ponto de recuperao. Mas estava com mais medo de, pela segunda vez, no conseguir impedir que a filha sofresse. Alex apoiou a cabea na beirada fria de porcelana da banheira. Em seguida, de p, escovou os dentes e molhou o rosto. Foi correndo para o carro, onde a filha j a esperava. Como a bab chegou atrasada, Jordan e Selena tiveram que lutar para passar pela multido na escada do frum. Selena j esperava, mas ainda no estava completamente preparada para as hordas de reprteres, as vans de televiso, os espectadores com as cmeras dos celulares prontas para capturar uma imagem da confuso. Jordan estava bancando o vilo; a grande maioria dos espectadores era de Sterling, e, como Peter seria transportado para o tribunal por um tnel subterrneo, Jordan era o bode expiatrio. -- Como voc consegue dormir  noite? -- gritou uma mulher, quando Jordan subiu as escadas correndo e passou por ela. Outra levantou um cartaz: "Ainda h pena de morte em NH". -- Ah, rapaz -- disse Jordan baixinho. -- Esse vai ser divertido. -- Voc vai ficar bem -- respondeu Selena. Mas ele tinha parado de andar. Havia um homem de p em um degrau segurando uma cartolina com duas fotos grandes: uma de uma garota, outra de uma bela mulher. Kaitlyn Harvey, percebeu Selena ao reconhecer o rosto. E sua me. No alto havia duas palavras: DEZENOVE MINUTOS.

Jordan olhou nos olhos do homem. Selena sabia o que ele estava pensando -- que esse podia ser ele, que ele tinha exatamente o mesmo a perder. -- Sinto muito -- murmurou Jordan, e Selena passou o brao pelo dele e o puxou pela escada. Mas havia um grupo diferente l. Usavam camisetas amarelas com VBA no peito e cantarolavam: -- Peter, voc no est sozinho. Peter, voc no est sozinho. Jordan se inclinou para perto dela. -- Que porra  essa? -- As Vtimas de Bullying da Amrica. -- Voc s pode estar brincando -- disse Jordan. -- Isso existe? -- Pode acreditar -- disse Selena. Ele comeou a sorrir pela primeira vez desde que saram para o frum. -- E voc os encontrou pra gente? Selena apertou o brao dele. -- Pode me agradecer depois -- disse ela. Parecia que seu cliente ia desmaiar. Jordan assentiu para o policial que abriu a porta da cela onde Peter ficava no frum e se sentou. -- Respire -- ordenou ele. Peter concordou com a cabea e encheu os pulmes. Estava tremendo. Jordan esperava por isso, era comum no incio de cada julgamento. At o criminoso mais calejado entrava em pnico quando se dava conta de que era o dia em que sua vida estava em jogo. -- Tenho uma coisa pra voc -- disse Jordan, tirando um par de culos do bolso.

Eram grossos e com aro de casco de tartaruga, com lentes do tipo fundo de garrafa, bem diferentes dos culos finos de armao de metal que Peter usava. -- No preciso -- disse Peter, e sua voz falhou. -- No preciso de culos novos. -- Coloque mesmo assim. -- Por qu? -- Porque todo mundo vai reparar nesses culos no seu rosto -- disse Jordan. -- Quero que voc parea algum que nem em um milho de anos enxergaria bem o bastante para atirar em dez pessoas. As mos de Peter se fecharam na beirada de metal do banco. -- Jordan? O que vai acontecer comigo? Havia alguns clientes para os quais era preciso mentir para que conseguissem encarar o julgamento. Mas, a essa altura, Jordan achava que Peter merecia a verdade. -- No sei, Peter. Voc no tem um timo caso, por causa de todas as provas contra voc. A probabilidade de ser absolvido  pequena, mas mesmo assim vou fazer o que puder por voc. Est bem? -- Peter assentiu. -- S quero que tente parecer calmo l. Que parea pattico. Peter baixou a cabea e contorceu o rosto. , assim mesmo, pensou Jordan, mas ento percebeu que Peter havia comeado a chorar. Jordan andou at a frente da cela. Esse tambm era um momento familiar para ele como advogado de defesa. Ele costumava permitir que o cliente tivesse esse momento de desabar em particular antes de entrarem no tribunal. No era da conta dele, e, para ser honesto, Jordan s se preocupava com o que interessava. Mas conseguia ouvir Peter soluando atrs de si; e, naquela msica triste, havia uma nota que o atingiu. Antes de conseguir pensar melhor, ele se virou e se sentou no banco de novo. Passou os braos ao redor de Peter e sentiu o garoto relaxar contra seu corpo.

-- Vai ficar tudo bem -- disse ele, e torceu para no estar mentindo. Diana Leven observou a rea lotada da plateia e pediu ao meirinho para apagar as luzes. Apertou um boto no laptop e comeou uma apresentao em PowerPoint. A tela ao lado do juiz Wagner se encheu com uma imagem da Sterling High School. Havia um cu azul ao fundo e algumas nuvens, parecidas com algodo-doce. Uma bandeira tremulava ao vento. Trs nibus escolares estavam estacionados como uma caravana perto da entrada. Diana deixou a foto em exibio, em silncio, por quinze segundos. O tribunal ficou to silencioso que dava para ouvir o zumbido do laptop da pessoa que fazia a transcrio. Ai, meu Deus, pensou Jordan. Vou ter que aguentar isso pelas prximas trs semanas. -- A Sterling High School era assim no dia 6 de maro de 2007. Eram 7h50, e as aulas tinham acabado de comear. Courtney Ignatio estava fazendo um teste na aula de qumica. Whit Obermeyer estava na secretaria pegando uma autorizao para entrar atrasado, pois tinha tido um problema com o carro. Grace Murtaugh estava saindo da enfermaria, onde tinha ido tomar Tylenol por causa de uma dor de cabea. Matt Royston estava na aula de histria com seu melhor amigo, Drew Girard. Ed McCabe estava escrevendo o dever de matemtica no quadro. No havia nada que indicasse, para qualquer uma dessas pessoas e para nenhum dos outros membros da comunidade da Sterling High School s 7h50 do dia 6 de maro, que esse no seria um dia como outro qualquer na escola. Diana apertou um boto e uma nova foto apareceu: Ed McCabe deitado no cho com os intestinos saindo pela barriga, enquanto um aluno em lgrimas apertava as duas mos por cima do ferimento aberto. -- Era assim que estava a Sterling High School s 10h19 do dia 6 de maro de 2007. Ed McCabe no passou o dever de matemtica para sua

turma porque, dezenove minutos antes, Peter Houghton, um aluno de dezessete anos da Sterling High School, entrou pela porta com uma mochila com quatro armas: duas espingardas de caa serradas e duas pistolas semiautomticas de nove milmetros carregadas. Jordan sentiu um puxo no brao. -- Jordan -- sussurrou Peter. -- Agora no. -- Mas eu vou vomitar... -- Engula -- ordenou Jordan. Diana voltou para o slide anterior, a imagem perfeita da Sterling High. -- Eu falei para vocs, senhoras e senhores, que nenhuma das pessoas na Sterling High School tinha indicao de que o dia no seria tpico. Mas uma pessoa sabia que tudo ia ser diferente. -- Ela andou at a mesa da defesa e apontou diretamente para Peter, que olhava fixo para o prprio colo. -- Na manh de 6 de maro de 2007, Peter Houghton comeou o dia enchendo uma mochila azul com quatro armas e uma bomba, alm de munio suficiente para matar cento e noventa e oito pessoas. As provas vo mostrar que, quando ele chegou  escola, armou a bomba no carro de Matt Royston para desviar a ateno de si mesmo. Enquanto ela explodia, ele subiu os degraus de entrada da escola e atirou em Zoe Patterson. Depois, no corredor, atirou em Alyssa Carr. Prosseguiu at o refeitrio e atirou em Angela Phlug e Maddie Shaw, a primeira a morrer, e em Courtney Ignatio. Quando os alunos comearam a correr, ele atirou em Haley Weaver e Brady Pryce, em Natalie Zlenko, Emma Alexis, Jada Knight e Richard Hicks. Depois, enquanto os feridos choravam e morriam ao redor dele, vocs sabem o que Peter Houghton fez? Ele se sentou no refeitrio e comeu uma tigela de cereal. Diana deixou que a informao fosse absorvida.

-- Quando terminou, ele pegou a arma e saiu do refeitrio, atirando em Jared Weiner, Whit Obermeyer e Grace Murtaugh no corredor, depois em Lucia Ritolli, uma professora de francs que estava tentando levar os alunos para um local seguro. Ele parou no banheiro masculino e atirou em Steven Babourias, Min Horuka e Topher McPhee, depois entrou no banheiro feminino e atirou em Kaitlyn Harvey. Subiu as escadas e atirou em Ed McCabe, o professor de matemtica, e em John Eberhard e Trey MacKenzie, antes de chegar ao ginsio e atirar em Austin Prokiov, no tcnico Dusty Spears, em Noah James, Justin Friedman e Drew Girard. Por fim, no vestirio, o ru atirou duas vezes em Matthew Royston, uma vez na barriga e outra na cabea. Vocs devem se lembrar desse nome; ele era o dono do carro em que Peter Houghton colocou a bomba no comeo do surto de violncia. Diana encarou o jri. -- O rompante todo durou dezenove minutos na vida de Peter Houghton, mas as provas mostraro que seus efeitos duraro para sempre. E h muitas provas, senhoras e senhores. H muitas testemunhas, e muitos depoimentos pela frente... Mas, no fim deste julgamento, vocs estaro convencidos, sem margem de dvida, de que Peter Houghton provocou a morte de dez pessoas e tentou provocar a morte de outras dezenove na Sterling High School, intencionalmente e com conhecimento de causa, alm de premeditao. Ela andou na direo de Peter. -- Em dezenove minutos, voc pode cortar a grama da frente de casa, pintar o cabelo, ver um tero de um jogo de hquei. Consegue assar pezinhos ou que um dentista faa uma restaurao no seu dente. Pode dobrar as roupas lavadas de uma famlia de cinco pessoas. Ou, como Peter Houghton sabe... em dezenove minutos, voc pode fazer o mundo parar de repente.

Jordan andou at os jurados com as mos nos bolsos. -- A sra. Leven falou para vocs que, na manh do dia 6 de maro de 2007, Peter Houghton entrou na Sterling High School com uma mochila cheia de armas carregadas e atirou em muitas pessoas. Bem, ela est certa. As provas vo mostrar isso, e no colocamos isso em questo. Sabemos que  uma tragdia tanto para as pessoas que morreram quanto para as que vivero com as consequncias. Mas eis o que a sra. Leven no falou para vocs: que, quando Peter entrou na Sterling High School naquela manh, ele no tinha a inteno de se tornar um assassino em massa. Ele entrou com a inteno de se defender dos abusos que sofrera por doze anos seguidos. No primeiro dia de aula de Peter, sua me o colocou no nibus do jardim de infncia com uma lancheira novinha do Super-Homem. No trajeto at a escola, a lancheira foi jogada pela janela. Todos ns temos lembranas da escola de outras crianas nos provocando ou sendo cruis, e a maior parte de ns consegue deixar isso de lado. Mas, na vida de Peter Houghton, essas coisas no aconteciam s de vez em quando. Desde aquele primeiro dia no jardim de infncia, Peter vivenciou uma enxurrada diria de provocaes, tormentos, ameaas e bullying. Colocaram esse garoto dentro de armrios, enfiaram a cabea dele em privadas, o derrubaram, socaram e chutaram. Espalharam um e-mail particular dele para a escola inteira. Arrancaram a cala dele no meio do refeitrio. A realidade de Peter era um mundo em que, independentemente do que ele fizesse, independentemente de quanto se fizesse ficar pequeno e insignificante, ele era sempre a vtima. E, como resultado, ele comeou a se voltar para um mundo alternativo: um mundo criado por ele mesmo na segurana do cdigo HTML. Peter montou seu prprio website, criou videogames e os encheu com o tipo de pessoas que desejava que estivessem ao seu redor. Jordan passou a mo pela barra na frente da rea dos jurados.

-- Uma das testemunhas que vocs ouviro  o dr. King Wah. Ele  psiquiatra forense, examinou o Peter, conversou com ele. Ele vai explicar a vocs que o Peter sofre de uma doena chamada transtorno de estresse pstraumtico. Trata-se de um diagnstico mdico complicado, mas verdadeiro, e crianas que sofrem desse mal no conseguem distinguir entre uma ameaa imediata e uma ameaa distante. Apesar de voc e eu sermos capazes de andar pelo corredor e identificar um praticante de bullying que no estivesse prestando ateno em ns, o Peter veria essa mesma pessoa e seus batimentos cardacos disparariam... seu corpo chegaria mais perto da parede... porque ele teria certeza de que seria percebido, ameaado, surrado e ferido. O dr. Wah vai contar a vocs no s sobre os estudos feitos em crianas iguais ao Peter, mas como o prprio Peter foi diretamente afetado pelos anos e anos de tormento que passou nas mos da comunidade da Sterling High School. Jordan encarou os jurados de novo. -- Vocs se lembram do comeo desta semana, quando estvamos discutindo se vocs seriam jurados apropriados ou no para este caso? Uma das coisas que perguntei a cada um de vocs durante esse processo foi se entendiam que precisavam ouvir as provas no tribunal e aplicar a lei como o juiz os instrusse. Por mais que tenhamos aprendido na aula de educao cvica do oitavo ano ou vendo Law & Ordernas noites de quarta na TV... at vocs estarem aqui, ouvindo as provas e as instrues do tribunal, vocs no sabem quais so as verdadeiras regras. Ele sustentou o olhar de um jurado de cada vez. -- Por exemplo, quando a maior parte das pessoas ouve o termo "legtima defesa", automaticamente supe que algum est apontando uma arma ou segurando uma faca na garganta de outra pessoa, que h uma ameaa fsica imediata. Mas, neste caso, legtima defesa pode no significar o que vocs acham. E o que as provas mostraro, senhoras e senhores,  que

a pessoa que entrou na Sterling High e fez todos aqueles disparos no era um assassino frio e calculista, como a promotoria quer que vocs acreditem. -- Jordan foi para trs da mesa de defesa e colocou as mos nos ombros de Peter. -- Era um garoto com muito medo que tinha pedido proteo... e que nunca a recebeu. Zoe Patterson no parava de roer as unhas, apesar de sua me ter lhe dito para no fazer isso, apesar de um zilho de pares de olhos e (caramba) cmeras de TV estarem apontados para ela quando se sentou no banco das testemunhas. -- O que voc tinha depois da aula de francs? -- perguntou a promotora. Ela j tinha dado seu nome, seu endereo e j tinha falado do comeo daquele dia horrvel. -- Matemtica com o sr. McCabe. -- Voc foi  aula? -- Fui. -- E a que horas a aula comeou? -- Nove e quarenta -- disse Zoe. -- Voc viu Peter Houghton antes da aula de matemtica? Ela no conseguiu controlar o olhar, que seguiu na direo de Peter, sentado  mesa da defesa. O estranho era que ela era caloura no ano anterior e no o conhecia. E, mesmo agora, mesmo depois de ele ter atirado nela, se ela passasse por ele na rua, achava que no o teria reconhecido. -- No -- disse Zoe. -- Aconteceu alguma coisa incomum na aula de matemtica? -- No. -- Voc ficou at o fim da aula?

-- No -- disse Zoe. -- Eu tinha consulta no ortodontista s 10h15, ento sa um pouco antes das dez para assinar a sada na secretaria e esperar minha me. -- Onde ela ia encontrar voc? -- Na escada da frente. Ela ia passar de carro. -- Voc assinou sua sada da escola? -- Assinei. -- Foi at a escada da frente? -- Fui. -- Tinha mais algum l fora? -- No. As aulas j tinham comeado. Ela viu a promotora pegar uma grande fotografia area da escola e do estacionamento como eram antes. Zoe tinha passado de carro pela construo e agora havia uma grande cerca ao redor do local todo. -- Voc pode me mostrar onde estava? -- Zoe apontou. -- Que fique registrado que a testemunha apontou para a escada da frente da Sterling High -- disse a sra. Leven. -- O que aconteceu enquanto voc estava esperando por sua me? -- Teve uma exploso. -- Voc sabe de onde ela veio? -- De algum lugar atrs da escola -- disse Zoe, e olhou para o grande pster de novo, como se a bomba pudesse ser detonada naquele mesmo instante. Ela esfregou a mo na perna. -- Ele... ele veio pela lateral da escola e comeou a subir a escada... -- Quando voc diz "ele", est falando do ru, Peter Houghton? Zoe assentiu e engoliu em seco. -- Ele subiu a escada, eu olhei pra ele, e ele... ele apontou uma arma e atirou em mim.

Ela comeou a piscar muito rpido, tentando no chorar. -- Onde ele atirou em voc, Zoe? -- perguntou a promotora, com delicadeza. -- Na perna. -- O Peter falou alguma coisa antes de atirar em voc? -- No. -- Voc sabia quem ele era naquele momento? Zoe balanou a cabea. -- No. -- Voc reconheceu o rosto dele? -- Sim, da escola e tudo... A sra. Leven virou as costas para o jri e deu uma piscadela para Zoe, o que a fez se sentir melhor. -- Que tipo de arma ele estava usando, Zoe? Era uma pequena, que ele segurava com apenas uma das mos, ou era uma grande, que ele precisava segurar com as duas? -- Era uma arma pequena. -- Quantas vezes ele atirou? -- Uma. -- Ele disse alguma coisa depois que atirou em voc? -- No me lembro -- disse Zoe. -- O que voc fez? -- Eu queria ir pra longe dele, mas minha perna parecia estar pegando fogo. Tentei correr, mas no consegui. Eu meio que desmoronei e rolei pela escada, e tambm no consegui mexer o brao. -- O que o ru fez? -- Ele entrou na escola. -- Voc viu pra que lado ele foi? -- No.

-- Como est sua perna agora? -- perguntou a promotora. -- Ainda preciso usar bengala -- disse Zoe. -- Tive uma infeco, porque a bala levou tecido do meu jeans pra dentro da perna. O tendo est ligado ao tecido da cicatriz, e isso ainda est muito sensvel. Os mdicos no sabem se vo fazer outra cirurgia, porque pode provocar mais danos. -- Zoe, voc participava de algum esporte no ano passado? -- Eu jogava futebol -- disse ela, e olhou para a perna. -- O treino da temporada comea hoje. A sra. Leven se virou para o juiz. -- No tenho mais perguntas -- disse ela. -- Zoe, o sr. McAfee talvez tenha algumas perguntas pra voc. O outro advogado ficou de p. Zoe estava nervosa por causa dessa parte, porque, apesar de ter ensaiado com a promotora, no fazia ideia do que o advogado de Peter lhe perguntaria. Era como uma prova qualquer; ela queria ter as respostas certas. -- Quando o Peter estava segurando a arma, ele estava a cerca de um metro de voc? -- perguntou o advogado. -- Sim. -- Ele no pareceu estar correndo na sua direo, pareceu? -- Acho que no. -- Ele parecia estar tentando subir a escada correndo, certo? -- . -- E voc s estava esperando na escada, certo? -- Sim. -- Ento  justo dizer que voc estava no lugar errado na hora errada? -- Protesto -- disse a sra. Leven. O juiz, um homem grande com uma cabeleira branca que assustava Zoe, balanou a cabea. -- Negado.

-- No tenho mais perguntas -- disse o advogado, e a sra. Leven se levantou de novo. -- Depois que o Peter entrou -- perguntou ela -- , o que voc fez? -- Comecei a gritar por socorro. Zoe olhou para a plateia tentando encontrar a me. Se olhasse para a me, conseguiria dizer o que tinha de dizer agora, porque j tinha acabado e era isso que voc tinha de ter em mente, no importava se no parecesse verdade. -- A princpio, ningum veio -- murmurou Zoe. -- E ento... todo mundo apareceu. Michael Beach tinha visto Zoe Patterson sair da sala onde as testemunhas estavam isoladas. Era uma coleo estranha de adolescentes, de todos os tipos: de fracassados, como ele prprio, a populares, como Brady Pryce. O que era mais estranho era que ningum parecia inclinado a se separar nos grupinhos de sempre: os nerds em um canto, os atletas no outro, e assim por diante. Todos haviam se sentado uns ao lado dos outros ao redor de uma grande mesa de reunies. Emma Alexis, que era uma das garotas populares e bonitas, agora estava paralisada da cintura para baixo e dirigiu a cadeira de rodas para o lado de Michael. Perguntou se podia comer metade do donut dele. -- Quando o Peter entrou no ginsio -- perguntou a promotora -- , o que ele fez? -- Balanou uma arma -- disse Michael. -- Voc conseguiu ver que tipo de arma era? -- Era uma meio pequena. -- Uma pistola? -- . -- Ele falou alguma coisa?

Michael olhou para a mesa da defesa. -- Ele disse: "Todos os atletas para a frente e para o centro". -- O que aconteceu? -- Um garoto comeou a correr na direo dele, como se fosse derrub-lo. -- Quem era? -- Noah James. Ele ... era... do ltimo ano. O Peter atirou nele e ele desabou. -- O que aconteceu depois? -- perguntou a promotora. Michael respirou fundo. -- O Peter disse: "Quem  o prximo?", e o meu amigo Justin me agarrou e comeou a me arrastar pra porta. -- H quanto tempo voc e o Justin eram amigos? -- Desde o terceiro ano -- disse Michael. -- E depois? -- O Peter deve ter visto alguma coisa se mover, porque ele se virou e comeou a atirar. -- Ele acertou voc? Michael balanou a cabea e apertou os lbios. -- Michael -- disse a promotora com gentileza -- , quem ele acertou? -- O Justin entrou na minha frente quando os tiros comearam. E ento ele... ele caiu. Tinha sangue pra todo lado e eu estava tentando estancar, como fazem na TV, apertando a barriga dele. E no estava prestando ateno em mais nada, s no Justin, mas de repente senti uma arma encostar na minha cabea. -- O que aconteceu? -- Eu fechei os olhos -- disse Michael. -- Pensei que ele fosse me matar.

-- E depois? -- Ouvi um barulho, e, quando abri os olhos, ele estava puxando aquela coisa onde ficam todas as balas e estava colocando outra. A promotora andou at a mesa e ergueu um pente de balas. A mera viso daquilo fez Michael tremer. -- Foi isso que ele enfiou na arma? -- ela perguntou. -- Sim. -- O que aconteceu depois? -- Ele no atirou em mim -- disse Michael. -- correram pelo ginsio e ele foi atrs delas no vestirio. -- E o Justin? -- Eu fiquei olhando -- sussurrou Michael. -- Fiquei olhando o rosto dele enquanto ele morria. Era a primeira coisa que ele via de manh quando acordava e a ltima antes de dormir: aquele momento em que o brilho nos olhos de Justin sumiu. Quando a vida deixava uma pessoa, no era aos poucos. Era instantneo, como algum que fecha uma janela. A promotora chegou mais perto. -- Michael -- disse ela -- , voc est bem? Ele assentiu. -- Voc e o Justin eram atletas? -- Nem de longe -- admitiu ele. -- Faziam parte da turma popular? -- No. -- Voc e o Justin j sofreram bullying na escola? Michael olhou pela primeira vez para Peter Houghton. -- Quem nunca sofreu? -- disse ele. Trs pessoas

Enquanto Lacy esperava sua vez de falar a favor de Peter, ela lembrou a primeira vez em que se deu conta de que podia odiar o prprio filho. Lewis ia receber para o jantar um economista figuro de Londres, e Lacy tinha tirado o dia de folga no trabalho para limpar a casa. Apesar de no ter dvida quanto a sua capacidade como parteira, a natureza de seu trabalho fazia com que banheiros no fossem limpos regularmente, que bolas de poeira se formassem debaixo dos mveis. Ela normalmente no ligava, pois achava que era prefervel uma casa com vida a uma estril, a no ser que fossem receber visitas. Nesse caso, o orgulho falava mais alto. Assim, naquela manh, ela acordou, preparou o caf da manh e j tinha limpado a sala quando Peter, naquela poca no segundo ano do ensino mdio, se sentou irritado na cadeira  mesa da cozinha. -- No tenho nenhuma cueca limpa -- disse ele com raiva, apesar de a regra da casa ser que, quando seu cesto de roupa suja ficasse cheio, ele mesmo tinha que lav-la. Lacy pedia que ele fizesse to poucas coisas que no achava essa tarefa um exagero. Ento sugeriu que ele pegasse uma cueca do pai, mas Peter ficou enojado e ela decidiu deixar que ele resolvesse o problema sozinho. J tinha muito o que fazer. Ela costumava deixar o quarto de Peter ficar uma desordem total, mas, ao passar por ele naquela manh, reparou no cesto de roupa suja. Bem, ela j estava em casa trabalhando, e ele estava na escola. Podia fazer isso por ele. Quando Peter chegou em casa naquele dia, Lacy no s tinha aspirado e esfregado o piso, preparado uma refeio de quatro pratos e limpado a cozinha. Tinha tambm lavado, secado e dobrado trs levas de roupas de Peter. Tudo estava empilhado na cama, roupas limpas que cobriam todo o colcho, separadas em grupos de calas, camisas e cuecas. Tudo que ele tinha de fazer era guard-las no armrio. Peter chegou, emburrado e mal-humorado, e subiu correndo a escada para o quarto e para o computador, onde passava a maior parte do tempo.

Lacy, que naquele momento estava esfregando a privada, esperou que ele visse o que ela tinha feito por ele. Mas o que ouviu foi ele resmungando: -- Meu Deus! Eu tenho que guardar tudo isso? -- e bateu a porta do quarto com tanta fora que a casa tremeu. De repente, Lacy no conseguiu se controlar. Ela tinha feito por iniciativa prpria uma coisa boa para o filho, o filho ridiculamente mimado, e era assim que ele agia em retribuio? Ela lavou as luvas de borracha e as deixou na pia. Em seguida, subiu a escada batendo os ps, foi at o quarto de Peter e abriu a porta. -- Qual  o seu problema? Peter olhou para ela com raiva. -- Qual  o seu problema? Olha essa baguna. Alguma coisa dentro de Lacy estalou e a deixou incendiada. -- Baguna? -- repetiu ela. -- Eu arrumei a baguna. Quer ver o que  baguna? Ela esticou a mo e derrubou uma pilha de camisetas cuidadosamente dobradas. Pegou as cuecas dele e as jogou no cho. Empurrou as calas para fora da cama e as jogou no computador, de forma que a torre de CD-ROMs caiu e os discos prateados se espalharam. -- Eu te odeio! -- gritou Peter, e, sem hesitar, Lacy gritou em resposta: -- Eu tambm te odeio! S naquele momento ela percebeu que ela e Peter agora tinham a mesma altura, que ela estava discutindo com um filho que olhava diretamente em seus olhos. Ela saiu do quarto de Peter e ele bateu a porta. Quase imediatamente, Lacy caiu no choro. Ela no quis dizer aquilo,  claro que no. Ela amava Peter, s que, naquele momento, odiava o que ele tinha dito, odiava o que ele tinha feito. Quando ela bateu na porta, ele no respondeu.

-- Peter -- ela chamou. -- Peter, me desculpa por ter dito aquilo. Ento colocou o ouvido na porta, mas no havia som vindo de dentro. Lacy desceu a escada e terminou de limpar o banheiro. Moveu-se como um zumbi ao longo do jantar, conversou com o economista sem realmente saber o que estava dizendo. Peter no se juntou a eles. Ela no o viu at a manh seguinte, quando Lacy foi acord-lo e encontrou o quarto j vazio e impecvel. As roupas tinham sido redobradas e colocadas nas gavetas, a cama tinha sido arrumada e os CDs estavam novamente organizados na torre. Peter estava sentado  mesa da cozinha, comendo uma tigela de cereal, quando Lacy desceu. Ele no a olhou nos olhos, e ela tambm no. O terreno entre os dois ainda estava instvel demais para isso. No entanto, ela lhe serviu um copo de suco, e ele agradeceu. Eles nunca conversaram a respeito do que disseram um ao outro, e Lacy prometeu para si mesma que, independentemente de quanto se sentisse frustrada como me de adolescente e de quanto Peter se tornasse egosta e egocntrico, ela jamais se permitiria chegar a um ponto em que odiasse de verdade o prprio filho. Mas, enquanto as vtimas da Sterling High contavam suas histrias em um tribunal no final do corredor de onde Lacy estava, ela esperava que no fosse tarde demais. A princpio, Peter no a reconheceu. A garota que estava sendo levada pela rampa por uma enfermeira, a garota cujo cabelo tinha sido cortado para a colocao dos curativos e cujo rosto estava contorcido com cicatrizes e ossos fraturados e deformados, se sentou no banco das testemunhas de uma forma que lhe lembrou um peixe sendo colocado em um aqurio novo. Ele nadaria pela rea cuidadosamente, como se soubesse

que tinha de avaliar os perigos desse novo local antes de poder comear a viver. -- Voc pode nos dizer o seu nome, para o registro? -- pediu a promotora. -- Haley -- disse a garota baixinho. -- Haley Weaver. -- No ano passado, voc era formanda na Sterling High? A boca da garota se arredondou e se achatou. A cicatriz cor-de-rosa, que se curvava como a costura em uma bola de beisebol sobre a tmpora dela, ficou mais escura, de um vermelho raivoso. -- Sim -- disse ela, fechando os olhos e sentindo uma lgrima escorrer pela bochecha afundada. -- Eu era a rainha do baile. Ela se inclinou para frente e se balanou um pouco enquanto chorava. O peito de Peter doeu como se fosse explodir. Ele pensou que talvez fosse morrer ali mesmo e poupar a todos o incmodo de passar por isso. Estava com medo de olhar para frente, porque, se olhasse, teria que ver Haley Weaver de novo. Certa vez, quando era pequeno, ele estava brincando com uma bola de futebol americano no quarto dos pais e derrubou um vidro antigo de perfume que tinha sido da bisav dele. O vidro se quebrou em vrios pedacinhos. Sua me disse que sabia que tinha sido sem querer e que colaria tudo. Ela o deixava sobre a cmoda, e todas as vezes que ele via o vidro, percebia as linhas. Durante anos, ele pensou que aquilo talvez fosse pior do que ser castigado. -- Vamos fazer um breve recesso -- disse o juiz Wagner, e Peter encostou a cabea na mesa da defesa, um peso grande demais para sustentar. As testemunhas estavam isoladas, as da promotoria em uma sala e as da defesa em outra. Os policiais tinham sua prpria sala. As testemunhas

no deveriam se ver, mas ningum reparava se voc sasse para ir  lanchonete comprar um caf ou um donut, e Josie passou a sair durante horas seguidas. Foi l que encontrou Haley, tomando suco de laranja de canudo. Brady estava com ela, segurando o copo. Eles ficaram felizes em ver Josie, mas ela ficou feliz quando eles foram embora. Doa fisicamente ter de sorrir para Haley e fingir que no estava vendo as partes afundadas do rosto dela. Ela disse para Josie que j tinha feito trs cirurgias com um cirurgio plstico de Nova York, que trabalhara de graa. Brady no soltou a mo dela nem por um momento; s vezes ele passava os dedos pelos cabelos dela. Isso fez Josie ter vontade de chorar, porque ela sabia que, quando ele olhava para Haley, ainda conseguia v-la de uma forma que ningum jamais voltaria a ver. Tambm havia outras pessoas l que Josie no via desde o tiroteio. Professores, como a sra. Ritolli e o tcnico Spears, que foram at ela dizer "oi". O DJ que cuidava da estao de rdio da escola, o aluno que s tirava A e tinha um problema terrvel de acne. Todos passaram pela lanchonete enquanto ela estava sentada com um copo de caf. Ela ergueu o olhar quando Drew se sentou na cadeira  frente dela. -- Por que voc no est na sala com o resto de ns? -- Estou na lista da defesa. Ou, como ela tinha certeza de que todo mundo na outra sala pensava, o lado dos traidores. -- Ah -- disse Drew, como se entendesse, apesar de Josie ter certeza de que no entendia. -- Voc est pronta pra isso? -- No preciso estar pronta. No vo me chamar. -- Ento por que est aqui? Antes que ela pudesse responder, Drew acenou, e ela percebeu que John Eberhard tinha chegado.

-- Cara -- disse Drew, e John foi na direo deles. Ela reparou que ele estava mancando. Ele se inclinou para bater na mo de Drew e, ao fazer isso, Josie conseguiu ver o inchao na cabea dele, onde a bala tinha entrado. -- Por onde voc tem andado? -- perguntou Drew, dando espao para John se sentar a seu lado. -- Pensei que fosse te ver no vero. Ele assentiu para os dois. -- Eu... sou... o John. O sorriso de Drew sumiu de repente. -- Isso... ... -- Isso  inacreditvel, porra -- murmurou Drew. -- Ele est ouvindo -- disse Josie, e se agachou na frente de John. -- Oi, John. Eu sou a Josie. -- Jooooz. -- Isso mesmo. Josie. -- Eu... sou... o John -- disse ele. John Eberhard era goleiro no time de hquei estadual desde o primeiro ano. Sempre que o time ganhava, o tcnico dava crdito aos reflexos dele. -- Papato -- disse ele, e mexeu o p. Josie olhou para baixo e viu a tira aberta do tnis de John. -- Pronto -- disse ela, depois de fech-la. De repente, no conseguiu mais suportar ficar ali e ver aquilo. -- Tenho que voltar -- disse ela, se levantando. Quando estava se afastando e virou em um corredor sem olhar, esbarrou em algum. -- Desculpa -- murmurou ela, e ento ouviu a voz de Patrick. -- Josie? Voc est bem? Ela deu de ombros e balanou a cabea negativamente. -- Somos dois, ento. Patrick estava segurando um copo de caf e um donut.

-- Eu sei -- disse ele -- , eu sou um clich ambulante. Servida? -- e esticou o doce para ela, que aceitou, apesar de no estar com fome. -- Voc est chegando ou saindo? -- Chegando -- ela mentiu, antes mesmo de perceber o que estava fazendo. -- Ento me faa companhia por alguns minutos. Ele a levou at uma mesa do outro lado da lanchonete, longe de Drew e John; ela conseguia senti-los olhando para ela e se perguntando por que ela estaria com um policial. -- Odeio esperar -- disse Patrick. -- Pelo menos voc no fica nervoso pra testemunhar. -- Fico, sim. -- Voc no faz isso o tempo todo? Ele assentiu. -- Mas isso no torna mais fcil ficar na frente de uma sala cheia de gente. No sei como sua me consegue. -- E o que voc faz pra superar o medo? Imagina o juiz de cueca? -- Bom, no esse juiz -- disse Patrick, e ento, ao perceber o que tinha acabado de insinuar, ficou muito vermelho. -- Deve ser uma coisa boa -- disse Josie. Patrick pegou o donut e deu uma mordida, depois o devolveu para ela. -- Eu tento dizer pra mim mesmo, quando entro l, que no tem como dar errado se eu falar a verdade. E deixo a Diana fazer todo o trabalho -- disse, tomando um gole do caf. -- Voc precisa de alguma coisa? Uma bebida? Mais comida? -- Estou bem. -- Ento eu acompanho voc de volta. Vamos. A sala das testemunhas de defesa era bem pequena, porque elas eram bem poucas. Um homem oriental que Josie nunca tinha visto antes estava

sentado de costas para ela digitando em um laptop. Havia uma mulher que no estava l quando Josie saiu, mas no dava para ver seu rosto. Patrick fez uma pausa em frente  porta. -- Como voc acha que esto indo as coisas no tribunal? -- ela perguntou. Ele hesitou. -- Indo. Ela passou pelo meirinho que fazia o papel de bab deles e foi em direo ao banco da janela, onde estava encolhida antes, lendo. Mas, no ltimo minuto, se sentou  mesa no meio da sala. A mulher que estava sentada l tinha as mos cruzadas na frente do corpo e olhava para o nada. -- Sra. Houghton -- murmurou Josie. A me de Peter se virou. -- Josie? -- e apertou os olhos, como se isso pudesse colocar a garota mais em foco. -- Sinto muito -- sussurrou Josie. A sra. Houghton assentiu. -- Bem -- disse ela, mas parou de repente, como se a frase no passasse de um precipcio de onde pular. -- Como voc est? Josie imediatamente desejou poder retirar a pergunta. Como achava que a me de Peter estava, pelo amor de Deus? Ela provavelmente estava usando todo seu autocontrole naquele momento para no se dissolver em espuma, espalhada na atmosfera. E Josie se deu conta de que isso significava que elas tinham algo em comum. -- Eu no esperava ver voc aqui -- disse a sra. Houghton, baixinho. Ao dizer aqui, ela no estava falando do tribunal; estava falando daquela sala, com as outras parcas testemunhas arroladas para ficar ao lado de Peter.

Josie limpou a garganta para abrir espao para as palavras que no dizia havia anos, palavras que ainda teria medo de usar na frente de quase todo mundo, por medo do eco. -- Ele  meu amigo -- disse ela. -- Ns comeamos a correr -- disse Drew. -- Foi como um xodo em massa. Eu s queria ir o mais longe que conseguisse do refeitrio, ento fui pro ginsio. Dois dos meus amigos tinham ouvido os tiros, mas no sabiam de onde estavam vindo, ento eu chamei eles e mandei me seguirem. -- Quem eram? -- perguntou Leven. -- Matt Royston -- disse Drew. -- E Josie Cormier. Ao ouvir o nome da filha ser dito em voz alta, Alex tremeu. Tornava tudo to... real, to imediato. Drew tinha localizado Alex na plateia e estava olhando diretamente para ela quando disse o nome de Josie. -- Para onde vocs foram? -- A gente achou que, se consegussemos chegar ao vestirio, poderamos pular da janela para o bordo ao lado e ficaramos em segurana. -- Vocs chegaram ao vestirio? -- A Josie e o Matt chegaram -- disse Drew. -- Mas eu levei um tiro. Alex ouviu a promotora levar Drew a falar sobre a extenso de seus ferimentos e como eles tinham feito com que sua carreira no hquei fosse encerrada. Em seguida, olhou diretamente para ele. -- Voc conhecia o Peter antes do dia do tiroteio? -- Sim. -- Como? -- A gente era do mesmo ano. Todo mundo conhece todo mundo. -- Vocs eram amigos? -- perguntou Leven.

Alex olhou para o outro lado do corredor, para Lewis Houghton. Ele estava sentado bem atrs do filho, com os olhos fixos no juiz. Alex teve uma lembrana dele anos atrs abrindo a porta quando ela foi buscar Josie. "L vem a juza", dissera ele, e rira da prpria piada. -- Vocs eram amigos? -- No -- disse Drew. -- Voc tinha algum problema com ele? Drew hesitou. -- No. -- Voc j teve alguma discusso com ele? -- perguntou Leven. -- Provavelmente j trocamos algumas palavras -- disse Drew. -- Voc j fez piada dele? -- s vezes. Era s brincadeira. -- Voc j o atacou fisicamente? -- Quando ramos mais novos, eu devo ter dado uns empurres nele. Alex olhou para Lewis Houghton. Seus olhos estavam fechados e bem apertados. -- Voc fez isso depois que vocs passaram para o ensino mdio? -- Sim -- admitiu Drew. -- Voc j ameaou o Peter com uma arma? -- No. -- Voc j ameaou matar o Peter? -- No... A gente estava... voc sabe. S sendo criana. -- Obrigada. Ela se sentou e Alex viu Jordan McAfee ficar de p. Ele era um bom advogado, melhor do que ela havia acreditado. Montava um bom show, sussurrando com Peter, colocando a mo no brao do garoto quando ele ficava perturbado, tomando notas das perguntas da promotora e compartilhando-as com seu cliente. Ele estava humanizando

Peter, apesar de a promotoria o estar transformando em um monstro, apesar de a defesa nem ter comeado ainda sua parte. -- Voc no tinha problemas com o Peter -- repetiu McAfee. -- No. -- Mas ele tinha problemas com voc, no tinha? Drew no respondeu. -- Sr. Girard, voc vai ter que responder -- disse o juiz Wagner. -- s vezes -- disse Drew. -- Voc j enfiou o cotovelo no peito do Peter? Drew olhou para o lado. -- Talvez. Sem querer. -- Ah, sim.  sempre fcil esticar um cotovelo quando menos se espera... -- Protesto... McAfee sorriu. -- Na verdade, no foi sem querer, foi, sr. Girard?  mesa da promotoria, Diana Leven levantou a caneta e a deixou cair no cho. O barulho fez Drew olhar para ela, e um msculo se flexionou no maxilar dele. -- A gente s estava brincando -- disse ele. -- Voc j enfiou o Peter em um armrio? -- Talvez. -- S brincando? -- disse McAfee. -- . -- Certo -- disse ele. -- Voc j o derrubou? -- Acho que sim. -- Espere... Vou adivinhar... Brincando, no ? Drew olhou para ele com raiva. -- .

-- Na verdade, voc tem feito esse tipo de coisa como brincadeira com o Peter desde que vocs eram crianas, certo? -- Ns nunca fomos amigos, s isso -- disse Drew. -- Ele no era como a gente. -- Quem  a gente? -- perguntou McAfee. Drew deu de ombros. -- Matt Royston, Josie Cormier, John Eberhard, Courtney Ignatio. Gente assim. Ns andamos juntos durante anos. -- O Peter conhecia todo mundo desse grupo? --  uma escola pequena, claro. -- O Peter conhece Josie Cormier? Na plateia, Alex prendeu a respirao. -- Sim. -- Voc j viu o Peter conversando com a Josie? -- No sei. -- Bom, mais ou menos um ms antes dos disparos, quando vocs estavam todos juntos no refeitrio, o Peter foi falar com a Josie. Voc pode nos contar sobre isso? Alex se inclinou para frente. Ela conseguia sentir olhares nela, quentes como o sol no deserto. Deu-se conta, pela direo, que agora Lewis Houghton estava olhando para ela. -- Eu no sei sobre o que eles estavam conversando. -- Mas voc estava l, certo? -- Estava. -- E a Josie  sua amiga? Ela no andava com o Peter? --  -- disse Drew. -- Ela  uma de ns. -- Voc lembra como terminou essa conversa no refeitrio? -- perguntou McAfee. Drew olhou para o cho.

-- Vou te ajudar, sr. Girard. Terminou com Matt Royston indo para trs de Peter e abaixando a cala dele enquanto ele tentava falar com Josie Cormier.  isso? -- Sim. -- O refeitrio estava lotado de alunos naquele dia, no estava? -- Estava. -- E o Matt no tirou apenas a cala do Peter... Ele tambm tirou a cueca dele, certo? A boca de Drew se retorceu. -- . -- E voc viu tudo isso. -- Vi. McAfee se virou para os jurados. -- Deixe-me adivinhar -- disse ele. -- Brincadeira, certo? O tribunal tinha ficado completamente silencioso. Drew estava olhando intensamente para Diana Leven, implorando subliminarmente para ser tirado do banco das testemunhas, supunha Alex. Ele era a primeira pessoa alm de Peter que tinha sido oferecida como sacrifcio. Jordan McAfee andou at a mesa onde Peter estava sentado e pegou um pedao de papel. -- Voc lembra em que dia o Peter ficou sem cala, sr. Girard? -- No. -- Ento vou lhe mostrar a Prova da Defesa Um. Voc reconhece isso? Ele entregou o pedao de papel para Drew, que o pegou e deu de ombros. -- Este  um e-mail que voc recebeu no dia 3 de fevereiro, dois dias antes de Peter ficar sem cala no refeitrio da Sterling High School. Voc pode nos dizer quem te mandou isso? -- Courtney Ignatio.

-- Era uma carta que havia sido escrita pra ela? -- No -- disse Drew. -- Tinha sido escrita pra Josie. -- Por quem? -- perguntou McAfee. -- Pelo Peter. -- E o que ele dizia? -- Era sobre a Josie. E como ele estava a fim dela. -- Voc quer dizer que era uma carta romntica. -- Acho que sim -- disse Drew. -- O que voc fez com este e-mail? Drew olhou para frente. -- Eu espalhei pra todos os alunos da escola. -- Deixe-me ver se entendi direito -- disse McAfee. -- Voc pegou um recado muito particular, que no pertencia a voc, um pedao de papel com os sentimentos mais profundos e secretos do Peter, e encaminhou para todos os alunos da sua escola? Drew ficou em silncio. Jordan McAfee bateu o e-mail na barra  frente dele. -- E ento, Drew? -- disse ele. -- Foi uma brincadeira boa? Drew Girard estava suando tanto que no conseguia acreditar que todas aquelas pessoas no estavam apontando para ele. Conseguia sentir o suor escorrendo nas costas e umedecendo a camisa debaixo dos braos. E por que no? Aquela vadia da promotora o tinha deixado com a batata quente na mo. Deixara que fosse destroado pelo veado do advogado de defesa, de forma que agora, pelo resto da vida, todo mundo pensaria que ele era um babaca, quando -- como todos os outros alunos da Sterling High -- ele s estava se divertindo um pouco.

Ele ficou de p, pronto para sair correndo do tribunal, provavelmente at o limite municipal de Sterling, mas Diana Leven estava andando na direo dele. -- Sr. Girard -- disse ela -- , eu ainda no terminei. Ele afundou no assento, desanimado. -- Voc j xingou outras pessoas alm de Peter Houghton? -- Sim -- ele respondeu com cautela. --  o que os rapazes fazem, no ? -- s vezes. -- Alguma pessoa que voc xingou j atirou em voc? -- No. -- Voc j viu outra pessoa alm de Peter Houghton ficar sem cala na escola? -- Claro -- disse Drew. -- Algum desses outros garotos que ficaram sem cala j atirou em voc? -- No. -- Voc j espalhou e-mails de mais algum de brincadeira? -- Uma vez ou outra. Diana cruzou os braos. -- Alguma dessas pessoas j atirou em voc? -- No, senhora -- disse ele. Ela voltou para sua cadeira. -- Isso  tudo. Dusty Spears entendia garotos como Drew Girard porque j tinha sido assim. Na opinio dele, valentes eram bons o bastante para conseguir bolsas de estudos como jogadores de futebol americano em faculdades que pertenciam ao Big Ten, onde podiam fazer contatos para jogar em pistas de

golfe pelo resto da vida, ou estouravam o joelho e acabavam dando aula de educao fsica no ensino mdio. Ele estava usando camisa social e gravata, e isso o irritava, porque seu pescoo ainda tinha a mesma aparncia de quando ele jogava no ataque no time de futebol americano de Sterling em 1988, mesmo que a barriga no. -- O Peter no era um atleta -- disse ele  promotora. -- Nunca o vi fora da aula. -- O senhor j viu outros garotos implicando com o Peter? Dusty deu de ombros. -- As coisas comuns de vestirio, eu acho. -- O senhor intervinha? -- Devo ter mandado os garotos pararem. Mas isso faz parte do crescimento, certo? -- O senhor j ouviu falar que o Peter ameaava algum? -- Protesto -- disse Jordan McAfee. --  uma pergunta hipottica. -- Aceito -- respondeu o juiz. -- Se o senhor tivesse ouvido isso, teria interferido? -- Protesto! -- Aceito. De novo. A promotora nem hesitou. -- Mas o Peter no pedia ajuda, pedia? -- No. Ela voltou a se sentar, e o advogado de Houghton ficou de p. Ele era um desses caras bajuladores que irritavam Dusty. Devia ter sido um garoto que mal conseguia lanar uma bola, mas dava um sorrisinho de deboche quando voc tentava ensinar, como se j soubesse que ganharia o dobro do salrio de Dusty um dia. -- Existe uma diretriz antibullying na Sterling High? -- No permitimos que haja bullying.

-- Ah -- disse McAfee secamente. -- Bom, isso  reconfortante. Ento vamos dizer que o senhor testemunhe bullying quase diariamente em um vestirio, bem debaixo do seu nariz... De acordo com a diretriz, o que o senhor deve fazer? Dusty olhou fixamente para ele. -- Est na diretriz. Obviamente, no a tenho aqui na minha frente. -- Por sorte, eu tenho -- disse McAfee. -- E vou lhe mostrar o que est marcado como Prova da Defesa Dois. Esta  a diretriz contra bullying da Sterling High School? Dusty esticou a mo e deu uma olhada na pgina impressa. -- Sim. -- O senhor recebe isso junto com o manual do professor todos os anos em agosto, certo? -- Sim. -- E essa  a verso mais recente, do ano acadmico de 2006-2007? -- Suponho que sim -- disse Dusty. -- Sr. Spears, quero que o senhor observe essa diretriz cuidadosamente, todas as duas pginas, e me mostre onde diz o que fazer se o senhor, como professor, testemunhar bullying. Dusty suspirou e comeou a passar os olhos pelos papis. Normalmente, quando recebia o manual, ele o enfiava em uma gaveta com os menus de restaurante. Sabia as coisas importantes: no faltar em dia de treinamento, mandar mudanas no currculo para o chefe de departamento, no ficar sozinho em uma sala com uma aluna. -- Diz bem aqui -- disse ele, lendo -- que o Comit Escolar de Sterling se compromete a oferecer um ambiente de aprendizado e trabalho que garanta segurana pessoal a seus membros. Ameaas fsicas ou verbais, assdio, trotes, bullying, agresso verbal e intimidao no sero tolerados. -- Dusty ergueu o olhar e disse: -- Isso responde  sua pergunta?

-- No, na verdade no responde. O que o senhor, como professor, deve fazer se um aluno comete bullying contra outro aluno? Dusty continuou lendo. Havia a definio de trote, de bullying, de agresso verbal. Havia a meno de relato a um professor ou funcionrio da escola se o comportamento fosse observado por outro aluno. Mas no havia regras nem uma sequncia de eventos a ser executada pelo professor ou funcionrio. -- No estou encontrando aqui -- disse ele. -- Obrigado, sr. Spears -- respondeu McAfee. -- Isso  tudo. Teria sido simples para Jordan McAfee anunciar sua inteno de chamar Derek Markowitz para testemunhar, pois ele era uma das poucas testemunhas de carter que Peter Houghton tinha em termos de amigos. Mas Diana sabia que ele tinha valor para a promotoria por causa do que tinha visto e ouvido, no por causa de sua lealdade. Ela j testemunhara vrios amigos delatarem uns aos outros ao longo dos anos em que estava nessa rea. -- Ento, Derek -- disse Diana, tentando deix-lo  vontade --, voc era amigo do Peter. Ela o viu trocar um olhar com Peter e tentar sorrir. -- Sim. -- Vocs dois andavam juntos depois da escola, s vezes? -- Sim. -- Que tipo de coisas vocs gostavam de fazer? -- Ns dois gostvamos muito de computador. s vezes a gente jogava videogame, e depois comeamos a aprender programao pra poder criar os nossos jogos. -- O Peter alguma vez criou um jogo sem voc? -- perguntou Diana. -- Claro. -- O que acontecia quando ele terminava?

-- A gente jogava. Mas tambm tem sites onde voc pode postar seu jogo e outras pessoas avaliam pra voc. Derek ergueu o olhar naquele momento e reparou nas cmeras de TV no fundo da sala. Seu queixo caiu e ele ficou paralisado. -- Derek -- disse Diana. -- Derek? -- Ela esperou que ele se concentrasse nela. -- Vou entregar a voc um CD-ROM. Est marcado como Prova do Estado 302. Voc pode me dizer o que ? --  o jogo mais recente do Peter. -- Como se chama? -- Hide-n-Shriek. --  sobre o qu? --  um daqueles jogos em que voc sai atirando nos bandidos. -- Quem so os bandidos nesse jogo? -- perguntou Diana. Derek olhou para Peter de novo. -- Os atletas. -- Onde esse jogo acontece? -- Em uma escola -- disse Derek. Com o canto do olho, Diana conseguiu ver Jordan se mexendo na cadeira. -- Derek, voc estava na escola na manh de 6 de maro de 2007? -- Estava. -- Qual era sua aula no primeiro tempo? -- Trigonometria avanada. -- E no segundo? -- perguntou Diana. -- Ingls. -- Pra onde voc foi depois? -- Eu tinha educao fsica no terceiro tempo, mas minha asma estava atacada, ento eu tinha atestado mdico pra no ir  aula. Como terminei

meu trabalho de ingls mais cedo, pedi pra sra. Eccles me deixar ir at o carro buscar o atestado. Diana assentiu. -- Onde o seu carro estava estacionado? -- No estacionamento dos alunos, atrs da escola. -- Voc pode me mostrar neste diagrama que porta voc usou para sair da escola no final do segundo tempo? Derek esticou a mo e apontou para uma das portas dos fundos da escola. -- O que voc viu quando saiu? -- Humm... um monte de carros. -- Alguma pessoa? -- Sim -- disse Derek. -- O Peter. Parecia que ele estava pegando uma coisa no banco de trs do carro dele. -- O que voc fez? -- Fui at l pra dizer "oi". Perguntei por que ele estava atrasado pra aula, e ele ficou de p e me olhou de um jeito estranho. -- Estranho? O que voc quer dizer? Derek balanou a cabea. -- No sei. Como se no soubesse quem eu era por um segundo. -- Ele disse alguma coisa pra voc? -- Ele disse: "Vai pra casa. Vai acontecer uma coisa". -- Voc achou estranho? -- Bom, era meio Alm da imaginao ... -- O Peter j tinha dito alguma coisa assim pra voc antes? -- J -- disse Derek baixinho. -- Quando? Jordan protestou, como Diana esperava, e o juiz Wagner recusou, como ela desejava.

-- Algumas semanas antes -- disse Derek -- , na primeira vez em que jogamos Hide-n-Shriek. -- O que ele disse? Derek olhou para baixo e murmurou uma resposta. -- Derek -- disse Diana, se aproximando. -- Tenho que pedir que fale mais alto. -- Ele disse: "Quando isso acontecer de verdade, vai ser incrvel". Um murmrio surgiu na plateia, como um enxame de abelhas. -- Voc sabia o que ele queria dizer com isso? -- Eu pensei... eu pensei que ele estava brincando -- disse Derek. -- No dia do tiroteio, quando voc encontrou o Peter no estacionamento, voc viu o que ele estava fazendo no carro? -- No... -- Derek se interrompeu e limpou a garganta. -- Eu s ri do que ele disse e falei que tinha que voltar pra aula. -- O que aconteceu depois? -- Eu voltei pra escola pela mesma porta e fui at a secretaria pra sra. Whyte, a secretria, assinar minha dispensa da educao fsica. Ela estava falando com outra garota, que estava assinando a sada pra uma consulta no ortodontista. -- E depois? -- perguntou Diana. -- Quando ela saiu, a sra. Whyte e eu ouvimos uma exploso. -- Voc viu de onde veio? -- No. -- O que aconteceu depois? -- Eu olhei pra tela do computador na mesa da sra. Whyte -- disse Derek. -- Estava passando tipo uma mensagem. -- O que dizia?

-- Prontos ou no... a vou eu . -- Derek engoliu em seco. -- Ns ouvimos uns pequenos estouros, como um monte de garrafas de champanhe, e a sra. Whyte me pegou e me levou pra sala do diretor. -- Tinha um computador na sala dele? -- Sim. -- O que havia na tela? -- Prontos ou no... a vou eu . -- Quanto tempo voc ficou na sala do diretor? -- No sei. Dez, vinte minutos. A sra. Whyte tentou ligar pra polcia, mas no conseguiu. Tinha algum problema no telefone. Diana se virou para o juiz. -- Meritssimo, neste momento, a promotoria gostaria de exibir a Prova do Estado 303 por completo, e pedimos que seja mostrada para o jri. Ela observou enquanto um policial entrava com um carrinho com um monitor de TV e um computador ligado nele, para que o CD-ROM pudesse ser inserido. HIDE-N-SHRIEK, exibia a tela. ESCOLHA SUA PRIMEIRA ARMA! Um garoto em 3D usando culos com armao escura e camisa polo cruzou a tela e olhou para uma variedade de arcos, Uzis, AK-47s e armas biolgicas. Ele pegou uma arma e, com a outra mo, a munio. Houve um close do rosto dele: sardas, aparelho nos dentes, olhar febril. Em seguida, a tela ficou azul e comeou a rolar. "Prontos ou no", dizia, "a vou eu." Derek gostava do sr. McAfee. Ele no tinha um visual muito bom de se olhar, mas a mulher dele era a maior gata. Alm do mais, provavelmente ele era a nica outra pessoa de Sterling que no era parente de Peter, mas ainda assim sentia pena dele. -- Derek -- disse o advogado -- , voc  amigo do Peter desde o sexto ano, certo?

-- Sim. -- Voc passava bastante tempo com ele, tanto dentro quanto fora da escola. -- . -- Voc j viu o Peter sofrer implicncia de outros garotos? -- O tempo todo -- disse Derek. -- Eles chamavam a gente de veado e bichinha. Puxavam nossa cueca. Quando andvamos pelos corredores, eles nos derrubavam ou nos empurravam nos armrios. Coisas assim. -- Voc j falou com algum professor sobre isso? -- Eu falava, mas s piorava as coisas. Eu era atacado por ser delator. -- Voc e o Peter j conversaram sobre sofrer implicncias? Derek balanou a cabea. -- No. Era legal ter algum por perto que entendia, sabe? -- Com que frequncia isso acontecia? Uma vez por semana? Ele riu com deboche. -- Estava mais pra uma vez por dia. -- S voc e o Peter? -- No, tem outros. -- Quem fazia a maior parte do bullying? -- Os atletas -- disse Derek. -- Matt Royston, Drew Girard, John Eberhard... -- Alguma garota participava do bullying? -- Sim, as que nos olhavam como se fssemos insetos no para-brisa -- disse Derek. -- Courtney Ignatio, Emma Alexis, Josie Cormier, Maddie Shaw. -- O que voc faz quando algum te empurra contra um armrio? -- perguntou o sr. McAfee. -- No d pra reagir, porque voc no  to forte quanto eles e no consegue impedir... Ento voc meio que espera acabar.

-- outras?

Seria justo dizer que o grupo que voc citou, Matt, Drew,

Courtney, Emma e o resto, implicava com uma pessoa mais do que com as -- Sim -- disse Derek. -- Com o Peter. Derek viu o advogado de Peter se sentar ao lado dele, e a advogada se levantou e voltou a falar. -- Derek, voc disse que tambm sofria bullying. -- . -- Voc nunca ajudou o Peter a montar uma bomba pra explodir o carro de algum, ajudou? -- No. -- Voc nunca ajudou o Peter a invadir as linhas telefnicas e os computadores da Sterling High, para que, quando o tiroteio comeasse, ningum conseguisse pedir socorro, ajudou? -- No -- disse Derek. -- Voc nunca roubou uma arma e guardou no seu quarto, roubou? -- No. A promotora se aproximou mais um passo. -- Voc nunca elaborou um plano, como o Peter, de percorrer a escola matando sistematicamente as pessoas que mais o tinham magoado, elaborou, Derek? Derek se virou para Peter, para que pudesse olhar bem nos olhos dele quando respondesse. -- No -- disse ele. -- Mas s vezes eu queria ter feito isso. De tempos em tempos, ao longo de sua carreira como parteira, Lacy encontrava uma ex-paciente no mercado, no banco ou na ciclovia. Elas apresentavam seus bebs, com trs, sete, quin ze anos. "Olha que timo trabalho voc fez", s vezes diziam, como se trazer uma criana ao mundo tivesse alguma coisa a ver com quem ela se tornava.

Lacy no sabia o que sentir quando encarou Josie Cormier. Elas passaram o dia jogando forca, ironia que no passou despercebida para ela, considerando o destino do filho. Lacy conhecera Josie como recm-nascida, mas tambm como garotinha e amiguinha de Peter. Por causa disso, houve um momento em que ela visceralmente odiou Josie de uma forma que nem Peter parecia odiar, por ser cruel o bastante a ponto de deixar seu filho para trs. Josie podia no ter iniciado as provocaes que Peter sofrera ao longo do ensino fundamental e mdio, mas tambm no intervinha, e, para Lacy, isso a tornava igualmente responsvel. Mas a verdade era que Josie Cormier tinha crescido e se tornado uma jovem linda, quieta e pensativa, nada parecida com as garotas vazias e materialistas que andavam pelo shopping de New Hampshire ou formavam a elite social da Sterling High -- garotas que Lacy sempre comparava a vivas-negras, em busca de algum que pudessem destruir. Lacy ficou surpresa quando Josie fez vrias perguntas educadas sobre Peter: Ele estava nervoso com o julgamento? Era difcil estar na cadeia? Implicavam com ele l? "Voc devia mandar uma carta pra ele", sugeriu Lacy. "Tenho certeza que ele ia gostar de ter notcias suas." Mas ela afastou o olhar, e foi nessa hora que Lacy se deu conta de que Josie no estava realmente interessada em Peter, s estava tentando ser gentil com ela. Quando o tribunal entrou em recesso at o dia seguinte, as testemunhas foram liberadas para irem para casa, desde que no vissem o noticirio, nem lessem os jornais, nem conversassem sobre o caso. Lacy pediu licena para ir ao banheiro enquanto esperava Lewis, que lutava contra a multido de reprteres que lotava o saguo do lado de fora do tribunal. Ela tinha acabado de sair da cabine e estava lavando as mos quando Alex Cormier entrou.

A barulheira do corredor entrou atrs dela, depois foi interrompida abruptamente quando a porta se fechou. Seus olhares se encontraram no longo espelho acima da fileira de pias. -- Lacy -- murmurou Alex. Lacy se empertigou e pegou uma toalha de papel para secar as mos. Ela no sabia o que dizer para Alex Cormier. Mal conseguia imaginar que em algum momento tivera alguma coisa a dizer para ela. Havia uma planta no consultrio de Lacy que estava morrendo aos poucos, at que a secretria retirou uma pilha de livros que estava bloqueando a passagem de luz pela janela. Mas ela se esqueceu de mudar a planta de lugar, e metade dos galhos comeou a se direcionar para a luz, crescendo em uma direo lateral improvvel que parecia desafiar a gravidade. Lacy e Alex eram como essa planta: Alex tinha seguido um caminho diferente, e Lacy... bem, ela no. Ela murchara, definhara, ficara enrolada em suas melhores intenes. -- Sinto muito -- disse Alex. -- Sinto muito que voc tenha que passar por isso. -- Eu tambm sinto muito -- respondeu Lacy. Parecia que Alex ia falar de novo, mas no falou, e Lacy no tinha mais o que dizer. Ela ia saindo do banheiro para procurar Lewis, mas Alex a chamou de volta. -- Lacy -- disse ela. -- Eu lembro. Lacy se virou para olhar para ela. -- Ele gostava do creme de amendoim na metade de cima do po e de marshmallow na parte de baixo. -- Alex sorriu um pouco. -- E tinha os clios mais longos que j vi em um garotinho. Ele conseguia encontrar qualquer coisa que eu deixasse cair, um brinco, uma lente de contato, um alfinete, antes que ficasse perdido para sempre. Ela deu um passo na direo de Lacy.

-- Uma coisa ainda existe desde que haja algum pra lembrar, certo? Lacy olhou para ela em meio s lgrimas. -- Obrigada -- sussurrou, e saiu antes de desmoronar completamente diante de uma mulher -- uma estranha, na verdade -- que podia fazer o que Lacy no podia: agarrar-se ao passado como se ele fosse uma coisa a ser valorizada, em vez de vasculh-lo em busca de pistas do fracasso. -- Josie -- disse sua me quando elas estavam indo de carro para casa. -- Leram um e-mail hoje no tribunal. Um que Peter escreveu pra voc. Josie olhou para ela chocada. Devia ter se dado conta de que isso seria mencionado no julgamento. Como fora to burra? -- Eu no sabia que a Courtney tinha encaminhado o e-mail. S vi quando todo mundo viu. -- Deve ter sido constrangedor -- disse Alex. -- Bom, foi. A escola toda ficou sabendo que ele estava a fim de mim. A me olhou para ela. -- Eu quis dizer para o Peter. Josie pensou em Lacy Houghton. Dez anos tinham se passado, mas Josie ainda se surpreendera com quanto a me de Peter tinha emagrecido, quanto seu cabelo estava quase todo grisalho. Perguntou-se se o sofrimento podia fazer o tempo correr mais rpido, como um relgio com defeito. Era incrivelmente deprimente, pois Josie se lembrava da me de Peter como uma pessoa que nunca usava relgio de pulso, uma pessoa que no se importava com a baguna se o resultado final valesse a pena. Quando Josie era pequena e eles brincavam na casa de Peter, Lacy fazia biscoitos com o que tinha no armrio: aveia, germe de trigo, jujuba e marshmallow; alfarroba, amido de milho e flocos de arroz. Uma vez, ela derramou um

monte de areia no poro durante o inverno para que eles pudessem fazer castelos. Ela deixava que eles desenhassem no po do sanduche com corante alimentcio e leite, de forma que todo almoo era uma obra de arte. Josie gostava de ir  casa de Peter; era como sempre imaginara umafamlia. Agora, ela olhou pela janela. -- Voc acha que tudo isso  culpa minha, no acha? -- No... -- Foi isso que os advogados disseram hoje? Que o tiroteio aconteceu porque eu no gostava do Peter... do jeito que ele gostava de mim? -- No. Os advogados no disseram nada disso. De modo geral, a defesa falou sobre quanto implicavam com o Peter. Que ele no tinha muitos amigos. -- Alex parou no sinal vermelho e se virou, com o pulso apoiado de leve no volante. -- Por que voc parou de andar com o Peter, afinal? No ser popular era uma doena contagiosa. Josie conseguia se lembrar de Peter no ensino fundamental, transformando o papel-alumnio do sanduche do almoo em um capacete com antenas e usando-o no playground para tentar captar transmisses de rdio aliengenas. Ele no percebia que as pessoas zombavam dele. Nunca percebeu. Ela teve uma lembrana repentina dele de p no refeitrio, uma esttua com as mos tentando cobrir a virilha, a cala cada nos tornozelos. Lembrou-se do comentrio de Matt depois: "Os objetos no espelho so bem menores do que parecem". Talvez Peter finalmente tivesse entendido o que as pessoas pensavam dele. -- Eu no queria ser tratada como ele -- disse Josie, respondendo  me, quando o que realmente queria dizer era: No fui corajosa o suficiente . Voltar para a cadeia era como um retrocesso. Voc tinha de renunciar aos paramentos da humanidade -- sapatos, terno e gravata -- e se inclinar

para ser revistado, cutucado por um dos guardas usando uma luva de borracha. Recebia outro macaco da priso e chinelos largos demais para seus ps, para ficar com a mesma aparncia de todo mundo de novo e no poder fingir para si mesmo que era melhor do que eles. Peter se deitou na cama com o brao sobre os olhos. O detento ao seu lado, um cara esperando julgamento pelo estupro de uma mulher de sessenta e seis anos, perguntou como tinha sido no tribunal, mas ele no respondeu. Era praticamente a nica liberdade que ele ainda tinha, e queria guardar a verdade para si mesmo: que, quando foi colocado na cela, ele ficou aliviado por ter voltado (ser que conseguia dizer isso?) para casa. Ali, ningum ficava o encarando como se ele fosse um organismo que cresceu em uma placa de Petri. Ningum olhava para ele. Ali, ningum falava sobre ele como se fosse um animal. Ali, ningum o culpava, porque todos estavam no mesmo barco. A priso no era to diferente da escola pblica, na verdade. Os agentes penitencirios eram como os professores: seu trabalho era manter todo mundo no lugar, alimentar todo mundo e se certificar de que ningum se ferisse seriamente. Fora isso, voc estava por sua conta. E, como a escola, a cadeia era uma sociedade artificial, com sua prpria hierarquia e suas prprias regras. Se voc fizesse algum trabalho, ele era sem sentido -- limpar os banheiros todas as manhs ou empurrar um carrinho de biblioteca na rea de segurana mnima no era to diferente de escrever uma redao sobre a definio decivitas ou decorar nmeros primos --, pois voc no os usaria na vida real. E, como na escola, o nico jeito de passar pela cadeia era perseverar e cumprir seu tempo. Sem contar que Peter tambm no era popular na cadeia. Ele pensou nas testemunhas que Diana Leven acompanhara, arrastara ou empurrara em uma cadeira de rodas at o banco. Jordan tinha explicado que era uma questo de solidariedade, que a promotoria queria apresentar

todas aquelas vidas arruinadas antes de se virar para as evidncias, e que ele logo teria a chance de mostrar como a vida de Peter tambm tinha sido arruinada. Peter nem ligava para isso. Tinha ficado mais impressionado, depois de ver todos aqueles alunos de novo, com quo pouco as coisas tinham mudado. Peter olhou para as molas da cama de cima do beliche, piscando rpido. Em seguida, se virou para a parede e enfiou o canto do travesseiro na boca, para que ningum o ouvisse chorar. Apesar de John Eberhard no poder mais cham-lo de veado, muito menos falar... Apesar de Drew Girard nunca mais poder ser o atleta que era... Apesar de Haley Weaver no ser mais linda... Todos ainda eram parte de um grupo do qual Peter no podia participar. Alis, jamais poderia.

6h30 da manha do dia fatidico

P
olhos de

eter. Peter?! Ele rolou de lado e viu o pai de p na porta do quarto.

-- Est acordado? Ele parecia acordado? Peter resmungou e deitou de costas. Fechou os novo por um momento e avaliou o dia. Inglsfrancsmatemticahistriaqumica . Uma frase longa e sobreposta, uma aula sangrando at a seguinte. Ele se sentou e passou as mos pelo cabelo, que ficou em p. No andar de baixo, conseguia ouvir o pai guardando a loua e as panelas, como uma sinfonia techno. Ele pegaria sua caneca trmica, colocaria caf e deixaria Peter se virar sozinho. As pernas da cala do pijama de Peter se arrastaram para debaixo dos calcanhares quando ele andou da cama at a escrivaninha e se sentou. Entrou na internet porque queria ver se algum tinha dado mais feedback sobre Hide-n-Shriek. Se fosse to bom quanto ele achava que era, ele pensava em inscrev-lo em alguma competio amadora. Havia garotos como ele no pas todo, no mundo todo, dispostos a pagar facilmente 39,99 dlares para se divertir com um jogo em que a histria era reescrita pelos fracassados. Peter imaginava quanto poderia ficar rico com os direitos

autorais. Talvez pudesse escapar da faculdade, como Bill Gates. Talvez um dia as pessoas ligassem para ele fingindo que antes eram seus amigos. Ele apertou os olhos e pegou os culos, que deixava ao lado do teclado. Mas, como eram apenas 6h30 da manh, quando ningum deveria precisar ter muita coordenao motora, deixou o estojo dos culos cair sobre as teclas. A tela de login na internet foi minimizada e os contedos da lixeira se abriram na tela.

Sei que voc no pensa em mim. E com certeza jamais nos imaginaria juntos.

Peter sentiu a cabea comear a girar. Apertou Delete, mas nada aconteceu.

Enfim, sozinho eu no sou nada de mais. Mas, com voc, acho que eu poderia ser especial.

Ele tentou reiniciar o computador, mas a mquina tinha travado. Peter no conseguia respirar, no conseguia se mover. No conseguia fazer nada alm de olhar para a prpria burrice, bem ali, em preto e branco. Seu peito doa, e ele pensou que talvez estivesse tendo um ataque cardaco, ou talvez fosse essa a sensao de quando um msculo virava

pedra. Com movimentos caticos, Peter se inclinou em direo ao fio do computador, mas bateu a cabea na lateral da escrivaninha. Isso o fez ficar com lgrimas nos olhos, ou pelo menos foi o que ele disse a si mesmo. Puxou o fio da tomada e o monitor ficou preto. Voltou a se sentar e se deu conta de que no havia feito diferena. Ainda conseguia ver aquelas palavras, claras como o dia, escritas na tela. Conseguia sentir as teclas cedendo sobre seus dedos. Com amor, Peter. Conseguia ouvir todo mundo rindo. Peter olhou para o computador de novo. Sua me sempre dizia que, se uma coisa ruim acontecesse, voc podia encar-la como um fracasso ou como uma chance de seguir em outra direo. Talvez fosse um sinal. A respirao de Peter estava rasa quando ele tirou da mochila os livros e fichrios, a calculadora, os lpis e os testes amassados que tinha recebido de volta. Enfiou a mo debaixo do colcho e tateou as duas pistolas que guardava para uma necessidade.

Quando eu era criana, jogava sal em lesmas. Eu gostava de

v-las se dissolver. A crueldade  sempre meio divertida at voc se dar conta de que alguma coisa est sofrendo. Seria uma coisa ser um fracasso se significasse que ningum prestaria ateno em voc, mas na escola isso significa que as pessoas buscam voc o tempo todo. Voc  a lesma, e eles esto com o sal. E ainda no desenvolveram conscincia. Tem uma palavra que aprendemos em estudos sociais: Schadenfreude.  quando voc gosta de ver outra pessoa sofrer. Mas a verdadeira questo : por qu? Acho que em parte  por autopreservao. E em parte  porque um grupo sempre se sente mais como um grupo quando se une contra um inimigo. No importa se esse inimigo nunca fez nada contra voc. Voc tem que fingir que odeia algum ainda mais do que se odeia. Sabe por que o sal funciona nas lesmas? Porque ele se dissolve na gua que compe a pele da lesma, e a gua dentro do corpo dela comea a vazar. A lesma desidrata. Tambm funciona com caracis. E com sanguessugas. E com pessoas como eu. Na verdade, funciona com qualquer criatura que tenha a pele fina demais para ficar de p por conta prpria.

Cinco meses depois
rdio enquanto ele estava dirigindo; o fluxo de alunos correndo para fora da escola, como se fosse uma hemorragia; os sapatos escorregando em uma poa oleosa de sangue enquanto ele corria pelos corredores. O teto caindo ao redor dele. Os gritos de socorro. As lembranas que estavam impressas em sua mente, mas que s foram registradas depois: um garoto morrendo nos braos do amigo debaixo da cesta de basquete do ginsio; os dezesseis alunos encontrados enfiados no armrio do zelador trs horas depois da priso porque no sabiam que a ameaa tinha terminado; o cheiro de alcauz das canetas permanentes usadas para escrever os nmeros na testa dos feridos, para que pudessem ser identificados depois. Naquela primeira noite, quando as nicas pessoas que ficaram na escola foram os tcnicos criminais, Patrick andou pelas salas de aula e pelos corredores. s vezes se sentia como o guardio de lembranas, a pessoa que tinha de facilitar a transio invisvel entre o modo como as coisas eram e como seriam dali em diante. Ele passara por cima de manchas de sangue para entrar em salas onde alunos estiveram escondidos com professores, esperando para ser resgatados, com os casacos ainda sobre as cadeiras, como se estivessem prestes a voltar a qualquer momento. Havia buracos de bala nos armrios; por outro lado, na biblioteca, um aluno tivera tempo e disposio para arrumar bonecos de Gumby e Pokey da bibliotecria em uma posio comprometedora. Os sprinklers transformaram um corredor

D

urante quatro horas no banco das testemunhas, Patrick reviveu o pior dia da sua vida. O sinal que chegara pelo

em mar, mas as paredes ainda estavam tomadas de psteres vibrantes anunciando o baile da primavera. Diana Leven ergueu uma fita de vdeo, a Prova do Estado nmero 522. -- Consegue identificar isto, detetive? -- Sim, peguei na secretaria da Sterling High. Tinha a filmagem de uma cmera localizada no refeitrio no dia 6 de maro de 2007. -- H uma representao precisa nesta fita? -- Sim. -- Quando foi a ltima vez em que o senhor a assistiu? -- No dia anterior ao incio deste julgamento. -- Ela sofreu alguma alterao? -- No. Diana caminhou at o juiz. -- Peo que esta fita seja exibida para o jri -- disse ela, e a mesma televiso do comeo do julgamento foi levada em um carrinho por um policial. A gravao estava granulada, mas ainda inteligvel. No canto superior direito estavam as merendeiras, colocando comida em bandejas de plstico conforme os alunos seguiam a fila um a um, como gotas em um tubo intravenoso. Havia mesas cheias de alunos. O olhar de Patrick gravitou para uma mesa central, onde Josie estava sentada com o namorado. Ele estava comendo as batatas fritas dela.

Pela porta da esquerda entrou um garoto. Ele estava com uma mochila azul, e, apesar de no dar para ver o seu rosto, tinha o mesmo corpo franzino e os ombros cados que algum que conhecia Peter Houghton reconheceria. Ele saiu do ngulo da cmera. Um tiro soou, e uma garota caiu para trs em uma das cadeiras do refeitrio, com uma mancha de sangue crescendo na camisa branca. Algum gritou, e de repente todos tambm estavam gritando, e houve mais disparos. Peter reapareceu na imagem segurando uma arma. Alunos saram correndo e comearam a se esconder debaixo das mesas. Alguns caram onde foram atingidos; outros, feridos, tentaram rastejar para longe. Uma garota que tinha cado foi pisoteada pelo resto dos alunos e ficou ali, imvel. Quando as nicas pessoas que sobraram no refeitrio estavam mortas ou feridas, Peter se virou. Desceu por um corredor, fazendo uma pausa aqui e ali. Andou at a mesa ao lado da de Josie e colocou a arma sobre ela. Abriu uma caixa fechada ainda na bandeja do refeitrio, colocou o cereal em uma tigela de plstico e acrescentou leite de uma caixinha. Comeu cinco colheradas e parou, pegou um pente de balas na mochila, colocou-o na arma e saiu do refeitrio. Diana colocou a mo debaixo da mesa da promotoria, pegou um pequeno saco plstico e o entregou para Patrick. -- O senhor reconhece isto, detetive Ducharme? A caixa de cereal Rice Krispies. -- Sim. -- Onde o senhor a encontrou? -- No refeitrio -- disse ele. -- Na mesma mesa que a senhora viu no vdeo agora mesmo.

Patrick se permitiu olhar para Alex, sentada na plateia. At aquele momento, no tinha conseguido, pois achava que no seria capaz de fazer bem seu trabalho se estivesse preocupado com a forma como as informaes e o nvel de detalhes a estavam afetando. Agora, ao olhar para ela, conseguiu ver o quanto tinha ficado plida, o quanto estava tensa na cadeira. Foi preciso ter muito autocontrole para no se afastar de Diana, pular a divisria e se ajoelhar ao lado dela. "Est tudo bem", ele queria dizer. "Est quase acabando." -- Detetive -- disse Diana --, quando o senhor encurralou o ru no vestirio, o que ele estava segurando? -- Uma pistola. -- O senhor viu alguma outra arma perto dele? -- Sim, uma segunda pistola, a cerca de trs metros dele. Diana ergueu uma foto ampliada. -- O senhor reconhece isso? --  o vestirio onde Peter Houghton foi apreendido. -- Ele apontou para uma arma no cho perto dos armrios e para outra prximo dali. -- Essa  a arma que ele soltou no cho, a Arma A -- disse Patrick --, e essa  a Arma B, a que j estava no cho. Trs metros depois, no mesmo caminho linear, estava o corpo de Matt Royston. Uma grande poa de sangue se espalhava debaixo do quadril, e a metade de cima da cabea tinha sumido. Houve gritos sufocados dos jurados, mas Patrick no estava prestando ateno. Estava encarando Alex, que no estava olhando para o corpo de

Matt, mas para um ponto ao lado -- uma mancha de sangue da testa de Josie, onde ela tinha sido encontrada. A vida era uma sequncia de "se", com resultados diferentes se voc tivesse jogado na loteria ontem  noite, se tivesse escolhido uma faculdade diferente, se tivesse investido em aes em vez de ttulos, se no estivesse levando seu filho para o primeiro dia no jardim de infncia na manh de 11 de Setembro. Se um professor tivesse impedido outro garoto, apenas uma vez, de atormentar Peter no corredor. Se Peter tivesse colocado a arma na prpria boca em vez de t-la apontado para outra pessoa. Se Josie estivesse de p na frente de Matt, talvez fosse ela quem estivesse enterrada no cemitrio. Se Patrick tivesse chegado um segundo depois, ela talvez tivesse levado um tiro. Se ele no fosse o detetive nesse caso, no teria conhecido Alex. -- Detetive, o senhor recolheu essas armas? -- Sim. -- Elas foram testadas em busca de digitais? -- Sim, pelo laboratrio criminal do estado. -- O laboratrio encontrou alguma digital vlida na Arma A? -- Sim, uma, na empunhadura. -- Onde obtiveram digitais de Peter Houghton? -- Na delegacia, quando o registramos. Ele guiou o jri pelo processo da testagem de digitais: a comparao de dez pontos, a similaridade nos sulcos e espirais, o programa de computador que sobrepunha as digitais e encontrava a correspondncia.

-- O laboratrio comparou a digital na Arma A com as digitais de qualquer outra pessoa? -- perguntou Diana. -- Sim, de Matt Royston. Foram obtidas do corpo dele. -- Quando o laboratrio obteve a digital na empunhadura da arma e a comparou com as digitais de Matt Royston, os tcnicos conseguiram determinar se eram compatveis ou no? -- No eram compatveis. -- E quando o laboratrio a comparou com as digitais de Peter Houghton, os tcnicos conseguiram identificar se eram compatveis ou no? -- Sim -- disse Patrick. -- Eram. Diana assentiu. -- E na Arma B? Alguma digital? -- S uma parcial, no gatilho. Nada de valor. -- O que isso significa exatamente? Patrick se virou para os jurados. -- Para uma impresso ser vlida na identificao de digitais, ela tem que poder ser comparada com outra digital conhecida e ser excluda ou includa como compatvel com essa impresso. As pessoas deixam digitais em objetos que pegam o tempo todo, mas no necessariamente registros que podemos usar. Elas podem estar borradas ou incompletas demais para ser consideradas judicialmente vlidas.

-- Ento, detetive, o senhor no sabe quem deixou a digital na Arma B. -- No. -- Mas pode ter sido Peter Houghton? -- Sim. -- O senhor tem alguma prova de que qualquer outra pessoa na Sterling High School estivesse com uma arma naquele dia? -- No. -- Quantas armas foram encontradas no vestirio? -- Quatro -- disse Patrick. -- Uma pistola com o ru, uma no cho e duas espingardas serradas em uma mochila. -- Alm de analisar as armas encontradas no vestirio em busca de digitais, o laboratrio fez outros testes forenses nelas? -- Sim, um teste de balstica. -- O senhor pode explicar? -- Bem -- disse Patrick --, basicamente, voc atira com a arma na gua. Cada bala que sai de uma arma tem marcas que so feitas quando ela gira pelo cano. Isso significa que o teste permite que se relacione cada bala a uma arma, e assim podemos ver como seria uma bala disparada por ela e compar-la com as recolhidas no local do crime. Tambm d para saber se uma arma foi disparada pelo exame de resduos no cano. -- As quatro armas foram testadas? -- Sim.

-- E quais foram os resultados dos testes? -- S duas das quatro armas foram disparadas -- disse Patrick. -- As pistolas, Armas A e B. Das balas que encontramos, todas foram determinadas como provenientes da Arma A. A Arma B, quando a recolhemos, estava emperrada com dupla alimentao. Isso significa que duas balas entraram na cmara ao mesmo tempo, o que impede que a arma funcione corretamente. Quando o gatilho foi puxado, ela travou. -- Mas o senhor disse que a Arma B foi disparada. -- Pelo menos uma vez. -- Patrick olhou para Diana. -- A bala no foi recuperada at agora. Diana Leven guiou Patrick meticulosamente por toda a descoberta dos dez alunos mortos e os dezenove feridos. A operao comeou quando o detetive saiu da Sterling High com Josie Cormier nos braos e a colocou em uma ambulncia e terminou com o ltimo corpo sendo levado para o necrotrio. Depois disso, o juiz decretou recesso at o dia seguinte. Ao descer do banco de testemunhas, Patrick conversou com Diana por um momento sobre o que aconteceria no dia seguinte. As portas duplas do tribunal foram abertas, e por elas Patrick conseguia ver os reprteres sugando histrias de qualquer pai zangado disposto a dar entrevista. Ele reconheceu a me de uma garota, Jada Knight, que tinha levado um tiro nas costas ao sair correndo do refeitrio. -- Minha filha s vai pra escola este ano depois das onze horas, porque no consegue suportar estar l quando comea o terceiro tempo -- disse a mulher. -- Tudo a assusta. Isso estragou a vida dela inteira; por que a punio de Peter Houghton deveria ser menor?

Patrick no queria entrar no corredor polons da imprensa, e, como nica testemunha do dia, as chances de ele ser cercado eram imensas. Ento se sentou no corrimo de madeira que separava os profissionais do tribunal da plateia. -- Oi. Ele se virou ao ouvir a voz de Alex. -- O que voc ainda est fazendo aqui? Ele achava que ela estaria no andar de cima, escoltando Josie para fora da sala isolada das testemunhas, como tinha feito no dia anterior. -- Eu poderia te fazer a mesma pergunta. Patrick indicou a porta com um movimento de cabea. -- Eu no estava no clima de entrar numa batalha. Alex chegou mais perto, at estar entre as pernas dele, e o abraou. Afundou o rosto no pescoo dele e, quando respirou fundo, Patrick sentiu a respirao dela no prprio peito. -- Voc poderia ter me enganado -- disse ela. Jordan McAfee no estava tendo um bom dia. O beb tinha golfado nele quando estava saindo de casa. Ele chegou dez minutos atrasado no tribunal, porque a maldita imprensa se multiplicava como coelhos e no havia vagas, e o juiz Wagner o repreendeu pelo atraso. Acrescente a isso o fato de que, por alguma razo, Peter tinha parado de se comunicar com Jordan, exceto por um ocasional resmungo, e que sua primeira ordem do dia seria interrogar o cavaleiro de armadura que tinha entrado na escola

para confrontar o atirador malvado -- bem, ser advogado de defesa no ficava mais fabuloso que isso. -- Detetive -- disse ele, aproximando-se de Patrick Ducharme no banco das testemunhas --, depois que terminou com o legista, o senhor voltou para a delegacia? -- Sim. -- O Peter estava detido l, no estava? -- Estava. -- Em uma cela de priso... com barras e porta trancada? -- Uma cela de delegacia -- corrigiu Ducharme. -- O Peter j tinha sido acusado de algum crime? -- No. -- Ele no foi acusado de nada at a manh seguinte, correto? -- Correto. -- Onde ele passou a noite? -- Na priso do condado de Grafton. -- Detetive, o senhor falou com o meu cliente? -- perguntou Jordan. -- Sim, falei. -- O que perguntou a ele? O detetive cruzou os braos. -- Se ele queria caf.

-- Ele aceitou sua oferta? -- Sim. -- O senhor perguntou a ele sobre o incidente na escola? -- Eu perguntei o que tinha acontecido -- disse Ducharme. -- Como o Peter respondeu? O detetive franziu a testa. -- Ele disse que queria a me. -- Ele comeou a chorar? -- Sim. -- Na verdade, ele no parou de chorar durante todo o tempo em que o senhor tentou interrog-lo, no  verdade? --  verdade. -- O senhor fez outras perguntas a ele, detetive? -- No. Jordan deu um passo  frente. -- O senhor no insistiu, porque meu cliente no estava em condies de passar por um interrogatrio. -- No fiz nenhuma outra pergunta a ele -- disse Ducharme controladamente. -- No fao ideia do estado em que ele estava. -- Ento o senhor levou um garoto, um garoto de dezessete anos que estava chorando e pedindo pela me, de volta para a cela?

-- Sim. Mas falei que queria ajud-lo. Jordan olhou para o jri e deixou a frase ser absorvida por um momento. -- Qual foi a resposta de Peter? -- Ele olhou para mim -- respondeu o detetive -- e disse: "Foram eles que comearam". Curtis Uppergate era psiquiatra forense havia vinte e cinco anos. Tinha diplomas de trs excelentes faculdades de medicina e um currculo grosso o bastante para servir de peso de porta. Era branco como um lrio e usava o cabelo grisalho na altura dos ombros preso em trancinhas. Tinha ido ao tribunal com uma tnica africana. Diana quase esperava que a chamasse de irm quando ela o interrogasse. -- Qual  o seu campo de especialidade, doutor? -- Eu trabalho com adolescentes violentos. Eu os avalio para o

tribunal, para determinar a natureza de suas doenas mentais, se houver alguma, e elaborar um plano de tratamento apropriado. Tambm aconselho o tribunal quanto ao estado mental em que eles poderiam estar quando o crime foi cometido. Trabalhei com o FBI para criar perfis de atiradores de escola e para analisar paralelos entre os casos de Thurston High, Paducah, Rocori e Columbine. -- Quando o senhor se envolveu neste caso? -- Em abril. -- O senhor avaliou os registros de Peter Houghton?

-- Sim -- disse Uppergate. -- Avaliei todos os registros que recebi da senhora, sra. Leven: extensos registros escolares e mdicos, relatrios policiais, entrevistas feitas pelo detetive Ducharme. -- O que o senhor estava procurando em particular? -- Evidncias de doena mental -- disse ele. -- Explicaes fsicas para o comportamento dele. Um constructo psicossocial que pudesse se parecer com aqueles de outros autores de violncia escolar. Diana olhou para os jurados; seus olhos estavam vidrados. -- Como resultado do seu trabalho, o senhor chegou a alguma

concluso com um grau razovel de certeza mdica quanto ao estado mental de Peter Houghton em 6 de maro de 2007? -- Sim -- disse Uppergate, e olhou para o jri, falando lenta e claramente. -- Peter Houghton no estava sofrendo de nenhuma doena mental no momento em que comeou a atirar na Sterling High School. -- O senhor pode nos dizer como chegou a essa concluso? -- A definio de sanidade implica estar em contato com a realidade do que voc est fazendo na hora em que faz. H evidncias de que Peter planejava esse ataque havia um tempo, devido ao acmulo de munio e armas,  lista de vtimas, ao ensaio de seu Armagedon por meio de um videogame criado por ele mesmo. O tiroteio no foi um desvio para Peter, era uma coisa que ele considerava o tempo todo, com grande premeditao. -- H outros exemplos da premeditao de Peter? -- Quando chegou  escola e viu um amigo no estacionamento, ele tentou avis-lo, por questo de segurana. Ele detonou uma bomba caseira em um carro antes de entrar na escola, para servir como distrao, para que

pudesse entrar desimpedido com as armas. Escondeu armas carregadas. Escolheu reas da escola onde ele mesmo tinha sido vtima. Esses no so atos de algum que no sabe o que est fazendo; so indicadores de um jovem racional, furioso, talvez at em sofrimento, mas certamente no insano. Diana andou em frente ao banco das testemunhas. -- Doutor, o senhor conseguiu comparar informaes de tiroteios escolares anteriores com este, para poder fundamentar sua concluso de que o ru estava so e era responsvel por suas aes? Uppergate jogou as tranas por cima do ombro. -- Nenhum dos atiradores de Columbine, Paducah, Thurston e Rocori tinha status. No que fossem solitrios, mas, na cabea deles, percebiam que no eram membros do grupo no mesmo grau que as outras pessoas. Peter estava no time de futebol, por exemplo, mas era um dos dois alunos que nunca eram colocados para jogar. Era inteligente, mas suas notas no refletiam isso. Tinha um interesse romntico, mas esse interesse no foi retribudo. A nica situao em que ele se sentia confortvel era em um mundo de sua prpria criao. Os jogos de computador eram o lugar onde Peter no s se sentia confortvel... ele era Deus. -- Isso significa que ele estava vivendo em um mundo de fantasia no dia 6 de maro? -- De jeito nenhum. Se estivesse, no teria planejado esse ataque to racional e metodicamente. Diana se virou.

-- H evidncias, doutor, de que o Peter era vtima de bullying na escola. O senhor analisou essa informao? -- Sim, analisei. -- Sua pesquisa demonstrou alguma coisa sobre o efeito do bullying em garotos como Peter? -- Em todos os casos de tiroteio escolar -- disse Uppergate --, faz-se uso da carta do bullying. Alegam que foi o bullying que fez o atirador surtar um dia e reagir com violncia. No entanto, em metade dos casos, e tambm neste, na minha opinio, o bullying parece exagerado pelo atirador. A provocao no  significativamente pior para o atirador do que para qualquer outra pessoa na escola. -- Ento por que atirar? --  uma maneira pblica de tomar controle de uma situao na qual eles costumam se sentir indefesos -- disse Curtis Uppergate. -- O que, mais uma vez, significa que  algo que planejaram por um tempo. -- A testemunha  sua -- disse Diana. Jordan ficou de p e se aproximou do dr. Uppergate. -- Quando o senhor conheceu Peter? -- Bom, no fomos oficialmente apresentados. -- Mas o senhor  psiquiatra? -- Na ltima vez que verifiquei, sim -- disse Uppergate.

-- Pensei que o campo da psiquiatria fosse baseado em criar uma ligao com seu cliente para saber o que ele pensa sobre o mundo e como o avalia. --  parte do trabalho. --  uma parte incrivelmente importante, no ? -- perguntou Jordan. -- Sim. -- O senhor passaria uma receita mdica para o Peter hoje? -- No. -- Porque o senhor precisaria conhec-lo fisicamente antes de decidir se ele precisa tomar determinado medicamento, certo? -- Sim. -- Doutor, o senhor teve oportunidade de conversar com o atirador da Thurston High? -- Tive, sim -- disse Uppergate. -- E com o garoto de Paducah? -- Sim. -- Rocori? -- Sim. -- Columbine no... -- Sou psiquiatra, sr. McAfee -- disse Uppergate --, no mdium. No entanto, conversei muito com a famlia dos dois garotos. Li os dirios deles e examinei seus vdeos.

-- Doutor -- perguntou Jordan -- , o senhor alguma vez falou diretamente com Peter Houghton? Curtis Uppergate hesitou. -- No -- disse ele. -- No falei. Jordan se sentou e Diana encarou o juiz. -- Meritssimo -- disse ela. -- A promotoria terminou. -- de fome? Peter olhou para ele com raiva, mas abriu o sanduche e deu uma mordida. -- No gosto de peru. -- No estou nem a. -- Ele se recostou na parede de cimento da cela. -- Quer me contar quem mijou no seu cereal hoje? -- Voc faz alguma ideia de como  ficar sentado naquela sala Aqui -- disse Jordan, lanando para Peter metade de um

sanduche quando entrou na cela. -- Ou voc tambm est fazendo greve

ouvindo todas aquelas pessoas falando de mim como se eu no estivesse l? Como se eu no pudesse ouvir o que esto dizendo sobre mim? --  assim que se joga o jogo -- disse Jordan. -- Agora  a nossa vez. Peter se levantou e andou at a frente da cela. --  isso que  pra voc? Um jogo? Jordan fechou os olhos e contou at dez para ter pacincia. --  claro que no.

-- Quanto voc recebe? -- perguntou Peter. -- No  da sua... -- Quanto? -- Pergunte aos seus pais -- disse Jordan friamente. -- Voc recebe seu dinheiro se eu ganhar ou perder, certo? Jordan hesitou, mas assentiu. -- Ento voc no est nem a pro resultado, est? Jordan foi atingido pela incrvel percepo de que Peter tinha o talhe para se tornar um excelente advogado de defesa. Esse tipo de raciocnio circular, do tipo que deixava a pessoa interrogada em situao delicada, era exatamente o que se procurava em um tribunal. -- O qu? -- acusou Peter. -- Agora voc tambm est rindo de mim? -- No. Eu s estava pensando que voc seria um bom advogado. Peter se sentou de novo. -- Que timo. Talvez a priso estadual oferea esse diploma junto com o supletivo. Jordan pegou o sanduche na mo de Peter e deu uma mordida. -- Vamos esperar e ver como as coisas se desenrolam -- disse ele. O jri sempre se impressionava com a experincia de King Wah, e Jordan sabia. Ele havia entrevistado mais de quinhentas pessoas. Atuara como testemunha especialista em duzentos e quarenta e oito julgamentos,

sem incluir o de Peter. Tinha escrito mais artigos do que qualquer outro psiquiatra forense especialista em transtorno de estresse ps-traumtico. E a parte bonita era que tinha ministrado trs seminrios frequentados pela testemunha da promotoria, o dr. Curtis Uppergate. -- Dr. Wah -- comeou Jordan --, quando o senhor comeou a trabalhar neste caso? -- O senhor fez contato comigo, sr. McAfee, em junho. Concordei em me encontrar com Peter naquela poca. -- O senhor se encontrou com ele? -- Sim, foram mais de dez horas de entrevistas. Tambm li os

relatrios policiais, os registros mdicos e escolares de Peter, assim como de seu irmo mais velho. Conheci os pais dele. Depois, o encaminhei para ser examinado pelo meu colega, o dr. Lawrence Ghertz, que  neuropsiquiatra peditrico. -- O que um neuropsiquiatra peditrico faz? -- Estuda causas orgnicas para sintomas mentais e desvios em crianas. -- O que o dr. Ghertz fez? -- Fez vrias ressonncias magnticas no crebro de Peter -- disse King. -- O dr. Ghertz usa ressonncias do crebro para demonstrar que existem mudanas estruturais no crebro adolescente que no apenas explicam a ocorrncia de importantes doenas mentais, como esquizofrenia e bipolaridade, mas tambm do razes biolgicas para algumas das condutas selvagens que os pais costumam atribuir aos hormnios em ebulio. Isso no quer dizer que no existam hormnios em ebulio nos

adolescentes, mas tambm h uma escassez dos controles cognitivos necessrios para um comportamento maduro. Jordan se virou para o jri. -- Vocs entenderam isso? Porque eu estou perdido... King sorriu. -- Em termos leigos, d para saber muito sobre um adolescente ao olhar para o crebro dele. Pode haver uma razo fisiolgica para, quando voc manda seu filho de dezessete anos guardar o leite na geladeira, ele assentir e ignorar voc completamente. -- O senhor mandou Peter para o dr. Ghertz porque achava que ele era bipolar ou esquizofrnico? -- No. Mas parte da minha responsabilidade envolve excluir esses motivos antes de comear a procurar outros para o comportamento dele. -- O dr. Ghertz mandou um relatrio para o senhor detalhando as descobertas dele? -- Sim. -- O senhor pode nos mostrar? Jordan ergueu o diagrama de um crebro que j tinha apresentado como prova e o entregou a King. -- O dr. Ghertz disse que o crebro de Peter era bem parecido com o crebro de um adolescente tpico, no sentido de que o crtex pr-frontal no era to desenvolvido quanto se veria em um crebro adulto maduro. -- Opa -- disse Jordan. -- Estou ficando perdido de novo.

-- O crtex pr-frontal fica bem aqui, atrs da testa.  meio que como o presidente do crebro, encarregado do pensamento calculado e racional. Tambm  a ltima parte do crebro a amadurecer, e  por isso que adolescentes se metem em tanta confuso. -- Ele apontou para um pequeno ponto no diagrama, localizado centralmente. -- Isso se chama amgdala. Como o centro de tomada de decises de um adolescente no est funcionando completamente, eles recorrem a esse pequeno pedao do crebro. Esse  o epicentro impulsivo do crebro, o que guarda sentimentos como medo, raiva e intuio. Ou, em outras palavras, a parte do crebro que corresponde a "Porque meus amigos tambm acharam que era uma boa ideia". A maior parte dos jurados riu, e Jordan olhou nos olhos de Peter. Ele no estava mais cado na cadeira; estava sentado ereto, ouvindo com ateno. --  fascinante, na verdade -- disse King --, porque uma pessoa de vinte anos pode ser fisiologicamente capaz de tomar uma deciso informada... mas uma pessoa de dezessete, no. -- O dr. Ghertz fez algum outro teste psicolgico? -- Fez. Ele fez uma segunda ressonncia magntica, executada enquanto Peter fazia uma tarefa simples. Peter recebeu fotos de rostos e tinha que identificar as emoes expressas nelas. Ao contrrio de um grupo de teste de adultos, que fez a maior parte das avaliaes corretamente, Peter tendia a cometer erros. Em particular, ele identificava expresses de medo como raiva, confuso ou tristeza. A ressonncia mostrou que, enquanto ele estava concentrado nessa tarefa, era a amgdala que estava trabalhando... no o crtex pr-frontal. -- O que o senhor pode inferir disso, dr. Wah?

-- Bom, a capacidade do Peter de pensamento racional, planejado e premeditado ainda no est totalmente desenvolvida. Fisiologicamente, ele ainda no  capaz de fazer isso. Jordan observou a reao dos jurados a essa afirmao. -- Dr. Wah, o senhor disse que tambm esteve com o Peter? -- Sim, na priso, em dez sesses de uma hora de durao. -- Onde se encontrou com ele? -- Em uma sala de reunies. Eu expliquei quem eu era e que estava trabalhando com o advogado dele -- disse King. -- O Peter ficou relutante em falar com o senhor? -- No -- disse o psiquiatra, fazendo uma pausa. -- Ele pareceu apreciar a companhia. -- Alguma coisa nele chamou sua ateno a princpio? -- Ele me pareceu sem emoo. No chorava, no sorria, no ria nem demonstrava hostilidade. Na minha rea, chamamos isso de embotamento afetivo. -- Sobre o que vocs dois conversaram? King olhou para Peter e sorriu. -- Sobre os Red Sox -- disse ele. -- E sobre a famlia dele. -- O que ele lhe contou?

-- Que Boston merecia outra bandeira. E, sendo torcedor dos Yankees, isso foi o bastante para eu duvidar da capacidade de pensamento racional dele. Jordan sorriu. -- O que ele disse sobre a famlia? -- Ele explicou que morava com a me e o pai, e que o irmo mais velho, Joey, tinha sido morto por um motorista bbado um ano antes, aproximadamente. Joey era um ano mais velho que Peter. Tambm conversamos sobre as coisas que ele gostava de fazer, principalmente programao e computadores, e sobre a infncia dele. -- O que ele lhe contou sobre isso? -- perguntou Jordan. -- A maior parte das lembranas de infncia de Peter envolvia

situaes em que ele era vtima de outras crianas ou de adultos que ele via como capazes de ajud-lo, mas que no o ajudavam. Ele descreveu de tudo, desde ameaas fsicas do tipo "Saia do meu caminho, seno vou te socar at voc apagar", a aes fsicas, como andar pelo corredor e ser empurrado contra a parede, porque por acaso ele chegou perto demais de algum que passava por ele, e tambm zombarias emocionais, como ser chamado de bichinha ou veado. -- Ele contou quando o bullying comeou? -- No primeiro dia do jardim de infncia. Ele entrou no nibus, foi derrubado enquanto andava pelo corredor e jogaram a lancheira do SuperHomem dele pela janela. Prosseguiu at antes dos disparos, quando ele sofreu humilhao pblica aps a revelao de seu interesse romntico por uma colega de sala.

-- Doutor -- disse Jordan -- , o Peter no pedia ajuda? -- Pedia, mas, mesmo quando algum o ajudava, o resultado dava errado. Uma vez, por exemplo, depois de ser empurrado por um garoto na escola, Peter o agrediu. Um professor viu e levou os dois para a diretoria, para que fossem suspensos. Na mente do Peter, ele se defendeu, mas tambm foi punido. -- King relaxou no banco. -- Lembranas mais recentes tratavam da morte de seu irmo e de sua incapacidade de alcanar os mesmos padres que o irmo tinha estabelecido como aluno e filho. -- O Peter falou dos pais? -- Sim. Peter amava os pais, mas no sentia que podia contar com eles para ter proteo. -- Proteo de qu? -- Dos problemas que enfrentava na escola, dos sentimentos que tinha, das ideias de suicdio. Jordan se virou para o jri. -- Com base em suas conversas com o Peter e nas descobertas do dr. Ghertz, o senhor conseguiu diagnosticar o estado mental do Peter em 6 de maro de 2007 com um grau razovel de certeza mdica? -- Sim. Peter estava sofrendo de transtorno de estresse ps-

traumtico. -- O senhor pode explicar o que  isso? King assentiu. --  um distrbio psiquitrico que pode ocorrer depois de uma experincia na qual a pessoa  oprimida ou  vtima. Por exemplo, todos

ouvimos falar de soldados que voltam para casa depois da guerra e no conseguem se ajustar ao mundo por causa de TEPT. Pessoas que sofrem de TEPT costumam reviver a experincia em pesadelos, tm dificuldade de dormir, se sentem alheias. Em casos extremos, depois da exposio a um trauma srio, elas podem ter alucinaes ou dissociao. -- O senhor est dizendo que o Peter estava tendo uma alucinao na manh do dia 6 de maro? -- No. Acredito que ele estava em estado de dissociao. -- O que  isso? --  quando voc est fisicamente presente, mas mentalmente afastado -- explicou King. -- Quando voc consegue separar seus sentimentos por um evento da percepo desse evento. Jordan uniu as sobrancelhas. -- Espere, doutor. O senhor quer dizer que uma pessoa em estado dissociativo conseguiria dirigir um carro? -- Certamente. -- E montar uma bomba caseira? -- Sim. -- E carregar armas? -- Sim. -- E disparar essas armas? -- Claro.

-- E, todo esse tempo, essa pessoa no saberia o que estava fazendo? -- Sim, sr. McAfee -- disse King. --  exatamente isso. -- Na sua opinio, quando o Peter entrou nesse estado de

dissociao? -- Durante as nossas entrevistas, Peter explicou que, na manh do dia 6 de maro, ele acordou cedo e foi verificar em um site na internet os feedbacks sobre o videogame dele. Sem querer, puxou um arquivo antigo no computador, o e-mail que ele tinha enviado a Josie Cormier explicando seus sentimentos por ela. Era o mesmo e-mail que, semanas antes, tinha sido enviado para toda a escola e que precedeu um evento de grande humilhao, em que sua cala foi abaixada no refeitrio. Depois que ele viu esse e-mail, ele disse que no consegue se lembrar do resto que aconteceu. -- Eu abro arquivos antigos no meu computador o tempo todo -- disse Jordan --, mas no entro em estado de dissociao. -- O computador sempre foi um santurio seguro para Peter. Era o veculo que ele usava para criar um mundo confortvel para ele, habitado por personagens que gostavam dele e que ele controlava, como no acontecia na vida real. O fato de essa nica zona de segurana ter se tornado mais um lugar onde a humilhao acontecia foi o que deflagrou a dissociao. Jordan cruzou os braos, bancando o advogado do diabo. -- No sei... Estamos falando de um e-mail.  justo comparar o bullying ao trauma vivido por veteranos da Guerra do Iraque ou por sobreviventes do 11 de Setembro?

--  importante lembrar que o TEPT  um evento traumtico, que afeta as pessoas diferentes de maneiras diferentes. Por exemplo, para alguns, um estupro violento pode desencadear TEPT. Para outros, o fato de ser apalpado, ainda que por pouco tempo, pode ter o mesmo efeito. No importa se o evento traumtico  uma guerra, um ataque terrorista, uma agresso sexual ou bullying. O que conta  de onde a vtima est comeando emocionalmente. King se virou para o jri. -- Vocs podem ter ouvido falar, por exemplo, da sndrome da mulher espancada. No faz sentido, vendo de fora, que uma mulher, mesmo que tenha sofrido abuso durante anos, mate o marido quando ele est dormindo profundamente. -- Protesto -- disse Diana. -- Algum v uma mulher espancada em julgamento? -- Vou permitir -- respondeu o juiz Wagner. -- Mesmo quando uma mulher espancada no est diretamente sob ameaa fsica, psicologicamente ela acredita que est, graas ao padro crnico e crescente de violncia que a levou a sofrer de TEPT.  viver nesse constante estado de medo de que alguma coisa vai acontecer, vai continuar acontecendo, que a leva a pegar a arma naquele momento, apesar de o marido estar roncando. Para ela, ele ainda  uma ameaa imediata -- disse King. -- Uma criana que sofre de TEPT, como Peter, vive com medo de que o agressor acabe matando-o. Mesmo que o agressor no esteja naquele momento o empurrando em um armrio ou dando um soco nele, isso pode acontecer a qualquer momento. Assim, da mesma maneira que a mulher espancada, ele toma uma atitude mesmo quando, para voc e para mim, nada parece justificar o ataque.

--

Algum no perceberia esse tipo de medo irracional? --

perguntou Jordan. -- Provavelmente no. Uma criana que sofre de TEPT faz tentativas malsucedidas de pedir ajuda, mas, como continua a ser vtima, para de pedir. Ela se recolhe socialmente, pois nunca tem certeza de quando a interao vai levar a outro incidente de bullying. Provavelmente pensa em se matar. Escapa para um mundo de fantasia, onde pode dar as ordens. No entanto, ela comea a se refugiar l com tanta frequncia que fica cada vez mais difcil separ-la da realidade. Durante os incidentes de bullying, uma criana com TEPT pode se refugiar em um estado alterado de conscincia, uma dissociao da realidade, para impedir que sinta dor e humilhao durante o desenrolar do incidente.  exatamente o que acho que aconteceu com Peter no dia 6 de maro. -- Apesar de nenhum dos garotos que praticavam bullying contra ele estar presente no quarto quando aquele e-mail apareceu? -- Correto. Peter tinha passado a vida toda apanhando, sendo

provocado e ameaado, a ponto de acreditar que seria morto pelos mesmos garotos se no fizesse alguma coisa. O e-mail deflagrou um estado dissociativo, e, quando ele foi para a Sterling High e fez os disparos, estava completamente alheio ao que estava fazendo. -- Quanto tempo pode durar um estado de dissociao? -- Depende. Peter podia estar nesse estado h horas. -- Horas? -- repetiu Jordan. -- Certamente. No h nada durante os disparos que ilustre

percepo consciente de suas aes.

Jordan olhou para a promotora. -- Todos ns vimos um vdeo no qual o Peter se sentou depois de disparar tiros no refeitrio e comeu uma tigela de cereal. Isso  significativo no seu diagnstico? -- Sim. Na verdade, no consigo pensar em prova mais clara de que Peter estava dissociado naquele momento. Voc tem um garoto completamente inconsciente do fato de que est cercado de colegas que matou, feriu ou fez sarem correndo. Ele se senta e calmamente serve uma tigela de cereal, sem se afetar pela carnificina ao seu redor. -- E o fato de muitos dos alunos em quem Peter atirou no serem parte do que podia ser chamado de "turma popular"? Que havia crianas com necessidades especiais, alunos estudiosos e at um professor que foram vtimas dele? -- Mais uma vez -- disse o psiquiatra --, no estamos falando de comportamento racional. Peter no estava calculando suas aes; no momento em que estava atirando, tinha se separado da realidade da situao. Qualquer pessoa que ele encontrasse durante aqueles dezenove minutos era uma ameaa em potencial. -- Na sua opinio, quando o estado dissociativo de Peter terminou? -- perguntou Jordan. -- Quando ele j estava sob custdia, falando com o detetive

Ducharme. Foi quando ele comeou a reagir normalmente, considerando o horror da situao. Ele comeou a chorar e chamou pela me, o que indica tanto um reconhecimento do ambiente quanto uma reao apropriada e infantil. Jordan se encostou na grade da rea do jri.

-- H evidncias neste caso, doutor, de que o Peter no era a nica criana na escola a sofrer bullying. Ento por que ele reagiu dessa forma? -- Bom, como eu falei, pessoas diferentes tm reaes diferentes ao estresse. No caso de Peter, constatei extrema vulnerabilidade emocional, que, alis, era a razo de implicarem com ele. Peter no agia seguindo os cdigos dos garotos. No era um grande atleta. No era duro. Era sensvel. E a diferena nem sempre  respeitada, particularmente quando se  adolescente. A adolescncia  a poca de ser como os outros, no de se destacar. -- Como uma criana emocionalmente vulnervel acaba um dia

carregando quatro armas para a escola e atirando em vinte e nove pessoas? -- Parte disso  o TEPT, a reao de Peter  vitimizao crnica. Mas grande parte tambm  a sociedade que criou tanto Peter quanto os agressores. A reao de Peter  reforada pelo mundo em que ele vive. Ele v videogames violentos vendendo absurdamente nas lojas, escuta msicas que glorificam o assassinato e o estupro. V seus torturadores o empurrarem, baterem nele, o diminurem. Ele vive em um estado, sr. McAfee, em cuja placa de carros se l "Viva livre ou morra". -- King balanou a cabea. -- Tudo que Peter fez uma certa manh foi se transformar na pessoa que esperavam que ele fosse o tempo todo. Ningum sabia, mas uma vez Josie terminara com Matt Royston. Eles estavam juntos havia quase um ano quando Matt a pegou em casa em uma noite de sbado. Um garoto rico do time de futebol, que Brady conhecia, estava dando uma festa em casa. -- Est a fim? -- perguntara Matt, apesar de j estar dirigindo para l.

A casa pulsava como um parque de diverses quando eles chegaram, com carros parados em frente, na calada e no gramado. Pelas janelas do andar de cima, Josie conseguia ver pessoas danando; quando estavam indo em direo  casa, viram uma garota vomitando nas plantas. Matt no soltou a mo dela. Eles andaram em meio a corpos que ocupavam toda a casa, abrindo caminho at a cozinha, onde havia um barril de cerveja, e depois voltaram para a sala de jantar, onde a mesa tinha sido empurrada para o lado para aumentar o espao de dana. Passaram por gente no s da Sterling High, mas tambm de outras cidades. Algumas tinham os olhos vermelhos e o queixo cado de quem tinha fumado maconha. Garotos e garotas farejavam uns aos outros em busca de sexo. Ela no conhecia ningum, mas isso no era importante, porque estava com Matt. Eles chegaram mais perto um do outro em meio ao calor de cem outros corpos. Matt enfiou a perna entre as dela enquanto a msica pulsava como sangue, e ela ergueu os braos para se encaixar nele. Tudo deu errado quando ela foi ao banheiro. Primeiro, Matt quis ir atrs dela, pois disse que no era seguro ela ficar sozinha. Ela acabou por convenc-lo de que voltaria em um minuto, mas, quando saiu andando, um garoto com uma camiseta do Green Day e uma argola na orelha se virou muito rpido e derramou cerveja nela. -- Ah, merda -- disse ele. -- Tudo bem. Josie tinha um leno de papel no bolso; ela o pegou e comeou a secar a blusa. -- Eu limpo -- disse o garoto, e pegou o leno da mo dela. Ao mesmo tempo, os dois perceberam como era ridculo tentar absorver tanto

lquido com um pedacinho de papel. Ele comeou a rir, e ela tambm, e a mo dele ainda estava pousada levemente no ombro dela quando Matt apareceu e deu um soco na cara dele. -- O que voc est fazendo?! -- gritou Josie. O garoto desmaiou no cho, e as pessoas tentavam sair do caminho, mas ficar perto o bastante para ver a briga. Matt segurou o pulso dela com tanta fora que ela pensou que fosse quebrar. Ele a arrastou para fora da casa, at o carro, onde ela se sentou em silncio absoluto. -- Ele s estava tentando ajudar -- disse Josie por fim. Matt engatou a r e saiu. -- Voc quer ficar? Quer ser uma piranha? E comeou a dirigir como um louco, passando por sinais vermelhos, fazendo curvas a toda, andando no dobro do limite de velocidade. Ela o mandou ir devagar trs vezes, mas ento apenas fechou os olhos e torceu para tudo terminar logo. Quando Matt parou na porta da casa dela cantando pneus, ela se virou para ele, incomumente calma. -- No quero mais namorar voc -- disse e saiu do carro. A voz dele a seguiu at a porta. -- Que bom. Por que eu iria querer namorar uma porra de uma puta? Ela conseguiu passar pela me fingindo estar com dor de cabea. No banheiro, olhou-se no espelho, tentando entender quem era aquela garota que de repente tinha ficado to corajosa e por que ainda sentia vontade de chorar. Deitou-se na cama por uma hora, com lgrimas escorrendo do canto

dos olhos, perguntando-se por que, se tinha sido ela a terminar, se sentia to infeliz. Quando o telefone tocou depois das trs da madrugada, Josie atendeu e desligou, para que, quando a me atendesse, pensasse que tinha sido engano. Prendeu a respirao por alguns segundos, depois ergueu o fone e apertou a tecla que identificaria o nmero de origem da chamada. Ela sabia, mesmo antes de ver a sequncia familiar de nmeros, que era Matt. -- Josie -- disse ele quando ela ligou de volta. -- Voc estava mentindo? -- Sobre o qu? -- Sobre me amar. Ela tinha enfiado o rosto no travesseiro. -- No -- sussurrou. -- No consigo viver sem voc -- disse Matt, e ela ouviu uma coisa que parecia um vidro de comprimidos sendo sacudido. Josie ficou paralisada. -- O que voc est fazendo? -- Por que voc se importa? A mente dela disparou. Ela tinha habilitao, mas no podia sair sozinha de carro, muito menos  noite. Morava longe demais de Matt para ir correndo at l. -- No se mexa -- disse ela. -- Apenas... no faa nada.

Na garagem, ela encontrou uma bicicleta na qual no andava desde o ensino fundamental II, e pedalou os quase sete quilmetros at a casa de Matt. Quando chegou l, estava chovendo; o cabelo e as roupas estavam grudados na pele. A luz ainda estava acesa no quarto de Matt, que era no trreo. Josie bateu na janela e ele a abriu para que ela pudesse entrar. Sobre a mesa havia um vidro de Tylenol e uma garrafa aberta de usque. Josie olhou para ele. -- Voc...? Mas Matt a abraou. Estava com cheiro de bebida. -- Voc me mandou no fazer. Eu faria qualquer coisa por voc. -- E ento se afastou dela. -- Voc faria qualquer coisa por mim? -- Qualquer coisa -- prometeu ela. Matt a tomou nos braos. -- Me diz que no estava falando srio. Ela sentiu uma jaula se fechando ao seu redor; tarde demais, percebeu que Matt a tinha prendido pelo corao. E, como qualquer animal inconsciente verdadeiramente capturado, Josie s poderia escapar se deixasse um pedao de si para trs. -- Sinto muito -- disse Josie pelo menos mil vezes naquela noite, porque era tudo culpa dela. -- Dr. Wah -- disse Diana -- , quanto o senhor recebeu para trabalhar neste caso? -- Meus honorrios so de dois mil dlares por dia.

-- Seria justo dizer que um dos componentes mais importantes no diagnstico do ru foi o tempo que o senhor passou entrevistando-o? -- Sim. -- O senhor no teria como saber se ele no estivesse sendo sincero, teria? -- Eu fao isso h bastante tempo, sra. Leven -- disse o psiquiatra. -- Entrevistei pessoas o suficiente para saber quando algum est tentando me enganar. -- Parte do que o senhor usa para determinar se um adolescente est ou no o enganando  observar as circunstncias em que ele est, correto? -- Claro. -- E as circunstncias em que o senhor encontrou Peter incluam estar trancado em uma cadeia por mltiplos homicdios qualificados? -- Isso mesmo. -- Ento, basicamente -- disse Diana -- , o Peter tinha um enorme incentivo para encontrar um meio de se livrar. -- Ou, sra. Leven -- retrucou o dr. Wah -- , tambm  possvel dizer que ele no tinha nada a perder por falar a verdade. Diana apertou os lbios; uma resposta de sim ou no teria sido tima. -- O senhor disse que parte de seu diagnstico de TEPT veio do fato de que o ru tentava obter ajuda e no conseguia. Isso foi baseado em informaes que ele deu durante as entrevistas?

-- Sim, corroboradas pelos pais dele e alguns dos professores que testemunharam para a senhora, sra. Leven. -- O senhor tambm disse que parte do seu diagnstico de TEPT foi ilustrado pelo isolamento de Peter em um mundo de fantasia, correto? -- Sim. -- E o senhor baseou isso nos jogos de computador sobre os quais Peter lhe contou durante as entrevistas? -- Correto. --  verdade que, quando mandou Peter para o dr. Ghertz, o senhor disse a ele que seriam feitas ressonncias magnticas do crebro? -- Sim. -- O Peter no poderia ter dito ao dr. Ghertz que um rosto sorridente parecia zangado se achasse que isso ajudaria o senhor em seu diagnstico? -- Acho que seria possvel... -- O senhor tambm disse, doutor, que ler um e-mail na manh do dia 6 de maro foi o que colocou Peter em estado de dissociao, forte o bastante para se estender por toda a durao dos assassinatos na Sterling High... -- Protesto... -- Aceito -- disse o juiz. -- O senhor baseou essa concluso em alguma outra coisa alm do que Peter Houghton lhe contou? Peter, que estava em uma cela de cadeia, acusado de dez assassinatos e dezenove tentativas de assassinato?

King Wah balanou a cabea. -- No, mas qualquer outro psiquiatra teria feito o mesmo. Diana apenas ergueu uma sobrancelha. -- Qualquer psiquiatra que ganhasse dois mil dlares por dia -- disse e, antes mesmo que Jordan protestasse, ela retirou o comentrio. -- O senhor disse que Peter estava sofrendo de ideias suicidas. -- Sim. -- Ento ele queria se matar? -- Sim.  muito comum em pacientes com TEPT. -- O detetive Ducharme testemunhou que foram encontrados cento e dezesseis cartuchos de balas na escola naquela manh. Mais trinta balas no disparadas foram encontradas com o Peter, e havia mais cinquenta e duas na mochila que ele estava carregando, junto com duas armas que ele no usou. Portanto, faa as contas para mim, doutor. De quantas balas estamos falando? -- Cento e noventa e oito. Diana o encarou. -- Em um perodo de dezenove minutos, o Peter teve duzentas chances de se matar em vez de os alunos que ele encontrou na Sterling High. Isso est correto, doutor? -- Sim. Mas h uma linha extremamente tnue entre um suicdio e um homicdio. Muitas pessoas deprimidas que tomaram a deciso de atirar em si mesmas escolhem, no ltimo momento, atirar em outra pessoa.

Diana franziu a testa. -- Pensei que o Peter estivesse em estado de dissociao -- disse ela. -- Pensei que estivesse incapaz de fazer escolhas. -- E estava. Estava puxando o gatilho sem qualquer pensamento sobre consequncias e sem qualquer conhecimento do que estava fazendo. -- Ou isso, ou era uma fronteira fina como um leno de papel que ele sentiu vontade de cruzar, certo? Jordan se levantou. -- Protesto. Ela est intimidando minha testemunha. -- Ah, pelo amor de Deus, Jordan -- respondeu Diana --, voc no pode usar sua defesa contra mim. -- Senhores -- avisou o juiz. -- O senhor tambm disse, doutor, que o estado dissociativo de Peter terminou quando o detetive Ducharme comeou a fazer perguntas a ele na delegacia, correto? -- Sim. -- Seria justo dizer que o senhor baseou essa suposio no fato de que, naquele momento, Peter comeou a reagir de maneira apropriada, considerando a situao em que estava? -- Sim. -- Ento como o senhor explica que, horas antes, quando trs policiais apontaram uma arma para Peter e mandaram que ele soltasse a pistola, ele tenha conseguido fazer o que pediram?

O dr. Wah hesitou. -- Bom... -- Essa no  uma reao apropriada quando trs policiais esto com as armas apontadas para voc? -- Ele baixou a arma -- disse o psiquiatra -- porque, mesmo em nvel subliminar, entendia que levaria um tiro se no obedecesse. -- Mas, doutor -- disse Diana --, pensei que o senhor tivesse dito que o Peter queria morrer. Ela voltou a se sentar, satisfeita por Jordan no poder fazer nada em seguida para prejudicar o avano que ela tinha conseguido. -- Dr. Wah -- disse ele -- , o senhor passou muito tempo com o Peter, no passou? -- Ao contrrio de alguns mdicos na minha rea -- disse ele enfaticamente --, eu acredito em conhecer o cliente sobre quem vou falar no tribunal. -- Por que isso  importante? -- Para criar um entendimento -- disse o psiquiatra. -- Para gerar uma relao entre mdico e paciente. -- O senhor acreditaria totalmente em tudo que um paciente lhe contasse? -- Certamente no, sobretudo sob essas circunstncias. -- Na verdade, h muitas maneiras de corroborar a histria de um cliente, no h?

--  claro. No caso de Peter, conversei com os pais dele. Houve ocasies nos registros escolares em que o bullying foi mencionado, apesar de no haver resposta da administrao. O pacote policial que recebi confirmava a declarao de Peter sobre o e-mail ter sido enviado para centenas de membros da comunidade escolar. -- O senhor encontrou algum ponto corroborativo que ajudou a diagnosticar o estado de dissociao em que o Peter entrou no dia 6 de maro? -- perguntou Jordan. -- Sim. Apesar de as investigaes policiais afirmarem que Peter tinha criado uma lista de vtimas, bem mais pessoas que no estavam naquela lista levaram tiros... e eram, na verdade, alunos que ele nem conhecia de nome. -- Por que isso  importante? -- Porque me diz que, na hora em que estava atirando, ele no estava mirando em alunos especficos. Estava apenas se deixando levar. -- Obrigado, doutor -- disse ele e assentiu para Diana. Ela olhou para o psiquiatra. -- O Peter contou ao senhor que tinha sido humilhado no refeitrio -- disse ela. -- Ele mencionou algum outro local? -- O parquinho. O nibus escolar. O banheiro dos meninos e o vestirio. -- Quando o Peter comeou a atirar na Sterling High, ele entrou na sala do diretor? -- No que eu saiba.

-- E na biblioteca? -- No. -- Na sala dos professores? O dr. Wah balanou a cabea. -- No. -- Na sala de artes? -- Acho que no. -- Na verdade, o Peter foi do refeitrio para os banheiros, dali para o ginsio e depois para o vestirio. Foi metodicamente de um local onde tinha sofrido bullying para o seguinte, certo? --  o que parece. -- O senhor disse que ele estava se deixando levar, doutor -- disse Diana. -- Mas o senhor no chamaria isso de plano? Quando Peter voltou para a priso naquela noite, o agente penitencirio que o levou at a cela lhe entregou uma carta. -- Voc no estava na hora em que a correspondncia foi entregue -- disse ele, e Peter no conseguiu falar, pois estava desacostumado com uma dose to grande de gentileza. Ele se sentou com as costas contra a parede na cama de baixo e observou o envelope. Estava um pouco nervoso agora com as correspondncias, desde que Jordan chamou sua ateno por falar com aquela reprter. Mas esse envelope no era impresso, como o outro. Tinha

sido manuscrito, com crculos gordinhos flutuando sobre os is como nuvens. Ele o abriu e desdobrou a carta que havia dentro. Tinha cheiro de laranja.

Caro Peter, Voc no sabe meu nome, mas fui a vtima nmero 9. Foi assim que sa da escola, com uma enorme marca de caneta na testa. Voc tentou me matar. No estou no seu julgamento, ento no tente me encontrar no meio da plateia. Eu no suportei ficar na cidade, ento meus pais se mudaram um ms atrs. Comecei a ir  escola aqui em Minnesota, e as pessoas j ouviram falar sobre mim. S me conhecem como vtima da Sterling High. No tenho interesses, no tenho personalidade. Nem tenho histria, exceto a que voc me deu. Minha mdia era 9,0, mas agora no ligo mais para notas. Que sentido tem isso? Eu tinha muitos sonhos, mas agora no sei se vou para a faculdade, pois ainda no consigo dormir a noite toda. No consigo suportar pessoas que chegam por trs em silncio, nem portas que batem com fora, nem fogos de artifcio. Estou fazendo terapia h tempo suficiente para lhe dizer o seguinte: nunca mais vou botar os ps em Sterling. Voc me deu um tiro nas costas. Os mdicos dizem que tive sorte, que, se eu tivesse espirrado ou me virado para olhar para voc, eu estaria em uma cadeira de rodas agora. Em vez disso, s preciso lidar com as pessoas que ficam me olhando fixamente quando esqueo e coloco uma camiseta regata -- qualquer pessoa que consiga ver as cicatrizes da bala, dos tubos e dos pontos. Eu no ligo. As pessoas

costumavam olhar para as espinhas no meu rosto; agora, s tm outra parte do corpo onde concentrar a ateno. Eu pensei muito sobre voc. Acho que voc deveria ir preso.  justo, e o que aconteceu no foi, e h uma espcie de equilbrio nisso. Eu era da sua turma de francs, sabia? Eu me sentava na fileira ao lado da janela, era a penltima. Voc sempre pareceu meio misterioso, e eu gostava do seu sorriso. Eu teria gostado de ser sua amiga. Atenciosamente, Angela Phlug Peter dobrou a carta e a colocou dentro da fronha. Dez minutos depois, voltou a peg-la. Ele a leu a noite toda, repetidas vezes, at o sol nascer, at no precisar ver as palavras para recit-las de cor. Lacy se vestiu para o filho. Apesar de estar fazendo quase trinta graus l fora, ela estava usando um suter que tinha tirado de uma caixa no sto, feito de angor rosa, que Peter gostava de acariciar como um gatinho quando era pequeno. No pulso, usava uma pulseira que ele fizera para ela no quarto ano com pedacinhos de revista cobertos de contas coloridas. Vestia uma saia cinza estampada da qual Peter rira imediatamente, dizendo que parecia uma placa-me de computador, e que no lhe servia direito. E seu cabelo estava tranado com cuidado, porque ela lembrava como a ponta encostara no rosto de Peter na ltima vez em que ela lhe dera um beijo de boa-noite.

Ela tinha feito uma promessa a si mesma. Independentemente de quanto ficasse difcil, de quanto tivesse de soluar durante as perguntas, no tiraria os olhos de Peter. Decidiu que seria como as fotos de praias brancas que as mes em trabalho de parto s vezes levavam para se concentrar. O rosto dele a foraria a se concentrar, apesar de sua pulsao estar incerta e seu corao estar batendo irregularmente; ela mostraria a Peter que ainda havia algum cuidando dele com ateno. Quando Jordan McAfee a chamou para o banco, uma coisa estranha aconteceu. Ela andou com o meirinho, mas, em vez de caminhar em direo  pequena plataforma onde a testemunha tinha que se sentar, seu corpo se moveu por conta prpria em outra direo. Diana Leven soube para onde ela estava indo antes mesmo que Lacy soubesse. Ela se levantou para protestar, mas decidiu no fazer isso. Os passos de Lacy foram rpidos, com os braos na lateral do corpo, at ficar na frente da mesa da defesa. Ela se ajoelhou ao lado de Peter, de forma que o rosto dele fosse a nica coisa que ela conseguisse ver. Em seguida, esticou a mo esquerda e tocou no rosto dele. A pele dele ainda era lisa como a de uma criana e quente ao toque. Quando ela colocou a mo sobre a bochecha dele, seus clios encostaram no polegar dela. Ela visitava o filho semanalmente na cadeia, mas sempre houvera uma linha entre eles. Isso -- a sensao dele debaixo de suas mos, vital e real -- era o tipo de presente que voc tinha que tirar da caixa de tempos em tempos e olhar maravilhada, para no esquecer que ele ainda era seu. Lacy se lembrou do momento em que Peter foi colocado em seus braos pela primeira vez, ainda escorregadio de gordura e sangue, com a boca vermelha redonda pelo choro de recm-nascido, os braos e pernas espalhados naquele repentino espao infinito. Ela se inclinou para a frente

e fez a mesma coisa que fez na primeira vez em que viu o filho: fechou os olhos, fez uma orao e beijou a testa dele. Um meirinho tocou no ombro dela. -- Senhora -- disse ele. Lacy o afastou e ficou de p. Andou at o banco das testemunhas, abriu o trinco do porto e entrou. Jordan McAfee se aproximou dela segurando uma caixa de lenos de papel. Ento se virou de forma que o jri no pudesse v-lo falar. -- Voc est bem? -- sussurrou ele. Lacy assentiu, encarou Peter e ofereceu um sorriso como um sacrifcio. -- A senhora pode dizer seu nome, para o registro? -- pediu Jordan. -- Lacy Houghton. -- Onde a senhora mora? -- Em Goldenrod Lane, 1616, Sterling, New Hampshire. -- Quem mora com a senhora? -- Meu marido, Lewis, e meu filho, Peter. -- A senhora tem outros filhos, sra. Houghton? -- Eu tinha, Joseph, mas ele foi morto por um motorista embriagado no ano passado. -- A senhora pode nos contar -- disse Jordan McAfee -- quando soube que tinha acontecido alguma coisa na Sterling High School no dia 6 de maro?

-- Eu dei planto  noite no hospital. Sou parteira. Depois que terminei um parto naquela manh, fui para a sala das enfermeiras e todas estavam reunidas ao redor do rdio. Tinha havido uma exploso na escola. -- O que a senhora fez quando soube? -- Pedi para algum me cobrir e fui at a escola. Eu precisava ter certeza de que o Peter estava bem. -- Como o Peter costumava ir para a escola? -- De carro -- disse Lacy. -- Ele tem um. -- Sra. Houghton, me conte sobre o seu relacionamento com o Peter. Lacy sorriu. -- Ele  o meu beb. Eu tinha dois filhos, mas o Peter sempre foi mais quieto, mais sensvel. Sempre precisou de um pouco mais de encorajamento. -- Vocs dois eram prximos quando ele era criana? -- Muito. -- Como era o relacionamento do Peter com o irmo? -- Era bom... -- E com o pai? Lacy hesitou. Ela conseguia sentir Lewis na sala como se ele estivesse ao seu lado, e pensou nele andando na chuva pelo cemitrio. -- Acho que o Lewis tinha uma ligao mais forte com o Joey, enquanto o Peter e eu temos mais em comum.

-- O Peter alguma vez lhe contou sobre os problemas que tinha com as outras crianas? -- Sim. -- Protesto -- disse a promotora. -- Boato. -- Vou rejeitar por enquanto -- respondeu o juiz. -- Mas tome cuidado com o caminho que est seguindo, sr. McAfee. Jordan se virou para ela de novo. -- Por que a senhora acha que o Peter tinha problemas com aqueles garotos? -- Eles implicavam com o Peter porque ele no era como eles. No era atltico. No gostava de brincar de polcia e ladro. Gostava de artes, era criativo e sonhador, e os garotos debochavam dele por isso. -- O que a senhora fez? -- Eu tentei -- admitiu Lacy -- deix-lo mais duro. -- Quando ela falou, dirigiu as palavras para Peter e torceu para que ele entendesse aquilo como um pedido de desculpas. -- O que qualquer me faz quando v seu filho sendo provocado por outra pessoa? Eu disse para o Peter que o amava, que aqueles garotos no sabiam de nada. Disse que ele era incrvel, solidrio, gentil e inteligente, todas as coisas que queremos que os adultos sejam. Eu sabia que todos os atributos pelos quais os garotos implicavam com ele aos cinco anos funcionariam a favor dele quando ele chegasse aos trinta e cinco... mas eu no podia faz-lo chegar nessa idade de um dia pro outro. No se pode adiantar a vida do seu filho, no importa quanto voc queira fazer isso. -- Quando o Peter comeou o ensino mdio, sra. Houghton?

-- No outono de 2004. -- Ainda implicavam com ele l? -- Mais do que nunca -- disse Lacy. -- Eu at pedi pro irmo dele ficar de olho. Jordan andou na direo dela. -- Me conte sobre o Joey. -- Todo mundo gostava do Joey. Ele era inteligente e um timo atleta. Conseguia se relacionar com a mesma facilidade com adultos e com garotos da idade dele. Ele... bom, ele era popular na escola. -- A senhora devia sentir muito orgulho dele. -- Sentia, sim. Mas acho que, por causa do Joey, os professores e alunos tinham um certo tipo de ideia em mente para um garoto da famlia Houghton antes mesmo do Peter chegar. E, quando ele entrou l e as pessoas perceberam que ele no era como o Joey, as coisas s ficaram piores para ele. Ela viu o rosto de Peter se transformar conforme falava, como uma mudana de estao. Por que no tinha dedicado um tempo antes, quando podia, para dizer a Peter que ela entendia? Que sabia que Joey provocava uma sombra to grande que era difcil achar a luz do sol? -- Quantos anos o Peter tinha quando o Joey morreu? -- Foi no final do segundo ano dele. -- Deve ter sido arrasador para a famlia -- disse Jordan. -- Foi mesmo.

-- O que a senhora fez para ajudar o Peter a lidar com a dor? Lacy olhou para o prprio colo. -- Eu no estava em condies de ajudar o Peter. Tive muita

dificuldade em passar por isso. -- E o seu marido? Ele foi de ajuda para o Peter naquele momento? -- Acho que ns dois estvamos tentando viver um dia de cada vez... Na verdade, foi o Peter quem segurou a famlia. -- Sra. Houghton, o Peter alguma vez disse que queria ferir pessoas da escola? A garganta de Lacy se fechou. -- No. -- Alguma vez houve alguma coisa na personalidade dele que fez a senhora acreditar que ele era capaz de um ato assim? -- Quando voc olha nos olhos do seu beb -- disse Lacy baixinho --, voc v tudo que espera que ele possa ser... no tudo que deseja que ele no se torne. -- A senhora alguma vez encontrou algum plano ou bilhete que indicasse que o Peter estava planejando esse evento? Uma lgrima desceu pelo rosto dela. -- No. Jordan suavizou o tom de voz. -- A senhora procurou, sra. Houghton?

Ela pensou no momento em que tirou tudo da escrivaninha de Joey, em que ficou de p na frente do vaso sanitrio e deu descarga nas drogas que encontrou escondidas na gaveta dele. -- No -- confessou Lacy. -- No procurei. Achei que o estava ajudando. Depois que o Joey morreu, tudo que eu queria fazer era manter o Peter prximo. Eu no queria invadir a privacidade dele, no queria brigar com ele, no queria que mais ningum o machucasse, nunca mais. Eu s queria que ele fosse criana para sempre. -- Ela ergueu o olhar, chorando mais agora. -- Mas no se pode fazer isso como me. Porque parte do seu trabalho  permitir que os filhos cresam. Houve um rudo na plateia quando um homem ao fundo ficou de p, quase derrubando uma cmera de TV. Lacy nunca o tinha visto antes. Ele tinha alguns poucos cabelos pretos e bigode, e seus olhos estavam em chamas. -- Adivinha s -- disse ele de maneira rspida. -- Minha filha Maddie nunca vai crescer. -- Ento apontou para uma mulher ao lado dele e para um ponto mais distante no banco. -- Nem a filha dela. Nem o filho dele. Sua vaca filha da me. Se voc tivesse feito o seu trabalho melhor, eu ainda poderia estar fazendo o meu trabalho. O juiz comeou a bater o martelo. -- Senhor -- disse ele. -- Senhor, tenho que pedir que... -- O seu filho  um monstro.  uma porra de um monstro! -- gritou o homem quando dois meirinhos o pegaram pelos braos, arrastando-o para fora do tribunal.

Uma vez, Lacy estivera presente ao nascimento de um beb que no tinha metade do corao. Os pais sabiam que a filha no sobreviveria, mas preferiram levar a gravidez a termo, na esperana de poderem ter breves momentos com ela antes que partisse. Lacy ficara em um canto do quarto enquanto os pais abraavam a filha. No olhou o rosto deles; no era capaz. O que fez foi se concentrar nas necessidades mdicas daquela recmnascida. Ela a viu, imvel e azulada, mexer um pequeno pulso em cmera lenta, como um astronauta no espao. Depois, um a um, seus dedos se abriram, e ela se foi. Lacy pensou naqueles dedos em miniatura, em partir. Virou-se para Peter. "Sinto muito", disse ela, sem emitir som algum. Em seguida, cobriu o rosto com as mos e soluou. Depois que o juiz decretou recesso e o jri saiu, Jordan caminhou em direo a ele. -- Meritssimo, a defesa pede para ser ouvida -- disse. --

Gostaramos de pedir invalidao do julgamento. Mesmo de costas para ela, ele conseguia sentir Diana revirando os olhos. -- Que conveniente. -- Bom, sr. McAfee -- disse o juiz --, baseado em qu? Baseado no fato de que no tenho absolutamente nada melhor para salvar o meu caso, pensou Jordan. -- Meritssimo, houve uma exploso incrivelmente emocional do pai de uma vtima na frente do jri. No tem como esse tipo de discurso ser

ignorado, e no h instruo que Vossa Excelncia possa dar a eles que desfaa o efeito provocado. -- Isso  tudo, advogado? -- No -- disse Jordan. -- Antes disso, o jri podia no saber que havia membros das famlias das vtimas na plateia. Agora sabe, e tambm sabe que cada movimento que cada um deles fizer est sendo observado por essas mesmas pessoas.  uma quantidade enorme de presso sobre o jri de um caso que j  extremamente emocional e de alto conhecimento pblico. Como eles vo poder colocar de lado as expectativas dessas famlias e fazer o trabalho deles com justia e imparcialidade? -- Voc est brincando? -- disse Diana. -- Quem o jri achou que estava na plateia? Pessoas comuns?  claro que est cheio de pessoas afetadas pelo tiroteio.  por isso que elas esto aqui. O juiz Wagner olhou para frente. -- Sr. McAfee, no vou anular o julgamento. Entendo sua

preocupao, mas acho que consigo resolver com uma instruo para os jurados ignorarem qualquer espcie de exploso emocional da plateia. Todo mundo envolvido neste caso entende que as emoes esto a mil e que as pessoas nem sempre conseguem se controlar. No entanto, tambm vou emitir uma instruo cautelar para a plateia manter o controle, caso contrrio vou fechar o tribunal a observadores. Jordan inspirou. -- Por favor, reflita sobre minha objeo, Meritssimo. --  claro, sr. McAfee -- disse ele. -- Vejo voc em quinze minutos.

Quando o juiz saiu para sua sala, Jordan seguiu para a mesa da defesa, tentando conjurar alguma espcie de magia que pudesse salvar Peter. A verdade era que, independentemente do que King Wah dissera, de quo clara fora a explicao sobre TEPT, de o jri ter empatia total por Peter, Jordan tinha esquecido um ponto saliente: eles sempre sentiriam mais pena das vtimas. Diana sorriu para ele ao sair do tribunal. -- Boa tentativa -- disse ela. A sala favorita de Selena no tribunal ficava perto do armrio do zelador e era lotada de mapas velhos. Ela no fazia ideia do que eles estavam fazendo em um tribunal em vez de em uma biblioteca, mas gostava de se esconder l s vezes, quando se cansava de ver Jordan andar de um lado para o outro na frente do juiz. Ela fora l algumas vezes durante o julgamento para amamentar Sam nos dias em que no tinham bab para cuidar dele. Agora, ela levou Lacy para seu santurio e a fez se sentar em frente a um mapa-mndi que tinha o hemisfrio sul como centro. A Austrlia era roxa e a Nova Zelndia era verde. Era o favorito de Selena. Ela gostava dos drages vermelhos pintados nos mares e das violentas nuvens de tempestade nos cantos. Gostava da bssola desenhada  mo, para indicar as direes. Gostava de pensar que o mundo poderia parecer completamente diferente de outro ngulo. Lacy Houghton no tinha parado de chorar, e Selena sabia que ela precisava, seno o interrogatrio seria um desastre. Ela se sentou ao lado de Lacy. -- Quer alguma coisa? Uma sopa? Um caf?

Lacy balanou a cabea e limpou o nariz com um leno de papel. -- No posso fazer nada pra salvar meu filho. -- Esse  o trabalho do Jordan -- disse Selena, embora, para ser sincera, no conseguisse imaginar um cenrio para Peter que no envolvesse um longo perodo na cadeia. Ela revirou o crebro tentando pensar no que mais poderia dizer ou fazer para acalmar Lacy, na hora em que Sam esticou a mo e puxou uma das tranas dela. Bingo. -- Lacy -- disse Selena -- , voc se importa de segurar o Sam enquanto procuro uma coisa na bolsa? Lacy ergueu o olhar. -- Voc... voc no se importa? Selena balanou a cabea e colocou o beb no colo dela. Sam olhou para Lacy enquanto se esforava para fazer o prprio punho caber na boca. -- Gah -- disse ele. Um sorriso comeou a surgir no rosto de Lacy. -- Rapazinho -- sussurrou ela, e mudou a posio do beb para poder segur-lo com mais firmeza. -- Com licena? Selena se virou e viu a porta se entreabrir e o rosto de Alex Cormier surgir. Imediatamente se levantou. -- Meritssima, a senhora no pode entrar...

-- Pode deixar -- disse Lacy. Selena deu um passo para trs, e a juza entrou na sala e se sentou ao lado de Lacy. Colocou um copo de isopor sobre a mesa e esticou a mo, sorrindo um pouco quando Sam pegou o dedo mindinho dela e o puxou. -- O caf daqui  horrvel, mas eu trouxe mesmo assim. -- Obrigada. Selena se deslocou com cautela para trs das pilhas de mapas at estar atrs das duas mulheres, observando-as com a mesma curiosidade perplexa que teria demonstrado se uma leoa se aconchegasse a um antlope em vez de com-lo. -- Voc se saiu bem l dentro -- disse a juza. Lacy balanou a cabea. -- No bem o bastante. -- Ela no vai fazer muitas perguntas no interrogatrio dela, isso se fizer. Lacy levou o beb ao peito e acariciou as costas dele. -- Acho que no consigo voltar l -- disse ela com a voz trmula. -- Consegue e vai voltar -- disse a juza. -- Porque o Peter precisa que voc volte. -- Eles odeiam o Peter. Eles me odeiam. A juza Cormier colocou uma das mos no ombro de Lacy.

-- Nem todos -- disse ela. -- Quando voltarmos, vou estar sentada na fileira da frente. Voc no precisa olhar para a promotora. Apenas olhe pra mim. O queixo de Selena caiu. Era comum que, com uma testemunha frgil ou com crianas pequenas, se colocasse uma pessoa como ponto focal para tornar o ato de testemunhar menos assustador. Para fazer com que sentissem que, em meio a todas aquelas pessoas, elas tinham ao menos um amigo. Sam encontrou o polegar e comeou a chup-lo, terminando por adormecer no peito de Lacy. Selena viu Alex esticar a mo e acariciar os tufos escuros dos cabelos de seu filho. -- Todo mundo pensa que as pessoas cometem erros quando so jovens -- disse a juza para Lacy. -- Mas acho que no cometemos menos quando somos adultos. Quando Jordan entrou na cela onde estava Peter, j estava demonstrando ter o controle dos fatos. -- Isso no vai nos afetar -- anunciou. -- O juiz vai dar instrues ao jri para desconsiderar aquela manifestao toda. O garoto estava sentado no banco de metal com a cabea nas mos. -- Peter -- disse Jordan. -- Voc me ouviu? Sei que pareceu ruim, e sei que foi perturbador, mas legalmente no vai afetar o seu... -- Preciso dizer pra ela por que fiz aquilo -- interrompeu Peter. -- Pra sua me? -- disse Jordan. -- Voc no pode. Ela ainda est isolada. -- Ele hesitou. -- Olha, assim que eu conseguir que voc fale com ela, eu...

-- No. Quero dizer que eu preciso contar pra todo mundo. Jordan olhou para o cliente. Peter estava com os olhos secos; os punhos estavam apoiados no banco. Quando ergueu o olhar, seu rosto no era o rosto apavorado da criana ao lado de quem ele se sentou no tribunal no primeiro dia de julgamento. Era de algum que tinha crescido da noite para o dia. -- Ns vamos contar o seu lado da histria -- disse Jordan. -- Voc s precisa ser paciente. Sei que  difcil acreditar, mas vai dar tudo certo. Ns estamos fazendo o nosso melhor. -- Ns no estamos -- disse Peter. -- Voc est. -- Ele se levantou e foi para perto de Jordan. -- Voc prometeu. Disse que era a nossa vez. Mas, quando voc disse isso, queria dizer a sua vez, no ? Voc nunca quis que eu sentasse l pra contar pra todo mundo o que realmente aconteceu. -- Voc viu o que fizeram com a sua me? -- argumentou Jordan. -- Tem ideia do que vai acontecer se voc se sentar no banco das testemunhas? Naquele instante, alguma coisa em Peter se rompeu: no era raiva, no era medo, era aquele ltimo fio de esperana. Jordan pensou no testemunho de Michael Beach sobre como era quando a vida deixava o rosto de uma pessoa. No era preciso testemunhar algum morrer para ver isso. -- Jordan -- disse Peter -- , se eu vou passar o resto da vida na cadeia, quero que ouam o meu lado da histria. O advogado abriu a boca com a inteno de dizer a seu cliente que era absolutamente impossvel, que ele no iria testemunhar e estragar a torre

de cartas que Jordan criara na esperana da absolvio. Mas quem ele queria enganar? Certamente no Peter. Ele respirou fundo e disse: -- Tudo bem. Me conte o que voc vai dizer. Diana Leven no tinha perguntas para Lacy Houghton, o que, Jordan sabia, provavelmente era uma bno. Alm do fato de que no havia nada que a promotora pudesse perguntar a ela que no tivesse sido coberto melhor pelo pai de Maddie Shaw, ele no sabia que nvel de estresse Lacy ainda conseguiria suportar sem se tornar incompreensvel. Quando ela foi levada do tribunal, o juiz ergueu o olhar de seu arquivo. -- Sua prxima testemunha, sr. McAfee? Jordan inspirou profundamente. -- A defesa chama Peter Houghton. Atrs dele, houve um surto de atividade. Movimento de reprteres pegando canetas nos bolsos e virando pginas nos blocos. Murmrio das famlias das vtimas seguindo os passos de Peter at o banco das testemunhas. Ele conseguia ver Selena na lateral com os olhos arregalados com o desenvolvimento inesperado. Peter se sentou e olhou apenas para Jordan, como tinha sido instrudo. Bom menino, pensou ele. -- Voc  Peter Houghton? -- Sim -- disse Peter, mas no estava perto o bastante do microfone para que sua voz fosse ampliada. Ele se inclinou para frente e repetiu a

palavra. -- Sim -- disse, e dessa vez o som agudo dos amplificadores reverberou pelos alto-falantes do tribunal. -- Em que srie voc est, Peter? -- Eu estava no segundo ano quando fui preso. -- Quantos anos voc tem agora? -- Dezoito. Jordan deu passos na direo do jri. -- Peter, voc  a pessoa que entrou na Sterling High School na manh de 6 de maro de 2007, fez vrios disparos e matou dez pessoas? -- Sim. -- E feriu outras dezenove? -- Sim. -- E provocou danos a inmeras outras pessoas e a uma grande parte do imvel? -- Eu sei -- disse Peter. -- Voc no est negando isso hoje, est? -- No. -- Voc pode contar para o jri -- disse Jordan -- por que fez isso? Peter olhou nos olhos dele. -- Eles que comearam. -- Quem?

-- Os valentes. Os atletas. Os que me chamaram de aberrao durante toda minha vida. -- Voc se lembra do nome deles? -- Eram tantos... -- disse Peter. -- Pode nos contar por que voc sentiu que precisava recorrer  violncia? Jordan tinha dito a Peter que, no importava o que ele fizesse, no podia ficar com raiva. Que tinha de ficar calmo e controlado enquanto falava, seno seu testemunho acabaria funcionando contra ele, ainda mais do que Jordan j esperava. -- Eu tentei fazer o que a minha me queria que eu fizesse -- explicou Peter. -- Tentei ser como eles, mas no deu certo. -- O que voc quer dizer com isso? -- Eu entrei nos treinos de futebol, mas nunca fui colocado em campo. Uma vez, ajudei alguns garotos a fazerem uma brincadeira com um professor, levando o carro dele do estacionamento para o ginsio... Fui suspenso, mas os outros garotos no, porque eram do time de basquete e tinham jogo no sbado. -- Mas, Peter -- disse Jordan -- , por que isso? Peter molhou os lbios. -- No era pra terminar assim. -- Voc planejou matar todas aquelas pessoas?

Eles tinham ensaiado na cela. Tudo que Peter precisava dizer era o que tinha dito antes, quando Jordan o treinou. "No, no planejei." Peter olhou para as prprias mos. -- Quando eu fazia isso no jogo -- disse ele baixinho -- , eu vencia. Jordan ficou paralisado. Peter tinha se desviado do roteiro, e agora o advogado no sabia qual era sua fala. S sabia que a cortina se fecharia antes de ele terminar. Confuso, ele repassou a resposta de Peter na mente. No foi to ruim. Fez com que ele parecesse deprimido, solitrio. Voc pode salvar isso, pensou Jordan. Ele andou at Peter, tentando desesperadamente comunicar que ele precisava se concentrar, que precisava acompanh-lo. Ele tinha de mostrar ao jri que aquele garoto tinha escolhido ficar na frente deles para demonstrar remorso. -- Voc entende agora que no houve vencedores naquele dia, Peter? Jordan viu alguma coisa brilhar nos olhos de Peter. Uma pequena chama que renasceu: otimismo. Jordan tinha feito seu trabalho bem demais: depois de cinco meses dizendo para Peter que poderia conseguir a absolvio, que tinha uma estratgia, que sabia o que estava fazendo... Peter, maldito, tinha escolhido aquele momento para finalmente acreditar nele. -- O jogo ainda no acabou, certo? -- esperanoso para Jordan. Quando dois dos jurados olharam para o outro lado, Jordan lutou para se recompor. Andou at a mesa da defesa, xingando baixinho. Essa sempre disse Peter, e sorriu

fora a runa de Peter, no fora? Ele no fazia ideia da imagem que passava e de como soava para um observador comum, para a pessoa que no sabia que ele no estava ativamente tentando parecer um homicida, mas tentando compartilhar uma piada interna com um de seus nicos amigos. -- Sr. McAfee -- disse o juiz. -- O senhor tem mais alguma pergunta? Ele tinha mil: Como voc pde fazer isso comigo? Como pde fazer isso consigo mesmo? Como posso fazer esse jri entender que voc no estava falando do jeito que pareceu? Ele balanou a cabea, refletindo sobre seu curso de ao, e o juiz tomou isso como resposta. -- Sra. Leven? -- disse ele. A cabea de Jordan se ergueu de repente. Espere, ele queria dizer. Espere, eu ainda estava pensando , e prendeu a respirao. Se Diana perguntasse qualquer coisa a Peter, mesmo que fosse o segundo nome dele, ento ele teria a chance de voltar a perguntar. E certamente conseguiria deixar o jri com uma impresso bem diferente de Peter. Diana mexeu nas notas que estava tomando, mas as colocou viradas para baixo na mesa. -- O estado no tem mais perguntas, Meritssimo -- disse ela. O juiz Wagner chamou um meirinho. -- Leve o sr. Houghton de volta ao assento dele. Vamos fazer um recesso durante o fim de semana. Assim que o jri foi dispensado, o tribunal entrou em erupo com perguntas. Reprteres nadaram contra a corrente da plateia em direo 

rea do tribunal, na esperana de conseguirem um depoimento de Jordan. Ele pegou sua pasta e saiu rapidamente pela porta de trs, pela qual os meirinhos estavam levando Peter. -- Esperem -- gritou ele, correndo para mais perto dos homens, que estavam com Peter entre eles, de mos algemadas. -- Preciso falar com o meu cliente sobre segunda-feira. Os meirinhos trocaram um olhar e depois olharam para Jordan. -- Dois minutos -- disseram eles, mas no se afastaram. Se Jordan quisesse falar com seu cliente, essa era a nica circunstncia na qual conseguiria. O rosto de Peter estava vermelho e ele sorria. -- Eu me sa bem? Jordan hesitou, procurando o que dizer. -- Voc disse o que queria dizer? -- Disse. -- Ento se saiu bem -- disse Jordan. Ele ficou parado no corredor e viu os meirinhos levarem Peter. Antes de dobrar a esquina, o garoto ergueu as mos unidas em um aceno. Jordan assentiu com as mos nos bolsos. Ele saiu da cadeia por uma porta dos fundos e passou por trs vans da imprensa com antenas no alto como enormes pssaros brancos. Pela janela de trs de cada van, Jordan conseguia ver os produtores editando vdeos para o noticirio noturno. Seu rosto estava em cada monitor de TV.

Ele passou pela ltima van e ouviu pela janela aberta a voz de Peter. O jogo ainda no acabou. Jordan colocou a pasta por cima do ombro e andou um pouco mais rpido. -- Ah, acabou, sim -- disse ele. Selena fez para o marido o que ele chamava de Refeio do Carrasco, a mesma coisa que servia todas as noites anteriores ao argumento conclusivo: batata assada, como na expresso "Sua batata est assando". Com Sam j na cama, ela colocou um prato na frente de Jordan e se sentou diante dele. -- Eu nem sei o que dizer -- admitiu ela. Jordan afastou o prato de comida. -- Ainda no estou pronto pra isso. -- De que voc est falando? -- No posso terminar o caso com aquilo. -- Querido -- observou Selena -- , depois de hoje, voc no

conseguiria salvar esse caso nem com um corpo de bombeiros inteiro. -- No posso simplesmente desistir. Eu falei pro Peter que ele tinha chance. -- Ele virou o rosto angustiado para Selena. -- Fui eu quem o deixou subir no banco das testemunhas, mesmo sabendo que no devia. Tem que ter alguma coisa que eu possa fazer... alguma coisa que eu possa dizer pra que o testemunho do Peter no seja o ltimo na mente dos jurados.

Selena suspirou e puxou o prato. Pegou o garfo e a faca de Jordan e cortou um pedao para si, coberto de molho. -- Essa batata est tima, Jordan -- disse ela. -- Voc no sabe o que est perdendo. -- A lista de testemunhas -- disse Jordan, ficando de p e revirando uma pilha de papis na outra extremidade da mesa de jantar. -- Tem que ter algum que ainda no chamamos que possa nos ajudar. -- Ele olhou os nomes. -- Quem  Louise Herrman? -- A professora do Peter do terceiro ano -- disse Selena com a boca cheia. -- Por que diabos ela est na lista de testemunhas? -- Ela ligou pra gente -- disse Selena. -- Disse que, se

precisssemos dela, estaria disposta a testemunhar que ele era um bom menino no terceiro ano fundamental. -- Bom, isso no vai servir. Preciso de algum recente. -- Ele

suspirou. -- No tem mais ningum aqui... -- Ao virar para a segunda pgina, viu um nico nome. -- Exceto Josie Cormier -- disse Jordan lentamente. Selena colocou o garfo no prato. -- Voc vai chamar a filha da Alex? -- Desde quando voc chama a juza Cormier de Alex? -- A garota no lembra de nada. -- Bom, eu estou completamente ferrado. Talvez ela se lembre de alguma coisa agora. Vamos cham-la e ver se ela fala alguma coisa.

Selena mexeu nas pilhas de papis que cobriam a mesa, a prateleira acima da lareira, o andador de Sam. -- Eis a declarao dela -- disse, entregando o papel para Jordan. A primeira pgina era o depoimento que a juza Cormier tinha levado para ele, que dizia que Jordan no colocaria Josie no banco das testemunhas porque ela no sabia de nada. A segunda era a entrevista mais recente que a garota tinha dado a Patrick Ducharme. -- Eles so amigos desde o jardim de infncia. -- Eles eram amigos. -- No importa. A Diana j preparou a base aqui: o Peter estava a fim da Josie e matou o namorado dela. Se pudermos fazer com que a garota diga alguma coisa boa sobre ele, talvez at demonstrar que o perdoa, vai ter um peso perante o jri. -- Ele ficou de p. -- Vou voltar para o tribunal -- disse. -- Preciso de uma intimao. Quando a campainha tocou no sbado de manh, Josie ainda estava de pijama. Ela dormiu como um cadver, o que no era surpreendente, pois no tinha conseguido dormir bem a semana toda. Seus sonhos eram cheios de estradas apenas para cadeiras de rodas, de cadeados numricos sem nmeros, de meninas bonitas sem rosto. Ela era a nica pessoa que sobrara na sala isolada, o que significava que estava quase acabando, que, em breve, conseguiria respirar de novo. Josie abriu a porta e encontrou a bela e alta mulher afrodescendente, que era casada com Jordan McAfee, sorrindo para ela e segurando um pedao de papel.

-- Preciso te entregar isso, Josie -- disse ela. -- Sua me est em casa? Josie pegou o papel azul dobrado. Talvez fosse como uma festa de elenco para o final do julgamento. Isso seria legal. Ela chamou a me por cima do ombro. Alex apareceu com Patrick logo atrs. -- Ah -- disse Selena, piscando. Imperturbvel, a me cruzou os braos. -- O que est acontecendo? -- Juza, me desculpe incomod-la em um sbado, mas meu marido gostaria de saber se a Josie est livre para conversar com ele hoje. -- Por qu? -- Porque ele a intimou a testemunhar na segunda. O aposento comeou a girar. -- Testemunhar? -- repetiu Josie. Sua me deu um passo  frente, e, pela expresso em seu rosto, ela provavelmente teria provocado um srio dano se Patrick no tivesse passado o brao pela cintura dela para segur-la. Ele pegou o papel azul da mo de Josie e leu. -- No posso ir ao tribunal -- murmurou Josie. A me balanou a cabea. -- Voc tem um depoimento assinado pela Josie dizendo que ela no lembra de nada...

-- Eu sei que voc est preocupada. Mas a verdade  que o Jordan vai chamar a Josie na segunda, e gostaramos de conversar com ela antes sobre o testemunho, em vez de deix-la fazer tudo sozinha.  melhor pra ns e pra Josie. -- Ela hesitou. -- Voc pode fazer da maneira mais difcil, juza, ou pode fazer dessa maneira. A me de Josie contraiu o maxilar. -- s duas da tarde -- disse e bateu a porta na cara de Selena. -- Voc prometeu! -- gritou Josie. -- Voc prometeu que eu no ia ter que testemunhar. Voc disse que eu no ia precisar fazer isso! Alex a segurou pelos ombros. -- Querida, eu sei que  assustador. Sei que voc no quer ir l, mas nada que voc diga vai ajudar o Peter. Vai ser rpido e indolor. -- Ela olhou para Patrick. -- Por que diabos ele est fazendo isso? -- Porque o caso dele est descendo pela privada -- disse Patrick. -- Ele quer que a Josie o salve. Foi o que bastou: Josie comeou a chorar. Jordan abriu a porta do escritrio carregando Sam nos braos como uma bola de futebol americano. Eram duas horas da tarde em ponto quando Josie Cormier e a me chegaram. A juza Cormier parecia to receptiva quanto a parede de um penhasco; em contraste, a filha tremia como vara verde. -- Obrigado por virem -- disse ele, com um enorme sorriso simptico no rosto. Acima de tudo, ele queria que Josie se sentisse  vontade. Nenhuma das duas disse nada.

-- Peo desculpas por isso -- disse Jordan indicando Sam. -- Minha mulher j devia ter chegado pra pegar o beb pra podermos conversar, mas um caminho tombou na Autoestrada 10. -- Ele abriu ainda mais o sorriso. -- Ela deve chegar em um minuto. Ele indicou o sof e as cadeiras do escritrio, convidando-as a se sentar. Havia biscoitos na mesa e uma jarra de gua. -- Por favor, comam ou bebam alguma coisa. -- No -- disse a juza. Jordan se sentou, balanando o beb no joelho. -- Certo. Ele olhou para o relgio, impressionado com o quanto sessenta segundos podiam demorar quando voc queria que passassem rapidamente, e, de repente, a porta se abriu e Selena entrou correndo. -- Me desculpem, me desculpem -- disse ela apressada, pegando o beb. Quando fez isso, a bolsa de fraldas caiu de seu ombro e deslizou pelo cho, at parar na frente de Josie. A garota se levantou, olhando para a mochila cada de Selena, ento deu alguns passos para trs e esbarrou nas pernas da me e na lateral do sof. -- No -- choramingou e se encolheu no canto do sof, cobrindo a cabea com as mos ao irromper em lgrimas. O barulho fez Sam comear a berrar, e Selena o apertou contra o ombro enquanto Jordan observava sem palavras. A juza Cormier se agachou ao lado da filha.

-- Josie, qual  o problema? Josie? O que est acontecendo? A garota se balanava para frente e para trs, soluando. Ela olhou para a me. -- Eu lembro -- sussurrou ela. -- Mais do que falei que lembrava. O queixo da juza caiu, e Jordan usou o choque dela para aproveitar o momento. -- Do que voc se lembra? -- ele perguntou, ajoelhando-se ao lado de Josie. A juza Cormier o empurrou para longe e ajudou a filha a ficar de p. Depois, ajudou-a a se sentar no sof e lhe serviu um copo de gua da jarra que estava na mesa. -- Est tudo bem -- murmurou a juza. Josie respirou fundo, tremendo. -- A mochila -- disse ela, indicando o cho com o queixo. -- Ela caiu do ombro do Peter, que nem essa. O zper estava aberto e... uma arma caiu... e o Matt pegou. -- Seu rosto se contorceu. -- Ele atirou no Peter, mas errou. E o Peter... ele... -- Ela fechou os olhos. -- Foi nessa hora que o Peter atirou nele. Jordan olhou para Selena. A defesa de Peter era articulada em cima do TEPT, da forma como um evento podia desencadear outro, como uma pessoa traumatizada podia ser incapaz de se lembrar de qualquer coisa a respeito do acontecimento. Como algum como Josie podia ver uma mochila cair e lembrar o que tinha acontecido no vestirio meses antes. Peter com uma arma apontada para ele: uma ameaa real e presente, um agressor prestes a mat-lo.

Ou, em outras palavras, o que Jordan vinha dizendo o tempo todo. --  uma confuso -- disse Jordan para Selena depois que as duas Cormier foram embora. -- E pra mim est bom. Selena no tinha sado com o beb; Sam agora dormia em uma gaveta vazia de arquivo. Ela e Jordan estavam sentados  mesa onde, menos de uma hora antes, Josie confessara que tinha comeado a se lembrar de trechos do dia do tiroteio, mas que no tinha contado a ningum por medo de ter de ir ao tribunal. No entanto, quando a mochila caiu, as lembranas voltaram com fora total. -- Se eu tivesse descoberto isso antes do julgamento comear, teria levado pra Diana e usado taticamente -- disse Jordan. -- Mas, como o jri j est escolhido, talvez eu possa fazer algo ainda melhor. -- Nada como uma ltima tentativa desesperada -- disse Selena. -- Vamos supor que a gente coloque a Josie no banco das

testemunhas pra dizer isso tudo no tribunal. De repente, aquelas dez mortes no so o que pareciam ser. Ningum sabia a verdadeira histria por trs dos acontecimentos, e isso pe em xeque tudo o mais que a promotoria falou para o jri sobre os disparos. Em outras palavras, se o estado no sabia disso, o que mais no sabia? -- E -- observou Selena -- isso salienta o que King Wah disse. Ali estava um dos garotos que atormentavam Peter, segurando uma arma apontada pra ele, como ele sempre achou que aconteceria. -- Ela hesitou. --  verdade que foi o Peter quem levou a arma... -- Isso  irrelevante -- disse Jordan. -- No tenho que ter todas as respostas. -- Ele beijou Selena na boca. -- S preciso me certificar de que o estado tambm no tenha.

Alex estava sentada no banco vendo um grupo animado de universitrios jogar Frisbee como se no tivesse ideia de que o mundo tinha se partido. Ao seu lado, Josie abraava os joelhos contra o peito. -- Por que voc no me contou? -- perguntou Alex. Josie ergueu o rosto. -- Eu no podia. Voc era a juza do caso. Alex sentiu uma pontada no peito. -- Mas mesmo depois que eu me afastei, Josie... Quando fomos ver o Jordan e voc disse que no se lembrava de nada... Foi por isso que fiz voc assinar aquele depoimento. -- Pensei que era o que voc queria que eu fizesse -- disse Josie. -- Voc me disse que, se eu assinasse, no teria que ser testemunha... e eu no queria ir ao tribunal. No queria ver o Peter de novo. Um dos universitrios pulou, mas no conseguiu pegar o Frisbee. Ele voou na direo de Alex e pousou na terra a seus ps. -- Desculpa -- gritou o garoto, acenando. Alex o pegou e jogou. O vento levou o Frisbee ainda mais alto, como uma mancha contra o perfeito cu azul. -- Mame -- disse Josie, apesar de no chamar Alex assim havia anos. -- O que vai acontecer comigo? Ela no sabia. Nem como juza, nem como advogada, nem como me. A nica coisa que podia fazer era oferecer um bom conselho e esperar que a ajudasse no que ainda ia acontecer.

-- De agora em diante -- Alex disse a Josie --, tudo o que voc tem que fazer  falar a verdade. Patrick tinha sido chamado para uma negociao de refns de violncia domstica em Cornish e s chegou em Sterling perto de meianoite. Em vez de ir para a prpria casa, foi para a de Alex, que dava mais a sensao de casa, de qualquer maneira. Tinha tentado ligar para ela vrias vezes durante o dia para saber o que tinha acontecido com Jordan McAfee, mas no conseguia sinal de celular onde estava. Ele a encontrou sentada no escuro, no sof da sala, e se sentou ao lado dela. Por um momento, ficou olhando para a parede, como Alex. -- O que estamos fazendo? -- ele sussurrou. Ela o encarou, e foi quando ele percebeu que ela estava chorando. Ele se culpou. Voc devia ter se esforado mais pra ligar, devia ter voltado mais cedo . -- Qual  o problema? -- Eu fiz besteira, Patrick -- disse Alex. -- Pensei que estava ajudando. Pensei que sabia o que estava fazendo. No fim das contas, eu no sabia de nada. --  a Josie? -- ele perguntou, tentando encaixar as peas. -- Onde ela est? -- Dormindo. Dei um comprimido pra ela. -- Quer conversar sobre isso? -- Ns fomos ver o Jordan McAfee hoje e a Josie contou pra ele... Ela contou pra ele que se lembrava de uma coisa sobre o tiroteio. Na verdade, ela se lembrava de tudo.

Patrick assobiou baixinho. -- Ento ela estava mentindo? -- No sei. Acho que estava com medo. -- Alex ergueu o olhar para Patrick. -- Isso no  tudo. De acordo com a Josie, o Matt atirou no Peter primeiro. -- O qu? -- A mochila que o Peter estava carregando caiu na frente do Matt e ele pegou uma das armas. Atirou, mas errou. Patrick passou a mo no rosto. Diana Leven no ia ficar feliz. -- O que vai acontecer com a Josie? -- disse Alex. -- Na melhor das hipteses, ela sobe no banco e a cidade toda passa a odi-la por testemunhar a favor do Peter. Na pior, ela comete perjrio e  indiciada por isso. Os pensamentos de Patrick estavam a mil. -- Voc no pode se preocupar com isso. No est nas suas mos. Alm do mais, a Josie vai ficar bem. Ela  uma sobrevivente. Ele se inclinou e a beijou suavemente nos lbios, para fugir de coisas que ainda no podia contar a ela e de promessas que tinha medo de fazer. Ele a beijou at sentir a rigidez da coluna dela sumir. -- Voc devia tomar um desses comprimidos pra dormir -- ele sussurrou. Alex inclinou a cabea. -- Voc no vai ficar?

-- No posso. Ainda tenho trabalho pra fazer. -- Voc veio at aqui pra me dizer que vai embora? Patrick olhou para ela, desejando poder explicar o que tinha de fazer. -- Vejo voc mais tarde, Alex -- disse ele. Alex tinha confiado nele, mas, como juza, sabia que Patrick no podia guardar seu segredo. Na manh de segunda, quando ele se encontrasse com a promotora, teria de contar a Diana o que sabia agora sobre Matt Royston ter dado o primeiro tiro no vestirio. Legalmente, ele era obrigado a revelar esse novo dado. No entanto, tecnicamente, ele tinha o domingo inteiro para fazer o que quisesse com a informao. Se Patrick conseguisse encontrar provas que sustentassem as alegaes de Josie, o golpe sobre ela no banco das testemunhas seria menor -- e isso o tornaria um heri aos olhos de Alex. Mas havia outra parte dele que queria examinar o vestirio de novo por outro motivo. Patrick sabia que tinha vasculhado pessoalmente aquele pequeno espao em busca de provas e que nenhuma outra bala tinha sido encontrada. E se Matt tivesse atirado em Peter primeiro, tinha que haver uma. Ele no quis dizer para Alex, mas Josie tinha mentido para eles uma vez. No havia motivo para no estar fazendo isso de novo. s seis da manh, a Sterling High School era um gigante adormecido. Patrick destrancou a porta da frente e percorreu os corredores no escuro. Tinham sido limpos por uma equipe profissional, mas isso no o impedia de ver, na luz da lanterna, os pontos onde as balas tinham quebrado janelas e o sangue tinha manchado o cho. Ele se moveu rapidamente, com os saltos das botas ecoando, empurrou as lonas azuis da equipe de reforma e desviou de pilhas de madeira.

Abriu as portas duplas do ginsio e andou desviando das marcas em cdigo Morse nas placas de poliuretano. Mexeu em interruptores, e o ginsio se encheu de luz. Na ltima vez em que estivera l, havia cobertores de emergncia no cho, correspondentes aos nmeros marcados na testa de Noah James, Michael Beach, Justin Friedman, Dusty Spears e Austin Prokiov. Havia tcnicos de cena criminal agachados, tirando fotos de marcas nos blocos de cimento, arrancando balas da placa da cesta de basquete. Ele tinha passado horas na delegacia, sua primeira parada depois de sair da casa de Alex, avaliando a digital aumentada que havia na Arma B. Uma digital inconclusiva; uma que ele tinha suposto, preguiosamente, ser de Peter. Mas, e se fosse de Matt? Ser que havia outra maneira de provar que Royston tinha segurado a arma, como Josie alegava? Patrick tinha observado a digital tirada do corpo de Matt e a comparado em todas as posies  digital parcial, at as linhas e curvas se mancharem ainda mais do que deviam. Se ele ia encontrar provas, tinha que ser na prpria escola. O vestirio estava exatamente como a foto que ele usara durante seu testemunho no comeo da semana, exceto pelo fato de que os corpos, claro, tinham sido removidos. Diferentemente dos corredores e salas de aula, o vestirio no tinha sido limpo nem reformado. A pequena rea estava muito danificada, no fisicamente, mas psicologicamente, e a administrao tinha concordado unanimemente em destru-la, assim como o restante do ginsio e o refeitrio, no final daquele ms. O vestirio era um retngulo. A porta que levava a ele, vinda do ginsio, ficava no meio de uma longa parede. Havia um banco de madeira bem em frente, e uma fileira de armrios de metal. No canto esquerdo do

vestirio havia uma pequena porta que levava a chuveiros comunitrios. Nesse canto, o corpo de Matt tinha sido encontrado, com Josie deitada ao seu lado; a nove metros de distncia, no canto direito do vestirio, Peter estava agachado. A mochila azul estava cada  esquerda da porta. Se Patrick resolvesse acreditar em Josie, ento Peter tinha entrado no vestirio correndo, onde Josie e Matt tinham ido se esconder. Presumivelmente, ele segurava a Arma A. Ele soltou a mochila, e Matt, que devia estar de p no meio do vestirio, perto o bastante para conseguir alcan-la, pegou a Arma B. Matt atirou em Peter e errou, mas a bala, que provava que a Arma B tinha sido disparada, nunca foi encontrada. Quando tentou atirar de novo, a arma emperrou. Naquele momento, Peter atirou nele duas vezes. O problema era que o corpo de Matt tinha sido encontrado a pelo menos quatro metros e meio da mochila de onde ele havia pegado a arma. Por que Matt teria se afastado e depois atirado em Peter? No fazia sentido. Era possvel que os disparos de Peter tivessem mandado o corpo de Matt para longe, mas a fsica bsica dizia para Patrick que um tiro disparado de onde Peter estava no teria enviado Matt para onde ele tinha sido encontrado. Alm disso, no havia mancha de sangue que sugerisse que Matt estava perto da mochila quando foi atingido por Peter. Ele caiu no local onde levou o tiro. Patrick andou em direo  parede onde tinha apreendido Peter. Comeou no canto superior e passou os dedos metodicamente por cada fissura e reentrncia, pelas extremidades de armrios e dentro deles, nas dobras das paredes perpendiculares. Rastejou para baixo do banco de madeira e revistou aquela rea. Apontou a lanterna para o teto. Em um ambiente to pequeno, qualquer bala disparada por Matt deveria ter

causado dano o suficiente para ser perceptvel, mas, ainda assim, no havia evidncia nenhuma de que qualquer arma tivesse sido disparada sucessivamente na direo de Peter. Patrick andou at o canto oposto do vestirio. Ainda havia uma mancha escura no cho e uma marca de bota feita com sangue seco. Ele passou por cima da mancha e entrou na rea dos chuveiros, repetindo a mesma investigao meticulosa da parede azulejada que estaria atrs de Matt. Se ele encontrasse a bala desaparecida ali, onde o corpo de Matt estava, ento Matt claramente no teria sido quem disparara a Arma B; teria de ser Peter a portar aquela arma, assim como a Arma A. Ou, em outras palavras: Josie estaria mentindo para Jordan McAfee. Aquele era um trabalho fcil, porque os azulejos eram brancos e impecveis. No havia rachaduras nem falhas, nada lascado, nada que sugerisse que uma bala tinha passado pela barriga de Matt e atingido a parede do chuveiro. Patrick se virou, olhando em lugares que no faziam sentido: em cima do chuveiro, no teto, no ralo. Tirou os sapatos e meias e andou pelo cho dos chuveiros. Quando passou o dedinho do p no contorno do ralo, ele sentiu. Patrick ficou de quatro e tateou na beirada de metal. Havia um arranho longo e spero no azulejo que contornava a grade do ralo. Seria fcil passar despercebido por causa da localizao; os tcnicos que viram devem ter suposto que era rejunte. Ele esfregou com o dedo e olhou dentro do ralo com a lanterna. Se a bala tivesse entrado, j estaria longe; por outro lado, buracos de ralo eram pequenos o bastante para isso no ser possvel.

Patrick abriu um armrio, pegou um quadrado pequeno de espelho e o colocou virado para cima no cho do chuveiro, onde havia a marca de arranho. Em seguida, apagou as luzes e pegou uma lanterna de laser. Ficou onde Peter tinha sido preso, apontou a luz para o espelho e a viu refletir na parede mais distante dos chuveiros, onde no havia marca de bala. Ele foi caminhado em crculo e continuou a apontar a luz at que ela ricocheteou para cima, pelo centro de uma pequena janela que servia de ventilao. Ele se ajoelhou e marcou o ponto onde estava com um lpis que tirou do bolso. Em seguida, pegou o celular. -- Diana -- disse ele quando a promotora atendeu -- , no deixe o julgamento comear amanh. -- Sei que  incomum -- disse Diana no tribunal na manh seguinte -- e que temos um jri aqui, mas preciso pedir recesso at o meu detetive chegar. Ele est investigando uma nova informao no caso... possivelmente algo escusatrio. -- A senhora ligou pra ele? -- perguntou o juiz Wagner. -- Vrias vezes. Patrick no estava atendendo o telefone. Se estivesse, ela poderia ter dito diretamente o quanto queria mat-lo. -- Vou ter que protestar, Meritssimo -- disse Jordan. -- Estamos prontos para seguir em frente. Tenho certeza de que a sra. Leven vai me dar a informao escusatria, se e quando chegar, mas estou disposto a arriscar neste ponto. E, j que estamos todos aqui, eu gostaria de acrescentar que tenho uma testemunha pronta para depor agora.

-- Que testemunha? -- disse Diana. -- Voc no tem mais ningum pra chamar. Ele sorriu para ela. -- A filha da juza Cormier. Alex estava sentada do lado de fora do tribunal, segurando com fora a mo de Josie. -- Vai acabar antes de voc perceber. Alex sabia que a grande ironia daquilo era que, meses atrs, quando lutara tanto para ser a juza naquele caso, foi porque se sentia mais  vontade oferecendo consolo legal  filha do que consolo emocional. Bem, ali estava ela, e Josie estava prestes a testemunhar na arena que Alex conhecia melhor do que qualquer outra pessoa, e ainda no tinha nenhum grande conselho judicial que pudesse ajud-la. Seria assustador. Seria doloroso. E tudo o que Alex podia fazer era v-la sofrer. Um meirinho se aproximou. -- Juza -- disse ele. -- Se a sua filha estiver pronta... Alex apertou a mo de Josie. -- Apenas conte a eles o que voc sabe -- disse ela, e ficou de p para ir se sentar na plateia. -- Me? -- Josie chamou e Alex se virou. -- E se o que voc sabe no  o que as pessoas querem ouvir? Alex tentou sorrir.

-- Conte a verdade -- disse ela. -- Assim voc no tem como perder. Para agir de acordo com a lei das provas, Jordan entregou a Diana a sinopse do testemunho de Josie quando ela estava indo para o banco. -- Quando voc conseguiu isso? -- sussurrou a promotora. -- Este fim de semana. Lamento -- disse ele, apesar de no lamentar verdadeiramente. Ele andou na direo de Josie, que parecia pequena e plida. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo arrumado e suas mos estavam unidas no colo. Ela estava deliberadamente evitando o olhar de qualquer pessoa e concentrando sua ateno nas marcas da madeira na grade ao redor do banco das testemunhas. -- Voc pode dizer o seu nome? -- Josie Cormier. -- Onde voc mora, Josie? -- Em East Prescott Street, 45, em Sterling. -- Quantos anos voc tem? -- Dezessete -- disse ela. Jordan deu um passo para mais perto, de forma que s ela pudesse ouvi-lo. -- Est vendo? -- murmurou ele. -- Moleza. Ele piscou para ela, e achou que talvez ela tivesse sorrido um pouquinho.

-- Onde voc estava na manh do dia 6 de maro de 2007? -- Eu estava na escola. -- Que aula voc teve no primeiro tempo? -- Ingls -- disse Josie baixinho. -- E no segundo tempo? -- Matemtica. -- E no terceiro? -- Tive tempo vago. -- Onde voc passou o tempo vago? -- Com o meu namorado -- disse ela. -- Matt Royston. Ela olhou para o lado, piscando muito rpido. -- Onde voc e o Matt estavam no terceiro tempo? -- A gente saiu do refeitrio pra ir at o armrio dele, antes da aula seguinte. -- O que aconteceu nessa hora? Josie olhou para o colo. -- Teve muito barulho. E as pessoas comearam a correr. Algumas pessoas gritavam sobre armas, que tinha algum com uma arma. Um amigo nosso, Drew Girard, contou que era o Peter. Ela ergueu o olhar nesse momento, e seus olhos se encontraram com os de Peter. Por um bom tempo, ela apenas olhou para ele, mas depois fechou os olhos e se virou.

-- Voc sabia o que estava acontecendo? -- No. -- Viu algum atirando? -- No. -- Para onde vocs foram? -- Pro ginsio. Atravessamos o ginsio em direo ao vestirio. Eu sabia que ele estava chegando perto, porque conseguia ouvir os tiros. -- Quem estava com voc quando voc entrou no vestirio? -- Pensei que eram o Drew e o Matt, mas, quando me virei, percebi que o Drew no estava mais com a gente. Ele tinha levado um tiro. -- Voc viu o Drew levando um tiro? Josie balanou a cabea. -- No. -- Voc viu o Peter antes de entrar no vestirio? -- No. Seu rosto se franziu e ela limpou os olhos. -- Josie -- disse Jordan -- , o que aconteceu depois?

10h16 do dia fatidico

A

baixa -- sibilou Matt, e empurrou Josie de forma que ela caiu atrs do banco de madeira.

No era um bom lugar para se esconder, mas na verdade nenhum lugar no vestirio era bom. O plano de Matt era pular pela janela do chuveiro, e ele at a abrira, mas ento eles ouviram os tiros no ginsio e se deram conta de que no tinham tempo de arrastar o banco at l e subir. Eles tinham se encurralado, literalmente. Ela se encolheu, e Matt se agachou na frente dela. Seu corao saltava contra as costas dele, e ela sempre se esquecia de respirar. Ele esticou a mo para trs at encontrar a dela. -- Se alguma coisa acontecer, Jo -- sussurrou ele -- , saiba que eu te amei. Josie comeou a chorar. Ela ia morrer; todos eles iam morrer. Ela pensou em mil coisas que ainda no tinha feito e queria tanto fazer: ir para a Austrlia, nadar com golfinhos. Apender a letra inteira de "Bohemian Rhapsody". Formar-se. Casar-se. Ela secou o rosto nas costas da camisa de Matt, e, naquele momento, a porta do vestirio se abriu. Peter cambaleou para dentro, com olhos enlouquecidos, segurando uma arma. Seu tnis esquerdo estava desamarrado, Josie percebeu, mas no conseguia acreditar que tinha

reparado nisso. Ele apontou a arma para Matt, e ela no conseguiu evitar: gritou. Talvez tenha sido o barulho, talvez tenha sido a voz dela, mas Peter levou um susto e deixou a mochila cair. Ela escorregou por seu ombro, e, com isso, outra arma caiu de uma parte aberta. A arma deslizou pelo cho e parou logo atrs do p esquerdo de Josie. Voc sabe aqueles momentos em que o mundo se move to devagar que voc consegue sentir seus ossos se mexendo, sua mente disparando? Quando voc acha que, no importa o que acontea com voc pelo resto da vida, voc vai se lembrar de cada detalhe daquele minuto para sempre? Josie viu sua mo se esticar e seus dedos se curvarem ao redor do cabo preto da arma. Segurando-a sem jeito, ela cambaleou at ficar em p e apontou a arma para Peter. Matt andou de costas em direo aos chuveiros, sob a proteo de Josie. Peter segurava a arma com firmeza, apontando-a para Matt, apesar de Josie estar mais perto. -- Josie -- disse ele -- , me deixa terminar isso. -- Atira nele, Josie -- disse Matt. -- Atira nele, porra. Peter puxou o ferrolho da arma para que uma bala do cartucho entrasse em posio. Josie o observou com ateno e imitou seus gestos. Ela se lembrava de estar no maternal com Peter, da forma como os outros garotos pegavam varetas ou pedras e corriam a esmo grit ando "Mos ao alto". Para que ela e Peter usavam as varetas? Ela no conseguia lembrar.

-- Josie, pelo amor de Deus! -- Matt estava suando, com os olhos arregalados. -- Voc  burra, porra? -- No fala assim com ela! -- gritou Peter. -- Cala a boca, babaca -- disse Matt. -- Voc acha que ela vai te salvar? -- E se virou para Josie. -- O que voc est esperando? Atira. E ela atirou. Quando a arma disparou, arrancou duas tiras da pele dela, na base do polegar. Suas mos saltaram para cima, dormentes, latejando. O sangue era preto na camiseta cinza de Matt. Ele ficou parado por um momento, chocado, com a mo sobre o ferimento na barriga. Ela viu a boca dele se fechar ao redor do nome dela, mas no conseguia ouvir de to alto que seus ouvidos zumbiam. Josie?, e ele caiu no cho. A mo de Josie comeou a tremer violentamente; ela no ficou surpresa quando a arma caiu, to singularmente repelida por seu toque quanto tinha ficado grudada a ele momentos antes. -- Matt! -- gritou ela, correndo em direo a ele. Apertou as mos por cima do sangue, porque era isso que se devia fazer, no era?, mas ele se contorceu e gritou de dor. Comeou a sair sangue de sua boca e a escorrer pelo pescoo. -- Faz alguma coisa -- ela soluou, virando-se para Peter. -- Me ajuda. Peter chegou mais perto, ergueu a arma que estava segurando e atirou na cabea de Matt. Horrorizada, ela se arrastou para trs, para longe dos dois. No era isso que ela quis dizer; no podia ter sido isso que ela quis dizer.

Ela olhou fixamente para Peter e se deu conta de que, naquele momento, quando no estava pensando, ela soube exatamente o que ele sentira quando caminhara pela escola com a mochila e as armas. Cada aluno da escola tinha um papel: atleta, nerd, beldade, aberrao. Tudo que Peter tinha feito era o que todos secretamente sonhavam em fazer: mesmo que por apenas dezenove minutos, ser algum que ningum tinha permisso de julgar. -- No conte -- sussurrou Peter, e Josie percebeu que ele estava lhe oferecendo uma sada, um pacto selado em sangue, uma parceria de silncio. No vou contar seu segredo se voc no contar o meu . Josie assentiu lentamente, e o mundo ficou preto.

Acho que a vida de uma pessoa deveria ser como um DVD. Voc poderia ver a verso que todo mundo v ou poderia escolher a verso do diretor -- o modo como ele queria que voc visse antes de todo o resto atrapalhar. Provavelmente haveria um menu, para que voc pudesse comear dos pontos bons e no tivesse que reviver os ruins. Voc poderia medir sua vida pelo nmero de cenas s quais sobreviveu, ou pelos minutos em que ficou preso nelas. Mas, provavelmente, a vida  mais como uma daquelas filmagens idiotas de segurana. Granulada, no importa quanto voc se esforce para olhar. E repetida: as mesmas coisas sem parar.

Cinco meses depois
meio  multido estavam os Royston, que tinham acabado de saber que seu filho tinha levado um tiro da filha dela, mas ela no podia pensar nisso agora. S conseguia ver Josie, presa no banco das testemunhas, enquanto Alex lutava para passar pela grade. Ela era juza, caramba; devia ter permisso de ir at l, mas dois meirinhos a seguraram com firmeza. Wagner estava batendo com o martelo, mas ningum se importou. -- Vamos fazer um recesso de quinze minutos -- ordenou ele, e, quando outro meirinho levou Peter por uma porta nos fundos, o juiz se virou para Josie. -- juramento. Alex viu Josie ser levada por outra porta e gritou por ela. Um momento depois, Eleanor estava ao seu lado. A escriv pegou o brao de Alex. -- Juza, venha comigo. A senhora no est em segurana aqui agora. Segundo suas lembranas, pela primeira vez na vida Alex se permitiu ser guiada. Patrick chegou ao tribunal quando ele explodia. Viu Josie no banco das testemunhas, chorando desesperadamente; viu o juiz Wagner lutando Mocinha -- disse ele --, voc ainda est sob

A

lex passou pelas pessoas na plateia, que tinham se agitado logo aps a confisso de Josie. Em algum lugar em

para manter o controle; mas, acima de tudo, viu Alex obstinadamente tentando chegar at a filha. Ele teria puxado a arma naquele momento e naquele local para ajudla. Quando chegou ao corredor central do tribunal, Alex tinha sumido. Ele a viu de relance quando ela entrou em uma sala atrs da cadeira do juiz, e pulou por cima da grade para ir atrs, mas sentiu algum lhe segurar a manga. Irritado, olhou para o lado e viu Diana Leven. -- Que diabos est acontecendo? -- perguntou ele. -- Voc primeiro. Ele suspirou. -- Passei a noite na Sterling High tentando comprovar a veracidade da declarao da Josie. No fazia sentido. Se o Matt tivesse atirado no Peter, teria marcas na parede atrs dele. Supus que ela estava mentindo de novo, que o Peter tinha atirado no Matt sem ter sido provocado. Quando descobri o local que aquela primeira bala atingiu, usei uma lanterna de laser para ver onde poderia ter ricocheteado, e entendi por que no a encontramos da primeira vez. Ele enfiou a mo no casaco e pegou um saquinho plstico com um cartucho de bala dentro. -- O corpo de bombeiros me ajudou a retirar de um bordo em frente  janela do chuveiro. Fui direto pro laboratrio pra fazer o teste, e fiquei em cima deles a noite inteira at que concordassem em fazer imediatamente. No s a bala foi disparada da Arma B, mas tambm tem sangue e tecido compatveis com Matt Royston. A questo  que, quando voc reverte o

ngulo daquela bala, quando voc fica na rvore e ricocheteia o laser no azulejo onde bateu, para ver de onde ela saiu, voc no chega nem perto de onde o Peter estava. Foi... A promotora suspirou pesadamente. -- A Josie acabou de confessar que atirou no Matt Royston. -- Bom -- disse Patrick, entregando o saquinho para Diana --, ela finalmente est falando a verdade. Jordan se encostou nas barras da cela. -- Voc esqueceu de me contar isso? -- No -- disse Peter. Ele se virou. -- Sabe, se voc tivesse mencionado isso no comeo, seu caso poderia ter um resultado muito diferente. Peter estava deitado no banco em sua cela, com as mos atrs da cabea. Para a surpresa de Jordan, estava sorrindo. -- Ela era minha amiga de novo -- explicou Peter. -- No se quebra uma promessa pra uma amiga. Alex estava no escuro, na sala de reunies para onde os rus costumavam ser levados durante os intervalos, e se deu conta de que a filha agora se qualificava como tal. Haveria outro julgamento, e dessa vez Josie seria o centro dele. -- Por qu? -- perguntou. Ela s conseguia ver o contorno do perfil de Josie.

-- Porque voc me mandou falar a verdade. -- Qual  a verdade? -- Eu amava o Matt. E tambm odiava. Eu me odiava por am-lo, mas, se no estivesse com ele, eu no era mais ningum. -- Eu no entendo... -- Como voc poderia entender? Voc  perfeita. -- Josie balanou a cabea. -- O resto de ns... somos todos como o Peter. Alguns apenas disfaram melhor. Qual  a diferena entre passar a vida tentando ser invisvel e fingindo ser a pessoa que voc acha que todo mundo quer que voc seja? Seja como for,  fingimento. Alex pensou em todas as festas a que fora em que a primeira pergunta que lhe faziam era "O que voc faz?", como se isso fosse o bastante para definir quem voc . Ningum perguntava quem voc realmente era porque isso mudava. Voc podia ser juza, me ou sonhadora. Podia ser solitria, visionria ou pessimista. Podia ser a vtima e podia ser o agressor. Podia ser o pai e tambm o filho. Podia ferir um dia e se curar no seguinte. No sou perfeita, pensou Alex, e talvez esse tenha sido o primeiro passo para ficar assim. -- O que vai acontecer comigo? -- perguntou Josie, a mesma

pergunta que tinha feito um dia antes, quando Alex se achava qualificada para dar respostas. -- O que vai acontecer com a gente -- corrigiu Alex. Um sorriso surgiu no rosto de Josie, mas se foi quase to rapidamente quanto surgiu.

-- Eu perguntei primeiro. A porta da sala de reunies se abriu e a luz do corredor entrou, delineando o que viria depois. Alex pegou a mo da filha e respirou fundo. -- Vamos ver -- disse ela. Peter foi condenado por oito homicdios qualificados e dois homicdios privilegiados. O jri decidiu que, no caso de Matt Royston e Courtney Ignatio, ele no agiu com premeditao e deliberao. Tinha sido provocado. Depois que o veredito foi dado, Jordan se reuniu com Peter na cela. Ele seria levado para a cadeia apenas at a audincia da sentena; depois, seria transferido para a priso estadual em Concord. Cumpriria oito sentenas consecutivas por assassinato e no sairia de l vivo. -- Voc est bem? -- perguntou Jordan, colocando a mo no ombro de Peter. -- Estou. -- Ele deu de ombros. -- Eu meio que sabia que isso ia acontecer. -- Mas eles ouviram voc. Foi por isso que deram o veredito de

homicdio privilegiado para dois casos. -- Acho que eu preciso te agradecer por ter tentado. -- Ele deu um sorriso torto para Jordan. -- Tenha uma boa vida. -- Vou te visitar quando for a Concord -- disse Jordan. Ele olhou para Peter. Nos seis meses desde que aquele caso cara em seu colo, seu cliente havia crescido. Peter estava to alto quanto Jordan agora. Devia pesar um pouco mais. Tinha voz grave, uma sombra de barba

no queixo. Jordan ficou impressionado de s ter percebido essas coisas agora. -- Bom -- disse ele -- , uma pena no ter sido como eu esperava. -- Tambm acho. Peter esticou a mo, mas Jordan o abraou. -- Se cuida. Ele estava saindo da cela quando Peter o chamou. Estava segurando os culos que Jordan tinha levado para ele, para o julgamento. -- So seus -- disse Peter. -- Fique com eles. Tm mais utilidade pra voc. Peter colocou os culos no bolso da frente do palet de Jordan. -- Eu gosto de saber que voc est cuidando deles -- disse. -- E no tem tanta coisa assim que eu queira ver. Jordan assentiu. Saiu da cela e se despediu dos policiais. Em seguida, foi para o saguo, onde Selena o aguardava. Quando ele se aproximou dela, colocou os culos de Peter. -- Pra que isso? -- ela perguntou. -- Eu meio que gosto deles. -- Mas voc tem uma viso perfeita -- observou Selena. Jordan pensou na maneira como as lentes faziam o mundo se curvar nas extremidades, de forma que ele tinha que se mover com mais cautela.

-- Nem sempre -- disse ele. Nas semanas seguintes ao julgamento, Lewis comeou a brincar com nmeros. Tinha feito algumas pesquisas preliminares e os colocou no STATA para ver que tipos de padres surgiam. E, o que era interessante, no tinha nada a ver com felicidade. Ele tinha comeado a observar comunidades em que tiroteios escolares tinham acontecido no passado e ver como estavam no presente, para verificar como um nico ato de violncia podia afetar a estabilidade econmica. Ou, em outras palavras, quando o mundo era puxado debaixo dos seus ps, voc voltava a pisar em terra firme novamente? Voltara a dar aulas na Faculdade de Sterling, de microeconomia bsica. As aulas tinham comeado no fim de setembro, e Lewis se viu entrando com facilidade no circuito de palestrantes. Quando estava falando sobre modelos keynesianos, widgets e competio, tudo era rotina; to simples que ele quase conseguia se convencer de que aquele era como outro curso de pesquisa qualquer que dera para calouros no passado, antes de Peter ser condenado. Lewis ensinava andando pelos corredores da sala -- um mal

necessrio, agora que o campus tinha wifi e os alunos jogavam pquer online ou mandavam mensagens instantneas uns para os outros enquanto ele falava -- , e foi assim que viu os garotos no fundo. Dois jogadores de futebol americano estavam se revezando em apertar uma garrafa com bico para que a gua fizesse um arco e molhasse a nuca de outro garoto. Este, que estava duas fileiras na frente, ficava se virando para ver quem estava fazendo isso, mas ento os atletas olhavam para os grficos na tela na frente da sala, com o rosto to inocente quanto o de cantores de coral.

-- Agora -- disse Lewis, sem hesitar -- , quem pode me dizer o que acontece se voc coloca o preo acima do ponto A no grfico? -- e pegou a garrafa de gua das mos de um dos atletas. -- Obrigado, sr. Graves. Eu estava ficando com sede. O garoto duas fileiras  frente ergueu a mo como uma flecha, e Lewis assentiu para ele. -- Ningum iria querer comprar o widget por tanto dinheiro -- disse ele. -- Assim, a demanda cairia, e isso significa que o preo teria que cair, seno eles acabariam com excesso nos armazns. -- Excelente -- disse Lewis, e olhou para o relgio. -- Muito bem, pessoal, na segunda vamos falar do prximo captulo de Mankiw. E no fiquem surpresos se tiver um teste-surpresa. -- Se voc conta, no  mais surpresa -- observou uma garota. Lewis sorriu. -- Ops. Ele ficou parado ao lado da cadeira do garoto que tinha dado a resposta certa. O aluno estava colocando o livro na mochila, to cheia de papis que o zper no fechava. Seu cabelo era longo demais, e sua camiseta tinha uma foto de Einstein. -- Bom trabalho hoje. -- Obrigado. -- O garoto se mexeu com desconforto, e Lewis

percebeu que ele no sabia bem o que dizer. Ento o garoto esticou a mo. -- Humm...  um prazer te conhecer. Quer dizer, voc j conhecia todos ns, mas no, tipo, pessoalmente.

-- Certo. Qual  mesmo o seu nome? -- Peter. Peter Granford. Lewis abriu a boca para falar, mas apenas balanou a cabea. -- O qu? -- disse o garoto, abaixando a cabea. -- Voc fez uma cara de quem ia dizer alguma coisa importante. Lewis olhou para aquele homnimo, para o modo como ele mantinha os ombros encolhidos, como se no merecesse tanto espao no mundo. Sentiu aquela dor familiar que parecia um martelo sobre seu peito sempre que pensava em Peter, em uma vida que se perderia na priso. Desejou ter passado mais tempo olhando para o filho quando ele estava bem na sua frente, porque agora seria forado a compensar isso com lembranas imperfeitas, ou, at pior, a encontrar o filho no rosto de estranhos. Lewis buscou dentro de si um sorriso que guardava para momentos assim, quando no havia absolutamente nada para faz-lo feliz. -- Era importante -- disse ele. -- Voc me lembra uma pessoa que eu conheci. Lacy levou trs semanas para reunir coragem para entrar no quarto de Peter. Agora que o veredito tinha sido dado, agora que sabiam que o filho jamais voltaria para casa, no havia razo para mant-lo como ela tinha feito nos ltimos cinco meses: um santurio de otimismo. Ela se sentou na cama do filho e levou seu travesseiro ao rosto. Ainda tinha o cheiro dele, e ela se perguntou quanto tempo demoraria para se dissipar. Olhou ao redor, para os livros espalhados nas prateleiras, os que a polcia no tinha levado. Abriu a gaveta da mesa de cabeceira e passou o dedo em um marcador de livros com um pompom na ponta, nos dentes de

metal de um grampeador. Na barriga vazia de um controle remoto de televiso sem as pilhas. Em uma lente de aumento. Em um velho mao de cartas de Pokmon, em um truque de mgica, em um pen drive preso em um chaveiro. Lacy pegou a caixa que tinha trazido do poro e colocou cada coisa dentro. Ali estava a cena do crime: olhe o que foi deixado para trs e tente recriar o garoto. Ela dobrou a colcha dele, depois os lenis, e tirou a fronha do travesseiro. Lembrou-se repentinamente de uma conversa durante o jantar em que Lewis lhe contara que, por dez mil dlares, voc podia destruir uma casa com uma bola de demolio. Imagine quanto menos era preciso para destruir uma coisa do que para constru-la: em menos de uma hora, aquele quarto ficaria como se Peter nunca tivesse morado ali. Quando tudo estava em uma pilha organizada, Lacy se sentou na cama e olhou para as paredes vazias, com a tinta um pouco mais forte nos pontos onde antes havia os psteres. Ela tocou no desenho no colcho e se perguntou por quanto tempo continuaria a pensar nele como sendo de Peter. O amor deveria mover montanhas, fazer o mundo girar, ser tudo que voc precisa, mas ele desmoronava nos detalhes. No conseguiu salvar uma nica criana. Nem as que foram para a Sterling High naquele dia esperando um dia normal, nem Josie Cormier, e certamente nem Peter. Ento, qual era a receita? Amor misturado com outra coisa para garantir? Sorte? Esperana? Perdo? De repente ela se lembrou do que Alex Cormier dissera durante o julgamento: "Uma coisa ainda existe desde que haja algum pra lembrar".

Todo mundo se lembraria de Peter por dezenove minutos da vida dele, mas e os outros nove milhes? Lacy teria que ser a guardi deles, porque era o nico jeito de essa parte de Peter ficar viva. Para cada lembrana dele que envolvia uma bala ou um grito, ela teria cem outras: de um garotinho pulando em uma poa, ou andando de bicicleta pela primeira vez, ou acenando do alto do trepa-trepa no parquinho. De um beijo de boa-noite, de um carto de Dia das Mes feito com giz de cera ou de uma msica desafinada no chuveiro. Ela os teceria, os momentos em que seu filho tinha sido igual ao de todo mundo. Ela os usaria como prolas preciosas todos os dias de sua vida, porque, se os perdesse, ento o garoto que ela amara e criara e conhecera realmente teria partido. Lacy comeou a esticar os lenis na cama de novo. Arrumou a colcha, prendeu as pontas, amaciou o travesseiro. Colocou os livros nas prateleiras, e os brinquedos, ferramentas e enfeites de volta na mesa de cabeceira. Por fim, desenrolou os psteres e os recolocou nas paredes. Teve o cuidado de colocar as tachinhas nos buracos originais. Assim, no estaria provocando mais danos. Exatamente um ms depois do veredito, quando as luzes ficaram mais fracas e os agentes penitencirios deram uma ltima olhada no corredor, Peter tirou a meia direita. Ele se virou de lado na cama de baixo, para ficar de frente para a parede. Enfiou a meia na boca, o mais fundo que conseguiu. Quando ficou difcil de respirar, ele comeou a sonhar. Ainda tinha dezoito anos, mas era seu primeiro dia no jardim de infncia. Estava com a mochila nas costas e a lancheira do Super-Homem. O nibus escolar alaranjado parou e, com um suspiro, abriu a mandbula. Peter subiu os degraus e olhou para o fundo do nibus, mas dessa vez era o nico aluno dentro. Andou pelo corredor at o final, perto da sada de emergncia.

Colocou a lancheira ao seu lado e olhou pela janela de trs. O dia estava to iluminado que ele pensou que o sol devia estar atrs deles na rua. -- Quase l -- disse uma voz, e Peter se virou para olhar para o motorista. Mas, assim como no tinha nenhum passageiro, tambm no tinha ningum ao volante. Eis o mais incrvel: no sonho, Peter no estava com medo. De alguma forma, ele sabia que estava indo exatamente para onde queria ir.

6 de marco de 2008
um trio de vidro com dois andares nos fundos da escola. Uma placa nos tijolos ao lado da porta da frente dizia: UM PORTO SEGURO. Mais tarde haveria uma cerimnia em homenagem aos que haviam morrido ali um ano antes, mas, como Patrick estava envolvido em novos protocolos de segurana para a escola, conseguiu levar Alex para dar uma olhada antes. L dentro, no havia armrios, s nichos abertos, para que nada ficasse escondido. Os alunos estavam em aula; s alguns professores andavam pelo saguo. Eles usavam crach de identificao no pescoo, assim como os alunos. Alex no tinha entendido o motivo, pois a ameaa vinha sempre de dentro, no de fora, mas Patrick disse que aquilo fazia as pessoas se sentirem seguras, e isso era metade da batalha. O celular de Alex tocou, e Patrick suspirou. -- Pensei que voc tivesse avisado... -- Eu avisei -- disse Alex, atendendo a ligao. O secretrio da defensoria pblica do condado de Grafton comeou a recitar uma ladainha de reclamaes. -- Para -- disse ela, interrompendo-o. -- No estou trabalhando hoje, lembra?

T

alvez voc no reconhecesse a Sterling High. Havia o teto verde de metal novo, a grama fresca crescendo na frente e

Ela tinha renunciado ao cargo de juza. Josie tinha sido acusada de cmplice de homicdio privilegiado e aceitou um acordo de homicdio culposo, com sentena de cinco anos. Depois disso, todas as vezes que havia um adolescente no tribunal de Alex acusado de algum crime, ela no conseguia ser imparcial. Como juza, avaliar as provas tinha precedncia; mas, como me, no eram os fatos que importavam, apenas os sentimentos. Voltar para suas razes de defensora pblica pareceu no s natural, mas tambm confortvel. Ela entendia o que os clientes estavam sentindo. Visitava-os quando ia visitar a filha na penitenciria feminina. Os rus gostavam dela porque no era condescendente e porque dizia a verdade sobre as chances deles: o que voc via de Alex Cormier era o que obtinha. Patrick a levou para o local que j tinha abrigado a escadaria dos fundos da Sterling High. Agora havia l um enorme trio de vidro, que ocupava o espao onde antes eram o ginsio e o vestirio. Do lado de fora, dava para ver as quadras de esportes, onde, em uma aula de educao fsica naquele momento, os alunos jogavam futebol, aproveitando a primavera antecipada, j que a neve tinha derretido. Do lado de dentro, havia mesas de madeira com bancos nos quais os alunos podiam se reunir, lanchar ou ler. Havia alguns alunos l agora, estudando para uma prova de geometria. Os sussurros deles subiam como fumaa at o teto: complementar... suplementar...interseo... extremidade. De um lado do trio, em frente  parede de vidro, havia dez cadeiras. Ao contrrio do resto dos assentos no saguo, elas tinham encosto e estavam pintadas de branco. Era preciso olhar de perto para ver que tinham sido presas ao cho, em vez de arrastadas por alunos e deixadas l. No estavam enfileiradas; o espao entre elas nem era regular. No tinham nomes nem placas, mas todo mundo sabia por que estavam ali. Ela sentiu Patrick chegar por trs e abra-la.

-- Est quase na hora -- disse ele, e ela assentiu. Quando ela esticou a mo e comeou a arrastar um banco vazio para perto da parede de vidro, Patrick o tirou da mo dela. -- Pelo amor de Deus, Patrick -- ela murmurou. -- Estou grvida, no com uma doena terminal. Isso tambm tinha sido uma surpresa. O beb ia nascer no fim de maio. Alex tentava no pensar nele como substituio  filha, que ainda ficaria na priso por mais quatro anos; imaginava que talvez ele salvaria todos eles. Patrick se sentou ao lado dela em um banco quando Alex olhou no relgio: 10h02. Ela respirou fundo. -- No parece mais a mesma coisa. -- Eu sei -- disse Patrick. -- Voc acha que  uma coisa boa? Ele pensou por um momento. -- Acho que  uma coisa necessria. Ela reparou que o bordo, o que ficava do lado de fora da janela do vestirio do segundo andar, no tinha sido derrubado durante a construo do trio. De onde ela estava, no dava para ver o buraco feito para retirar a bala. A rvore era enorme, com o tronco grosso e retorcido e os galhos tortos. Devia estar ali bem antes de a escola existir, talvez antes mesmo da fundao da cidade.

10h09. Alex sentiu a mo de Patrick em seu colo enquanto assistia ao jogo de futebol. Os times pareciam desequilibrados, com os alunos que j tinham chegado  puberdade jogando contra os que ainda eram magricelas e pequenos. Alex viu um atacante acertar um jogador da defesa do outro time, e o garoto menor ficar cado enquanto a bola batia com fora na rede. Tudo aquilo, pensou Alex, e nada mudou . Olhou para o relgio de novo: 10h13. Os ltimos minutos,  claro, eram os mais difceis. Alex se viu de p, com as mos pressionadas contra o vidro. Sentiu o beb chutar dentro da barriga, reagindo ao sentimento sombrio de seu corao. 10h16. 10h17. O atacante voltou para o local onde o jogador de defesa tinha cado e esticou a mo para ajudar o menino menor a se levantar. Eles andaram at o centro do campo, conversando sobre alguma coisa que Alex no conseguia ouvir. Eram 10h19. Ela olhou para o bordo de novo. A seiva ainda escorria. Algumas semanas depois, haveria um tom avermelhado nos galhos. Depois, botes. O nascimento das primeiras folhas. Alex pegou a mo de Patrick. Eles saram do trio em silncio, percorreram corredores, passaram por fileiras de nichos. Cruzaram o saguo e a porta da frente, refazendo os passos anteriores.

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